Zhao Ziyang e interpretações nhurras da História

Um manifestante pró-democracia com uma imagem de Zhao Ziyang, Hong-Kong. Foto Reuters. Para todos os que passámos a noite acordados – na época a ouvir a rádio de hora a hora – nos dias em que se acumulava a tensão que precederia o massacre, a moderação de Zhao Ziyang constituía uma pequena esperança de que o pior não acontecesse. A sua morte recorda outra vez que o pior aconteceu mesmo – e duas vezes. Aconteceu quando morreram aquelas centenas ou milhares de estudantes e acontece hoje quando deixamos que aquela tragédia ainda tão recente seja normalizada pela ascensão económica da China e pela globalização gradual do seu mercado, os mesmos factores que levam Sampaio a dizer que é "compreensível" a situação dos direitos humanos na China. Vale a pena ler o que se vai publicando sobre a situação na China nestes dias para se compreender que não, o facto de haver por lá muitos supermercados, estaleiros de obras e empregos bem pagos não quer dizer que os chineses possam fazer algo tão simples como dizer o que pensam. Para nós que o fazemos a toda a hora aqui na blogosfera não deixa de ser perturbante esta notícia do Washington Post, onde nos é explicado como nos grupos de discussão os chineses vão publicando elogios a Zhao Ziyang no conhecimento de que, minutos ou horas depois, os seus textos serão diligentemente apagados pelos censores profissionais que varrem noite e dia a rede. Extraordinário é também ver a polémica que, a este propósito, se tem feito no Blasfémias entre CAA e os restantes blasfemos. Extraordinário não só por ver que a liberdade económica é supervalorizada pelos liberais de direita, ao contrário da mais fundamental liberdade política. Mas extraordinário principalmente pelo determinismo dos argumentos dos Blasfemos que discordam com o CAA. Desde que o marxismo morreu que estes liberais empresarialistas se comportam como se a história tivesse deixado de dar razão ao socialismo "científico" para dar razão às suas apologias "científicas" do capitalismo. Não, não; a história nunca deu foi razão a ninguém – é isto que entrou à força nas cabeças marxistas mas ainda não chegou às dos seus adversários. Como tal, o debate deu uma volta e é ver agora a direita a proclamar leis da história e João Miranda ou PMF a dizer que a China não é liberal, mas que "para lá caminha" e que a liberdade económica vai "inevitavelmente" democratizar a China. Chegámos à terra das "inevitabilidades" e das "inexorabilidades" históricas. Estão encontrados os herdeiros de Marx. Só me espanta que não conheçam exemplos de regimes que viveram durante décadas com todos os aparatos do capitalismo – propriedade privada, bolsas de valores, sociedades anónimas – sem que as liberdades tenham avançado um milímetro sequer e sem que as sociedades se tenham "inevitavelmente" democratizado. Espanta-me, apenas porque calha termos vivido durante 48 anos num desses regimes. Ah, bem sei, não era o mercado livre perfeito – não faz mal, também a URSS não era o socialismo perfeito. Sim, a ditadura chinesa há-de acabar um dia. Mas não será por causa da chamada "abertura económica", que pode até ajudar a prolongá-la (leia-se também este texto do International Herald Tribune onde aparece uma expressão dos ideólogos do PCC que é reveladora: a China prossegue uma via de "relaxamento externo e vigilância interna"). Será apenas porque todas elas acabam – mais tarde ou mais cedo – e cada uma por razões diferentes. Até lá, a solução não é enterrar os mortos de Tiananmen e os presos políticos sob uma pilha de óptimas oportunidades de negócio. ERRATA: Por engano o blasfemo PMF aparece aqui citado em vez do LR; foi este último que escreveu que a China "não é liberalismo, mas para lá caminha" e que "o livre comércio é a forma mais harmoniosa de promover a criação de riqueza e o desenvolvimento à escala global e este trará consigo, inevitavelmente, o embrião da liberdade política" [meu itálico]. O PMF escreveu também sobre o assunto, mas mais procurando delimitar e enquadrar a questão. A ambos as minhas desculpas.

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Comment Posted by: anonymouss
"Sim, a ditadura chinesa há-de acabar um dia. Mas não será por causa da chamada "abertura económica", que pode até ajudar a prolongá-la" , isto ta errado, e é voce k o diz, pois caso existise um bloqueio chines, semelhante ao cubano, esta seria a sua opnião: "Fidel Castro não é só um tipo que está há muito tempo no poder. É um ditador que se alimenta de um bloqueio criminoso para justificar o seu poder sem limites e a sua infinita incompetência económica", e "opondo-se a um bloqueio que nada tem a ver com a luta pela liberdade e que apenas eterniza Fidel Castro no poder, não deixam de ser claras na condenação da decadente ditadura cubana." não se cria riqueza sem se criar capital humano, e o capital humano precisa de espaço, liberdade, e vai procurala. E só assim será possivel uma transformação chinesa que comece por dentro.

Comment Posted by: Ana F.
A abertura do mercado aos produtos chineses só vai contribuir para um branqueamento a nível internacional do regime. É, de certo modo, um legitimar do "modo de produção" chinês - da violação dos direitos dos trabalhadores, na exploração do trabalho infantil. A liberalização das economias não traz ( nunca trouxe) justiça ou verdadeira democracia.Levado ao extremo, traz, pelo contrário, precisamente a inexistência de direitos para quem trabalha e o sacrifício da dignidade humana aos lucros. E traz, pelo menos agora, aceitação internacional. Sorte deles ( dos ditadores chineses) vão começar a fazer parte dos ditadores amigos. Felizmente, no meio deste neo-liberalismo tão triunfante e tão convencido de que o fim da história é aqui, vai ainda havendo vontades diferentes.

Comment Posted by: jose antónio
Já foram marxistas leninistas, já foram maoistas, agora são democratas. Bom, pelo menos, agora, podem divagar.

Comment Posted by: Solesticio
HOJE 23 HORAS SIC NOTICIAS. JERÓNIMO DE SOUSA -FRANCISCO LOUÇÃ. O ÚNICO DEBATE ENTRE PARTIDOS DE ESQUERDA http://www.merda-de.blogger.com.br/ Deixo-lhe uma sugestão, visite http://www.merda-de.blogger.com.br/, Vai ver que não se arrepende, ai o humor é o prato, misturado com assuntos mais serios,mas sem palas.

Comment Posted by: dsl
É quase comovente ver a fé que caracteriza quem acredita que os mercados livres são a panaceia global. No fundo, são apenas mais uns amanhãs que cantam. Grande série de textos, Rui. Parabéns.

Comment Posted by: CAA
Excelente texto. Põe a nu a fragilidade dos argumentos economicistas. Liberdade económica sem liberdade política é um nada que nada é. Cair no isolamento do free trade sem mais é uma falácia. CAA

Comment Posted by: PMF
Muito bom texto. Cita-me, mas julgo que não leu com muita atenção o que escrevi sobre o assunto, nos meus dois post's, no Blasfémias. Tenho dúvidas e - salvo incapacidade de expressão, da minha parte - foi isso que pretendi referir na discussão citada. Cumprimentos PMF

Comment Posted by: Isabel Coutinho
Estanta-vos ? Pois a mim não me estanta nada. Desde que Caim matou Abel por um prato de lentilhas e Judas vendeu o Mestre por 30 dinheiros - isto para só falar nos primórdios da Humanidade - tudo está à compra e à venda. Até os princípios. Pode parecer cínico, mas o facto é que é verdade.

Comment Posted by: PMF
Muito obrigado pela Adenda....e não precisa de pedir desculpas! PS - Continuo com dúvidas ...(para além das existenciais) Cumprimentos PMF

Comment Posted by: O de boa memória
O condottieri sim é um espaço de abertura de mente... Ora vejam: A União Europeia, está a ponderar a proibição de símblolos alusivos ao nacional-socialismo ou nazismo. A medida parece-nos apropriada, no entanto, não podemos de deixar de mostrar a nossa repulsa pela decisão hipócrita da União. Porquê hipócrita? É claro que a hipocrisia que aqui queremos realçar, advém do facto desta decisão ser parcial e historicamente manca. Concordamos com a proibição mas, levantamos a questão: e porque é que não se proibem os símbolos alusivos ao período comunistas, tais como, t-shirts de Lenine, Che e bandeiras com estes e outros ícones da bárbarie soviética, ou mesmo, maoísta? A resposta é simples: a ideia subsiste e é perigosa. O comunismo, mais propriamente, a versão soviética e chinesa são suavizadas e idolatradas, esquecendo-se o número de milhões de mortos que provocaram. O sistema do Gulag, a educação comunista chinesa e os pelotões de fuzilamento em Cuba sobre as ordens de Che, são uma realidade histórica. Hipocrisia é dizer pouco. "Quem não recorda o passado, está condenado a enfrentá-lo no futuro" tenno dito!

Comment Posted by: Ricardo Fernandes
Os Norte -Americanos , no estilo cabotino que tão bem sabem cultivar, empregam um ditado/adivinha com frequencia: porque é que os cães labem os seus proprios "tomates"? porque PODEM. Esses mesmos senhores encomendam artigos aos paises do sudueste asiatico para depois os comercializarem quinhentas vezes mais caros!Porque podem! Ao menos os chinocas fazem uma exploração mais de trazer por casa. Não se trata de cor politica ou de regimes mais ou menos democráticos nem é necessário o uso recorrente de eufemismos como sejam o da globalização, mas sim de ganancia pura e simples. Não elaborem que outros já tentaram antes e sempre em vão.

Comment Posted by: João Pedro
A China é precisamente o exemplo de como os resquícios do mais primário e bárbaro comunismo convive com o capitalismo mais selvagem.temos pois a suma liberdade económica calculada com a total ausência de liberdade política (e social, cultural, etc).Os resultados estão à vista. E atenção, que o desenfreado crescimento económico do ex-Império do Céu tem mais pés de barro do que parece.Já houve aliás um exemplo algo parecido: o chile, de Pinochet.

Comment Posted by: Ricardo Alves
A mim sempre me pareceu óbvio que o ultra-liberalismo é o novo estalinismo. Os piores estalinistas (João Carlos Espada, por exemplo) passaram do maoísmo ao ultra-liberalismo pró-chinês (ver o artigo de JCE no Expresso de sábado passado) sem nunca aderirem *sinceramente* à defesa dos direitos humanos ou das liberdades cívicas, e mantendo sempre a fé de que existe um sistema político-económico que conduz ao paraíso.

Comment Posted by: Opinioes
Sem quere defender o sistema politico chines, posso adiantar que e' preciso um certo cuidado quando se fazem analizes politicas de culturas e realidades que nao se conhecem bem. Um erro frequente no ocidente, e' partir de pressupostos que a realidade socio-cultural e' semelhante 'a do ocidente. Ja agora deixo aqui um link para um artigo sobre a vida de Zhao Zyiang: http://www.taipeitimes.com/News/edit/archives/2005/01/19/2003220081

Comment Posted by: Jellinek
A minha "costoleta" de direita raramente concordo com o Barnabé. Mas não cede a desvios neo-liberais de bolso. É outra direita, felizmente. Este texto subscrevo, alegremente.

Comment Posted by: Isabel Coutinho
Bravo, Ricardo Alves ! É por isso que eu não sei em quem votar ...

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