Um domingo liberal para você, ó excelência!

Passou mais um domingo. Saiu o número dois de Domingo Liberal, um novo semanário onde, aparentemente, escreve o João Miranda do Blasfémias, entre outros. Em contenção orçamental para dominar o meu próprio défice, não pude comprar um exemplar, embora queira saudar o aparecimento de mais um jornal e logo um em que as opções ideológicas vêm bem claras no título, o que é saudável. Desejo-lhe uma longa vida, certamente mais longa do que a d'O Liberal, de Pedro Santana Lopes, que durou tão pouco, tão pouco, que foi apenas um pouco mais do que o actual governo, também de Pedro Santana Lopes. Aproveito para lembrar que o jornal político mais longevo é A Batalha, anarquista e fundado em 1919, vai agora fazer 86 anos. Na 1ª República era diário, hoje em dia é trimestral – e ria-se quem conseguir levar o seu jornal aos 86 anos. Como apenas vi o exemplar de Domingo Liberal em banca, posso só comentar a arte gráfica e o título. Do grafismo digo que é pouco consentâneo com um jornal liberal, que deveria ser discreto, elegante e levemente antiquado e não ter o cabeçalho berrante e a tipografia desconexa que este apresenta – uma crítica que pretendo construtiva, porque o grafismo errado gera confusão entre os leitores. Depois há este título, Domingo Liberal, que é curioso porque remete para uma certa periodicidade das convicções, para uma ideologia hebdomadária que irrita os fanáticos da coerência com "c" pequeno [e logo os dogmáticos liberais de direita portugueses] mas a mim me agrada – porque sim. "Olha hoje vou ter um domingo liberal", diria eu para mim mesmo se andasse com dinheiro para comprar o jornal, "um domingo magnânimo mesmo" se ao jornal juntasse mais uma revista, um filmezinho e um sorvete. O domingo liberal teria certamente sido precedido por uma madrugada de sexta-feira libertária e por um sábado situacionista, e a ele teria forçosamente que se suceder uma segunda-feira trabalhista, uma terça-feira revisionista, uma quarta-feira reformista, mais a quinta-feira progressista e a sexta-feira reviralhista. Já agora: vocês não acham que o Domingo é o dia dos títulos esquisitos? O meu preferido é o do programa "Diga lá, Excelência!", que dá no 2º canal, em colaboração com o Público e a Rádio Renascença. Chamar "Diga lá, Excelência!" a um programa é uma ideia tão pateta que parece vir da falta de imaginação de um chefe de redacção em pré-reforma numa estação de rádio artrítica dos anos 50 – hipótese que se confirma, visto que o programa é da Radio Renascença. "Diga lá, Excelência!" é um título que merece meio post porque é das poucas oportunidades que eu tenho para usar a palavra bota-de-elástico. Eis uma palavra que, note-se, não quer só dizer "desactualizado". Bota-de-elástico é uma palavra desactualizada que quer dizer "desactualizado", o que em si mesmo é um prodígio de redundância cuja utilização está reservada a ocasiões raras, em racionamento perpétuo, por assim dizer. Agora o que eu nunca tinha reparado, para além do toque bota-de-elástico (só mais esta vez) de "Diga lá, Excelência!", era naquele ponto de exclamação ali no fim, que acrescenta uma pitada aberrante a toda a ideia do título. Se aquele "diga lá" é todo ele Portugal salazarista, a pedir de chapelinho na mão ao senhor doutor que por favor se digne a proferir umas palavrinhas para o estimado público, aquele ponto de exclamação é uma insolência que é incongruência. Eu explico. Para haver coerência aquele título tinha evidentemente de terminar com reticências. Diga lá excelência... se puder ser agora. Diga lá excelência... se não for incómodo para vossa excelência. Diga lá excelência... que eu sempre fui tão amigo do seu paizinho. Agora ponto de exclamação é que nunca. Vocês conseguem a imaginar alguém de voz sumida a pedir diga lá por obséquio... e a terminar sua excelência que é como quem diz vocês são é todos iguais excelências como tu papo-as eu ao pequeno almoço? Pois é isso que aquele ponto de exclamação ali no final quer dizer. E ali vão as pobres excelências ao engano, os patrões da indústria, os grandes economistas, os presidentes de agências estatais, bancos centrais e da própria república, e nem se dão conta de que aquele ponto de exclamação ali no final está a fazer pouco deles. Que é assim uma coisa como quem diz eu gosto muito de os chamar de doutor para aqui e doutor para acolá mas quero é que vão todos dar uma grande volta que eu tenho a minha vida para tratar. No fundo, aquele título, mas só e apenas se for acompanhado do ponto de exclamação final, é o melhor resumo do portugal actual que conheço. A casca ainda é a do respeitinho mas lá por dentro o pessoal marimba-se para tudo e todos. O que quer dizer que afinal não é bota-de-elástico, é pós-moderno. Porra, vou ter de reescrever isto tudo.

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Comment Posted by: João Vasco
Está excelente! E eu, que sempre tinha achado patético o nome desse programa, mas nunca tinha pensado muito sobre o assunto, ainda tive direito a umas boas gargalhadas :)

Comment Posted by: João
Excelente "posta"! É caso para nos questionarmos se Rui Tavares e Ricardo Araújo Pereira não serão pseudónimos de um mesmo autor.

Comment Posted by: JR Ewing
Realmente o domingo acaba sempre por levar por tabela. As ideias parvas ficam invariávelmente para o fim. Coisa toscas no fundo...

Comment Posted by: 100nada
Este deve ser o MELHOR texto do Barnabé até agora. Parabéns!

Comment Posted by: JPT
Excelente! (com ponto de exclamação e tudo) Já estava a sentir a falta de postas destas no Barnabé.

Comment Posted by: Jorge
És mesmo bom, pá! O texto é praticamente perfeito e "bota-de-elástico" é uma palavra magnífica. Mas não te estás a arriscar a fazerem o mesmo género de análises ao título do "Barnabé"?

Comment Posted by: Marco
Excelente post. "And that's all I have to say about that."

Comment Posted by: Miguel Pinto
GENIAL! Estou para aqui a rir-me sozinho. Genial!

Comment Posted by: mário
e quanto tempo durou o JÁ, dos camaradas miguel portas e daniel oliveira? ainda se recordam ou já esqueceram?

Comment Posted by: Lutz
Belissima Prosa!

Comment Posted by: Anónima
Bem, o post está giro, embora não cumpra a velha regra de só falar de um assunto. É que começa raposa e... acaba lobo... Sobre o nome do programa, parece-me que ele goza consigo próprio, ao ter lá o ponto final. É mesmo pós-moderno. Está a dizer que já não temos que ser subservientes às excelências, e que podemos orgulhar-nos de lhes pedir para nos ensinarem coisas...

Comment Posted by: Pedro MS
Abri a caixa de comentários e percebi que não sou o único. Um naco de grande estilo. Agora Rui, não tome estes elogios como incentivos ao consumo de cogumelos alucinogéneos... mas continue a escrever assim.

Comment Posted by: JASN
Brilhante, meu caro. É claro que se pode encarar a coisa doutra forma. Virão de longe e serão inesgotáveis as modalidades de boicote à ordem predicativa do regime. A idolatria salazarenta do Salazar, pour cause, nunca dispensou nem o esquemazito pouco católico e cabisbaixo, nem espreitar descaradamente por debaixo do tapete, sorrindo em cumplicidade, ao mesmo tempo que se lavra toda a indignação e se pedem mil desculpas por qualquer ousadia inadvertida. Abra-se pois à metonímia verdadeiramente obsoleta: diga lá, Muy Ilustre (com ou sem exclamação mas de preferência apenas M.I.), e obter-se-á então, sem reversão ou dúvida, o dito efeito pós-moderno.

Comment Posted by: bill
A desestima dos bons dá ousadia aos maus.

Comment Posted by: bill
A desestima dos bons dá ousadia aos maus.

Comment Posted by: Nelson Santos
Finalmente, um pedaço de escrita de esquerda verdadeiramente divertida. Obrigado Rui, o texto está realmente excelente, ainda te arriscas a ser o próximo convidado do "Diga lá excelência..."

Comment Posted by: JTF
Brilhante espiral mental! Que ritmo alucinante!

Comment Posted by: Boss
Parabéns, está excelente.

Comment Posted by: Atento
Parabéns pelo post. Simplesmente notável. Fartei-me de rir. PS (salvo seja!) - A propósito de riso, disseram-me que o título "Diga lá, excelência!" é do Sala. Sim, o tal das anedotas... Nada mais adequado.

Comment Posted by: maneldomoinho
Viva o lápis azul. Agora só aparecem comentários favoráveis. Os marretas não fariam melhor

Comment Posted by: NG
Zurugoa exulta com esta brilhante tirada! Genial!!! http://zurugoa.blogspot.com Salut

Comment Posted by: MBP
E porque se falou num jornal que tanto gosto, e porque hoje é o aniversário da Revolata da Marinha Grande, de 34, apetece-me dizer que "A Batalha" era um diário muito peculiar, pois não saía às segundas-feiras, mas o facto de ter tiragens próximas dos grandes diários da época, como "O Século", mostra a importância que o movimento anarco-sindical teve nos anos 20 em Portugal, mesmo depois da fundação do PCP. O jornal ainda resistiu como diário até Fevereiro de 1927, ou seja, quase nove meses depois do 28 de Maio, "A Batalha" ainda era impressa, mesmo depois das cargas militares que literalmente destruiam a redacção, chegou a ter um peso político maior que o próprio "Avante" Em 1975, A Batalha regressou em grande, como publicação quinzenal, mas agora é de facto trimestral.

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