Luís Filipe Menezes: "Tenho capacidade para penetrar em sectores que tradicionalmente não votam PSD"
E se, desta vez, nada tivesse a ver com a Fé? Se o Papa, surgindo à janela quando ninguém o esperava (até foi capa do Diário de Notícias), não o fizesse para lançar algum sinal espiritual, mas apenas para dizer: "Malta! Estou vivo!"? Que o fizesse como qualquer um que tem medo da morte e tem orgulho em mostrar a todos que a encara de frente. Que, ao tomar ontem aquela atitude, deixasse a crença para trás e se dirigisse a todos, sem se preocupar com a coisa da religião, tão-só preocupado com a vida.
É um contra-senso, bem sei - não preciso que me recordem do absurdo obstáculo que João Paulo II representa na luta contra a pior das epidemias mundiais.
Mas tenho, de facto, certo gosto em fazer esta reflexão: e se, por um quarto-de-hora que fosse, o homem pensasse "Quero lá saber da Fé, que não tem nada a ver com o meu sistema imunológico. Vou é mostrar a estas pessoas que não vou abaixo assim sem mais nem menos"?
É plausível. Afinal, os descrentes também têm os seus momentos de dúvida.
Dá-se preferência a candidatos socialmente conservadores, economicamente liberais, com fortes convicções sobre a santidade da Irmã Lúcia e a competência da Celeste Cardona. Enviar currículo para o Largo do Caldas. Lamentamos, mas o nosso site
continua em construção.
Lisboa, 19 horas da noite, num táxi subindo do Marquês de Pombal para a Rua Joaquim António de Aguiar, com o trânsito do costume. Aliás, mais do que o costume, explica-me o taxista: "Isto nos dias de bola as pessoas saem mais cedo dos empregos para ver o jogo". Olho em volta: não vejo um único automóvel que transporte mais do que o condutor. Na rádio, o jornalista cita Giovanni Trapattoni: "Este nem é um jogo importante". Não há ambientalista que aguente tanto e eu percebo cada vez menos disto.
Ontem na cerimónia dos Óscares, Samuel L. Jackson subiu ao palco para entregar o prémio de melhor argumento original e produziu a melhor confissão da inferioridade norte-americana em relação a Portugal que alguma vez ouvi:
"Não sei o que é mais difícil – se escrever um argumento original ou adaptado – mas de uma coisa estou certo: nunca conseguiríamos fazer um filme sem argumento."
Não conseguiriam fazer um filme sem argumento, hein? Ah! – pobres coitados.
O texto de Maria de Fátima Bonifácio, hoje no Público, é, talvez, o mais duro retrato de Santana Lopes que li nos últimos tempos. Tanto mais arrasador quanto não é, certamente, ditado por um ódio «de esquerda». Mas ajuda também a refutar o argumento do historiador Rui Ramos em relação à suposta ingovernabilidade do sistema a partir do momento em que o presidente dissolveu um governo com uma maioria sustentada no parlamento. Santana não caiu porque estava a enfrentar interesses ou porque estava a exigir sacrifícios. Caiu porque se instalou um consenso alargadíssimo de que era incompetente, caso contrário nenhum presidente o demitiria (quem demitiria Cavaco, nos anos noventa, usando os mesmos poderes?). E, se assim é, o presidente limitou-se a justificar a razão porque é eleito directamente: para ser a válvula de escape do sistema. Do mesmo modo, é pouco lógica, porque se apoia numa análise a posteriori ,a ideia de que Sampaio só nomeou Santana para o fazer cair depois. Como poderia Sampaio cumprir a fase B de tão maquiavelico plano se Santana tivesse ganho a confiança dos portugueses?
Tendo o PS, indiscutivelmente, ganho o centro, mais do que nunca o centro, e obtido a primeira maioria absoluta da sua história, José Sócrates não tem qualquer desculpa para governar mal. Estão criadas condições únicas para levar a cabo a reforma social-democrata que o país precisa como de pão para a boca. O PS terá quatro anos para a realizar, concluindo com certeza algumas etapas ao longo desse período e lançando, para o futuro, outras. Assim o saiba fazer.
Quanto aos três anos de consulado PSD, do barroso PSD reformista de Durão, também não devemos olhar para eles como tempo meramente perdido. É que sempre houve uma reforma, pelo menos uma, que ficará na memória dos portugueses: a de Mira Amaral.
“Não estou metido nisto”, diz Santana Lopes a propósito da sua sucessão no PSD. Morais Sarmento pede para que não se repita a “precipitação” cometida em Julho, quando Santana Lopes foi eleito em Congresso extraordinário. O secretário-geral do partido, Miguel Relvas, reconhece, agora, ”que devia ter havido eleições antecipadas em Julho”. Alberto João Jardim diz que "este não é o meu PSD".

A morte de Peter Benenson corre o risco de passar quase despercebida entre nós. Um pequeno obituário aqui e ali e pouco mais. Televisões, nada. É pena que assim seja. O nome de Peter Benenson dirá pouco aos portugueses, mas Portugal desempenhou um papel determinante na extraordinária ideia de Benenson, um advogado britânico católico de ascendência judaica: o lançamento da Amnistia Internacional.
Há vários aspectos comoventes em toda a história que rodeou a criação da AI. Em Novembro de 1960, Benenson ficou estupefacto ao ler num jornal britânico que dois estudantes portugueses haviam sido presos em Lisboa por terem feito um brinde à liberdade, à mesa de um café. Foram depois condenados a sete anos de prisão por este gesto desafiador (segundo julgo, este episódio nunca foi devidamente investigado por nenhum jornalista português). Benenson decidiu então utilizar um expediente tipicamente britânico: uma carta de protesto às autoridades portuguesas. Estava encontrada a fórmula que iria popularizar a instituição que em poucos anos se tornaria a principal ONG na área dos Direitos Humanos: a Amnistia Internacional.
Em 1961, Benenson organizou a primeira grande campanha que estabeleceu o padrão de acção da AI: seleccionou um grupo de "prisioneiros de consciência" e tratou de mobilizar a opinião pública para acções de protesto que pudessem levar à sua libertação.
Entre os prisioneiros de consciência apresentados no célebre artigo publicado por Benensnon no Observer de 27 de Maio de 1961 encontrava-se o médico Agostinho Neto, fundador do MPLA, à época detido em Cabo Verde sem direito a julgamento. O mesmo Agostinho Neto que em 1975 se tornaria o presidente da República Popular de Angola, um dos regimes mais liberticidas da África pós-colonial. As voltas que a história dá...
PS: Um leitor do Barnabé chamou-me a atenção para o facto da SIC-Notícias se ter referido com algum destaque ao desaparecimento de Peter Benenson. Fico contente - mas a SIC-Notícias é um canal por cabo, só acessível a uma parte da população.
A reacção de alguns sectores da nossa direita aos resultados do dia 20 tem sido um espectáculo digno de ser ver.
Ao doloroso exame de consciência, preferem refugiar-se no conforto dos mitos.
O primeiro mito da direita mais choramingona baseia-se no seguinte: perdemos porque o Presidente da República viciou as regras do jogo. Sampaio comportou-se cinicamente em todo o processo que envolveu a sucessão de Durão Barroso pois quebrou o compromisso assumido no Verão passado, ou seja, o de garantir as condições de estabilidade necessárias à governação respeitando a maioria que sustentava o governo na Assembleia da República. A dissolução do parlamento por causa de um punhado de faits-divers inconsequentes veio interromper uma governação que se vira forçada a tomar algumas medidas difíceis e impopulares, mas que dispunha ainda de mais ano e meio para mostrar obra feita. Temos de convir que esta versão dos factos até parece plausível. Não o vou discutir aqui. Simplesmente, quem anda agora obcecado com ela esquece-se de uma coisa elementar: Santana e Portas poderiam perfeitamente ter forçado a convocação de eleições antecipadas, alegando que a demissão de Barroso impunha uma clarificação política. Não o fizeram por uma razão: medo. Medo de sofrerem uma nova penalização eleitoral, medo de perderem o poder e deixarem as suas clientelas insatisfeitas.
Este foi, porventura, o maior erro político de Santana e Portas. Se as eleições se tivessem realizado no início de Setembro, por exemplo, é provável que não evitassem a derrota. Mas contra o PS de Ferro essa derrota nunca seria tão estrondosa como aquela que se verificou no domingo passado. Teriam muito provavelmente impedido a maioria absoluta do PS e contido num patamar aceitável as suas perdas eleitorais.
O segundo mito foi invocado por Portas no seu amargo discurso de demissão e tem sido glosado por vários comentadores políticos. É, basicamente, o mito da “hegemonia cultural da esquerda”. A direita perdeu porque vive concentrada na luta do poder pelo poder, na gestão dos “interesses”, e descurou o combate ideológico mais vasto. Segundo esta versão, a direita é excessivamente acanhada na afirmação dos seus valores e permite que seja a esquerda a definir os termos do debate acerca do tipo de sociedade em que devemos viver. A direita vive na ilusão de que pode governar o país segundo os cânones fixados pela esquerda durante a fundação da nossa democracia – veja-se, por exemplo, a insistência com que algumas das pessoas da área do CDS defendem a urgência de uma revisão constitucional profunda. Guardarei para uma outra ocasião a discussão deste argumento. Por agora, limitar-me-ei a assinalar que a hegemonia da esquerda, da cultura política da esquerda, está longe de me parecer óbvia.
Sem dúvida que Santana e Portas perderam porque, entre outras coisas, tinham “má imprensa”. Mas significa isso que existe uma “hegemonia da esquerda” na nossa comunicação social? Por acaso algum dos grupos de comunicação social do nosso país é controlado por empresários de esquerda? Não é Balsemão o militante número 1 do PSD? Paes do Amaral (Media Capital/TVI) não foi o sócio de Nobre Guedes nos tempos áureos d’O Independente? A RTP não acaba de contratar Marcelo Rebelo de Sousa para seu principal comentador político? E os exemplos poderiam continuar.
Na verdade, a direita há muito que inverteu a seu favor os termos do debate político. Hoje o máximo que as pessoas esperam da esquerda social-democrata é a defesa dos serviços públicos, de algumas políticas de solidariedade social e, claro está, uma visão mais progressista de questões “civilizacionais” (aborto, direitos das minorias, etc.). É claro que os avanços do cavaquismo em Portugal foram muito tímidos em comparação com a “revolução conservadora” de Reagan e Thatcher, mas as pessoas parecem esquecer-se das razões históricas e culturais que facilitaram o triunfo desses projectos no Reino Unido e na América. Nesse sentido, a aplicação de uma terapia equivalente entre nós exigiria que alguém ousasse enfrentar aquilo que Vasco Pulido Valente identifica no seu artigo de ontem como os valores típicos de uma cultura camponesa pobre: a segurança e a rotina. Pessoalmente, não vejo ninguém na nossa direita que esteja à altura do desafio (certamente que não Paulo Portas, um devoto da Irmã Lúcia, figura emblemática dessa cultura camponesa pobre).
A questão da interrupção voluntária da gravidez voltou, como se diz hoje em dia, à agenda política, falando-se novamente na possibilidade de um referendo. Melhor seria se a descriminalização passasse directamente na Assembleia da República. Sou daquelas que acha que não é demais, que vale a pena voltar a discutir este assunto. Mas, espero que desta vez se consiga resolver esta questão. E para mim, e para tantos outros, é importante descriminalizar a prática, não condenar as mulheres que fazem a interrupção voluntária da gravidez, nem aqueles que as ajudam. Estes não são todos como a "Vera Drake" (um bom filme em exibição), uma mulher excepcional que nem cobrava dinheiro, mas, pelo contrário, deveriam ser todos profissionais de saúde competentes. Espero que nesta nova legislatura seja, finalmente, resolvida esta questão. O tempo é agora, porque já devia ter sido ontem.
A visita do George W. Bush à nossa Europa parece ser visto por muitos como uma oportunidade para relançar as relações transatlânticas após os desacatos sobre o Iraque. Mas estão a enganar-se redondamente aqueles, incluindo algumas vozes “importantes” neste nosso país, que gostam de acreditar que a comunhão de valores que une a Europa aos Estados Unidos é o suficiente para continuar a dar força à aliança. Porque a verdade é que cada vez menos o “mundo” gira em torno do Atlântico. Ele mudou-se para o Pacífico e daqui a uns anos passará pelo Índico também. Está na altura de olharmos com muita atenção para tudo o que se passa e irá passar-se, principalmente, na China, no Japão, nas Coreias, em Taiwan, Índia e Indonésia. Os americanos já o fazem há muito tempo e basta visitar a Califórnia para ver o que o Pacífico e o Índico prometem.
Depois de uma longa ausência, regresso, a partir de segunda-feira, ao Barnabé, no ritmo que me era habitual. Deixo aqui uma palavra de desculpas pela ausência e uma informação que poupará alguns comentários: deixei de ser, desde o dia 21 de Fevereiro, por pedido meu, assessor do Bloco de Esquerda. Como devem imaginar, olhando para os resultados eleitorais, soube-me muito bem o momento da despedida. Está assim esclarecida uma informação que dei há dois meses, quando aqui escrevi que esta ia ser a minha última tarefa como burocrata partidário. A partir de agora, sou um simples cidadão com militância partidária. Por isso, não vale a pena continuarem a tratar-me como guichet de reclamações. Então, até já.
Parece que a APAV vai ser vítima do desprezo pelas vítimas em Portugal. É o humanitarismo baratucho à portuguesa no seu pior.
Ficamos chocados quando descobrimos que a maior parte dos países europeus civilizados têm prevista nos seus códigos a pena de prisão perpétua, ou algo parecido, como a acumulação de penas para os crimes mais graves. Mas esse humanitarismo nacional face aos criminosos condenados sai barato: quanto mais depressa o Estado se livrar deles menos despesa dão. Claro que a reabilitação, sobretudo dos que foram levados a um qualquer extremo violento num momento excepcional e foram castigados por isso, é importante e deve ser valorizada. Mas do que se trata aqui é do humanitarismo menos evidente e igualmente caro e trabalhoso de criar estruturas de apoio para as vítimas de crimes violentos.
Ai continua a haver um enorme caminho a percorrer. Isto diz-nos respeito a todos. Não é só o Estado que está a falhar aqui. Quanto manchetes escandalizadas teríamos se se tratasse de uma história de sangue fresco? Quanto donativos se se tratasse de vítimas de um desastre algures no Mundo?
Aqui há uns anos foi Bush e o "eixo do mal". Agora um novo livro do Papa defende que o casamento gay é parte de uma "ideologia do mal".
Depois da demissão de Portas ninguém parece querer tomar nas mãos as rédeas do CDS/PP. Porque será?
Se o partido fosse meramente um projecto pessoal de Paulo Portas ainda se percebia. Mas não é. Então, todos sabemos bem que o CDS/PP é o partido charneira da vida política portuguesa. É um partido com um quadro ideológico coerente, constante, que não cede nem a ventos nem a marés. Reparem nisto, apenas à laia de exemplo: antigamente eram "eurocépticos", agora são "eurocalmos", mas isso são apenas detalhes. O que importa é a raiz da palavra - euro - essa é que importa. O resto é apenas a terminação. Tal como na lotaria, são trocos.
Mais, o CDS/PP é um partido cheio de quadros competentes, os mais competentes da política portuguesa segundo Portas, e como tal com muita gente para pegar nele. É certo que o facto de todos eles terem menos visibilidade nacional que Garcia Pereira ou o Major Tomé, por exemplo, não ajuda, mas ainda assim são extremamente competentes. Tome-se o caso de Nobre Guedes. Pediu um levantamento popular em Coimbra e teve-o - quando a Académica marcou o golo que lhe deu a vitória no campo do Gil Vicente no fim de semana passado, o povo de Coimbra regozijou, de pé, junto ao transístor de pilhas. É competência sim senhor.
Mas há mais, o CDS é partido para mudar de nome por dá cá aquela palha. Se Telmo Correia não gosta do nome CDS/PP, por lhe fazer lembrar Paulo Portas, então mude-o para CDS/TC (Trabalhadores Cristãos). Se avançar Pires de Lima, porque não CDS/PL (Partido Liberal)?
Não, de facto o CDS/PP não é um projecto unipessoal de Paulo Portas, mas este transformou-o bastante, tanto em substancia como na dimensão. Deixou de ser o partido do táxi para passar a ser o partido da limousine, mais à imagem do líder. O facto de agora ninguém querer conduzir explica-se simplesmente: tal como Lobo Xavier, são todos amigos do ex-motorista. E a amizade, como todos lemos ontem nas páginas do DN, é uma coisa muito bonita. Para além disso, a limousine gasta mais.
O grande derrotado destas eleições: Jorge Sampaio E o Sócrates? Esperamos ansiosos pela explicação cientifica da direita intelectual para o facto de que afinal Sócrates foi o grande derrotado no domingo.
«O grande derrotado nestas eleições foi o País. Virou à esquerda e entregou o poder a um sector dela que é manifestamente incapaz de governar de modo a responder às necessidades dos portugueses.» Vasco Graça Moura, DN.
O PS pode até chegar ao pleno emprego, eliminar o déficite e abolir a inflação. Comentadores destes acharão sempre que é tudo uma desgraça. Mais uma razão para o PS perceber que se governar para a imprensa será a sua primeira vítima.
Zezinha, minha querida, meu doce, ainda não tens 28 anos. Tens portanto toda uma vida política à tua frente. Se chegares a PM farás o melhor que sabes e a mais não és obrigada. És minha amiga não és? Isso basta. E um dia lá chegarás, eu sei-o. Porque tu, tal como eu e milhões de pensionistas deste país, enfim, nós, somos os rejeitados do sistema, mal tratados e vilipendiados por tudo e todos. Força Zezinha, farás da tua a nossa voz. E se o teu problema são massas, não te preocupes, a retoma está já aí.
Putin rejeita críticas sobre falta de democracia na Rússia
"A ideia de que os EUA se preparam para atacar o Irão é simplesmente ridícula"
George W. Bush, 22-02-2005

Michelangelo Merisi da Caravaggio, A Conversão de São Paulo na Estrada de Damasco, 1600-1601.
"Durão Barroso governou mal! Durão Barroso governou mal! É preciso dizer isto! Durão Barroso mentiu aos portugueses!". – Luís Delgado, hoje na SIC-notícias.
Entre os catecúmenos de Paulo Portas, e mesmo entre comentadores distraídos, há quem estranhe a demissão deste quando a "derrota do CDS/PP nem foi assim tão clamorosa".
Estão enganados e Paulo Portas está certo. A derrota só parece benigna ao lado de um PSD arrasado pelas pragas do Egipto. Mas é precisamente esse contexto que não pode deixar de ter feito cair a ficha no processador de Paulo Portas. Se o CDS consegue 7% com um PSD em estado comatoso – ao passo que os comunas e os trotskas têm 14% com um PS em grande –, quanto teria o CDS garantido se o PSD tivesse uma liderança ligeiramente menos jumenta? Cinco por cento? E se o PSD tivesse uma liderança já a melhorar assim para o medíocre? Três? A teoria era que a desgraça do PSD garantiria os mínimos olímpicos para o CDS (escrevi-o eu aqui antes da noite eleitoral, e era o que mais ou menos toda a gente achava). Nem um gajo de esquerda que já foi descrito, em livro, como um optimista patológico (é o meu caso) poderia nos seus sonhos mais loucos esperar aquele resultado do PP.
O que terá evitado que eleitores do PSD tivessem votado neste CDS/PP "de estado"? A irritação ao ver que Paulo Portas fazia de conta de que não tinha nada a ver com o governo? Uma vingança pelas suas diabruras durante o cavaquismo? A estética da maioria absoluta? O desencanto com a obra da direita? O aumento da literacia?
Não faço ideia, mas tenho curiosidade.
Esta baixa votação do CDS/PP neste contexto confirma um preconceito e demonstra uma impossibilidade. Em primeiro lugar, confirma que, afinal de contas, o BE era capaz de ter razão numa coisa em que nem eu nem a maior parte dos barnabés lhe quisemos dar razão (que é impossível ir para o governo com oito por cento e crescer). É um preconceito, não uma regra universal, mas a contra-prova que seria o crescimento do CDS não ocorreu.
Mais importante do que isso, Paulo Portas terá entendido que não chega "lá" pela liderança do CDS/PP. O "lá" é ser o messias da direita e da Pátria. Manter-se na liderança de um CDS/PP em eterno rame-rame é um sonho de gente pequenina, coisa que Paulo Portas se recusa a ser. Se ceder aos apelos dos orfãos, Paulo Portas estará a trair o seu ideal e não conseguirá ser feliz. O que fazer, então? Além da hipótese de abandonar a política – por ser uma pessoa que sabe fazer bem várias coisas, o exacto oposto de Santana Lopes que não sabe fazer bem nenhuma – Paulo Portas talvez tenha como saída ser o grande rival de Marcelo Rebelo de Sousa para os próximos anos. Qualquer TV gostaria de o ter como comentador e é uma hipótese que o tornaria mais simpático aos olhos do público. Pode ainda inspirar-se na travessia do conservadorismo americano e transfigurar-se numa espécie de Newt Gingrich, o tipo que não fala para toda a gente mas só para os mais duros entre os duros, tentando refundar o conservadorismo de que seria o Sumo Sacerdote. Ou talvez Barry Goldwater seja uma comparação mais correcta. Candidatar-se a Presidente é que seria complicado, uma vez que demasiada gente neste país não gosta dele. Mas poderia ser um investimento para o futuro.
Só espero é que ele não leia o Barnabé. Seja como for, o meu conselho é outro: descontraia, tente a mão nas artes como o amigo Miguel Esteves Cardoso, viva a vida, seja feliz. Crie um fotoblogue. A direita portuguesa é demasiado deprimente (e se a esquerda tiver juizinho ainda vai ser mais).
António Costa vai arbitrar o FC Porto-Benfica.
Ferreira Leite resiste a pressões cavaquistas.
A luta pela liderança do PSD já começou. Os projectos e as ideias são claras.
Luís Filipes Menezes: "É preciso alguma renovação, rostos novos à frente do partido".
Nuno Morais Sarmento: "O PSD precisa de caras novas".
Santana Lopes não vai recandidatar-se à liderança do PSD.
DN - Última Hora - Santana Lopes deveria fazer "uma reflexão profunda" .
O povo deu um sinal claro. O Padre Lereno foi talvez o maior derrotado destas eleições.
A festa do PS na noite de ontem foi pouco participada. Muitos dirão que se trata de mais um sinal que reforça a ideia de que a maioria absoluta conquistada por Sócrates foi, acima de tudo, o resultado de um voto de protesto estrondoso. Eu por mim prefiro ver a fraca afluência de “populares” ao Altis e ao Rato como um sinal de maturidade da parte do eleitorado, de rejeição do lado mais folclórico da política ao fim de 30 anos de eleições democráticas. Isso é bom.
Santana esteve igual a si próprio: meloso, egocêntrico, totalmente irresponsável. Mas o que ouvi na noite de ontem da boca de várias luminárias do PSD leva-me a pensar que o Rui Tavares tem de facto razão. Santana Lopes não é uma aberração no PSD, ele é um produto acabado da cultura política do PSD. Ontem, não ouvi um único dirigente falar da necessidade do partido reflectir um pouco acerca das razões que tinham levado a tão categórica rejeição do seu projecto governativo. Não, os dirigentes do PSD já só falavam nas próximas “batalhas eleitorais” e dos rostos que as protagonizarão. É claro que o estilo de liderança de Lopes explicará parte da débâcle do PSD, mas não a explica toda. Se o PSD julga que para regressar ao poder lhe bastará substituir os “pimbas” de Santana por um escol de tecnocratas que “patrioticamente” reduzirão os nossos modestos serviços públicos e sociais a escombros, então estão muito enganados.
Paulo Portas teve uma atitude digna, mas estragou-a com um discurso amargo e ressentido. Realmente, lamentar-se de que Portugal é o único país europeu onde os Democratas-Cristãos somam apenas mais um ponto percentual do que os “trotskistas”, é algo que brada aos céus. Como muito bem notou Mega-Ferreira na RTP, se isso é assim então a culpa só pode ser imputada a Paulo Portas, que em Portugal é quem representa a Democracia-cristã!
O Bloco de Esquerda está de parabéns. O seu crescimento é notável para um partido jovem e carente de quadros experientes. Se alguém ainda duvidava, o Bloco veio para ficar. A sua penetração nos meios sindicais já é hoje muito apreciável e os seus militantes possuem o mesmo sentido de missão e empenhamento que distingue os militantes comunistas. O Bloco é, por razões várias, o partido mais odiado pelos “fazedores de opinião”. Ontem, a maior parte deles fez gala em não comentar a subida do Bloco, ou então optaram por desvalorizá-la por completo face à obtenção da maioria absoluta pelo PS. Estão enganados. O tom ameaçador das declarações dos seus dirigentes indica claramente que o Bloco se prepara para, juntamente com o PCP (ou melhor, em competição com o PCP), fazer uma oposição forte ao PS “na rua” (ou, como se diz no jargão do BE, “nos movimentos sociais”).
Uma última nota. O Bloco tem de aprender a saber ganhar. As expressões de regozijo aberto pela humilhação eleitoral de Santana Lopes, ou pela derrota de Portas, não são coisas bonitas de se ver. Ou melhor, se é compreensível que com umas cervejas a mais os militantes e simpatizantes do Bloco dêem largas à sua alegria, já o mesmo não se poderá dizer acerca dos seus dirigentes, que deveriam adoptar uma atitude mais sóbria e responsável. Apesar do seu aspecto ritualístico, as manifestações de “fair play” são importantes para manter uma certa decência na vida política. Mas se calhar isto é mais um aspecto da “moralidade burguesa” que o Bloco faz gala em rejeitar.
Paulo Portas anunciou ontem a sua demissão como líder do CDS/PP. Na sua declaração enunciou os quatro objectivos estrondosamente falhados. A saber:
- contribuir para uma maioria centro direita;
- retirar a maioria absoluta ao PS;
- atingir dez por cento de votação;
- ser terceira força política no parlamento.
Foi pena ter-se esquecido de enunciar uma meta em que tinha posto particular empenho pessoal e que, julgava, seria relativamente fácil de atingir: subir o número de mandatos por Aveiro, isto é, chegar aos três deputados. Sendo cabeça de lista no distrito, de forte tradição democrata-cristã, seria expectável. Mas a realidade foi outra. Não só não subiu como ainda conseguiu perder um mandato, naquela que foi uma derrota pessoal enxovalhante, diga-se.
Assim, à noite, ao fim da noite, o homem que tinha apresentado uma equipa de governo cujos elementos, via-se na cara, se interrogavam “Mas o que é que eu estou aqui a fazer?”, o homem que sempre que falava de um assunto qualquer fazia questão de dizer qual era a cara do seu governo para esse assunto, esse homem, dizia, punha a última cara que teria desejado pôr, a da derrota. Uma viagem de 7 anos para vir acabar assim, ao fim da noite. Com cara de enterro. Será possível?
Juventude do Partido Popular já lançou um abaixo assinado para pedir a Paulo Portas que fique na presidência do partido.
[...]But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.
O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up--for you the flag is flung--for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths--for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father![...]
Walt Whitman, Oh Captain! My Captain!
Bandeira roubada ao Miguel Vale de Almeida.
Diferenças percentuais em relação a 2002 [número de votos]
143,62%.....BE
25,17%.....PS
14,13%.....CDU
-12,74%.....CDS/PP
-24,86%.....PSD

Ainda nem se conhecem os resultados oficiais das eleições e já começa a faltar a paciência para esta tanga da regeneração do PSD. Que é preciso renovar este partido e devolver à sua liderança os quadros sérios, capazes e competentes que ainda abundam no seu seio. Substituir a má pela boa moeda, como diria o agora proscrito Cavaco Silva. Que Pacheco Pereira, que foi quem lançou a tese, acredite nisso ainda vá. Que tanta gente vá atrás é que já começa a revelar alguma indigência mental.
O PSD que Santana representa é o PSD que existe. Ponto. Não é a Junta de Salvação Nacional, nem, muito menos, a reserva moral de que o país tanto necessita. É o partido que parte para um congresso extraordinário com potenciais candidatos à liderança como Luís Filipe Menezes, Morais Sarmento ou o próprio Santana. É o partido que tem Marco António como líder da maior distrital, Miguel Relvas como secretário-geral ou Isaltino –o-táxi-em-Genève-era-do-meu-sobrinho- Morais, como o primeiro dirigente a dar a cara pela derrota. Mesmo que existissem esses tais míticos quadros sérios e competentes para tomar o PSD em mãos, o que é duvidoso, seriam sempre derrotados em qualquer congresso partidário pelos milhares de autarcas ou de Jotas à espera de um emprego. Há muito que o partido é deles. Santana sabe-o, e é por isso que não se demite.
Por mim, passo bem sem o paternalismo arrogante de quem acredita que a “salvação” deste “triste país, o nosso” exige um PSD forte, sem o qual todos nós estaremos irremediavelmente condenados. Para quem anda esquecido, convém lembrar que a “má moeda” não se iniciou com Santana. Começou muito antes, com Durão Barroso. O mesmo PSD que escolheu Pacheco Pereira para encabeçar a lista ao parlamento Europeu e que lançou o país na maior crise social de que há memória. O mesmo PSD que, depois de ter exigido sacrifícios a todos os portugueses, viu o seu líder fugir para bem longe assim que lhe acenaram com um posto mais compensador em Bruxelas.
Parece-me normal que exista quem se preocupa com o futuro do PSD de Santana Lopes e que Pacheco Pereira e companhia façam parte desse número. Não nos venham é tomar por parvos e dizer que toda esta agitação tem alguma coisa a ver com o país. Ou não votou Pacheco Pereira em Santana Lopes?

Os tempos não estão para grandes euforias, mas não é todos os dias que a esquerda ganha de forma tão categórica. Gozemos pois este triunfo.
Impressão minha ou a declaração de derrota de Paulo Portas e a de Santana Lopes eram quase iguais (sobretudo na parte inicial)? As consequências tiradas, essas sim, foram bem diferentes...
Estou satisfeita, muito satisfeita, com as vitórias da esquerda e das esquerdas. O Bloco aumentou a sua votação (ficando com oito deputados), o PCP tem um bom resultado e o PS consegue a maioria absoluta. Em primeiro lugar, não vai haver razão para se falar em "roubo" de votos. Considero sinistra esta ideia de que se pode roubar votos, no entanto é frequentemente utilizada. Em segundo, o Bloco e o PCP, numa conjuntura de maioria absoluta do PS, podem ser uma oposição atenta e crítica. Mas não precisam de fazer compromissos que não sejam totalmente conformes às suas principais linhas políticas, não precisam de ter de "segurar" o PS, numa eventual investida do PSD e do CDS. Uma última nota, e eis o que me impediu de ficar eufórica: O que se pode esperar desta maioria? Qual vai ser a equipa de governo? Que medida é esta da colocação dos 1000 jovens?

"A esquerda não aprendeu nada", "aquilo que a esquerda não compreende...", "a esquerda não quer admitir que não existe outra política possível". Durante os últimos três anos ouvimos estas frases vezes infindas. Eram ditas por parte de uma maioria que tinha ganho por 1,34% e se comportava como se isso representasse um mandato para fazer o que muito bem lhe aprouvesse. E desde um código anti-laboral até apoiar uma guerra até impedir um referendo até pressionar a Comunicação Social, lá o foram fazendo. Sempre que eram criticados respondiam como se tivessem tirado a patente da realidade.
Hoje viu-se como a esquerda não tinha noção da realidade nem sabia o que o povo simples queria. Teve apenas 23,05% de votos a mais do que a direita – a maior diferença de sempre em legislativas. Mas a direitona ainda procura desculpas: Paulo Portas queixou-se hoje de ter de lutar contra o "domínio cultural" da esquerda, contra o "politicamente correcto" e o "culturalmente correcto". Esquece-se que durante a maior parte destes três anos foi a direita que determinou o que era o politicamente correcto. Os seus comentadores encheram as TVs e os jornais sem nenhuma proporção com o que haviam sido os resultados nas urnas. Apoiantes do governo pontificavam em tudo quanto era lugar. Só depois de Durão ter fugido aos sacrifícios que ele mesmo pediu é que as fracturas entre a opinião publicada e o ressentimento do povo contra este péssimo governo se tornaram visíveis. O santanismo foi só um estertor mas a coisa vinha de trás.
Entretanto, agora a esquerda teve aquilo que a direita não teve em 2002. Uma verdadeira vaga de fundo a pedir mudança e a conceder um mandato. Toda a esquerda cresceu e nenhum dos três partidos foi para casa descontente. Houve resultados históricos e subidas espectaculares. E em muitos aspectos (não todos) as pessoas sabem muito bem o que a esquerda quer. Para dar só um exemplo, estes 59% souberam no momento do voto que a Lei do Aborto é para mudar e votaram conscientemente nos partidos que o defendiam. A partir de agora, a esquerda não é o "politicamente correcto" – é simplesmente a maioria sociológica. O país escolheu não só o PS, mas ainda deu o sinal de que quer ser governado à esquerda. O mais claro que alguma vez foi dado.
Isto é importante, uma vez que os tempos que aí vêm precisam de uma coisa bem mais difícil do que uma maioria absoluta. O problema dos nossos bloqueios não está nem nunca esteve no parlamento. Está no cansaço, na descrença e na desconfiança da sociedade. Resolve-se não com pactos de regime mas com maiorias sociais. Agora existe uma e a esquerda será imatura se entrar já em guerra interna e a desperdiçar.

A maioria absoluta do PS é uma grande vitória. Tem uma expressão mais do que suficiente na Assembleia e não deve ser diminuida pelo facto de o partido e o seu secretário-geral pouco terem feito para a ganhar. Se fosse uma maioria por um deputado, poder-se-ia dizer que o PS tinha sido beneficiado pelo "nevoeiro eleitoral". Com esta votação e estes mandatos, é absolutamente claro que o eleitorado quis de facto que o PS governasse com maioria absoluta. Esmiuçando, vemos que quem falhou em retirar a maioria absoluta foi a direita, uma vez que os restantes partidos de esquerda até subiram as suas votações. A festa dos socialistas foi rija, e merecida. Ainda bem, porque a partir de amanhã vamos precisar do melhor PS que se conseguir arranjar.

Os comentadores encartados tiveram mais dificuldade em digerir a subida do BE do que qualquer outro dado dos resultados eleitorais. Pudera, durante esta campanha repetiram a noção de que o BE era um partido sem base social, irrealista e juvenil, que não poderia ser levado a sério. Mas em cada nova eleição o BE duplica a sua votação e elege deputados num novo distrito (desta vez, logo dois de uma vez em Setúbal). E se ainda paira por aí a ideia de que o BE é um fenomeno da Grande Lisboa note-se que este partido ficou a 200 votos de eleger um deputado por Aveiro (!), 400 de eleger outro por Braga e cerca de 700 de eleger um terceiro por Faro. O grupo parlamentar do BE poderia ter sido, com pouca diferença, de onze elementos, e aí eu gostaria de ver que novas teorias o conservatorado nacional teria de inventar. E esta subida é ainda mais significativa porque foi feita em contra-corrente. A simpatia dos media pelo BE acabou; os votos foram conseguidos apesar de inúmeros avisos contra a temível "extrema-esquerda radical" de trotsquistas e maoistas. Como é evidente, não há 6,38% de trotsquistas em Portugal. Vota muita gente normalíssima no BE, que é um partido cuja proposta mais radical é uma reforma fiscal bastante sensata. Acabaram os estereótipos e a ideia de que o Bloco não representa ninguém. A seguir ao PS são os grandes vencedores das eleições. Mas não vamos ver isto escrito com clareza em muito lado.

A subida do PCP foi apreciável sem ser a grande vitória de que alguns comentadores falaram. Tanto em termos absolutos como relativos, é a menor variação dos cinco partidos parlamentares. Do lado positivo trocou o lugar [de 4º para 3º] e o número de deputados [12 para 14] com o CDS/PP, numa inversão perfeita de posições. Mas ao contrário do BE, o PCP foi levado ao colo pela comunicação social. O seu líder foi muitíssimo bem tratado: a "humanidade" que era fatal a Santana Lopes foi milagrosa para o líder do PCP. Jerónimo apercebeu-se desse papel de coqueluche e encostou-se a ele nos últimos dias; "somos o que somos", dizia, como se quisesse fazer passar a mensagem "não é tão castiço, o PCP? não acham piada nós ainda existirmos?". A ironia da coisa é que no último congresso o PCP praticamente se refundou como partido revolucionário e marxista-leninista, bem mais ortodoxo e extremista do que o BE. Agora que Jerónimo viu como é bom ser bem tratado, que caminho escolherá? Nas próximas eleições o seu "efeito novidade" terá passado e virá ao de cima o facto de não ter nada para nos dizer. Muita pedra para partir no PCP.

O que dizer sobre esta divertida calamidade? O PSD está de pantanas, e eu serei o último a mostrar-me muito preocupado com isso. O seu líder Durão Barroso abandonou o partido à sua sorte para fazer o career move (o inglês justifica-se) da sua vida. O PSD elegeu Pedro Santana Lopes, que era número dois e fora tolerado e até acarinhado no partido durante anos. Na sua estética dos self-made men tão elogiada pelos seus intelectuais, o PSD colocou uma pandilha de figuras duvidosas e sem intelecto à volta de Santana. O pior é que querem ficar por lá, e até há alguns zombies que regressam, como Isaltino de Morais. Está tudo em aberto para o PSD, incluindo uma guerra civil e uma cisão. Os membros sérios do partido fariam melhor em largar o estaminé e fundar o seu partido reformista ao lado. Um "bloco de direita", com a mesma imaginação e pragmatismo do seu congénere à esquerda teria muito por onde crescer nos anos que aí vêm. Será que têm genica para isso?

O CDS/PP apanhou um banho de realidade nestas eleições. Andou uma campanha inteira a afirmar-se partido de governo para acabar por trocar de posição e deputados com o PCP [de 3º para 4º, de 14 para 12 mandatos] e ficar perigosamente a menos de 1% e 50.559 votos do detestado BE. A sua variação pode não parecer enorme [mas é considerável: c. -13%] mas é ainda mais extraordinária se vista no contexto de uma hecatombe do PSD. O CDS com a sua estratégia de demarcação do governo poderia ter drenado muitos votos do PSD, – o PP tinha o seu líder em boa forma e a campanha foi perfeita. Simplesmente, afinal o povo sempre tem mais memória do que aquilo que se costuma dizer. O CDS foi também o grande culpado (com o PSD) pela maioria absoluta do PS. E agora que perdeu o líder, onde é que vão arranjar outro igualmente inteligente e talentoso? Podem tirar o cavalinho da chuva – o caminho agora é a descer. Com o abandono de Portas, se for real, a esquerda terá dado um tiro num porta-aviões da direita. Para a "extrema-esquerda comunista e radical" o beicinho trémulo do Portas foi a cereja em cima do bolo e deixou os mais preocupados com a maioria absoluta perfeitamente bem-dispostos.
Morais Sarmento, na TVI: O Presidente da República, ao dissolver a Assembleia um ano antes de acabar o mandato do Governo, impediu a maioria de inverter as políticas de austeridade que efectuou durante os três primeiro anos da legislatura.
Paulo Portas perde na Raiva.
Resultados na Freguesia de Raiva, concelho de Castelo de Paiva, distrito de Aveiro:
PS 715 57,11%
PPD/PSD 301 24,04%
B.E. 95 7,59%
PCP-PEV 48 3,83%
CDS-PP 38 3,04%
Santana Lopes suspende a campanha eleitoral.

Ontem, o Chelsea de José Mourinho perdeu e foi eliminado da Taça de Inglaterra. O treinador reagiu dizendo que a Taça era "uma competição menor".
Há mesmo uma "cabala" montada pelas empresas de sondagens. Nenhuma dava menos de 30% ao PSD.
Santana Lopes com cara de quem tinha caído da incubadora.
Paulo Portas com cara de que a irmã Lúcia tinha morrido pela segunda vez na mesma semana.
O Presidente da República saiu com a legitimidade da sua decisão e a utilidade dos seus actuais poderes confirmada. A importância do poder moderador como mecanismo de resposta do sistema político que permite introduzir a necessária flexibilidade sai reforçada desta eleição.
O PS venceu, ganhou uma legitimidade clara, ganhou uma maioria absoluta na Assembleia da República, e ganhou face à abstenção e ao voto branco. Em termos de marketing político a campanha esteve longe de ser brilhante, o que mostra que na idade da imagem, a imagem não é tudo. Mas os tempos que aí vêm não serão simples, convinha apostar na substância mas melhorar também na forma.
O Bloco e o PCP conseguiram também vitórias claras, ganharam mais mandatos e mais votos. Se perdem a possibilidade de condicionar directamente a agenda do governo, ganham espaço de manobra para manter uma postura oposicionista potencialmente popular.
O PSD sofreu a maior derrota da sua história. É uma derrota sobretudo de Santana Lopes. Mas é uma derrota da lógica do poder a todo o custo que presidiu à sua subida ao poder. É em parte derrota de uma política orçamentalista sem saídas de Durão Barroso. É sobretudo, na sua expressão, uma rejeição da política errática de Santana Lopes e da sua campanha de ataques pessoais vergonhosos e de um estilo típico do melhor populismo latino-americano. Portugal escolheu um partido, mas rejeitou também um estilo de fazer política.
Por falar nisso. O outro grande derrotado dentro do PSD foi Alberto João Jardim. Na sua única incursão na política continental, o caudillo da única república das bananas da Europa ajudou a enterrar Santana. Mas logo veio avisar que a derrota não podia ter consequências para o seu «programa» e as suas relações com o Continente. Suponho que esteja a falar da sua exploração colonial do Continente, paga com insultos ao «colonialismo» de Lisboa. É bom sinal. Claramente e pela primeira vez Jardim está com medo de que os meios que sustentam o seu caciquismo terceiro-mundista sequem.
Aparentemente a personalidade estruturalmente irresponsável de Santana Lopes impediu-o de assumir a derrota. A prioridade é punir os barões criando ou ameaçando com uma candidatura sua à liderança do PSD.
Finalmente, o PP perdeu a aposta de captar os votos dos descontentes do PSD. Foi também punido pela sua participação no governo. Embora menos do que o PSD. Paulo Portas foi fiel ao seu estilo de estadista e ao seu instinto político apurado e saiu pelo seu pé, quando ninguém o empurrava. O seu peso no PP vai manter-se intacto.
Não espero milagres da política. Não me iludo para não desiludir. Se os homens fossem anjos ou capazes da perfeição não precisavam de governo. Pelo menos teremos estabilidade, e se as crises não são necessariamente más, as crises permanentes neste momento em Portugal são muito más. Espero, no entanto, resultados: que se façam algumas reformas essenciais, como o programa do PS e algumas das pessoas que o elaboraram prometem. Só isso seria muito bom. É que vitórias absolutas em política é coisa que não existe.

Sem um mínimo de vergonha ou coluna vertebral, a criatura não despega.

António Vitorino ao Público, em 31 de Janeiro último:
"Não se pense que a maioria absoluta faz milagres."
Pedro Santana Lopes perde na Freguesia de Amor (Leiria).
PS 33,26%
PPD/PSD 32,60%
CDS-PP 14,49%
B.E. 8,01%
PCP-PEV 3,70%
PND 1,29%
PCTP/MRPP 0,75%
POUS 0,62%
PH 0,58%
PNR 0,37%
Paulo Portas, o ambicioso líder do CDS/PP, o "partido revolucionário da estabilidade do século XXI", foi afinal modesto a pedir. Queria dois dígitos, pediu dois dígitos, mas recebeu mais. Os portugueses, povo generoso, deram-lhe também uma vírgula para colocar entre os ditos.
"(...) afluência atinge 70 por cento"
Os repórteres começam a tornar-se um pouco insistentes em perguntar à esquerda se o resultado não foi para o BE e PCP uma derrota, uma vez que não conseguiram evitar a maioria absoluta do PS.
A pergunta é idiota. O BE e o PCP estão na coluna dos vitoriosos, depois do PS. Mas para evitar a maioria absoluta do PS teriam que ter mais de 10% dos votos, que nunca pediram.
Quem não conseguiu evitar a maioria absoluta do PS foram, evidentemente, os partidos da sangria: PSD e CDS. O primeiro não consegue sequer aproximar-se dos seus níveis históricos, o segundo fica longe dos seus objectivos.
Os coitados devem ter mais em que pensar, mas a pergunta deve ser-lhes dirigida a eles.

Culpão Barroso
Partido Socialista – 46,9 % a 50,7 %
PPD/Partido Social-Democrático – 23,3 % a 27,1 %
Coligação Democrática Unitária – 7,5 % a 9,3 %
CDS/Partido Popular – 6,1 % a 7,9 %
Bloco de Esquerda – 6,1 % a 7,9 %
Falou-se da «cobertura» das eleições portuguesas pelo Der Spiegel, ou pelo International Herald Tribune. Não se falou, parece-me, do Independent, que num artigo ameaçou o mundo com um Portugal dominado por partidos extremistas, que pela primeira vez desde a Revolução de 1976 podiam ter real peso no parlamento – evidentemente para fazer qualquer espécie de sentido isso só podia significar o PCP, o Bloco e o PP! Não vos vou maçar corrigindo os problemas óbvios desta «análise». Mas não deixa de ser irónica vinda de um país que se pode orgulhar dos bons resultados eleitorais recentes de partidos realmente extremistas, como o British National Party (racista grosso) e o United Kingdom Independence Party (racista fino).
Ou seja, a imprensa internacional de referência não é necessariamente grande referência para países ou zonas mais periféricas. A cobertura é geralmente esporádica, muitas vezes baseada em duas ou três notícias de agência. E a melhor forma do correspondente ocasional ou estagiário que as escreve conseguir algum destaque é prometer uma crise futura com direito a extremistas e democracia em risco! A ignorância nisso ajuda. Há excepções claro, jornais como o Financial Times ou o Economist, em que a informação errada custa dinheiro. Ou então organizações que têm uma enorme rede de correspondentes permanentes graças a grandes orçamentos públicos, como a BBC. E que portanto tendem a ser mais consistentes na sua cobertura e menos sensacionalistas. Mas esta experiência com uma realidade que conhecemos bem ajuda a deixar claro, para quem ainda tivesse dúvidas, que não é por serem escritos em inglês – ou até alemão – que os artigos dispensam sentido crítico ao lê-los. Nas imortais palavras de um grande trovador português, o que é preciso é não se deixar enganar...
Pacheco Pereira, nas primeiras intervenções que realizou na SIC-Notícias, logo pelas 19:00h, deixou antever uma derrocada do seu partido, ou pelo menos do partido em que votou (apesar de não querer, segundo palavras suas).
Ouvindo as suas declarações podemos pensar que o PSD foi vítima de alguma espécie de cabala, voodoo, magia negra ou coisa que o valha. Começou por dizer que este acto eleitoral foi único para os social-democratas, porque não foi no partido que os portugueses votaram mas sim numa figura. Que a batalha eleitoral se centrou nessa mesma figura e não num programa de ideias. Que se fez o culto da personalidade. Que enfrentaram condições muito específicas nesta campanha. Que... que... que... Poderia continuar caso quisesse mas os exemplos já são suficientes para perceber que, segundo Pacheco Pereira, algo de muito mau “aconteceu” ao partido. "Aconteceu-lhes", ou seja, não tiveram culpa de nada. A tal figura foi-lhes imposta, o rumo que deram à campanha foi-lhes imposto, o culto da personalidade que prestaram à tal figura foi-lhes imposto.
Acredite nisto quem quiser. A verdade é outra. O PSD verdadeiro, pelo menos o de hoje, é este, o de Miguel Relvas e de Marco António. Foi este partido que aclamou esmagadoramente Pedro Santana Lopes no último congresso. Não acredita em nada. Não sabe nada. Queria apenas uma coisa: poder. E o caminho mais curto para o obter foi negar-se a ir a eleições depois de Durão Barroso abandonar o país. Não é em vão que se desrespeita o acto fundamental de uma democracia. O resultado está à mostra. Que sirva de lição.
Põe nessa boca
Uma chupeta
Amanhã é dia
De Dona Xepa
Nota: agradecem-se as palavras a José Afonso
Aos socialistas, primeiro, e aos bloquistas e comunistas.
Afluência até às 16h00: 50,88%.
Afluência até ao meio-dia: 21,93%.

Os dedos já coçam na expectativa do boletim de voto? A noite foi mal dormida com dúvidas sobre os resultados?
Basta.
Para vos mastigar a papinha com uma certa antecedência, acrescentámos uns linques ali ao cimo da coluna da direita para irem acompanhando as eleições, as previsões e a contagem dos votos.
E a partir das oito da noite cá nos encontramos para finalmente expulsar esta ansiedade do organismo.
Helpless
Neil Young
There is a town in north ontario,
With dream comfort memory to spare,
And in my mind I still need a place to go,
All my changes were there.
Blue, blue windows behind the stars,
Yellow moon on the rise,
Big birds flying across the sky,
Throwing shadows on our eyes.
Leave us
Helpless, helpless, helpless
Baby can you hear me now?
The chains are locked and tied across the door,
Baby, sing with me somehow.
Blue, blue windows behind the stars,
Yellow moon on the rise,
Big birds flying across the sky,
Throwing shadows on our eyes.
Leave us
Helpless, helpless, helpless.

O disco que anda nas orelhas de toda a gente com mais de trinta anos – o homónimo e primeiro album dos Nouvelle Vague – lá acabou por vir cá ter (acho que foi um vírus que apanhei numa coisa chamada Soulseek). A receita é simples: os moços pegaram na nata da música da cena pós-punk e transformaram-na em serenas e lânguidas sessões de bossa nova. Há de tudo: dos Joy Division, aos Undertones, passando pelos XTC (a melhor versão do disco, com «The Forest» dos Cure e Too drunk to fuck dos dead Kennedy's). Se pensarmos na coisa como conceito parece uma mera tentativa de avacalhar a história recente da música popular anglo-saxónica (naquela altura confundia-se com a planetária). Mas também pode ser visto como uma sentida homenagem às bandas que produziram os periclitantes mitos da nossa adolescência. Não é a afronta que tem sido proclamada (Miguel Esteves Cardoso, no Blitz), mas apenas a solarenga celebração de uma memória adolescente, definitivamente filtrada pelas banhocas que aqui e ali despontam quando descobrimos que já não temos aqueles corpinhos tonificados e um pelo branco ou outro vai despontando como uma anunciação na cabeleira cada vez menos coesa. Vá lá, aceitemos: as canções são giras, a produção deixa-se ouvir, as vozes são agradáveis e, pior do que tudo, todos nós estamos mais bossa-nova do que urbano-depressivos. Ainda por cima, há a possibilidade de alguns oportunos revisionismos (o facto de alguém salvar os Sisters of Mercy das trevas da história é um acto de magnânima generosidade). Portanto, ouçam lá esta moçidade com um pouco de condescêndencia que senão eu vou ali ressuscitar um senhor chamado James Last que fazia estas coisas de uma maneira mais violenta e depois vocês nunca mais me perdoam.
Sem poder falar de política, as TVs passam filmes para criançolas e concursos antigos. Cansados de política, os eleitores precisam, de vez em quando, de dar umas boas gargalhadas. Aqui no Barnabé, optámos por esta entrevista de João César das Neves. Descomprimam!
Dia 20 é já amanhã e as grandes questões parecem ser se o PS merece, ou não, a maioria absoluta, e se ela é benéfica para o país. Darei a minha opinião sobre ambas.
Dos partidos grandes diz-se hoje que são feitos da mesma massa. Não concordo com isto mas nem me vou perder por aí (quero ser breve). Há incontestavelmente uma grande diferença, pelo menos em termos históricos. O PSD esteve dez anos consecutivos no poder, 8 dos quais com maioria absoluta. O PS, o centro-esquerda, nunca teve essa experiência. Não se podem pedir, portanto, as mesmas contas a um e a outro. A própria ideia que hoje fazemos de maioria absoluta é totalmente influenciada pelo mau uso que dela fizeram o PSD e o professor Cavaco Silva. Como tal parece-me precipitado julgar uma cultura socialista de poder com maioria absoluta.
Como teriam sido os governos Guterres com maioria absoluta? Não sei. Mas sei que com maioria relativa nos deram ministros vulgarmente considerados muito bons: Mariano Gago, Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso, Correia de Campos, Santos Silva ou, espante-se, Sócrates, entre outros. Gerir ministérios “pequenos” (Cultura, Ambiente ou Ciência, por exemplo) com maioria relativa não será propriamente fácil, mas dirigir os “grandes” ministérios (Saúde, Educação, Finanças ou Justiça) nessas circunstâncias é tarefa ciclópica, devido ao poderosíssimo aglomerado de interesses que afrontam (ainda assim foi notável o trabalho de Ferro Rodrigues na Segurança Social, que Durão-Santana-Bagão-Portas praticamente reduziram a cinzas). De maneira que a pergunta mantém-se: o que seria um governo PS com maioria absoluta? Não sei nem ninguém sabe, mas o passado não lhes retira o benefício da dúvida, na certeza porém de que nenhum governo estará isento de erros e, como tal, isento de crítica. Não nos iludamos.
Passemos aos partidos pequenos. O CDS aceitou ser poder e foi, o PCP predispõe-se a sê-lo, o BE não. Consideram os bloquistas que dar uma maioria absoluta a Sócrates é passar-lhe para a mão um cheque em branco. Mas há que ver que um governo de maioria relativa dependente dos humores do BE para acordos parlamentares é exactamente o mesmo: outro cheque em branco. Mas desta vez nas suas mãos.
Existem vários tipos de voto, todos legítimos. Há por exemplo quem vote para viabilizar um governo, para viabilizar políticas que resolvam problemas, de acordo com um corpo de ideias que os partidos preconizam nos seus programas e núcleos ideológicos. Mas há também quem vote pretendendo apenas fortalecer uma oposição que seja credível, esclarecida e consistente. Só que nas actuais circunstâncias, tendo em conta a forma como as cartas foram postas na mesa pelos partidos, é um luxo votar apenas para uma oposição competente. É preferível votar para um governo melhor.
Para concluir, é então perfeitamente natural que o PS peça, (ou exija, chamem-lhe o que quiserem, é apenas uma forma de pôr a tónica na ideia de que governarão melhor dessa maneira) a maioria absoluta. Em primeiro lugar, é para isso mesmo que se fazem campanhas eleitorais, e em segundo, Sócrates já afirmou que não virará a cara ao país nem amuará caso não a obtenha. Não há portanto aqui chantagem alguma. Há apenas política. E se é para varrer a direita do poder, é bom que seja no mínimo por 4 anos.
As últimas sondagens confirmaram aquilo que vínhamos suspeitando há várias semanas: no próximo Domingo, o que está em jogo é saber se o PS terá maioria relativa ou absoluta na Assembleia da República.
Não sou insensível à argumentação desenvolvida pelo Ivan Nunes, na melhor declaração de voto que pude ler nestes últimos dias. O PS, o PS de Sócrates, fica aquém daquilo que seria de esperar de um partido social-democrata da União Europeia em termos de quadros, ideias, propostas governativas.
Concedo isso, mas em abono de Sócrates direi o seguinte: a sua prestação nos governos de Guterres, em áreas como a defesa do consumidor e o ambiente, foi decente (como diriam os admiradores de Bush, “tem bons instintos”); o tempo de que dispôs para se preparar para o poder foi mínimo. É pois possível que Sócrates se revele melhor primeiro-ministro do que líder da oposição, como esperançosamente nota o Rui Tavares.
Mas discutamos a questão de fundo: as vantagens e desvantagens de uma maioria absoluta do PS. Sou capaz de subscrever vários dos receios do Rui em relação a governos maioritários: arrogância, autismo, prepotência… Em 1995, regozijei-me com a vitória do PS e na altura nem me passou pela cabeça suspirar por uma maioria absoluta. As farpas de Mário Soares contra a “ditadura da maioria” sempre me pareceram acertadas. O sentimento de cansaço em relação a 10 anos de governos Cavaco era notório. Com a democracia consolidada, as finanças em ordem, paz social e crescimento económico, o país parecia pronto para virar uma página, abraçar outro modelo de desenvolvimento. E para isso, a maioria absoluta não era imprescindível. O PSD estava tão prostrado que toda a gente sabia que o governo minoritário do PS iria cumprir a legislatura até ao fim.
Hoje vivemos um momento completamente diferente. Precisamos de um governo de 4 anos como de pão para a boca. Não por causa dos “sacrifícios” que os comentadores encartados andam a pedir, mas para permitir que o único partido de esquerda com vocação de governo o possa fazer num quadro de estabilidade. Não para trair o seu eleitorado com medidas de austeridade draconianas, mas para recrutar os melhores da sua área e dar-lhes um horizonte temporal mínimo para que possam desenvolver algumas das ideias-chave do programa de governo. Espero que o façam em diálogo com os parceiros sociais, que ouçam as críticas com humildade mas que na hora das decisões não fiquem paralisados, como tantas vezes sucedeu com Guterres.
Ao contrário do que alguns têm vindo a sugerir, o pior do PS tenderá a vir ao de cima num cenário de maioria relativa. Um governo minoritário será um governo onde os apparatchiks terão um peso e uma influência maiores. E todos nós sabemos que a tentação de um entendimento com o PP será grande. É duvidoso que o Bloco (sobretudo o Bloco) ou o PC queiram assumir o apoio a um governo onde pontificaram os Coelhos, Lellos e Pinas Mouras, não é?
Maiorias absolutas não são uma aberração nas democracias parlamentares. Na União Europeia, elas são a norma em países como o Reino Unido (por causa do sistema eleitoral) e muito comuns em Espanha e nos países escandinavos. Há problemas com a democracia nesses países? Claro que há – a abstenção no Reino Unido é elevadíssima, por exemplo. Mas quando o eleitorado sente que chegou a hora de mudar, a mobilização costuma ser grande. E, francamente, quem nos dera a nós ter a qualidade da vida democrática desses países!
Portanto, só numa perspectiva muito paroquial é que podemos temer a maioria absoluta (não por acaso, o grande inquérito encomendado pelo Parlamento norueguês ao estado da democracia revelava que uma das causas do desencanto de muitos cidadãos noruegueses em relação ao seu sistema democrático radicava, precisamente, na ausência de governos monopartidários de 4 anos). Por muito que isso ainda nos possa custar a admitir, os governos de Cavaco provaram que a nossa democracia é suficientemente madura para suportar a experiência de governos maioritários de um só partido.
A poucos minutos de acabar a mais longa campanha eleitoral de que há memória, restam apenas duas questões por esclarecer. Saber quem será a terceira força política; saber se a esquerda conseguirá retirar a maioria absoluta ao Partido Socialista. Pela campanha que Sócrates fez, espero bem que a resposta a esta última questão seja positiva.
Estando o país a atravessar a pior crise social dos últimos 20 anos, o Partido Socialista tinha muito boas razões para defender o voto – ou a maioria que tanto persegue - invocando a ruptura com a governação de direita e prometendo retomar algumas das politicas que levou a cabo no passado. O Rendimento Mínimo Garantido ou a politica de investigação e divulgação científica, por exemplo.Não foi esse o caminho seguido. Durante toda a campanha, a estratégia socialista foi apenas direccionada para captar o voto que pretende “tudo menos Santana”. Para o conseguir, o PS optou por dois caminhos muitas vezes coincidentes. Em primeiro lugar a omissão, do qual o exemplo mais flagrante que presenciei foi um debate na SIC Notícias em que José Seguro deve ter falado menos tempo do que qualquer personagem cinematográfica de Sylvester Stallone. No segundo caso, a recusa em assumir compromissos de ruptura com a desastrada governação PSD e PP.
Para além da questão dos 150 mil empregos (que qualquer partido subscreve), ou do inglês no primeiro ciclo (para o qual até já existiam projectos a aguardar agendamento legislativo), será que alguém é capaz de se lembrar de uma proposta que marque a diferença entre o PS e o que a direita fez nos últimos três anos? A sensação que fica é que, de cada vez que Sócrates percebia que estava dizer “qualquer coisa de esquerda, qualquer coisa de cívico”, logo recuava e voltava ao “yada yada yada” do costume. Foi assim no debate na RTP na questão das isenções fiscais, ou na forma como suavizou, em directo, o que estava no seu programa eleitoral sobre o aumento da idade de reforma.
O PS podia ter feito uma campanha assegurando que iria revogar o Código de Trabalho -como assegurou Ferro Rodrigues -, combater a gigantesca fraude fiscal que arruína o país, pôr fim às ruinosas “parcerias” entre o Estado e os privados na gestão da Saúde, ou alterar a Lei de Financiamento das Autarquias que é a principal causa da destruição urbanística do nosso pais. Não o fez. Optou por não se comprometer com nada para, no dia 21 de Fevereiro, ter o campo livre para fazer o que entender. É por isso que pede a maioria absoluta. Porque sabe que o seu programa não corresponde à expectativa de mudança de milhões de portugueses. E é por isso que a grande questão ainda em aberto é saber se, à sua esquerda, se consegue retirar a maioria absoluta ao partido socialista. Para que o pais mude, espero bem que sim.
Quem leu esta minha posta pode ter achado que era a minha declaração de voto. Quando muito, seria a minha desclaração de voto. É verdade que eu tenho uma desconfiança quase visceral em relação a maiorias absolutas e memória que baste para chegar àqueles oito anos de cavaquismo absoluto. Mas isso não basta para definir o meu voto. Então para quem tiver paciência aqui vai a minha intimidade política toda escorropichadinha. Para quem não tiver paciência vou deixando uns detalhes escabrosos aqui e acolá.
Em primeiro lugar, deixem-me dizer de onde venho. Desde que tenho direito de voto optei pelo PS em todas as eleições legislativas menos 1999, eleição em que decidi contribuir para deixar o BE ter o seu direito à vida. Em 2002 não tinha dinheiro para voltar a Portugal, mas teria votado Ferro. Em presidenciais votei em Sampaio I e até participei, pela única vez na minha vida, numa campanha eleitoral. Não me façam lembrar disso. No segundo mandato de Sampaio e estando a estudar no estrangeiro, até tinha direito a votar quatro dias antes das eleições, mas atrasei-me e deixei fechar a embaixada. Um esquecimento que agradeço. Em europeias oscilo: Política XXI (quando se candidatou este chavalo), BE agora nesta última e das outras vezes nem me lembro mas suponho que PS. Em autárquicas já votei PS+PC – as únicas vezes em que votei, indirectamente, no PCP – e já me aconteceu distribuir votos bem diferentes entre junta de freguesia, assembleia e câmara municipal.
Sabeis agora a terrível verdade: simpatia pelo PS e antipatia pela maioria absoluta. Contradição? Sim, se não existisse BE. Estando eu entre o PS e o BE, uma maioria relativa significa que a política portuguesa futura vai ter de se encontrar algures a três quartos do caminho entre eles, ou seja – passe o egocentrismo – mais ou menos onde eu estou.
Falemos então do PS, imaginando um governo deste partido. Nele prevejo (desejo?) gente que respeito, como Correia de Campos, Mariano Gago, António Costa e o geógrafo João Ferrão, que tenho razões para crer que seja uma excelente surpresa. Mas antevejo e receio também José Lello, Jorge Coelho, José Lamego e Pina Moura. Agora aqui é que está a manha: em geral, os meus bons ministros farão tão bem o seu trabalho com maioria relativa como com a absoluta (com excepção talvez de Correia de Campos, se a este sair a reforma da administração). E os meus mauzões farão muito menos maldades com a maioria relativa do que com a absoluta.
Quanto a José Sócrates, já aqui falei dele várias vezes. A grande questão é: merecerá ele a maioria absoluta que não demos nunca, nas legislativas, a Mário Soares ou António Guterres? Cada um que dê a sua resposta.
E agora falemos do BE, o outro depositário irregular do meu voto. Quando votei neles em 1999, desiludiram-me quase imediatamente na primeira votação na Assembleia, quando se deixaram enredar em equívocos sobre a apreciação da queda do muro de Berlim. Depois disso raramente me desiludiram e cumpriram bem com os dois papéis que eu mentalmente lhes tinha destinado.
O primeiro estão a cumpri-lo razoavelmente mas com queixas: modernizar as relações entre os componentes da esquerda portuguesa, que se tinham fossilizado no pós-25 de Abril num ódio latente entre PS e PCP.
O segundo estão a cumpri-lo brilhantemente: fazer oposição ao conservadorismo português e à direitona. Se o meu voto fosse apenas premiar o trabalho realizado na última legislatura, o BE ganharia destacadamente. Com apenas três deputados, foram muitas vezes a única oposição ao governo. Na noite escura do barroso-santano-portismo, foram os únicos que se aguentaram à bronca. O PS com Ferro Rodrigues nunca conseguiu mesmo fazer nada de jeito e o PS com Sócrates não precisou de fazer nada mesmo, com jeito ou sem ele.
Muita coisa me afasta do BE. Eles são anti-capitalistas, eu sou agnóstico. Eles vão votar contra a Constituição Europeia, eu estou inclinado a votar a favor. Eu sou anti-marxista e provavelmente estaria em minoria no BE. Eles demarcam-se do poder e eu, um pouco como o Celso, quero que eles vão a jogo. Mas outras me aproximam: porque na prática o BE é um partido social-democrata, moralmente liberal, europeísta de esquerda e pragmático quanto baste. E se é verdade que um anti-marxista poderia estar em minoria no BE, no PCP ele seria expulso (tanto quanto sei, o BE enquanto tal não é marxista).
Já sei! Já sei! O BE não é nada disso! O BE é o diabo em figura de gente! Parece moderado mas afinal é revolucionário! Deixem-me dizer-vos uma coisa a respeito desta conversa, glosada nos últimos dias por 90% dos nossos comentadores, de José Manuel Fernandes a Pulido Valente, com as excepções de Miguel Esteves Cardoso e Eduardo Prado Coelho (que são simpáticos) e Miguel Sousa Tavares (que é omisso a este respeito). Não tenho paciência para essa conversa, que só revela, da parte da nossa imprensa opinante, conservadorismo, preguiça e teimosia.
Estarei eu sendo injusto? Estaria, se visse alguma sinceridade na sua atitude anti-revolucionária, que em si pode ser respeitável. Mas na verdade vejo-os a todos derramar simpatia sobre o PCP, que fez questão de se declarar como partido revolucionário no último congresso e gritar vários vivas ao marxismo-leninismo. Foi só há meia-dúzia de meses. Porque é que isso não assusta gente tão impressionável? É simples. Aos mais conservadores o que interessa mesmo é que a esquerda portuguesa esteja como sempre foi: bloqueada nas suas irredutibilidades. Isso é o seguro de vida do conservadorismo nacional, e isso é precisamente o contrário do que eu quero. [Já agora: também há conservadorismo no BE, principalmente em que gostaria de se deitar sobre os louros conquistados como partido de protesto. Mas eu espero que o BE cresça, apareça, e ultrapasse esta tendência – para PCP já nos basta um.]
Aproximamo-nos do fim. Será então por pirraça que vou votar no BE, só para contrariar os conservadores? Não vejo eu que para "fazer as reformas necessárias" é preciso que sejamos governados por uma maioria absoluta? E não me deixa apavorado a mera possibilidade de que Santana Lopes continue como Primeiro-ministro?
Não. Quanto às reformas, respondi numa posta ali abaixo. Acabámos de passar por três anos de maioria absoluta e nenhuma reforma ocorreu. E quanto à segunda pergunta, decido-me com as sondagens. Santana já não me assusta, Paulo Portas é que sim. E se o primeiro já foi despachado, agora quero contribuir para despachar o segundo. Já sabemos quem ganha o campeonato; eu gostaria que fosse o CDS/PP a descer de divisão, tentando fazê-lo ficar atrás do BE nos resultados.
Não, o meu voto não é angelical. Ele é táctico também, e às vezes em boa proporção. Mas não gostaria de fechar esta posta e entrar em dia de reflexão neste tom. Então aqui vai uma digressão final.
Uma das coisas que me agradou na campanha de Francisco Louçã foi ouvi-lo dizer que a reforma fiscal ou outras "levavam tempo". Ora acontece que eu acho que o país não vai lá com choques, e essa frase entrou no meu ouvido. A ideia de choque faz parte do nosso ciclo emocional: mortificamo-nos pela nossa ignorância ou falta de produtividade e daí vem a retórica do choque. Com o choque queremos pular vinte anos em quatro. Quando o choque falha – porque era irrealista como os choques sempre são – voltamos à mortificação. Afinal em vez de pular vinte regredimos cinco. E então começamos a falar em sacrifícios.
Para mim, e em termos estratégicos faz mais sentido que Portugal cumpra com a modernização que já iniciou, que desbloqueie os seus maiores obstáculos e que se vá tornando um país mais justo e mais livre agora a pouco e pouco em vez de acreditar em paraísos depois do sacrifícios.
Mas esses são problemas para toda a sociedade resolver – e não só a política.
Na política esse realismo e essa modernidade passará por não atalhar por maiorias absolutas à procura de milagres, mas por fazer a política no parlamento sem pactos de regime, mas com maiorias para cada decisão. O PS terá condições para isso, podendo ganhar votações com o apoio ou abstenção de qualquer grupo parlamentar. É isto que responsabiliza todos os políticos que nos representam em simultâneo. E é isto que, provavelmente, reflectirá melhor a nossa diversidade política. Dizem todos que isto vai ser uma selvajaria, que assim não se trabalha. Eu na minha enorme ingenuidade acho que se trabalha melhor assim e que este é o caminho – mas também aqui se leva tempo.
Chega. Não quero que isto seja entendido como um apelo ao voto. Já disse que fiz campanha uma vez na vida e me arrependi. De resto, a única coisa que tenho a certeza que acontecerá destas eleições é que a esquerda terá quase 60%. Espero que nenhum comentador nem político se esqueça de retirar as devidas ilacções.
Nesse caso, para quê esta amostragem de roupa interior ideológica? E porque não? Para que se tem, afinal, um blogue, se não para partilhar estas coisas? Acho simplesmente mais justo que vocês, já que têm paciência para me ler aqui no Barnabé, saibam de onde venho e o que vou fazer no domingo.
O branco é tudo e não é nada.
O PS fez uma campanha defensiva, o PSD fez uma campanha ofensiva.
O Bloco continuou a fazer campanha bem.
O PP continuou a fazer campanha bem.
O PCP, o PCP... viva o marxismo-leninismo!
Os outros (PND, PCTP, POUS etc.), como de costume, queixaram-se sobretudo, e com razão, da falta de atenção. Os portugueses não gostam dos partidos grandes. Mas gostam ainda menos dos partidos pequenos. Talvez porque já estão mais habituados a dizer mal dos outros.
É oficial, o Der Spiegel traz a grande revelação do último dia da campanha: Sócrates não tem tarimba de primeiro-ministro! Como é que ninguém se lembrou disso antes! Ora tarimba demora tempo a adquirir, eu diria quatro anos pelo menos...
Sugestão para futuro cabal esclarecimento eleitoral dos portugueses: os líderes partidários devem ser obrigados por lei a uma sessão domiciliária de esclarecimento detalhado do respectivo programa em todas as casinhas do território continental e ilhas (nós imigrantes temos de ir on-line ver o programa). Tempo médio da campanha 10 milhões de dias. Isso é que era uma campanha a sério!
PS 1 – A primeira página do Independente faz-me lembrar a situação no Médio Oriente nestes últimos anos, quando se pensa que bateu no fundo, consegue ser ainda pior...
PS 2 – Uma razão para o PS ter maioria absoluta: sem ela o governo cai dentro de um ano e nem vai haver tempo para o referendo para rever a lei do aborto.
Pedro Santana Lopes encerra a sua campanha eleitoral na Figueira da Foz
Na Figueira da Foz, Pedro Santana Lopes apela ao sentimento.

Vá lá Rui, admite, tu já sabias, não já?
Uma das últimas sondagens (TSF/DN/Marktest?) revela que, a par do CDS, o Bloco é, proporcionalmente, o partido que mais votos recolhe entre as classes altas.
Eu já sabia que o Bloco estava acima das minhas posses morais. Agora tenho a confirmação de que também está acima das minhas posses económicas.
– Privatização da gestão da saúde.
– Preparação do aumento da idade da reforma.
– Adiamento da reforma fiscal.
– Seis cabeças de lista contra a despenalização do aborto.
– Não-revogação do código de Trabalho.
– Rendimento Mínimo e da Lei dos Contratos de Trabalho, ambos do tempo de Guterres, na gaveta.
– Caminho aberto para as clientelas partidárias do PS.
Já agora mais algumas razões: Jaime Gama, José Lello, Jorge Coelho, Pina Moura e um primeiro-ministro que não se compromete com nada e que não tem opinião sobre coisa alguma. Quando o primeiro-ministro não sabe o que quer, é fácil imaginar quem vai saber por ele, a não ser que tenha de negociar à esquerda.
Vale a pena lembrar que há dezoito que nenhum governo cai por causa da falta de maioria absoluta. Guterres e Durão partiram por vontade própria. Maioria absoluta não é nenhuma garantia de estabilidade e muito menos de competência. Qual foi o menos pior governo de Cavaco? O primeiro, sem maioria. Qual foi o melhor governo de Guterres? O primeiro, sem maioria e sem queijo limiano. Só mais um aliciante para votar à esquerda do PS.
Pôr o PP em quinto lugar e acabar com a carreira política de Paulo Portas.
De resto, para mim a campanha eleitoral acabou. Um abraço e votem bem.
Um leitor queixa-se de ter de esperar pela aprovação do seu comentário. Devo lembrar que o Barnabé não adoptou de boa vontade este sistema de comentários. Foi obrigado a adoptá-lo quando começou, logo depois da decisão de Sampaio, a famosa campanha de boatos contra Sócrates. Foi por não querermos ser usados como plataforma pelos boateiros, e por vermos que todas as outras soluções falhavam, que nos virámos para este sistema, que tem funcionado razoavelmente sem nos convertermos em funcionários permanentes do Barnabé (porque temos bocas para alimentar em casa e vocês não imaginam o trabalho que dava apagar comentários um a um).
Mas quero lembrar a este e a todos os leitores que basta registarem-se no TypeKey ao fazerem o vosso comentário para ele ser publicado imediatamente e sem supervisão. É mais cómodo e rápido para todos.
Já agora: para vossa informação, 98% ou 99% dos comentários são aprovados.
Aqui há uns dias o PS desceu a Morais Soares, não muito longe de minha casa, oferecendo rosas ao pessoal numa acção de campanha. Jorge Coelho, o mais activo de todos, gritava "e tem que ser absoluta! tem que ser absoluta!"
Eu de Jorge Coelho espero isto. Jorge Coelho já disse várias vezes, quando perguntado sobre quais considerava ele serem os grandes erros do guterrismo, que o grande erro tinha sido não se exigir a maioria absoluta em 1999. Não se conseguiu lembrar de mais nenhum. Qual totonegócio, quais demissões na praça pública, quais recuos na taxa da alcoolemia. A absolutazinha, a absolutazona é que foi a perdição. Se o engenheiro Guterres tivesse sido mais pedinchão na campanha de 1999, tudo teria sido perfeito. O PS teria governado imaculadamente.
Antes de passar ao nosso momentozinho, faço um ponto prévio: desde logo, sinto-me desconfortável com exigências de maioria absoluta (por parte de quem quer que seja) porque toda a gente que pense um bocadinho sobre o assunto verá que estas exigências são pouco democráticas. Desde logo: a mim não me podem exigir uma maioria absoluta, nem a ti, nem a ela, nem a ele. Podem pedir-nos os votos de cada um. E pode dar-se o caso de eles todos juntos darem uma maioria absoluta. Mas por definição a maioria absoluta consegue-se; não se pede nem muito menos se exige. Tudo o mais é chantagem sobre o eleitorado.
Ora se se tratasse apenas de Jorge Coelho, eu não me preocuparia. Mas já me sinto um bocadinho mais vigarizado quando o Causa Nossa ou o País Relativo fazem o mesmo – é que tenho-os na conta de pessoas inteligentes e gostava que eles não me tivessem a mim na conta de tanso. Dou alguns exemplos dispersos. Pede-se que se dê maioria absoluta ao PS para não dar uma derradeira consolação a Santana Lopes. Fazem-se equações que soam um bocadinho a "duas-patas-mau-quatro-patas-bom", maioria absoluta-bom maioria relativa-mau. Ana Gomes tem o cuidado de escrever sempre uma MAIORIA ABSOLUTA do PS em MAIÚSCULAS e negrito, não vá à gente escapar-nos a subtileza da ideia. No País Relativo cita-se a situação alemã (com um governo de coligação com os Verdes) para se fazer o título auto-evidente "É por isso que a maioria deve ser absoluta". Vital Moreira explica-nos que um governo de maioria absoluta não governará à vista, nãp será presa fácil de todos os clientelismos, nem comprará todas as contestações à mesa do orçamento.
Ou seja: dá-se um pontapé numa pedra – maioria absoluta! – entala-se o dedo na porta – com maioria absoluta isto não tinha acontecido... – o despertador não tocou – é indispensável a maioria absoluta – o país tem oitocentos anos – mas sem quatro anos de MAIORIA ABSOLUTA vai tudo pelo cano.
Cartas na mesa. Sócrates não me entusiasma, mas tenho uma fezada de que ele será melhor primeiro-ministro do que líder de oposição. Tenho vontade de o ver no cargo, mais do que apenas vontade de expulsar Santana. Aliás, tal como escrevi aqui várias vezes, acho uma cobardia considerar que ele não passe de uma versão rosa de Santana – uma cobardia, aliás, que os factos da campanha desmentiram de forma eloquente.
Agora tenham paciência. Os defeitos de um governo PS serão amplificados – não diminuidos – pela maioria absoluta. Alguém acredita que uma maioria absoluta será mais eficaz a conter os clientelismos em pleno ano de eleições locais e com um monte de autarcas (que estiveram na primeira linha do apoio a Sócrates) a implorarem meios para a sua reeleição ao interlocutor privilegiado da classe que é Jorge Coelho? Vai ser mais fácil dizer-lhes que não? Bizarro. E alguém acredita que um governo em cujo núcleo duro estará certamente José Lello, que ainda há poucos meses mandava calar com maus modos a Helena Roseta e Ana Gomes, consiga conter o seu autoritarismo latente? Se quem se metia com o PS relativo levava, como será com o PS absoluto?
Reparem. Eu sei (eu defendo) que um governo PS será muito mais do que estas figuras. Vejo caras antigas e saudosas, como Mariano Gago, ou novas e interessantes, como João Ferrão, a perfilarem-se para o governo. É com uma ansiedade positiva que espero a obra deles. Mas diga-se de passagem que não acredito que eles trabalhem pior em maioria relativa (como aliás, já o foi no caso de Mariano Gago). Quando o ministro é bom, leva as pessoas atrás da sua visão.
Mas temos de ser minimamente sérios. Dizer-se que uma maioria absoluta se vai vigiar a si própria é tão ingénuo como achar que um rico não precisa de ser corrupto. Numa maioria absoluta, começa-se por achar que se vai ser ultra-disciplinado e respeitador, e acaba-se a vociferar contra o Tribunal de Contas e o Constitucional e o Presidente. Eu estou ideologicamente proximo do PS e longe de Cavaco, mas sei reconhecer que o que aconteceu a Cavaco nas suas maiorias absolutas é da natureza humana, e a natureza humana é das coisas a que o PS é (felizmente) pouco imune.
Finalmente, a maioria absoluta é só o nosso último Dom Sebastião. Não vai fazer "as reformas adiadas" nem resolver os problemas do país. Como não os vão resolver o choque de gestão ou tecnológico, o fiscal ou o dos valores, a paixão pela educação ou a batalha da qualidade. Como não os vai resolver nada em que nós coloquemos todas as nossas esperanças este ano para depois vermos que fracassou passado uns anos. E não vai funcionar como não funcionam as dietas-milagre ou as resoluções de Ano Novo: estamos a ansiar por que Portugal dê agora um enorme pulo em poucos anos, mercê de atitudes enérgicas, quando se calhar aquilo de que precisamos para já é de consolidar o pulo que demos nos últimos anos e que vemos agora esboroar-se a olhos vistos.
E o pior de tudo: isso vai dar ressaca. Quem forçar hoje a exigência da maioria absoluta poderá ter de vir a responder perante a frustração que inevitavelmente se gerará quando a maioria absoluta não resolver os nossos problemas. Portanto, a bem do país, não nos substituam o discurso da tanga por esta tanga de discurso.
Vejo José Manuel Fernandes, como muitos outros comentadores conservadores nos últimos dias, fazer o elogio do PCP. Que o PCP tem verdadeiras bases sociais, que o PCP está mais simpático, que Jerónimo é um verdadeiro operário. O PCP é até mais confiável para uma aliança com. De repente, o exemplo da Coreia do Norte deixou de ter tanta importância. Como é natural, cada um tem direito à sua opinião, mas tenho a minha desconfiançazinha, uma desconfiançazitazinha, de que o PCP se tornou assim tão interessante por causa da subida do BE. Não é uma desconfiança completamente sem base Principalmente porque antes de fazer o elogio do PCP, José Manuel Fernandes lembrou o passado dos ex-maoístas e ex-trotskistas que, apesar das aparências, viajaram de uma ortodoxia para outra. José Manuel Fernandes estava a falar do BE. Mas não parecia.
Já houve aqui quem se queixasse que não conseguia votar no estrangeiro. Eu estou nessa situação. É ridículo, em Inglaterra recebe-se um papelinho em casa antes das eleições, toda a gente preenche e envia-se (porte livre), e depois é só aparecer com uma forma de identificação no posto de voto mais próximo! Mas, enfim, vou aproveitar os voos baratos, ainda que nem sempre fiáveis, para voltar e votar. A este ponto chega o meu empenho no salvamento da pátria! De a salvar de Santana Lopes e de a salvar de mais uns anos cruciais desperdiçados.
Não volto e voto pelo nível do debate, que pouco acompanhei, e aparentemente tem sido relativamente fraco. O desespero de Santana Lopes, aliás, levou-o a tentar empurrar a política portuguesa para níveis latino-americanos ou texanos o que não ajudou.
Aparentemente os comentadores queriam detalhes nos debates! E para quê? Para depois dizerem, mas o número que o senhor está a citar está errado por duas décimas! Ora houve um esforço importante para apresentar programas que têm a ver com os problemas reais do país. E se cada vez que o PS for governo fizer uma coisa tipo Loja do Cidadão... Afinal a política é a forma de gestão mais complicada que há. Sobretudo em Portugal, onde tanta gente exige tudo, critica tudo, mas não parece disposto a pagar ou fazer (não é mandar fazer!) nada. O governo, ou o desgoverno, começa em casa. Votar em branco? Vejam lá o esforço que isso é!