Depois do debate

Apesar de tudo, há coisas em que inesperadamente sou católico. Consideremos, por exemplo, o modelo do debate de ontem. Aquele modelo é protestante: rígido, com regras implacáveis, em que cada um é julgado pelo que diz nos seus dois minutos como se estivesse só face a face com deus (que é, naturalmente, a audiência televisiva). E é um péssimo modelo para as tradições de conversação de um país como Portugal. A conversa é relacional e nós retiramos muito disso: não queremos só saber o que cada candidato acha dos temas, queremos vê-los reagir um ao outro, ter de pensar rápido, intercalar uma palavra, colocar uma objecção, contorná-la. Aprende-se muito sobre a inteligência de uma pessoa assim, através de um debate católico, isto é, flexível, volúvel, com um desenvolvimento narrativo mais discreto. A nossa atenção está habituada a seguir a coisa assim, com a sua musicalidade própria e a sua sequência natural. Aquela compartimentação era sôfrega e submetia o espectador a uma espécie de efeito estroboscópico. Os abusos no nosso tipo de debate – onde por vezes ninguém consegue ouvir o que se está a dizer – e o sucesso dos debates americanos fizeram-nos pensar que esta talvez fosse uma boa solução. Mas não foi. Os candidatos não perceberam, por exemplo, que aqueles dois minutos, por serem curtos, exigem um discurso mais pausado e não mais rápido, o que implica ter de sintetizar, generalizar e só dar os dados que são essenciais de uma forma interessante e não debitar informação como o Vasco Santana no exame de medicina d'A Canção de Lisboa. Pensámos talvez que assim desse para falar de mais coisas, mas não deu: houve temas como educação ou justiça que simplesmente não foram comentados. Ainda temos de achar um bom meio-termo para os debates. Talvez como o Serra-Lula de 2002, uma espécie de debate à americana flexibilizado? Santana Lopes. Num contexto de desespero, Santana Lopes continuou a querer capitalizar com insinuações a uma inventada homossexualidade de Sócrates, principalmente quando dizia que nunca tinha pensado em tal coisa. Por vezes chegou ao desplante de falar como se tolerasse e aceitasse as "inclinações" de Sócrates. Não há como suavizar a coisa: Santana é reles, baixo, canalha, vil. Completamente indigno de ser governante da Aldeia dos Macacos do Jardim Zoológico. Já toda a gente percebeu o que ele quer e agora chegámos ao ponto em que as suas baixezas não o beneficiarão. Sócrates merece uma taça só por não se ter passado da cabeça ali mesmo. Infelizmente, a carreira política de Santana não acabou ontem. Como decorou meia-dúzia de números e de factos, foi capaz de disfarçar a sua imagem de "primeiro-ministro das trapalhadas". Os seus fiéis até poderão dizer que ele se aguentou. Ainda temos de esperar duas semanas e pouco para saber se pendura as chuteiras. Em contraste, José Sócrates não precisava de um KO. Como está à larga nas sondagens, apenas precisava de não perder para manter a distância. Conseguiu. Agora só lhe falta o debate a cinco e ufff! acabaram-se as conversas sem ser para convertidos. De facto, muito triste para um candidato a primeiro-ministro. Evidentemente que Sócrates está a milhas de Santana em termos de seriedade e preparação. E é evidente que preserva ainda uma parte das políticas sociais de Guterres. Num país como Portugal, é essencial ter como primeiro-ministro alguém que não ache que a pobreza é uma coisa natural. No entanto, ainda não consegui deixar de achar Sócrates um tanto verde como político. Neste debate, Sócrates pareceu alguém que pode vir a ser um Primeiro-ministro aceitável, o que já não é nada mau – que as pessoas o vejam como Primeiro-ministro é meio caminho andado. É um bom estudante e um razoável executante da política falada. Mas não demonstrou golpe de asa, verdadeira cultura política ou fôlego intelectual como tinha Mário Soares ou António Guterres. E isso é essencial para quem quer uma maioria absoluta que nenhum destes líderes do PS teve. Mesmo as suas metas mais ambiciosas e interessantes, como o plano tecnológico, parecem afinal pouco quando explicadas por ele. Um plano tecnológico a sério, que diabo, não precisa só de mil jovens gestores nas empresas – precisa de uma renovação a sério nos quadros das universidades, precisa da criação de redes de investigação fora das universidades, precisa de mexer no acesso ao crédito para projectos em certas áreas. Se Sócrates tiver mais nesse plano, é bom que o comece a fazer passar cá para fora. E já que estou de foice numa seara vizinha, o inglês no ensino básico é bom; mas um programa de visão e futuro alargaria o acesso ao Espanhol e Alemão no nível preparatório e também permitiria a criação em algumas poucas (poucas, sublinho) escolas secundárias de disciplinas de Russo, Chinês, Francês, Árabe, Japonês... Sobreviver na globalização é muito mais do que saber o inglês – isso é só para desenrascar. Em suma, esqueçamos Santana, excepto para descarregarmos o stress. O interlocutor do eleitorado é agora José Sócrates. É altura de ele dar o melhor que tem, porque as maiorias absolutas não se conquistam – merecem-se, se for o caso.

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Comment Posted by: Paulo
"... santana e´reles, baixo, canalha, vil. Completamente indigno de ser governante da Aldeia dos Macacos do Jardim Zoológico..." Presumo que isto são factos, não?

Comment Posted by: GoncaloP
Não Paulo, isto não são factos, essa agora. Factos são por exemplo a manchete do Público, «Debate Morno Acaba por Favorecer Santana Lopes». My ass.

Comment Posted by: s-o-v-i-e-t
- Foi um debate?... Quem diria!!! - A "treto-conversa" foi tão "civilizada" que tive de mudar de canal para não adormecer. - Podem enfiar este tipo de "debates" no sítio que mais gostarem. - Tristeza!!!

Comment Posted by: s-o-v-i-e-t
- Ladies and gentlemans!!!... Eis o nosso Futuro, entregue a dois Exmos Srs, Tótós!!!!

Comment Posted by: Rabaxol
O editorial do PÚBLICO é brilhante! Como é que um debate inconsequente favorece quem está, à partida para o mesmo, em desvantagem?

Comment Posted by: Luís Lavoura
Não concordo com o Rui Tavares num ponto: eu gosto deste formato de debates. A incivilidade dos debates "católicos" mete-me profundo asco. A um debate como o de ontem pode-se assistir. Um debate "católico", com toda a gente a falar ao mesmo tempo, é uma coisa repugnante. Pior do que uma telenovela brasileira.

Comment Posted by: JR Ewing
De facto aquele modelo americano provou ser uma verdadeira porcaria. Santana estava a jogar em casa... ganhou, mas continua a ser um incompetente. Mas Sócrates precisa mostrar que merece realmente o voto de um eleitor. Não simplesmente o voto dos que só não querem votar em Santana.

Comment Posted by: raiva
"... santana e´reles, baixo, canalha, vil. Completamente indigno de ser governante da Aldeia dos Macacos do Jardim Zoológico..." Um comentário político sensível, inteligente, de apurado sentido literário.

Comment Posted by: rui tavares
obrigado pelos elogios, raiva, mas acho que você exagera. foi só um comentário objectivo às atitudes de pedro santana lopes.

Comment Posted by: A.Santos
A indignação de Sócrates com a questão dos boatos é surrealista. Pelo que se percebe dos boatos, estes têm que ver com coisas que o PS e Sócrates e Louçã querem legalizar, se possível com referendos e tudo!! Porquê então a indignação? Por se referirem a ele? Se são infundados, porque não põe uns processozinhos? Se não são, onde está o problema? Porquê a espressão «essas porcarias que o Dr. Santana Lopes anda a falar» utilizada por Jorge Coelho? Estarão bons da cabeça?

Comment Posted by: Artur
Claro que o Santana tinha de perder. Aqui a esquerda sempre ganha, sobretudo se for chique e radical. Esquerda caviar, que apoia o Bloc..., perdão o PS. Para um novo governo em POrtugal ver www.Bloqueados.blogspot.com

Comment Posted by: sergio
caro A santos eu posso dizer que A santos é maricas o problema é que eu não tenho nada a ver com isso não consegue entender uma coisa simples???

Comment Posted by: jose antónio
A síntese e o antónimo. O que está escrito é o antónimo. O que vou escrever é a síntese. Abandone-se o sistema americano e voltemos ao debate à portuguesa.

Comment Posted by: lsantos
Análise a quente: http://atrium.weblog.com.pt/arquivo/179376.html

Comment Posted by: Solesticio
Parabéns. Uma leitura "civilizada" coerente e lucida sobre o pseudo-debate.

Comment Posted by: António
o debate de ontem serviu para confirmar, uma vez mais, a ENORME falta de atributos q tornem o sócrates um primeiro-ministro acima de mediocre. apesar disso, continuo a ver milhoes de portugueses a fazerem dele aquilo q ele nao é. ABRAM OS OLHOS! votem mais à esquerda ou mais à direita, mas votos no sócrates são votos deitados à rua!!!

Comment Posted by: Tola Fresca
Parabens Rui. Mas o relato ia melhor do que o comntário final. Cuidado com o apito dourado, eles andam aí! Resultados viciados dão cana. Ah! Atenção aos brasileirismos. PS: Homosexualidade não é doença, é opção!

Comment Posted by: Bekx
"Santana é reles, baixo, canalha, vil." Finesse...

Comment Posted by: antonior
Santana - Parecia o Chico esperto do meu bairro. Sócrates-Não parecia nada. Jornalistas - Um autentico nulo. O debate americano tipo "junk food", sem sabor,sem profundidade,sem substancia. PIOR-O debate SIC Noticias. Ali sim está o centrão.

Comment Posted by: rcs
o barnabe nao pode dizer o obvio: santana ganhou o debate. mesmo para quem nunca votara' nele e no psd, como eu, ficou claro que ele é melhor naquilo do que o outro senhor. ainda assim louvo-vos a honestidade possivel: lendo o barnabe pos-debate percebe-se, e muito bem!, quem realmente ganhou...

Comment Posted by: virtudes
Que comentário é este? Só se fores cego e surdo é que não precebes que o PSL está anos luz à frente do JS.....

Comment Posted by: Isabel Coutinho
É claro que o Santana foi mais brilhante. Tem mais jeito para o espetáculo - o que também acontece com os palhaços. Mas o Sócrates também foi muito mauzinho. O que me admira é como é que ainda há gente inteligente que vai votar quer num, quer noutro ! Quanto ao modelo do debate, tem o Rui Tavares muita razão: que voltem os debates "católicos" . Ao menos podemos ver quem se defende e ataca melhor! Lembram-se - não, não se lembram que não têm idade para isso - do célebre debate entre o Soares e o Cunhal ? Aquele do "olhe que não ... "? Bom, mas aí estavam presentes dois líders a sério. Porca miséria ...

Comment Posted by: Luis Martins
Até ao momento temos claramente provado que Santana Lopes, não presta como 1º ministro. O seu desempenho durante estes últimos surrealistas 4 meses tornaram isso bem claro. Para história da nossa recente democracia, fica o registo de ter sido o único 1º ministro demitido por incompetência. Ao mesmo tempo SL tornou-se um grande engulho para os apoiantes sérios do PSD, que fazer no dia 20? Varrer este Calimero, pretenso macho latino para o caixote do lixo, de vez, ou aguentá-lo para sua própria vergonha e desespero? Verificaremos isso no resultado. Quanto ao debate, onde é que nós ouvimos falar sobre os cerca de 500.000 desempregados? Sobre os 2.000.000 de portugueses que vivem no limiar da pobreza? Que soluções sustentáveis e credíveis se apresentaram? Preferiu-se abordar o gravíssimo problema para que tem fome, qual é o de saber se as uniões entre homossexuais são correctas, bla, bla, bla bla. Se os Luises Delgados deste país acham que foi um bom debate,que o gravem e repetidamente ouvindo-o,babando-se de gozo,atinjam o êxtase do orgasmo que a sua mediocridade intelectual e cívica não deixará de lhes proporcionar.Entretanto os pobres que se cuidem.

Comment Posted by: Brigs de Azevedo
Melhor que estes 2, só o iletrado Jerónimo de Sousa!

Comment Posted by: pirolito
Estas são as regras de Sócrates. E o homi ainda está na opsição. Imaginem se algima vez chegassa ao poder. Andavamos todos com um contador. Alguns destes barnabés até apoiariam desde que a iniciativa fosse deles, Se fosse do lado de Santana não faltariam as vozes de fascista. É como este blogue ao fazer passar pela censura prévia os nosssos comentários para depois publicarem só os que lhe interessam. Sem esquecer que por vezes aqueles que dizem mal, também lhes interessam.

Comment Posted by: Farto Fartinho
É minha convicção (desculpem algumas das sumidades que já aqui se pronunciaram) que nem este nem qualquer outro tipo de debate é inteiramente (ou mesmo parcialmente) esclarecedor. Com equipas de marketing a treinar candidatos para aprenderem a passar rasteiras e a atirarem-se para o chão para ver se o árbitro marca falta. EM TODOS OS PARTIDOS. E claro a resposta típica a perguntas chatas: "Mas antes de responder à sua pergunta, deixe-me dizer-lhe que..." Agora, de vez em quando aparecem uns remates de fora da área como, por exemplo: "Não me peçam para desviar a vista da pobreza" (ou algo com o mesmo sentido) que disse Sócrates. Só fiquei à espera que o Lopes dissesse: "Não se preocupe que eu escondo-os" ou algo no género. Mas não, foi mesmo golo. É claro que para os portugueses mais esclarecidos, os que percebem de macro-economia e tal, estas merdas não contam. Para mim que vivo com os problemas iguais aos de 97,5% dos portugueses. achei que foi um grande golo. Toma que já almoçaste! Mas eu sou pouco exigente...

Comment Posted by: a,pacheco
Por isso é que o pirolito e a sua fidelidade CANINA ao Santana aparece em todos os post. Censura aqui no Barnabe só o Pedro Oliveira faz e mesmo esse deixa passar as suas anedotas a proposito do valor de Santana como governante. Desejo-lhe boa sorte para dia 20 e a 21 já o verei aqui apoiar o regresso do Santana á Camara de Lisboa para mal dos nossos pecados.

Comment Posted by: Hera
Penso que o debate não foi grande coisa!!!! AS questões realmente iportantes não foram debatidas. Grande parte do debate foi dedicado a questões pessoais dos candidatos!!!!

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