A Federação Internacional do Automóvel proibiu a utilização de piercings em provas como a Fórmula 1 ou o mundial de rallys.
O agnóstico Martin Kettle no Guardian confessa-se impressionado pela lição de vida ao aproximar da morte de João Paulo II. Independentemente da retórica que a possa rodear. Alguns no Vaticano usam isso ao serviço da sua interpretação muito abrangente do que seja a eutanásia. Tal como Kettle vejo no seu exemplo o melhor argumento contra os que vêm uma doença incurável como uma morte antecipada, ou aceitam os prognósticos médicos como um juízo final; mas também contra o culto da vida vegetativa em que a tendência para o excesso moralista em torno de questões complicadas tende a degenerar.
A BBC Radio 4 resolveu celebrar a Páscoa muito ecumenicamente destacando o assassínio há 25 anos atrás do Arcebispo de San Salvador, Óscar Romero, em plena missa. Ele sabia que ia morrer, mas estava convencido de que o seu sacrifício era necessária para o seu país encontrar uma paz justa. A julgar pelas declarações dos protagonistas dos acordos de paz de 1992 tinha razão. Parece que foi considerado demasiado político para se avançar desde já com o processo de canonização. E, no entanto, foi um «bispo vermelho» especialmente paradoxal, pois era realmente um figura moderada num país de extremos. Mas todos os bispos vermelhos o são um pouco. Como dizia esse outro bispo vermelho D. Hélder Câmara que cito de memória: ‘Quando disse temos de alimentar quem tem fome, chamaram-me santo. Quando perguntei, porque é que eles têm fome, chamaram-me comunista!’
Quanto ao Spectator chamou a atenção para os 300 milhões de cristãos perseguidos por várias formas de ateísmo de Estado ou outros regimes poucos tolerantes. O que não deixa de ser apropriado. Mas um cristão a sério preferirá sempre ser perseguido a ser perseguidor...
Lobo Xavier, usando de uma certa liberdade argumentativa, diz que o PCP e o Bloco defendem «que não há crime mesmo que a IVG seja provocada na vespera do nascimento».
O meu primeiro texto do fim-de-semana passado, no Expresso.
Trinta mulheres desfilaram, esta semana, pelas ruas de Havana. Como as mães da Praça de Maio, na Argentina, arriscam tudo pelos seus filhos e pelos seus maridos. Em Cuba, são conhecidas como as “damas de branco”.
Há dois anos, o regime castrista, em apenas três dias, prendeu 75 opositores. Um mês depois estavam todos julgados. No total, 1475 anos de prisão. Não havia dúvidas: tratavam-se de perigosos “mercenários ao serviço dos Estados Unidos”. As suas profissões são as mesmas de muitos presos políticos em todo o Mundo: jornalistas, escritores e intelectuais.
Em todo o Mundo, uma parte significativa da esquerda apoia Fidel Castro. E muitos intelectuais, como Garcia Marquez ou Luís Sepúlveda, entregam-se ao apoio a esta ditadura com um especial empenho. A razão, para além de uma certa nostalgia pela estética revolucionária, é pragmática: que haja alguém que faça frente à omnipotência do vizinho americano. Há lições que, definitivamente, levam tempo a aprender: os inimigos dos nossos inimigos não são, necessariamente, os mais recomendáveis dos amigos.
É verdade que, com o bloqueio, os Estados Unidos dão a Fidel Castro o adversário externo de que ele precisa. E dão aos cubanos, quando olham para a alternativa que lhes é apresentada em Miami, a confirmação de uma evidência: o problema do poderoso vizinho não é haver uma ditadura em Cuba. Nessa matéria, têm um longo currículo de conivências no continente. O incómodo é bem mais prosaico: aquela ditadura não é a sua ditadura.
Acredito que muitos dos opositores que, em Cuba, se batem contra Fidel Castro serão gente de direita. É normal. O que conhecem da esquerda não é lá muito animador. Mas são quem, no seu país, corre todos os riscos pela decência e pela liberdade. Para mim, chega e sobra. São a minha gente. Eles e as suas damas.
O meu segundo texto no Expresso do fim-de-semana passado.
Primeiro foi a nomeação de John Bolton como embaixador dos Estados Unidos na ONU. «Se o edifício do secretariado da ONU perdesse dez andares não faria diferença nenhuma», ironizou. «Qualquer reforma deveria ser no sentido de considerar apenas um membro permanente: os EUA», defendeu. Ou seja, o homem certo no lugar certo.
Depois, foi Paul Wolfowitz para a Presidência do Banco Mundial. De forma pragmática, terá de trabalhar com governos de todo o Mundo e de toda a espécie. Estão a imaginar melhor para o lugar do que um dos principais arquitectos da aventura iraquiana? A política exportação dos “valores americanos” terá mais um valioso instrumento.
Era uma tradição: a Europa ficava com o FMI e os Estados Unidos com o Banco Mundial. Mas a tradição já não é o que era. Os EUA vetaram, em 2000, o nome europeu para a presidência do Fundo Monetário. Pode a Europa fazer o mesmo com Wolfowitz? Claro que não. No casamento transatlântico, já se sabe, estamos destinados a fazer o papel da esposa submissa.
Para nos salvar, uma nova teoria está em voga: tudo é o contrário do que parece. Reagan parecia burro e era brilhante. Roosevelt parecia ignorante e era intuitivo. Bush, que parece as duas coisas, só pode ser um génio. A mesma teoria se aplica a Wolfowitz: a escolha é boa porque ele é péssimo para o lugar. É o que se escreve em muita imprensa internacional. No Banco Mundial, um representante dos “neocons” será uma raposa num galinheiro. Excelente. Será ele a interceder pelas galinhas junto da alcateia. E, quem sabe, até se pode vir a transformar no mais dócil dos galináceos.
E estas são as escolhas George Bush para a Primavera-Verão de 2005. Era agora que ele se ia converter ao multilateralismo e aproximar-se da Europa, não era? Os sinais não podiam ser mais animadores.
No Público de ontem encontra-se este texto de Maria Filomena Mónica sobre a investigação policial ao caso de Joana Cipriano, a menina desaparecida e presumivelmente assassinada em Portimão. Sobre o fundo do artigo, nada a dizer: Filomena Mónica tem toda a razão ao denunciar o trabalho pior do que feito com os pés (e o que há de pior que "feito com os pés"? feito com os tornozelos? com a barriga das pernas?) pelas polícias portuguesas. Mais razão além dessa tem quando recorda que a própria polícia decidiu coroar o seu mau trabalho com o espancamento da maior suspeita, e coroar esse espancamento com a velha história de que a presa "caiu das escadas abaixo". Um trabalho primoroso, ao mais alto nível daquilo de que as polícias portuguesas são capazes.
Portanto estava eu ali a ler um texto de Maria Filomena Mónica, a gostar de poder concordar com a colunista, e já preparado para o ritual momento de anglocentrismo que certamente não faltaria ali ao virar do parágrafo.
E não faltou, como é evidente.
Mas o que é extraordinário é a forma:
«Quem esteja habituado a ver filmes anglo-saxónicos, certamente notou a diferença entre o que se passa nos tribunais americanos e ingleses e nos portugueses. [...] Uma das minhas séries preferidas intitula-se The Prime Suspect. Produzida pela empresa de televisão Granada, tem na actriz Helen Mirren uma espantosa inspectora da polícia (o script, impecável, é da autoria de Lynda La Plante). Para além dos méritos artísticos do programa, demonstra a forma como, no Reino Unido, a maioria dos crimes são resolvidos, não por confissões, mas exactamente por análises laboratoriais.»
Ou seja, a realidade portuguesa fica a perder quando comparada com a ficção anglo-saxónica. Isto independentemente dos ghettos violentos de Londres ou Filadélfia também ficarem a perder com aquela simpática cena de pancadaria no Pátio das Cantigas.
Mas afinal porque tenho eu um problema com uma comparação destas? Não se está mesmo a ver que os anglo-saxónicos são melhores do que nós? Está sim senhor. E também se estava mesmo a ver que a mãe da miúda era culpada.
Para quem ainda não sabe: A VICAIMA, em conjunto com a JOMAR e o Grupo FINIBANCO, está ligada à 16ª fortuna nacional – ÁLVARO PINHO DA COSTA LEITE -, de acordo com a edição de 2004 da revista EXAME com o ranking dos mais ricos de Portugal. Diz a Exame: “É irmão de Ilídio Pinho e de António, Armindo e António Pinho da Arsopi. Construiu a pulso a sua ascensão bilionária que tem como principal suporte os negócios na indústria das madeiras. Nos anos 80, esteve na emergência da nova finança privada até constituir o seu pequeno grupo financeiro em torno do Finibanco.” São 366 milhões de euros.......
Para quem se assume como um consumidor socialmente responsável: Quando forem comprar madeira ou produtos de madeira, porque não exigir madeira que cumpra as normas do Forest Stewardship Council (FSC)?
O Forest Stewardship Council (FSC) é um sistema credível de certificação para madeira e produtos de madeira reconhecido internacionalmente e que garante que a madeira provém de florestas geridas segundo fortes critérios ambientais e sociais.
Na República em que vivemos, nada me envergonha mais do que uma sórdida Guarda Nacional que leva o seu nome.
Não há portugueses entre as vítimas do sismo na Indonésia
Luis Filipe Meneses diz que a pseudo-aristocracia do partido já lhe está a dar facadas nas costas. SIC
Confesso: começou friamente a minha relação com o novo disco dos Go-Betweens. Uma coisa assim tipo “amigos amigos oceans apart”, muito pouco “tu cá tu lá”, mais tipo “você isto e você aquilo” ou “e o senhor como vai”, estão a ver? Uma coisa assim a puxar ao "peço o obséquio", topam?
Apenas dez dias passados e não posso senão reconhecer que vai longe o amargo de boca, que 80% do disco é “pop vintage go-betweenseana” e o resto são cantigas (e bem boas).
Robert, Grant, venham de lá esses ossos e desculpem qualquer coisinha. Afinal, o vosso melhor álbum pode mesmo ainda estar por vir. Contra mim falo, mas se dúvidas houvesse deveriam dissipar-se instantaneamente ao som de "Here Comes a City", "Finding You", "No Reason To Cry" ou "Boundary Rider".
Venha o próximo.
DN Online: «Maçonaria acerta parceria com a 2:»

Patriarca diz que "moda" de reduzir Jesus à condição humana "destrói a fé" católica
O PSD organizou hoje uma sessão de formação sobre trabalho autárquico. Por apenas 100 euros, os dirigentes laranjas com aspirações a dirigir uma câmara puderam ouvir os preciosos conselhos de Manuela Ferreira Leite ou Isaltino Morais.













José Mourinho está na Terra Santa, a convite de Shimon Peres, para participar numa série da acções destinadas a promover a paz entre israelitas e palestinos. Amanhã dará um curso para treinadores de futebol das duas nacionalidades. Trata-se de uma iniciativa meritória – e José Mourinho, sem dúvida, o exemplo ideal – para uma região onde é necessário, mais do que nunca, saber aceitar compromissos que não satisfazem completamente nenhuma das partes, não desejar a aniquilação dos adversários, e não alimentar ilusões de vitória total em todos os campos.
«Cocktail com Viagra deixa jovens impotentes.», Sic Notícias

Caravaggio, The Denial of Saint Peter (Met NY)
Deve ser da sazão. Mas quem disse que acção, drama e efeitos especiais distraem as mágoas e aliviam o coração, não viu isto. Para maiores de 18 e menores de 32... Não digam que não avisei.
Acho que posso dizê-lo sem problemas: estou desiludido. Estou verdadeiramente desapontado. E mais, sinto-me traído. Para mim o estado de graça acaba de acabar. Kaput. Finito. Chega. Basta. Caramba. Chiça.
Duas semanas quase inteiras de governação PS, duas semanas a devorar os jornais dia a dia, hora a hora, sempre à espera da notícia certa, da notícia mais aguardada de todas. E nada. Amanhã é sexta-feira santa portanto também já não deve ser amanhã que lá vamos, e depois, bem, depois mete-se o fim de semana e como tal: nada.
A verdade é só uma: 15 dias de poder socialista e ainda não declarámos guerra aos EUA?!?! Freitas é um cobarde. Um cobarde. Morra o estado de graça. Já. Morra o estado de graça, morra.
PIM!
Nota: o retrato já vai a caminho da Sala Oval.
Hoje, no DN, Luís Delgado defende o direito à vida da americana Terri Schiavo.
«Que mundo é este, meu Deus? Gritem, enviem apelos, cartas, e-mails, tudo o que for possível para salvar Schiavo!»
Nas mesmas páginas, e em tom igualmente pungente, Rui Gomes da Silva batalha contra a "morte política" de Pedro Santana Lopes. Que mundo é este, meu Deus?
Tinha começado a escrever sobre Aron e Kennan, mas o Pedro e o Ivan facilitaram-me a tarefa. Queria sobretudo insistir na ironia de ver dois espíritos independentes, que tiveram grandes problemas em serem aceites e em conquistarem e manterem o seu espaço de reflexão particular, serem agora adoptados pela ortodoxia vigente por estes lados. Estou longe de concordar com tudo o que escreveram, e tenho sobretudo problemas com Kennan, pelas razões que o Pedro e o Ivan referiram. Mas sempre apreciei a fortaleza de espírito, a vontade de manter os olhos bem abertos à realidade (custa mais do que parece), e o estilo cristalino.
Seguem-se algumas referências e linques complementares às dos ilustres bloguistas anteriormente citados. (E sim, Kennan e Aron eram realmente bastante altos, dizem).
Aron morreu em 1983. Mas alguns dos seus livros mais importantes nada perderam do seu interesse e ‘actualidade’. Por exemplo, Penser la Guerra : Clausewitz, um duelo de gigantes em dois rounds, em que as passagens sobre a guerra de guerrilhas ou a guerra como continuação da política assentam que nem uma luva ao Iraque. Ou République Imperiale, uma das melhores análises das aventuras dos EUA no Mundo na altura em que foi publicada, nem panegírico nem condenação. Ou o enorme - literalmente - clássico das Relações Internacionais, Paix et Guerre entre les Nations, que entre outras coisas desfaz a relação linear entre ideologia e política externa. Para quem estiver interessado na vida e obra existe uma equilibrada biografia, fiel à complexidade de Aron, por Nicholas Bavarez. Infelizmente está tudo ou quase por traduzir.
Kennan, agora falecido aos 101 anos, foi o autor do artigo mais citado de sempre da Foreign Affairs, que marcou o início da Guerra Fria ao definir uma estratégia de contenção da União Soviética. Mas ele foi desde cedo um crítico da ortodoxia que tinha ajudado a criar e que tanto o queria recompensar! Porque achava, para grande irritação dos falcões da altura, que a URSS acabaria por cair de podre, e que portanto a contenção devia ser essencialmente pacífica e não militar. Um lírico, claro! Saiu do serviço diplomático em 1950, e publicou umas Memoirs muito bem esgalhadas, que comprei há uns anos por acaso em segundo mão. Um texto digno de Indiana Jones, mas de fato e gravata, da Berlim de Hitler à Moscovo de Stalin, passando pela Lisboa de Salazar. Descobri depois que ele tinha ganho o Pulitzer com elas.
Deixo aqui alguns excertos de uma das últimas e melhores entrevistas de Kennan (que só esta disponível integralmente para subscritores na New York Review). O mesmo estilo brilhante e corrosivo de sempre, com a patine deliciosa dos noventa e muitos anos. Um grande americano, mas não do tipo que agrada aos neo-conservadores. Leiam:
We export to anyone who can buy it or steal it the cheapest, silliest, and most disreputable manifestations of our "culture." No wonder that these effusions become the laughingstock of intelligent and sensitive people the world over.
What we ought to do at this point is to try to cut ourselves down to size in the dreams and aspirations we direct to our possibilities for world leadership. We are not, really, all that great. We have serious problems within our society these days; and it sometimes seems to me that the best help we could give to others would be to allow them to observe that we are now confronting those problems with a bit more imagination, courage, and resolve than has been apparent in the recent past.
Serving in Berlin at the height of Hitler's military successes, in 1941, I tried to persuade friends in our government that even if Hitler should succeed in achieving military domination over all of Europe, he would not be able to turn this into any sort of complete and long-lasting political preeminence and I gave reasons for this conclusion. And we were talking, then, only about Europe. Applied to the world scene, this is, of course, even more true. I can say without hesitation that this planet is never going to be ruled from any single political center, whatever its military power.

Quando alguém que lhe é mais querido vai desta para melhor, o Rui Tavares tem por hábito escrever um post de homenagem intitulado “Parem as Máquinas”!
Ao tomar conhecimento da morte de George Kennan na passada sexta-feira, não posso dizer que esse tenha sido o meu primeiro impulso. Li pouca coisa do senhor (alguns artigos e excertos de livros) e conheço as suas ideias sobretudo em segunda mão. Mas Kennan é uma daquelas figuras em que qualquer pessoa medianamente interessada na história das relações internacionais do século XX acaba por tropeçar. A sua influência no pensamento estratégico dos Estados Unidos foi imensa. Estes obituários do New York Times e do Guardian explicam com algum detalhe o impacto que o seu célebre “longo telegrama” de Fevereiro de 1946 (mais tarde publicado, sob pseudónimo, na Foreign Affairs, com o título “The Sources of Soviet Conduct”) teve na mente dos decisores políticos em Washington, na alvorada da Guerra Fria. Kennan foi uma espécie de pai intelectual da doutrina da “contenção”, que de forma mais ou menos deformada, orientou toda a postura estratégica dos EUA face à União Soviética durante a Guerra Fria.
Na sua carreira diplomática, teve também uma ligação a Portugal: em 1943, Kennan foi o chargé d’affaires da legação americana em Lisboa e foi ele o primeiro interlocutor de Salazar nas negociações que haveriam de conduzir à concessão da Base das Lajes aos EUA um ano mais tarde (ver, sobre isto, o artigo do historiador Luís Nuno Rodrigues com link mais abaixo).
Kennan foi um homem contraditório em muitos aspectos. Foi ele quem destruiu as ilusões de vários responsáveis americanos em relação à URSS de Estaline imediatamente após a II Guerra Mundial, advogando uma resposta robusta a todas as intrusões soviéticas na esfera de interesses norte-americana. Mais tarde, porém, considerou que as suas palavras tinham sido mal interpretadas – segundo ele, o comunismo deveria ser combatido por meios políticos e económicos (como o Plano Marshall) e não tanto por uma postura militar agressiva. Kennan opôs-se à formação da NATO, manifestou a sua apreensão perante a escalada nuclear, e foi um crítico severo do envolvimento americano no Vietname (bem como das guerras mais recentes do Kosovo e do Iraque)
Kennan era um pensador solidamente ancorado na tradição “realista” das relações internacionais, o que ajuda a explicar o seu cepticismo relativamente às ambições “universalistas” de vários presidentes americanos em matéria de política externa. Aliás, as suas opiniões acerca da democracia de massas eram, no mínimo, dúbias. Nos anos 30, Kennan (um misantropo com inclinações depressivas) escreveu que a América precisava de um “despotismo benévolo”, sendo que uma das suas principais premissas deveria ser a restrição drástica do direito de sufrágio (negros, imigrantes e mulheres deixariam de poder votar). Colocado na Embaixada em Berlim nas vésperas da II Guerra Mundial, referiu-se por diversas vezes à Alemanha nazi em termos ambíguos: para ele, Hitler viera devolver à Europa central a estabilidade que esta perdera desde o colapso dos Habsburgos e o advento de democracias instáveis. A sua admiração por soluções políticas fortes, ou mesmo autoritárias, não se desvaneceu com o passar do tempo: em várias entrevistas, por exemplo, confessou-se um admirador de Vladimir Putin. Num artigo publicado em finais do ano passado na revista Relações Internacionais, José Cutileiro diz que Kennan se considerava a si próprio como “um homem do século XVIII” (certamente que pré-1789) e, no fundo, talvez resida aí a chave para compreender estas facetas mais desconcertantes da sua personalidade.
Os artigos de e sobre Kennan referidos neste post podem ser consultados neste website
PS: Só hoje reparei que o Ivan já tinha escrito sobre Kennan, num post que depois actualizou com uma amável referência a este meu texto.
Este mundo está perdido. O João Miranda atacou selvaticamente os resultados do neo-liberalismo dogmático do senhor Bush nas páginas do Blasfémias. Leiam:
Claro ele provavelmente não se apercebeu. Mas lá que o texto se adapta que nem uma luva... Gosto quando uma ortodoxia mostra uma racha na muralha de aço.
PS - E já agora João, a mim que até sou um adepto do comércio livre como principio, pode explicar que terriveis problemas é que a UE ou os EUA têm tido por causa do seu proteccionismo (relativamente a produtos agricolas dos paises pobres)? E a Somália, essa velha conhecida nossa, que grandes vantagens tem tirado das suas fronteiras inteiramente abertas, sem Estado para empatar? Nada como a simplicidade dos dogmas, pena a realidade interferir um bocadinho.
E ainda... O João Miranda respondeu aqui. Eu comentei a resposta. Fica aqui o essencial da réplica: o comércio livre puro nunca existiu, pelo menos desde que existe Estado e temos registos. Sempre houve condicionamentos ao comércio, claramente isso não impediu o crescimento económico.
Menos condicionamentos, fiscais pelo menos, é melhor. Mas como regra e se todos trabalharem honestamente nesse sentido. (O que evidentemente não é o caso de Bush que sistematicamente tem tentado violar as regras da Organização Mundial de Comércio - mais um exemplo do valor do internacionalismo). Quem quiser aprofundar a questão pode ler este excelente e curto livro, Pop Internacionalism de Paul Krugman, que desmonta muito dos mitos anti-comércio mais livre. Krugman, note-se, é um liberal de esquerda e um dos mais prestigiados economistas americanos, e nas horas vagas um dos críticos mais temidos de Bush e companhia.
Mas é hipocrisia exigir abertura total quando os países ricos não a praticam. Sobretudo quando se sabe que um reforço do proteccionismo é um recurso habitual na fase de arranque de uma economia. Os EUA, a Alemanha e o Japão, por exemplo, recorreram a medidas de protecção das suas indústrias emergentes no passado (e ainda hoje tentam de vez em quando). Nada como alguma história económica para colocar areia na engrenagem das ideologias economicistas.

Depois de muitos anos de retórica da parte dos críticos, e depois de alguns anos de trabalho por parte da ONU, Kofi Annan apresentou hoje as suas propostas para a reforma da ONU e para o Objectivo do Milénio. O texto completo de Annan pode ser lido aqui, e em breve estará no Barnabé Rebelo de Sousa.
Chegou agora a altura de perceber exactamente o que é que os críticos querem. Nomeadamente o comediante senhor Bolton, que suponho que vá continuar a insistir que deve haver apenas um membro no Conselho de Segurança: os EUA. O que lhe resolvia realmente muitos problemas. Ou do brilhante especialista em desenvolvimento senhor Wolfowitz (que nunca teve nada a ver com o assunto como podem ver pela sua biografia oficial, mas foi embaixador na Indonésia de Suharto, esse grande exemplo de desenvolvimento e liberdade!). Mas realmente estou curioso para ver que propostas alternativas surgem em cima da mesa. Como vão responder a estas reformas ambiciosas, que eliminam alguns dos defeitos da organização, e portanto dificilmente podem ser recusadas por quem antes os atacava. Tanto mais que Annan tem o cuidado de dizer que os Estados têm um papel fundamental, que a sua fraqueza e falência é causa de tragédias terriveis, mas que os Estados por si só não chegam para resolver os problemas cada vez mais globais do futuro. Simples, mas verdadeiro.
Annan apresenta as suas propostas organizando o texto em torno das famosas três liberdades, mote de Roosevelt, o principal responsável pela criação da ONU em 1945: liberdade face ao medo, liberdade face à fome, e liberdade para viver com dignidade. Nada mais apropriado do que relembrar estas palavras do mesmo Franklin Delano a respeito da nascente ONU: "O perfeccionismo, não menos do que o isolacionismo ou o imperialismo ou uma politica assente apenas no poder, poderá ser um obstáculo no caminho para a paz entre as nações."
Discurso sobre o Estado da União de 6 de Janeiro de 1945.
Ontem em editorial no Público, José Manuel Fernandes, propôs o que julga ser um dos caminhos que o Banco Mundial sob a liderança de Paul Wolfowitz deve assumir nos seus financiamentos: a “promoção de mercados livres”.
Eu gostava de saber de onde vem esta ideia de que os mercados devem ser livres para que haja desenvolvimento?!!!! Nos anos 80, grande parte da América Latina, por pressão de instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, decidiu adoptar uma série de medidas ecónomicas que abriram os seus mercados e ainda hoje está a pagar por isso com os níveis de pobreza a atingir uma grande parte da população.
Na Ásia, principalmente no Nordeste Asiático, a Coreia do Sul e Taiwan, pelo contrário, decidiram “borrifar-se” para o FMI e o BM, e adoptaram uma outra receita. Normalmente gosta-se de falar das suas políticas de exportação (que uns lêem como abertura aos mercados externos) como modelo para os países em vias de desenvolvimento, mas aquilo de que se fala pouco (porque não é politicamente correcto) é o proteccionismo forte e feio que os governos praticaram para sustentar o crescimento de uma série de indústrias estratégicas que hoje são a sua verdadeira base de sucesso e que contribuiram para os baixos níveis de pobreza nesta região.
O que eu quero dizer é que os “mercados livres” não são a panaceia para os males do sub-desenvolvimento.
A perseguição ressentida da direita portuguesa a Freitas do Amaral começa a cheirar muito mal. Em Portugal a mudança de campo político –desde que da esquerda para a direita – é vista como um sinal de amadurecimento. Passa-se do MRPP ou do PCP para o PSD como quem começa a apreciar um bom vinho ou uma boa pintura.
Já Freitas do Amaral, que não mudou de campo político, transformou-se num terrível traidor, como se um homem conservador, que valoriza o direito internacional, não pudesse ficar horrorizado com Abu Grahib ou Guantanamo.
O pecado tomou proporções impronunciáveis quando o homem entrou para o executivo. Como se viu ontem na apresentação do programa do governo, abespinham-se os guardiães do templo ideológico porque o professor se sente melhor na companhia de uma esquerda moderada do que na deles, que não tiram a expressão «centro direita» da boca mas continuam a suspirar por um Portugal do Minho a Timor.
Agora a intolerância ganhou foros internacionais. O PPE tomou as dores dos seus filiados portugueses e vai suspender Freitas por achar inaceitável a sua presença num governo socialista. Já estamos no terreno da pura bizarria. Porque é que, por toda a Europa, partidos de centro-esquerda e centro-direita podem fazer coligações e Freitas não pode «coligar-se» unipessoalmente (é, afinal, essa a sua condição como associado do PPE) com o PS? Nos Estados Unidos é normal os democratas convidarem republicanos para a administração e vice-versa. Em Israel trabalhistas e conservadores já estiveram coligados várias vezes. Já Freitas, é um traidor.
Trabalhadores da Casa Pia pedem reunião a provedora
as putas, que às quatro e vinte da madrugada de uma terça-feira não se vêem do táxi a esta hora da noite, que já devem estar no buraco para onde foram levadas, ou voltaram para casa, porque não há negócio que justifique este começo de Primavera e não há condições de circulação para a clientela.
As putas à beira do túnel do Marquês são baratas. Quem lá passar de carro e perguntar a fugir, como faz a miudagem por estultícia inocente, sabe que são.
É visão nocturna para quem vem do Marquês. As grades das obras ao lado do parque, as poucas luzes da Joaquim António de Aguiar, a Rua Castilho às escuras.
Assim como quem, lá para cima, no Porto, vai tomar café à Rua da Constituição depois do jantar e vê as carrinhas descarregar as que caminham sem gosto da Latino Coelho para a Alegria e para a Santos Pousada às dez e meia da noite.
Mas estamos em Lisboa. O lixanço das obras do túnel é o mau do negócio. Nem baratas a coisa vai nesta noite. Quatro da manhã costuma ser hora de serviço, mas não se vê uma na Artilharia 1.
“O subchefe da Polícia apontou, detrás da secretária, o cano da esferográfica.
‘Profissão?’
As duas mulheres trocaram olhares, a mais velha e gorda deu um passo em frente como se quisesse ir entregar a resposta em mão. Entregou, baixinho:
‘Putas…’
O subchefe da Polícia fez uma careta de desagrado, abanou tristemente a cabeça e censurou:
‘Então isso diz-se assim?’
A mulher, a mais velha e gorda, não compreendeu que diabo queria o subchefe da Polícia, ficou calada, a pensar, pensou que talvez não tivesse sido respeitosa o suficiente. Emendou:
‘Putas, senhor subchefe.’”
Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal, Bertrand, 1980
É o túnel do Marquês durante o dia a dar cabo da vida às pessoas, é o Sá Fernandes a embargar, é o negócio lixado à noite. Raio de cidade, não se resolve nada e isto um gajo de dia a querer andar à vontade na rua e não pode e só há pó na estrada e nos passeios.
E à noite o problema é as putas da Artilharia 1, que desapareceram cedo na noite, e o melhor era que não fosse um problema, era bom que as coisas tivessem corrido para melhor, que tivessem desaparecido para tratar da vida delas e não da dos outros, que fazer o túnel fosse menos chatice que a vida delas.
Lá vai Lisboa, com a saia cor do mar, e todo o bairro é um noivo que com ela vai casar.
Santana Lopes decide sobre recandidatura à Câmara de Lisboa após Congresso do PSD
Hoje, no Parlamento, o PS fez todo o debate sobre o programa do governo à esquerda. Nuns casos (educação, cultura, sociedade de informação e justiça) pode. Noutros (imigração, lei eleitoral, idade de reforma e gestão da saúde) não. Mas a inexistência de direita leva naturalmente a esta estratégia. Portas foi fazer ajustes de contas com Freitas. O PSD está em depressão profunda. Agora, vai ser assim por uns tempos: o debate vai fazer-se entre as esquerdas. Ainda bem. Para variar.
Calhou-me responder a uma mini-entrevista via email de Soraia Amaro, uma jornalista do DIário de Aveiro. Como a entrevista focava uma série de questões correntes sobre os blogues, a blogosfera e o Barnabé, decidi publicar aqui as minhas respostas para os interessados.
- Como e quando surgiu a ideia de criar um blog? Para servir que propósito?
A ideia de fazer um blogue surgiu no Verão de 2003 por iniciativa do Daniel Oliveira, a que depois se juntaram as minhas manias a propósito do título e grafismo e os temperamentos do André Belo, do Celso Martins e do Pedro Oliveira. Hoje o Barnabé tem mais membros e serve os propósitos dispersos de todos – e muitas vezes propósito nenhum. Para os interessados, contei uma vez essa história aqui: http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/052450.html .
- A exposição na «blogosfera» é positiva? Tem vantagens/desvantagens? Quais?
Boa definição: tem aquilo que se poderia designar precisamente por vantagens/desvantagens, muitas vezes exactamente as mesmas. A título de exemplo, permite-nos dar opinião sobre muita coisa, o que por vezes leva as pessoas a achar que temos opinião sobre tudo.
- O que se é no dia-a-dia que não se mostra no blog? Há uma(s)
personagem (s) criada (s) para o blog? O que se diz no blog que não se
diz cara-a-cara?
Não se deveria ser nem dizer nada no blogue que não se desejasse mostrar a pessoas que não sabemos quem são e que, tomadas no seu conjunto, não caberiam na nossa sala de jantar. Mas raramente se consegue levar esta regra a bom porto.
- A assinatura usada nos blogs nem sempre permite perceber de quem se
trata. No caso, as pessoas à volta associam-nos ao blog?
No caso particular do Barnabé, a única regra para os membros é não usar pseudónimo. O resultado é cada um dos barnabéus forçosamente associado a tudo o que escreve.
- O grande boom de blogs nacionais ocorreu durante o Verão de 2003. O
que levará as pessoas a, em vez de sair, ir à praia, arejar, dedicarem
uma parte do seu dia à criação de uma plataforma on-line onde podem,
em muitos caso, ser «outras pessoas»?
Efectivamente a ideia do Barnabé surgiu, como já disse acima, nesse mesmo Verão. Mas os mais ajuizados de nós impuseram a proposta de que primeiro fôssemos à praia arejar e só depois – a partir de 10 de Setembro – fundássemos oficialmente o Barnabé. De resto, um blogue não é menos virtual do que qualquer outra forma de comunicação. A pessoa pode ter as suas ideias ou até escrever os textos no meio de uma expedição de montanhismo.
- a manutenção do blog é feita diariamente? Há um «compromisso» de
postar periodicamente? Os leitores reclamam novos textos?
Ao contrário das desculpas esfarrapadas que todos nós damos, um blogue dá muito trabalho e só depois de dar muito trabalho é que ganha um mínimo de interesse. A manutenção deve ser diária ou quase e devem publicar-se textos ou imagens com uma boa frequência. Se não for assim a ferramenta não está a ser usada da forma que ela pede, e os leitores não reclamarão novos textos – simplesmente porque deixarão de aparecer. A recompensa por esse trabalho é uma escrita melhor – mais precisa, rica e evocativa – uma atenção mais exigente e um raciocínio mais ágil. Deste ponto de vista, a coisa é comparável ao exercício de um qualquer desporto: se não se pratica regularmente não se aprendem as manhas nem se obtêm os benefícios desejados.
- que blogs visita habitualmente?
Dependendo do momento e das restantes obrigações, o número varia muito. O género também. Entre os blogues político-culturais, visito por exemplo (da esquerda para a direita): Blogue de Esquerda, Renas e Veados, A Praia, Vida Agridoce, Esplanar, Contra a Corrente e Blasfémias. Entre os blogues que mais invejo estão: Blof, Laranja Amarga, Fora do Mundo, Blogue dos Marretas e A Causa foi Modificada. Alguns dos melhores blogues são portugueses, mas vale a pena ler o Hipopótamo Zeno e o Diário de Lisboa (brasileiros) ou o Arts & Letters Daily e o These Modern Times (norte-americanos).
- O Barnabé conquistou um espaço privilegiado na «blogosfera», sendo
uma referência para todos os que se movem neste espaço e se interessam
por política. Que influência exerce sobre os autores a certeza de que
algo é esperado deles, de que a sua posição será uma referência para
muitos leitores?
É muito difícil responder a essa pergunta sem trair as verdades dos restantes barnabés. De resto, esse "espaço privilegiado" é uma armadilha. Às vezes é privilegiado principalmente para apanhar porrada – o que, pensando bem, forma o temperamento.
- Os textos do Banabé foram editados em livro. Como se chega até aí?
quem é o publico desse livro?
O livro foi uma ideia de terceiros que aceitámos com muito entusiasmo e que deu uma trabalheira demente. Foi preciso mais do que trasladar – seleccionar, reescrever e recontextualizar – para traduzir a leitura do blogue para o livro, que é um objecto completamente diferente.
Curiosamente, há quem ache que tirar um blogue da internet é traí-lo. O Barnabé foi precisamente fundado em oposição a essa ideia: não é um meio em particular que nos atrai, mas antes a possibilidade de criar um estilo que consiga saltar entre formatos.
Quanto ao público do livro: total mistério. Ainda maior do que o público do blogue.
- E como não podia deixar de ser, o que é que tem o Barnabé que é
diferente dos outros?
Essa é, no nosso caso, a maior das ironias e deve ser deixada sempre em modo de pergunta. Aqueles que não gostam do Barnabé entendem esse lema como símbolo de arrogância. Outra leitura possível é mais metafísica: o que tem cada um que é diferente dos outros?
Nós próprios – e aqueles que nos lêem – andamos diariamente à procura de saber o que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros. Essa irresolução já estava na própria cantiga do Sérgio Godinho a que fomos roubar o nosso nome e o nosso lema.
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Curiosamente, depois de responder a estas perguntas pensei que a última resposta não me satisfazia e que deveria ser reformulado da seguinte forma, que enviei para a jornalista.
- E como não podia deixar de ser, o que é que tem o Barnabé que é
diferente dos outros?
Boa pergunta.

O João Miranda fez-me o favor de responder da forma prevísivel que confirma a minha tese sobre o seu neo-liberalismo ortodoxo. Fê-lo com o desenvolvimento de quem tem muita cartilha para despejar, vou tentar ser mais breve. As empresas com capital do Estado, ou privado, ou misto, não são competitivas no abstracto. Claro que o mais importante são bons gestores, bons quadros e a qualidade dos trabalhadores e do equipmento, e boas estratégias de gestão. Mas para empresas como a Boeing, a Airbus, ou a Sorefame, empresas pesadas que geralmente concorrem a grandes concursos públicos, contar com o apoio do Estado é fundamental. E, por isso, privadas ou públicas tem uma relação muito próximo com a elite política. Já agora, sabe o João Miranda quantos políticos nos EUA saem directamente do poder para conselhos de administração numa quantidade de empresas privadas as mais diversas (e depois voltam ao governo, claro)? Qualquer dia vai acordar para o mundo real e apanhar um susto. Halliburton, ouviu falar?
O João Miranda, e alguns dos comentadores barnabitas, subscrevem o mito bem nacional do desgraçadinho. A Sorefame sobreviveu graças ao condicionamento industrial, nunca foi competitiva... A Sorefame tem material em dezenas de países, comboios desde a India a Los Angeles. Precisava de ser melhor gerida, mas era um empresa de referência a nível internacional. Se não somos capazes de fazer alguma coisa com empresas como esta, bem podemos esperar que os investidores estrangeiros venham cá criá-las. Portugal nada pode pesar neste mercado dos grandes contratos? Mas a Holanda ou o Canadá pesam porquê? Afinal estamos na UE para ver passar comboios?
Finalmente, se a Sorefame não prestava, não podia ser competitiva, porque é que a Bombardier se deu ao trabalho de a comprar e encerrar? Está a transferir máquinas (e parece que quadros) para outras unidades para quê? O monopólio e a eliminação de concorrentes serão talvez capitalistas, mas liberais? Fico esclarecido, caro João, quanto ao seu marxismo neo-liberal (claro que desta vez quem tem toda a razão, a vanguarda, são os gestores internacionais).
Olhando para o futuro, estou curioso para ver se as OGMA também vão passar a não-competitivas. Afinal entre outras coisas é uma das poucas empresas no Mundo que faz manutenção de C-130 (aqueles aviões que os militares usam para transportar tudo por todo o lado)...
PS – Caro João, obrigado por se ter dado ao trabalho de elogiar o meu ajustamento à linha editorial do Barnabé. Estava a ficar com dúvidas. Mas fico satisfeito por achar isso, afinal os blogues de direita é que são os grandes especialistas no que é o Barnabé.
Por outro lado, Luís Nobre Guedes publicou louvores a todo o seu gabinete, reconhecendo oficialmente em Diário da República a "competência", "diligência", "zelo", "capacidade de decisão", "de trabalho e de organização", "disponibilidade constante", "dedicação", "eficiência" ou "sentido de responsabilidade" de nove secretárias, cinco adjuntos, quatro assessores, três motoristas e um assessor de imprensa – que, por acaso, é seu sobrinho.
O segundo aniversário da guerra do Iraque passou praticamente despercebido entre nós. Se não fossem as imagens de manifestações ocorridas em algumas capitais europeias, quase não se daria pelo assunto.
Há, no entanto, uma excepção. A Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque, iniciativa internacional inspirada no famoso “Tribunal Russell” criado em 1967 para “julgar” o envolvimento americano no Vietname. As suas sessões decorreram ontem e hoje, num auditório da Torre do Tombo, em Lisboa. Para mais informações sobre o sentido desta iniciativa, sua metodologia e participantes ver este site.
Aqueles que acompanham o Barnabé desde o início sabem qual é a minha posição perante a intervenção no Iraque: total discordância. No entanto, quando tomei conhecimento deste “tribunal de opinião pública”, em Novembro do ano passado, houve algo que me incomodou. Dias antes, a enfermeira britânica Margaret Hassan, funcionária de uma ONG e residente no Iraque há mais de trinta anos, tinha sido barbaramente assassinada por um grupo de “insurgentes” que depois fizeram questão de difundir na internet o vídeo da sua execução. A morte de Hassan foi apenas mais uma entre as muitas execuções que têm sido realizadas pelos grupos armados que se opõem à ocupação americana.
Por coincidência, o tribunal reúne-se em audiência numa altura em que vários regimes autocráticos do Médio Oriente (Egipto, Arábia Saudita) se sentem obrigados a dar alguns passos no sentido de uma abertura democrática, ou se verificam sinais encorajadores em relação a conflitos onde o impasse perdura há longas décadas (Palestina, Líbano).
É claro que a crueldade abjecta dos “insurgentes” iraquianos não deve servir de pretexto para aderirmos a retórica maniqueísta da administração Bush (“quem não está connosco, está contra nós”). Mas os críticos da guerra fariam mal em transformar a “resistência ao Império” na sua única proposta válida para o futuro do Iraque.
A guerra do Iraque foi um erro porque o seu custo humano dificilmente será redimido por um eventual desfecho feliz da actual transição iraquiana. Havia outros caminhos, porventura mais morosos e complexos, mas menos violentos e perigosos, que poderiam ter sido explorados para derrubar a tirania de Saddam.
Mas seria trágico - para os iraquianos, para a região e para o mundo - que os elementos empenhados na desestabilização do Iraque prevalecessem e ditassem a sua lei. Com todas as suas imperfeições, as eleições de Janeiro de 2005 não poderão senão ser saudadas pelos adeptos da democracia e dos direitos humanos. A força simbólica das imagens de mulheres iraquianas a exercerem o seu direito de voto, e do reconhecimento político das comunidades curda e xiita (historicamente oprimidas no Iraque), é um facto que não deverá ser menosprezado. É claro que os métodos democráticos podem ser usados para confiscar direitos e liberdades fundamentais e, inclusivamente, para suprimir a própria democracia. Mas lidar com essas incertezas é certamente preferível a um regime autocrático baseado num partido ou num ditador. Há um caminho de esperança que se abriu no Iraque em Janeiro e os países que manifestaram reservas em relação à intervenção devem acarinhá-lo.
Nesse sentido, é chocante ver como a “acusação” da Audiência portuguesa se apressa a contestar “o processo de democratização em curso” por considerá-lo “uma legitimação da ocupação” (Público, 19/1). É chocante porque traduz uma adesão infantil à lógica do “quanto pior melhor” e, ao mesmo tempo, revela uma tremenda insensibilidade relativamente às aspirações democráticas do iraquianos. E é uma posição estúpida porque demonstra não compreender uma realidade elementar: a maioria dos iraquianos está imensamente satisfeita por se ter visto livre de Saddam Hussein. Mas daí não resulta um especial sentimento de gratidão em relação aos americanos (com a possível excepção dos curdos iraquianos). Como bem explicam dois politólogos americanos (Marina Ottaway e Thomas Carothers, do Carnegie Endowment) num dos últimos números da Foreign Policy, as forças que mais poderão fazer pela democracia no Médio Oriente serão partidos islâmicos moderados (como o do primeiro-ministro Racep Erdogan na Turquia), que gozam de uma sólida implantação social. Nenhum deles se distingue pelo seu entusiasmo em relação aos EUA e ao “american way of life”. Aliás, um possível desenvolvimento irónico da política de Bush para o Médio Oriente poderá mesmo ser uma abertura democrática que a médio e longo prazo mine a primazia estratégica dos Estados Unidos na região (veja-se como o entusiasmo de Washington em relação à adesão da Turquia à UE tem esmorecido nos últimos meses…)
Por isso, o desejo de qualquer democrata em relação ao futuro do Iraque só poderá ser um: esperar que o processo constitucional em curso desemboque num compromisso aceitável no que toca à partilha do poder entre as três principais comunidades, por um lado, e a alguns direitos políticos e civis fundamentais, por outro lado. Depois, sim, é importante que a comunidade internacional e a opinião pública se empenhem em exigir que a força de ocupação respeite a vontade soberana do futuro governo iraquiano.
O escandaloso caso da Sorefame é um bom exemplo de como os dogmáticos vivem bem de olhos fechados. Com uma resposta pronta e previsível para tudo. A Sorefame foi vendida em nome da nova ortodoxia neo-liberal, que diz que tudo o que seja propriedade do Estado é mau – quando o problema está em haver ou não um processo transparente de escolha de gestores competentes. E que proclama que tudo o que seja investimento estrangeiro é bom – quando a questão devia ser, o que é que ele traz de durável para o País, sobretudo quando se trata de vender empresas com a mais-valia em know-how da Sorefame.
Uma grande multinacional, a Bombardier, decide eliminar uma concorrente chata, e de caminho, claro, ficar com o know-how e a maquinaria – num bom exemplo de tendências monopolistas que não podiam ser mais opostas ao meu entendimento de liberalismo. E o grande problema do João Miranda é que os investidores estrangeiros podem não gostar do pessoal aqui achar mal!!! Afinal onde está o respeito destes cafres pelo direito de propriedade??? Do que Portugal precisa mesmo é de mostrar respeitinho por investigadores estrangeiros como estes e aprender a cartilha dos “comentadores económicos” deste qualibre. Vai longe...
Suponho que o contrato de venda permita esta pilhagem. Se for assim o governo devia estudá-lo bem e evitar de futuro repetir a asneira crassa (se ainda houver alguma coisa para vender). E parece impossível que não se possa alegar má-fé, ela salta aos olhos. Mas claro se a maquinaria sair de Portugal, bem podemos argumentar. O governo devia usar contra este tipo de “gestores” estrangeiros todo o tipo de armas. Negociar com bons modos e esperar resultado, seria esperar um milagre tendo em conta a forma como a Bombardier conduziu todo o processo.
E seria bom o governo começar a olhar para as OGMA… De que serve trazer tecnologia por uma porta e deixá-la sair por outra? Tarefa ingrata para um governo novo, mas bem necessária.

Quem ganha com a manutenção de dezenas de milhares de imigrantes ilegais neste país? Ganham os empresários criminosos e as máfias. Empatam os políticos cobardes. E perdemos todos enquanto comunidade. Perdemos respeito por nós e pelos outros. Perdemos recursos para o estado. Perdemos em segurança para todos. E perdemos a capacidade de olhar para o espelho com a consciência limpa.
Quero que o meu país saiba quantas pessoas aqui vivem, quem são. Quero que façam parte da comunidade – não – quero que seja reconhecido que já fazem parte da nossa comunidade. Quero que as crianças nascidas em Portugal sejam portuguesas – uma tradição jurídica que é a portuguesa desde o tempo de Pombal e que deve ser restaurada.
É por estas razões que vou estar amanhã, domingo dia 20 de Março, às 14h30, na manifestação dos imigrantes ilegais no Martim Moniz em Lisboa. É tão importante para mim como para eles.
A situação que se vive hoje na Bombardier começa, perigosamente, a fazer lembrar os piores episódios do Governo Santana Lopes. Depois da Polícia de Intervenção ter forçado a entrada de membros da Bombardier nas instalações da empresa para desmantelarem as máquinas, o Governo acaba de emitir um comunicado manifestando-se "surpreendido e desagradado" com a decisão da multinacional Canadiana...
Pode ser que me falhe qualquer coisa, mas desde quando é que as forças policiais portuguesas estão sobre a tutela da Bombardier? A polícia age e o Governo não sabe? Repare-se que, mesmo depois do "desagrado" do Governo, a Polícia de Intervenção continua a permitir, no local, o desmantelamento das máquinas. Das duas uma, ou o Governo não tem coragem de assumir as ordens que deu, ou, pior ainda, o ministro António Costa não sabia de nada e não manda na polícia. Em todo o caso, isto começa bem...
* título da entrevista de Isaltino Morais ao Expresso.
Na próxima quarta-feira, a Secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, tem marcada uma reunião com a direcção da Bombardier e da CP para tentar garantir que uma subsidiária da empresa estatal fique com a capacidade de produção existente na fábrica da Amadora.
Hoje, o Ministério da Administração Interna autorizou a Polícia de Intervenção a desbloquear a entrada da fábrica, permitindo que elementos da Bombardier comecem a desmontar, para deslocalizar para o estrangeiro, as mesmas máquinas que a Secretária de Estado pretende negociar daqui a 4 dias.
Para que serve, então, esta reunião se nesse mesmo dia as máquinas já podem muito bem estar a caminho da China ou do Paquistão? Qual é que será a cara desta representante do Governo, sabendo que um seu colega é que abriu as portas para partida das máquinas que ela deveria tentar manter em Portugal?
Ainda o programa de Governo não está aprovado e já ficámos sem saber quantos governos foram empossados. O de António Costa, ou o do Ministério dos Transportes? Parece que o primeiro manda mais. Sempre tem a polícia.
Que mais haverá a dizer quando vemos um realizador divertir-se assim à grande? Que bela profissão parece ser, e tão invejável. O homem pega num filme e põe ali tudo aquilo de que gosta: traineiras com luzinhas, gorros vermelhos à moda dos balantas de kumba ialá, música de documentários canadianos dos anos 70, uniformes azul-celeste e amarelo, um operador de câmara sikh, david bowie cantado por um brasileiro chamado pelé – e dá tudo certo. Essa é a maior. Dá tudo maravilhosamente errado: a amizade, a infância e ilusões megalomanas de aventura.
Diz a minha sobrinha Mariana – que por acaso vai fazer dez anos esta semana – "estava infinitas estrelas, tio". E é melhor ser pirata do que entrar na marinha.
Apenas fiz uma leitura superficial do programa do governo. Estas são, por enquanto, as minhas impressões:
Positivo: a desburocratização do sistema judicial, algumas novas regras em relação à paridade e um programa para aedcação que eu assinaria por baixo.
Negativo: os círculos uninominais tentando forçar, através de uma dinâmica que o circulo nacional não resolverá, a bipolarização, o aumento da idade da reforma acompanhando a esperança de vida, a privatização da gestão dos centros de saúde e falta de coragem na política de imigração, os direitos de cidadania apenas aplicados à terceira geração: os filhos dos "estrangeiros" nascidos em Portugal.
Pode ser que mude de opinião, com a leitura mais atenta. Mas, por enquanto, feito o balanço, o programa não é animador.
... para acolher Santana Lopes na CML. Estes desaforismos do João estão cada vez melhores.
Para o leitor sempre informado do Barnabé, o programa do XVII Governo está aqui [em PDF]. Ficará disponível também no Barnabé Rebelo de Sousa, ali na coluna da direita.
Para o leitor sempre ocupado do Barnabé aqui fica a lista de verbos da primeira página do índice do mesmo programa. Fique portanto sabendo que nos próximos anos o nosso governo vai
O pingue-pongue sobre as mulheres no governo – passe a contradição nos termos – prossegue. A jornada de hoje:
Miguel Sousa Tavares, no Público, ataca os críticos de Sócrates com este violentíssimo puxanço da direita:
«...não para substituir incompetentes por competentes, independentemente do género, nem sequer para substituir homens incompetentes por mulheres competentes: trata-se apenas de substituir homens, competentes ou não, por mulheres, competentes ou não.»
A que Ricardo Araújo Pereira consegue ripostar, no Inimigo Público, com um redemoínhante lob-volley da canhota:
«Se os governos que mandaram no país tivessem sido formados por mulheres, éramos bem capazes de acordar agora, em 2005, e descobrir o país enfiado na cauda da Europa, mergulhado numa crise gravíssima e com o desemprego muito elevado.»
Pongue.
Eis as perguntas que eu gostaria de fazer aos senhores que decidem os títulos dos filmes estrangeiros em Portugal:
– Porque detestam o cinema?
– Porque odeiam traduzir?
– Porque desprezam o público?
Eu imagino que tenha havido uma época em que dar ao filme em cartaz nos cinemas nacionais um título completamente diferente do original – em tema, em tom, em tudo – fazia sentido do ponto de vista comercial ou cultural. Pela primeira vez em cinquenta anos de Barnabé usarei maiúsculas para me fazer entender:
ESSA ÉPOCA ACABOU,
oh torcionários da arte.
E eu sei que há casos em que não se pode traduzir literalmente um título. The Life Aquatic with Steve Zissou não é um deles. O que justificará, então, que se pegue neste título deliciosamente elíptico e se esquarteje dele o apatetado "Um Peixe Fora de Água"? Nada justifica. Nada, a não ser a obsessão em conseguir que todos os filmes em cartaz no nosso país, presentes ou passados, tenham títulos indistintos. Não interessa traduzir o original; interessa encontrar uma variação funcionalmente equivalente aos títulos que em português foram usados naquele género específico desde que o pai Lumière viu a mãe Lumière a atravessar a rua pela primeira vez. Se for um filme "de acção" o título tem que ser criteriosamente escolhido entre um escol reduzidíssimo de palavras onde pontificam, como todos infelizmente sabemos, "fatal" e "perigoso/a/as". Se for uma comédia, o título tem de afocinhar no amplo espectro que vai do tontinho ao tolinho.
Basta. Vocês é que têm culpa do atraso português.
A desorientação de um coveiro depois da última pazada.
A RTP anúncia a versão redux de Apocalipse Now como um «grande filme de acção e aventura». Alguém se oferece para lhes dizer que Sylvester Stallone desta vez não entrou?
Segundo a SIC Notícias, a entrega do programa do Governo na Assembleia da República está atrasada mais de uma hora por causa de um "problema informático".
Agora que o Médio Oriente até parece encaminhado, que tal preocupar-nos um bocadinho com o Jardim aqui ao lado?
Onde estão os postes escandalizados da nossa direita - sempre tão liberal, sempre tão pronta, honra lhe seja, a combater pela liberdade fora de portas - a respeito disto?
João Soares espera vaga de fundo a favor da sua recandidatura à Câmara de Lisboa
Nota: imagem sacada do site http://inet.sitepac.pt
George Bush nomeia Paul Wolfowitz para a presidência do Banco Mundial...Depois do Bolton para a UN, outra bela notícia Made in Washington...
Seis em dez portugueses resistentes à imigração ....e já agora leiam este também..
Como de costume, um dos meus textos da coluna do “Expresso” do último fim-de-semana.
Se uma couve nasce no deserto, já se sabe, é o efeito dominó provocado pela intervenção no Iraque. Sem armas de destruição em massa, sem apoio popular à invasão, com uma curta mas já gloriosa história de torturas, há quem viva para encontrar uma razão, delirante que seja, para o desastre que foi esta guerra.
O “Economist” deu o mote e os adidos aqui na província seguiram a linha. Se uma mulher pediu um divórcio no Irão, é o dominó. Se no Líbano o povo pede a retirada da Síria, é o dominó. Se a Palestina elegeu Mahmoud Abbas, é o dominó. No Iraque, já ninguém sabe quem há de matar ou libertar, mas o que os salva é o dominó.
Só que a intervenção no Iraque não ajudou em nada laicização de um Estado, que sendo sanguinário, era laico. Pelo contrário, deu, ali e em toda a vizinhança, força às forças mais conservadoras do Islão. Só que, no Líbano, os confrontos entre etnias são história antiga e bastou ver as manifestações xiitas pró-sirias para perceber que o súbito interesse americano na matéria pode bem ter acordado o espectro da guerra civil. Só que, na Palestina, o Parlamento já fora eleito. O que não impediu que muitos se recusassem a reconhecer, então, a legitimidade da liderança de Arafat.
Que o mundo Árabe tenha sido sempre assunto pouco interessante para quem acredita que não há civilização onde não se consegue comprar a “Spectator”, é coisa que não espanta. Mas por aquelas paragens a história não começou, subitamente, há dois anos, quando guerreiros de sofá deixaram cair uma lágrima furtiva ao ver um 25 de Abril nas ruas desertas de Bagdad.
E o outro texto da coluna do “Expresso” do último fim-de-semana.
É mais uma das suas birras. O CDS enviou o retrato de Freitas do Amaral para o Largo do Rato. Acho inaceitável que o PSD não exija a foto de Lucas Pires e o PND a de Manuel Monteiro. Por mim, a julgar pela sua ultima entrevista, quero a de Adriano Moreira.
Mas esta é apenas a parte anedótica das reacções à escolha de Freitas do Amaral para ministro dos Negócios Estrangeiros. Se olharmos para a opinião pública portuguesa, veremos que, ao contrário do que se tem dito, Freitas do Amaral está longe de ser um radical. Foi contra a guerra no Iraque. Desconfia desta administração americana. Opõem-se a soluções unilaterais na resolução de conflitos. Em qualquer dos casos, está em sintonia com a esmagadora maioria dos portugueses. E, já agora, não anda longe das posições da maioria dos governos europeus.
O que se tem dito em alguma imprensa internacional e repetido em Portugal, com a histeria provinciana do costume, revela um muito particular entendimento da democracia. Se bem me lembro, houve eleições há duas semanas. Estranho seria que o novo MNE não reflectisse a opinião maioritária do País. Mas há quem ache que os assuntos internacionais são demasiado importantes para serem deixados à escolha democrática.
Freitas do Amaral merecerá ser atacado se, como já fez algumas vezes na sua vida, apagar o seu passado e desdisser tudo o que disse. Ficará com a sua fotografia no MNE, é certo. Mas entre ele e Jaime Gama ninguém dará pela diferença. Seria pouco, para quem já voou tão alto.
O Vaticano está preocupado com o sucesso editorial d´"O Código Da Vinci", afirmando, através do Cardeal Tarcisio Bertone, que "o livro está em todo o lado. Há o risco real de muitas das pessoas que o tenham lido acreditarem nas fábulas que traz".
Olhasse Nico para dentro de si e vislumbrasse alguma espécie de fundo ao abismo. Tivesse Patti Smith menos Rimbaud na cabeça à altura de “Horses”. Fosse Tori Amos mais esquiva à omnipresença de Kate Bush ou PJ Harvey menos obcecada por Beefheart (e por Patti Smith). Alucinasse Kristin Hersh um pouco menos nos dias inaugurais das Muses... enfim, tudo isto (e nada disto) faz de Amanda Palmer um caso sério. Na voz e teclas dos Dresden Dolls, acompanhada por Brian Viglione na bateria, dá corpo a um universo musical que traz numa ponta a Weimar de Brecht e Weill e na outra punk, rock soturno e, a espaços, a luz redentora da pop. Notáveis, a teatralidade e carnalidade cabaretianas da voz elástica que sussurra com a mesma intensidade que berra, até na mesma frase, e uma dúzia de canções marteladas entre a bateria e o piano, às vezes com as luvas de boxe calçadas. É o segundo registo da banda e já tem mais de meio ano, mas nunca é tarde para lhe pôr os ouvidos em cima, até porque, neste canteiro, já nada entusiasmava assim desde “Everyone Who Pretended To Like Me Is Gone”, dos The Walkmen. Mas isso daria outro post. Boas audições... e não a deixem morder-vos o pescoço.
E para quem não se importar de trocar o preto da indumentária por um, digamos, cinzento clarinho, "The Jeep Song" poderia muito bem ser uma grande grande canção de verão...
No espaço habitualmente dedicado aos inquéritos on-line, o site do "Público" tem neste momento a seguinte mensagem. “Este inquérito foi suspenso devido à constatação de uma fraude na votação. Foram detectadas máquinas que contornavam o sistema de validação concebido para impedir a repetição do voto pela mesma pessoa e que votavam sistematicamente na opção NÃO”.
Na origem da manipulação estava a seguinte pergunta: “Os medicamentos de venda livre devem estar disponíveis nos supermercados?". Pelos vistos, há quem não se contente em nos aconselhar sobre o que é melhor para a nossa saúde. Querem poder fazer o mesmo com o nosso voto.
«"Obrigado Bush, Obrigado EUA", reagiu um iraquiano-americano a uma equipa de TV em Kansas City, numa peça sobre a queda de Bagdad. Uma outra peça noticiava "mais um sucesso" da "política de reforço da segurança aérea" da Administração Bush; o repórter chamou-lhe "uma das campanhas mais notáveis da história da aviação". Numa terceira peça, transmitida em Janeiro, era descrita a determinação da Administração em abrir mercados para os agricultores americanos.
As três peças atrás descritas foram transmitidas em centenas de canais locais da televisão americana. O problema é que não foram produzidas pelos próprios canais. Na verdade, nem sequer foram escritas ou apresentadas por jornalistas. Lá — como aqui — as redacções têm sido encurtadas para diminuir despesas, mas a necessidade de conteúdos não tem feito senão aumentar. Estas três peças, como muitas outras nos últimos anos, foram introduzidas por pivots profissionais em telejornais identificados como tal, mas omitindo a sua origem: a própria Administração Central.
Desde os tempos de Clinton que os departamentos do estado americano têm desenvolvido uma forma de "informação" que consiste em passar pequenos clips de video com a história que a administração deseja fazer passar. Com Bush, o estratagema industrializou-se e refinou-se: os clips têm noventa segundo e vêm já editados no formato habitual de notícias de telejornal. Nenhum departamento passa sem eles. São enviados para cadeias que gerem feeds noticiosos. Estas reenviam-nos para canais locais de todo o país. Não vêm identificados enquanto propaganda governamental. No fim da peça, um "jornalista" limita-se a dizer: "Fulano de Tal em Kansas City".
Há poucas semanas descobriu-se que a Administração Bush tinha pago 240 mil dólares a um colunista para defender as suas reformas educativas. Bush deplorou o caso e fez de conta que não era nada com ele, o "colunista" não devolveu o dinheiro. Agora o New York Times descobre que desde há anos se tem andado a alimentar os espectadores americanos com milhares de peças sem origem jornalística. Vale a pena ler o artigo completo (o registo no NYT é grátis).
Como sempre, estou ansioso para ouvir a explicação dos bushistas liberais. Já sabemos que o mercado é uma garantia contra as interferências da propaganda estatal...
“Secretarias de Estado vão voltar a Lisboa”
O Partido da Nova Democracia vai realizar em Aveiro, nos próximos dias 16 e 17 de Abril, uma Convenção Nacional (sim, qu'isto não é cá gente de embarcar em congressos e quejandos!). O objectivo é simples: "esclarecer claramente se somos de direita ou de esquerda", declarou à LUSA uma fonte do PND.
Convém lembrar que este partido já participou em duas eleições nacionais, as europeias 2004 e as legislativas 2005, tendo obtido respectivamente 1% e 0,7% dos votos - e isto sem sequer saberem o que são! Imaginem agora onde podem chegar quando se decidirem. É imprevisível, mas quer-me cá parecer que o céu é o limite.

Tratando os lisboetas como idiotas, a Câmara Municipal como um hobby, a política como uma brincadeira e Carmona Rodrigues como seu criado, Pedro Santana Lopes regressa à autarquia. Santana não tem um pingo de vergonha na cara e alguém tem de lhe dizer que para tudo há limites. Mimado e absolutamente inútil para qualquer função, é absolutamente indigno de dirigir uma cidade que merece dedicação e competência. Se queria regressar, não se candidatava a deputado e aprimeiro-ministro. Lisboa não é um depósito para quem perde eleições.
Pedro Santana Lopes está à espera de convites para saber se volta para a Câmara. Está na altura da comunidade internacional ou da iniciativa privada fazer qualquer coisa por Lisboa.
Depois de digressão nacional, voltará o artista à nossa companhia?
Não posso deixar de concordar com o post do Rui sobre a composição do novo governo Sócrates. Creio que era importante haver paridade nos governos, no Parlamento e nas autarquias. Creio que era importante, também, ter deputados de outras etnias no parlamento. Mas gostava de acrescentar uma ou outra ideia sobre a questão das mulheres. É bem visível, num elenco governativo, a falta de mulheres; no entanto, há outras realidades menos visíveis que merecem ser referidas. A duração do desemprego feminino na União Europeia é mais longa do que a dos homens. As mulheres ganham menos do que os homens (em funções idênticas). No mercado de trabalho, as mulheres ocupam os empregos de baixo nível e têm dificuldade em atingir as chefias e os postos mais altos. Para além do que se chama trabalho fora de casa (curioso que se tenha demorado tanto a reconhecer o trabalho dentro de casa!), a mulher tem ainda sobre si o peso da responsabilidade doméstica, da casa e dos filhos (quando os tem). Dupla jornada, portanto. Isto não tem nada de natural, nem decorre de inevitabilidades biológicas. A diferença de género é cultural e socialmente construída, ao contrário da sexual. A mulher não tem características diferentes dos homens que a empurram para determinados empregos e trabalhos (por exemplo, enfermeiras, professoras, etc). A mulher “fada do lar” é uma invenção. As tão faladas “competências” não pertencem em exclusivo a nenhum dos sexos. As oportunidades, essas sim, são bem diferentes.

Grande oportunidade! Não percas! Viaja pelo mundo! Junta-te a Bush no combate pela liberdade!
Max Boot, um dos neo-conservadores, com a tradicional franqueza que me faz simpatizar com o grupo, tem um proposta radical para resolver o problema da falta de recrutas nos EUA (menos 25% do que as metas estabelecidas, e isto depois de um generoso aumento das regalias). Ele vem defender a criação de uma Legião da Liberdade com a promessa no final de cidadania americana Ele sabe que os impérios sempre recrutaram tropas fora das suas fronteiras. Aponta para o Terceiro Mundo como alvo preferencial. Mas desconfio que em Portugal não faltariam voluntários. Ou será que estou enganado?
Sabes, Bruno, eu acho que não há mesmo defesa possível para a falta de mulheres no governo do PS. E mais: parece-me que nem vale a pena tentar, quais mais não seja pelo detalhe seguinte. Sócrates andou por aí durante uns meses a dizer que era da Esquerda Moderna, do século XXI e de modelo nórdico. E uma pessoa pensa "esquerda". E pensa "moderna". E volta a pensar "esquerda". E volta a pensar "moderna" e "século XXI" e "modelo nórdico". E percebe que nem uma esparregata retórica consegue fazer encaixar nisto um governo que tem apenas duas mulheres de pouco peso político nas pastas do costume (independentemente da importância das pastas e da competência das pessoas). Não se previa que Sócrates seguisse à letra o exemplo de Zapatero, nem de Schroeder, Blair ou Jospin, mas eu pelo menos pensava que pudesse portar-se melhor do que Durão neste particular. Caso contrário, esta é a esquerda menos esquerda e a moderna menos moderna que se pode arranjar.
Para acrescentar a injúria ao insulto, o argumento — chamemos-lhe assim para facilitar — de que não existem mulheres em qualidade suficiente para preencher boa porção de um governo do nosso país parte do príncipio de que os ministros que ali temos são o supra-sumo da batateira. E isso, sinceramente, ainda ninguém viu. O governo pode até vir a ser competente se o for, mas para já estamos longe de poder dizer que se tenha atingido o limite de qualidade que a sociedade portuguesa pode dar, nem no que diz respeito a homens, nem muito menos no que diz respeito a mulheres. Pensa lá bem: não haverá oito mulheres igualmente competentes neste país? Seis? Quatro, que fosse, ou até três, mas sem ser sempre nas pastas do costume?
Portanto deixe-se a coisa esgotar todos os seus termos indignados, que são aqui muito justos. E reconheça-se que foi metida a pata na poça, e até ao joelho. Mas não se faça como fez o próprio Sócrates, tentando justificar o caso — por exemplo com a necessidade de confidencialidade na formação do governo, como se as mulheres fossem pegar no telefone no minuto subsequente ao convite para contar a novidade a todas as amigas.
Porque, das duas uma: ou se é da "esquerda moderna do século XXI" e se acredita em abrir o poder à diversidade social, ou se é um bocado ignorante e provinciano acerca do que quer dizer aquilo que se diz que se é. Deu para intuir qual era a resposta a este enigma quando Sócrates, em plena campanha para a liderança do PS, disse que gostaria de ter imigrantes no partido desde que não tivessem direito a voto.
Agora, resta a este governo ser de tal forma excepcional que prove para lá de todas as dúvidas de que nenhum destes ministros poderia ser substituido com vantagem por uma mulher.
«O PSD precisa de pessoas normais», diz Marques Mendes. Público de hoje.
A nomeação de Freitas do Amaral para o MNE corresponde sobretudo a uma lógica política interna. Mas será que faz realmente diferença nomear alguém que se opôs à intervenção no Iraque, e se referiu a Bush nos termos em que ele o fez? Sobretudo, como recorda o Daniel, com a nova doutrina Bolton, e quando, num governo equilibrado (excepto quanto a senhoras), está Luís Amado naquela área em que a cooperação com os EUA é mais importante.
Portugal não tem espaço de manobra para fazer uma grande política movida por alinhamentos ideológicos. Aliás, como se vê no caso de Bush e dos neo-conservadores, mesmo o Estado mais poderoso do Mundo tem grandes dificuldades em conduzir uma política externa nessa base.
A relação com os EUA não deve ser uma vaca sagrada. E a melhor forma de chegar de Lisboa a Washington vai ser cada vez mais via Bruxelas: quanto mais forte for a UE, mais interesse terão as posições portuguesas para os governantes americanos. Sobretudo para um governo como o de Bush que valoriza o poder acima de tudo.
Mas o artigo do Expresso tira conclusões que não fundamenta. Nada no texto permite concluir que Freitas foi mencionado na conversa com Bush. Sócrates aparentemente limitou-se, em resposta a uma chamada da iniciativa do senhor de Washington, a dizer aquilo que qualquer primeiro-ministro de bom-senso diria: continuamos interessados em cooperar com os EUA. O que é isto tem de humilhante?
Suponho que o artigo tenha esgotado a reserva de adjectivos indignados no Público por uns dias. Mas as Mulheres Socialistas esqueceram-se de explicar no meio de tanta indignação como é sendo elas tão competentes elegeram uma lider que qualificam de incompetente. Dito isto, tenho dificuldade em perceber como é alguém como a Maria Carrilho nunca chegou ao governo. Talvez tenha pouca paciência para mandar em homens.
PS – Fico satisfeito de ver o Acidental convertido ao feminismo militante.
Sócrates anunciou hoje uma medida que me parece genericamente acertada: a venda, fora das farmácias, de medicamentos que não necessitem de receita médica.
A Ordem dos Farmacêuticos e a Associação Nacional de Farmácias, no entanto, não concordam. E não concordam porque estão preocupados connosco, simples cidadãos. Apontam o perigo de um consumo excessivo de medicamentos de fácil acesso, bem como a não existência de uma palavra amiga e de conselhos de utilização no acto da compra.
Pessoalmente, agradeço e enternece-me a preocupação e deixo também, em jeito de retribuição, uma palavra carinhosa. Caras OF e ANF, não se incomodem connosco. Vocês dão este passo em falso convictos que nos defendem, mas fiquem sabendo que se conseguirem um preço melhor para a aspirina do que, digamos, os Mosqueteiros da Distribuição, então estão diante de um cliente que não perderão.
Sócrates não esperou a sua nomeação para sossegar a Administração Americana quanto à escolha de Freitas do Amaral para Ministro dos Negócios Estrangeiros. A George Bush não fica mal escolher para embaixador na ONU um homem que insultou a ONU. Mas Portugal é obrigado a dar a George Bush, que deve julgar que Portugal é uma pequena ilha no Altântico onde aviões militares americanos fazem escala, explicações sobre os ministros que escolhe. Mesmo que o ministro em causa tenho sido considerado suficientemente consensual para ser Presidente da Assembleia-Geral da ONU. Fica sempre bem prestar vassalagem. E, como se a humilhação não bastasse, o primeiro-ministro ou alguém por ele passa a informação para os jornais, para que o país saiba que temos um ministro superiormente autenticado.
Durante um tempo, os referendos serviram para fugir das questões. Se se mudar a lei, tal como defende Sócrates, e se permitir que estes aconteçam ao mesmo tempo que processos electivos, passarão a servir para ajudar quem tem maiorias nas suas campanhas. É só recordar o que aconteceu nas últimas eleições americanas, com dezenas de referendos sobre o casamento de homossexuais, que permitiram que Bush não se explicasse, na campanha, a lastimável situação económica em que o país se encontrava. Pouco interessa se não é o caso, com o referendo Europeu. Ao abrir este precedente não faltará maioria que não o aproveite.
Graças a Zeus que o PSD, apesar de ter ficado reduzido a setenta e poucos deputados, ainda teve a generosidade de deixar escapar dois lugarzitos para deputados monárquicos. Um artista de variedades como Nuno da Câmara Pereira é exactamente aquilo que estava a faltar à Assembleia da República. Dinâmico, desempoeirado, inovador. Como exemplo, veja-se esta pequena entrevista ao DN, onde conseguiu defender uma posição absolutamente inédita em mais de vinte anos de debates ad nauseam sobre o aborto. Ei-la: o aborto deve ser absolutamente proibido, mas livre para jovens moças até aos dezoito anos, porque "até à maioridade as jovens devem poder prevaricar". Então, digam lá: é de homem ou não é de homem?
para quem se interessa....de Londres
Só 5% dos portugueses são viciados em sexo.
Creio que a maior parte dos fiéis barnabitas terão lido a excelente entrevista a Manuel Castells (por José Vítor Malheiros e Teresa de Sousa) no Público de ontem [Não precisamos de inventar outra estratégia de Lisboa]. Se não leram, não a percam, porque há ali muita coisa interessante. Dois argumentos, em particular, intersectam com a posta abaixo: Open Source "Uma questão fundamental para a Europa e o mundo" e Patentear o software é destruí-lo.
Independentemente da opinião de cada um sobre a questão das patentes sobre software na UE, aproveito para deixar aqui os linques que um leitor do Barnabé, Rui Tiago Matos, simpaticamente nos enviou há dias. Aqui estão eles, infelizmente em versão minimal, para todos os interessados por este tema fascinante sob diversos pontos de vista: [1], [2], [3], [4], [5] e [6].
Numa posta de ontem, o Daniel comentou o tema da eutanásia através de dois importantes filmes recentes — One Million Dollar Baby, de Clint Eastwood e Mar Adentro, de Alejandro Amenábar —. Uma das reacções imediatas consistiu em dizer-lhe que a vida não é nossa propriedade, e que portanto não cabe a cada um saber quando é que ela deve acabar.
Curiosamente, este tipo de resposta é típico de uma direita conservadora que tem por princípio sacrossanto o respeito absoluto pela — nem mais nem menos — propriedade privada. E é caso para perguntar: se a nossa vida não é a mais privada das propriedades, que outra propriedade privada será tão importante respeitar?
O paradoxo que acabo de enunciar está bem longe de ser um exclusivo nacional, como é evidente. Bush jr. lançou neste segundo mandato a meta de fazer dos EUA uma "sociedade de proprietários" — the ownership society — propondo entre outras medidas a reforma da Segurança Social por troca com porta-fólios de acções de empresas cotadas em bolsa pela população em geral. E este editorial da AlterNet (a que cheguei via Political Theory Daily Review) nota como esse é um tipo de propriedade trivial, sem o tipo de direitos e responsabilidades de que se usufrui quando se é verdadeiramente proprietário, expondo de forma impecável como todo o programa de Bush assenta na completa e escandalosa inversão do que é "privado" e do que significa "propriedade", — termo que tanto em português como inglês nasce daquilo que nós é "próprio".
Bush e os nossos conservadores opõem-se ao uso de marijuana para usos médicos, à eutanásia e ao casamento homossexual, só para dar três exemplos. Ou seja, a nossa necessidade de aliviar a dor, a nossa vida e a nossa intimidade não nos pertencem. Mas curiosamente, Bush também se opõe a entravar o uso de dados pessoais por parte das empresas, além de propor extensões do uso das patentes e dos direitos de autor que permitirão a muitas companhias "ter" coisas que não inventaram. As coisas que fazemos, gostamos ou compramos podem ser vendidas de empresa a empresa, e certas frases que usamos pode não ser "nossas". De quem é a vida afinal?
Vale a pena ler o texto integral, que é curto e lapidar. Ficam duas frases-chave:
[Bush] acredita firmemente que não somos proprietários daquele tipo de coisas que a maior parte de nós consideraria como indisputavelmente próprias — os nossos corpos, a nossa privacidade, a nossa dignidade, as nossas camas. E, acrescentando a injúria ao insulto, acredita de forma igualmente firme que podemos ser proprietários do tipo de coisas que a maior parte de nós defenderia que não são propriedade sua — ar, palavras, folclore. […] Na "sociedade de proprietários" de George W. Bush, uma pessoa afligida por uma dor debilitante não "possui" o direito de se dirigir ao seu quintal e comer uma planta que lhe alivie a dor. Mas uma não-pessoa — uma companhia — como a MacDonalds "possui" o direito sobre frases como "jogos e brincadeiras para todos" ou "pode acontecer".
Não, não é uma revolução, é só o último disco de uma das melhores e mais discretas bandas que nos calhou em sorte. «Oceans apart», dos Go-Betweens, sai a 25 de Abril.

Pat Oliphant, uComics Website.
O Médio Oriente está à beira de se democratizar? Muitos parecem acreditar que sim. Mas curiosamente os mesmos argumentos surgiram a seguir a 1991, com os resultados conhecidos. Penso que se isso nos deve moderar o entusiasmo, no entanto, hoje as coisas são diferentes para melhor, temos a internet e TV por satélite, temos manifs! Há o exemplo da Turquia, e em menor medida de Marrocos, da Jordânia, da Indonésia. Há o exemplo mesmo do Iraque – a história não é linear e de um erro podem resultar coisas boas, especialmente depois de Washington ter sido forcado por Sistani e pela ONU a corrigir parte desse erro e aceitar eleições bem mais cedo do que tinha previsto.
Alguns ditadores parecem ter percebido que democratizar pode ser a melhor defesa face aos EUA. Muitos locais perceberam que o statu quo não é intocável. E todos temem um resvalar para o caos se algo não mudar. A verdade é que quer o Egipto quer o Irão são Estados com longas ainda que imperfeitas tradições parlamentares e constitucionais, e mesmo os ditadores nunca as aboliram completamente. O falhanço, quer dos regimes estatistas e repressivos, quer das promessas islamistas, parecem agora ter dado força a um movimento liberalizador ferozmente reformista mas pacífico, e cada vez mais popular e organizado. Muitos perguntam, porque não nós?
Mas os obstáculos são grandes e os avanços serão necessariamente frágeis.
Por exemplo, economias muito fechadas e ainda muito controladas pelo Estado. O peso da polícia e do exército é enorme. A falta, em boa parte da zona, de uma imprensa realmente livre leva a que florescem todo o tipo de boatos e teorias da conspiração. E quer o poder quer os islamistas e outros radicais podem usar o argumento nacionalista contra os moderados graças ao apoio incondicional dos EUA a Israel, e aos erros cometidos no Iraque e um pouco por todo o lado. Sobretudo, contrariamente ao mito trostkista dos neo-conservadores de que a violência resolve radicalmente o problema, convém reconhecer que ela pode simplesmente gerar mais radicalismo e violência. As transições ou as revoluções são coisas complicadas em todo o lado. Nada mais fácil do que sair-se de uma ditadura para se cair noutra: um homem, um voto, uma vez.
A Europa pode ter aqui um papel essencial e mais activo, condicionando mais a sua ajuda ao evoluir das reformas, e insistindo que uma parte crescente seja direccionada para fontes não estatais. Os EUA o melhor que podem fazer é não fazer nada. Ou mais exactamente concentrar-se em apoiar Sharon e empurrá-lo o mais possivel para fora das zonas palestinas, assim como empurrar a Síria para fora do Líbano (aonde se manteve com o apoio da Washington), e naturalmente criar condições para as tropas norte-americanas sairem o mais depressa possivel do Iraque. Seria a melhor maneira de retirar argumentos aos inimigos da democracia na zona.
Por outro lado, Luís Delgado anda em baixo. Ele precisa de um chefe, de um czar, de um führer e de um messias, tudo em simultâneo. E, embora continue a ser amigo do Pedro, o Pedro desiludiu-o. Não tem estofo de ganhador, é frouxo, desajeitado. Quem, então, poderá preencher-lhe aquele vazio de afecto e autoridade?
Bem, ele sabe que é ridículo, mas... e porque não José Mourinho?
Bernardino Machado costumvaa dizer que tinha uma fraqueza: ser presidente. Se o convidassem para presidente de freguesia, ele aceitava. Foi presidente da república.
Bernardino ao menos reconhecia a sua "doença" e ironizava com ela. Santana Lopes não consegue fazer nenhuma das coisas. Tem a mesma doença, mas numa estirpe virulentíssima. Todo o cuidado é pouco.
Tal como prometido, aqui vai um dos textos da minha coluna do último sábado no “Expresso”. O segundo está no post em baixo.
A protegida de Frankie, Maggie Fitzgerald, que vive em agonia numa cama de hospital, quer que ele ponha fim àquilo. Quer morrer como viveu: sem depender de ninguém. Quer ficar com o melhor das suas memórias. Frankie pergunta a um padre o que fazer e recebe a mesma resposta resignada de sempre: que deixe nas mãos de Deus. Frankie responde: «Não foi a Deus que ela pediu a ajuda. Foi a mim.»
Ramón Sampedro, tal como Maggie, é tetraplégico. Viveu 28 anos deitado numa cama. As memórias de uma vida foram-se perdendo e, de repente, para ver mar era preciso fechar os olhos. Como ela, quer ser ele a decidir a vida que não quer ter. Ramón pede ajuda ao Estado que lhe dá a mesma resposta burocrática de sempre: quem o ajudar será um criminoso.
Não se trata de saber se um tetraplégico pode ou não ser feliz. Não sou tetraplégico e sei muito pouco sobre a felicidade dos outros. Sei apenas que a nossa vida não é propriedade colectiva. Que só há liberdade quando somos, o mais que podermos, donos do nosso destino. E, acima de todas as liberdades na vida, a mais pessoal e indiscutível é a de decidir não viver. Quando a propriedade privada se transformou num valor tão sagrado que em nome dela todas as misérias são hoje toleráveis, a única propriedade que realmente conta, a da nossa vida, parece continuar a ser um bem colectivo.
“Million Dollar Baby” e “Mar Adentro” dizem-nos o mesmo: o mais incondicional dos amores é o que deixa o outro partir. E enquanto a Igreja e o Estado quiserem regular o amor só podemos esperar o pior. É como diz a cunhada de Ramón, em resposta a um padre virtuoso: «não sei se a vida é nossa ou de Deus, só sei que você tem uma boca muito grande».
E é este o segundo texto publicado no "Expresso", na minha coluna de sábado.
Todos contra todos, com proveito, como sempre, para alguns. É esta a história do Líbano, marcada, nos últimos 30 anos, pela guerra civil, as ocupações militares estrangeiras e a proximidade explosiva de Israel.
Os sunitas, muçulmanos, foram sempre preteridos pelos colonos franceses em benefício dos maronitas, cristãos. Até aos acordos de Taif, em 1990, onde se fez a mais estúpida divisão de poderes por etnias que alguém alguma vez imaginou. A partir daí, os maronitas perderam influência. A pequena minoria drusa, defensora de um Estado laico, foi sempre relegada para um papel secundário. Os xiitas, que hoje devem ser uma maioria, continuam a ser tratados como minoria.
Franceses, americanos, israelitas e sírios foram apoiando uns e outros, dividindo para reinar. Ao apoio do presidente sírio Al-Assad à primeira Guerra do Golfo, os “aliados” ocidentais responderam com uma conveniente benevolência perante a progressiva ocupação do Líbano. Uma mão lava a outra, é esta a história do Médio Oriente.
O assassinato do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri, homem em nada diferente dos restantes líderes árabes, levantou uma justa onda de indignação nacional. A contestação à Síria que daí nasceu transformou-se num salutar movimento pela independência libanesa. Mas, mais uma vez, o Ocidente aproveita o momento. O Líbano, esquecido até há pouco, passou a comover consciências. Exactamente desde o dia em que George Bush escolheu a Síria como inimiga do Mundo Livre. Há muito que o terreno estava a ser preparado nos corredores de Washington. E quando Hariri é morto ninguém espera por certezas para apontar o dedo a Damasco.
A retirada das tropas sírias é um imperativo democrático. Mas atirar gasolina para a fogueira, acordando o fantasma da guerra civil, pode transformar um movimento democrático num simples instrumento de interesses que, mais uma vez, nada têm a ver com o Líbano. Como sempre, Beirute é apenas uma escala para viagens bem mais importantes. Destino: Damasco.
Ela chama-se Bebe e está a dar muitíssimo que falar no país ao lado. Tem um disco incrível chamado Pafuera Telarañas e uma canção chamada Malo com um verso assim:
"Cada vez que me dices puta, se hace tu cerebro más pequeño"
Aqui.
Ou roubem da Internet, evidentemente.

Ainda vamos a tempo de assinalar o Dia da Mulher, lamentando o facto de, apesar de a comemoração se ter consensualizado, existir hoje em dia uma enorme (e injusta) resistência em relação ao feminismo. Porque não é preciso ser mulher para se ser feminista, porque nunca é exactamente fácil mas é sempre necessário ter a coragem de se ser feminista, roubo para aqui este lema do Renas e Veados, um dos blogues que hoje fez uma melhor comemoração do Dia da Mulher.
Ao blogue Pensamentos Ocasionais por ter organizado uma votação de blogues selecionados e arrumados em categorias. O Barnabé ganhou o prémio de Melhor Blogue de Crítica Política e Social. As votações e vencedores em todas as categorias estão aqui.
Revista Mariana: José Castelo Branco fala sobre o seu sucesso: "são uns invejosos".
Secretário-Geral da ONU pede ao Conselho de Segurança que “actue rapidamente” para fazer face à “terrível situação” que continua a atingir o Darfur, no Sudão.
Luís Filipe Menezes acusa Freitas do Amaral de ser anti-ocidental, pró-fundamentalista e radical.
Estava eu no aeroporto de Chicago, pacientemente esperando pelo voo que me traria de regresso ao Velho Continente, quando vejo na CNN a Senhorita Rice a nomear John Bolton para embaixador na ONU. Pensei que era o cansaço que me estava a fazer delirar! Mas nada disso, o bigode mais neoconservador da América estava ali para provar que com Bush tudo continua a ser possivel!
Nem vou gastar muito do meu latim a comentar (ainda estou a recuperar do jet-lag). Bastam algumas palavras do dito senhor num famoso discurso em 1994 em que afirmou: "there is no such thing as the United Nations." Ou "If the U.N. secretary building in New York lost 10 stories, it wouldn't make a bit of difference."
Este radical, mesmo entre os neoconservadores, defendeu que apenas os EUA deviam ter direito a veto na ONU, mas que nada os obrigava a pagar as dividas acumuladas anos a fio face à dita! E escolheu como o momento mais feliz da sua carreira no Departamento de Estado a retirada dos EUA do Tribunal Penal Internacional. Bem reveladora da sua noção muito peculiar de diplomacia é a sua frase: "I don't do carrots." Com ele só mesmo paus...
Mas pode ser que mesmo Bolton acabe por se converter. E certamente que a ONU, ou algo parecido e esperemos que melhor, ainda estará por cá muito depois do pitoresco Bolton ter desaparecido. Em suma, uma piada de mau gosto mas bem reveladora.
...quem te perdeu foi aquela Edite Estrela.

R. Crumb, Short History of America [clique para aumentar].
Entravado por medonhos prazos que pendem como morcegos babosos sobre a minha cabeça, não tenho barnabeado tanto como desejaria. Mas aproveito para fazer umas sugestões de textos que espero dêem tanto prazer aos fiéis barnabitas como me deram a mim. Ficam aqui e depois transitam para o Barnabé Rebelo de Sousa.
Em primeiro lugar, um substancial artigo de Perry Anderson, na New Left Review, sobre John Rawls, Jürgen Habermas e Norberto Bobbio e as posições destes três filósofos da Liga dos Campeões do século XX sobre as intervenções militares das democracias liberais em países terceiros. Como seria de esperar, a coisa desemboca no Iraque, e coisa seria de esperar também, as conclusões não deixam de ser partidárias, uma vez que o autor acaba puxando a orelhas aos três grandes pensadores por não serem mais exigentes com as desculpas mal-amanhadas dos EUA para justificar as suas intervenções. Mas desta vez a questão nem é essa; é muito mais que o texto está bem resumido e articulado, e escrito de uma maneira que até parece fácil. Para quem gosta de refeições politico-filosoficamente robustas, aqui está uma jantarada de sopa de feijão vermelho e carne assada com batatas no forno. Aconselha-se a versão em PDF, que é tipograficamente bem aformosada, e dá uma hora e meia de leitura atenta.
Para os desconfiados que já estão para aí a bufar que eu não digo que o Perry Anderson é uma velha raposa marxista, e que a New Left Review é pedante, e que nunca houve intervenção americana a que ele não torcesse o nariz, tomem lá este comentário como digestivo. Diz isso tudo que queríeis ouvir, e ainda traz mais uma discussão de bónus.
Em segundo lugar, depois de tão sisudas reflexões apetece a um gajo espojar-se em cultura popular e tirar os nacos de comida dos dentes com as unhas. Aconselho então este dossier especial do The Guardian sobre Robert Crumb, o virtuoso autor de banda-desenhada que é um autêntico herói da contra-cultura americana. Tem entrevistas, reportagens, críticas, depoimentos (desde logo um do próprio cartunista do Guardian, Steve Bell) e pelos vistos é coisa para ir sendo aumentada. Gostei especialmente da descrição da casa de Robert e Aline Crumb (também autora de banda desenhada) no Sul de França, uma sucessão de quartos desarrumados com caixas de banjos e milhares de discos de 78 rotações por todo o lado, com uma capela que o casal dedicou expressamente à sua filha (também autora de banda desenhada mas que vive nos EUA). Excelente também a conversa sobre a bunda de Serena Williams e todo o esforço que Crumb empenhou para conseguir deixar de ser o "cartunista mais querido dos americanos" (um grande exagero) dedicando-se a fazer desenhos cada vez mais tarados na esperança de que o pessoal se cansasse.
Já agora: "uma coisa de cada vez, tudo ao mesmo tempo agora" vem de uma música dos Titãs.
Espero que vos agrade. Não é a mesma coisa do que escrever posts correntes no Barnabé. Mas seja como for, acho que as sugestões cobrem mais ou menos o nosso campo de interesses, não é?
Nota: havia um problema com o link do dossier Crumb que já foi resolvido. Então bom proveito.
«Essa dialética entre um mundo estruturado e um outro atomizado foi um processo que o próprio unilateralismo dos Estados Unidos agravou porque essa atitude contribuiu para o enfraquecimento de muitas das instituições que foram o centro do concerto das nações.» Adriano Moreira, Público, RTP, Rádio Renascença.
Como todos os fiéis discípulos, José Manuel Fernandes tem uma grande vantagem em relação aos seus gurus: com excesso de zelo, diz o que eles pensam e ainda não se atrevem a dizer.
A taxa progressiva é o que permite dar aos impostos um papel que eles antes de qualquer ideia de justiça social não tinham: o da redistribuição da riqueza. É o que dá conteúdo prático, por via dos impostos, à solidariedade social. O resto, é quase só conversa de caridade.
É agora claro que o leste europeu foi transformado no cavalo de Tróia para acabar «com todos os tabus»: o das 40 horas semanais de trabalho, o das férias garantidas, o do salário mínimo, o da segurança social pública, o da saúde pública, o da educação pública.
Depois de anos de ditadura e sem hábitos de contestação democrática, dia após dia, no Leste da Europa, experimenta-se o que na realidade tem séculos de história: a selvajaria social.
Perante esta importação da regressão social, o combate político só faz sentido à escala europeia. A Europa é um dos poucos pólos internacionais com condições para travar este regresso ao passado. Por isso, para a esquerda, o anti-europeismo é, antes de mais, estúpido.
As visões soberanistas ou as cláusulas de salvaguarda, defendidas pelo PCP, não resolvem coisa nenhuma. Deste nacionalismo comunista resultam, aliás, algumas posições esquizofrénicas: ao mesmo tempo que apoia o regime chinês, responsável pela exploração da mão de obra barata, o PCP grita contra a concorrência dos têxteis chineses.
Mas não incluo no anti-europeísmo apenas o nacionalismo comunista. Também a obediência a que os socialistas se têm obrigado, aceitando tudo em troca de uma ideia de Europa sem conteúdo ideológico, está a matar o modelo social europeu. O principal problema da esquerda comunista e "social-democrata", hoje, é não ter um projecto alternativo para a Europa. Uns rejeitam a Europa, dispensando assim o melhor instrumento de combate social que têm à mão. Outros confudem a Europa com as políticas que hoje a comandam, aliando-se a quem quer destruir na Europa o que a na Europa há de melhor: solidariedade social, Estado-Providência, diversidade cultural e cosmopolitismo.
A Europa é o único lugar onde se pode travar este gigantesco processo de regressão social. E, antes de mais, o maior perigo vem desse laboratório em que se transformou a Europa do Leste e do Centro, a que Bush chamou de Nova Europa. O que tem de novo é, na realidade, o que não tem: não tem força sindical, não tem sociedade civil organizada, não tem capacidade de resistência política, não tem imprensa independente e sustentada, não tem uma cultura de separação entre interesses do Estado e das empresas privadas. Quase meio século de ditaduras comunistas deixaram marcas bem úteis ao mais selvagem dos capitalismos. É ali que a esquerda tem de encontrar aliados, porque é ali que, na Europa, tudo se perderá ou ganhará. Um exemplo deu-o José Manuel Fernandes: o fim do papel redistributivo dos impostos.
Paulo Portas diz que vai enviar o retrato de Freitas do Amaral, que estava até agora no Largo do Caldas, para o Largo do Rato. Suponho que já enviou o de Lucas Pires para a Santana à Lapa e o de Manuel Monteiro para o Porto. Um partido sem passado, sem futuro e sem presente, assim deixa Portas o CDS.
José Sócrates, debate com Santana Lopes
Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005
Depois de Campos e Cunha se ter pronunciado sobre a “quase inevitabilidade de aumentar os impostos a médio prazo”, os canais televisivos estavam ontem cheios de comentadores a elogiar a seriedade da medida. Unanimidade que se repetia na negação de qualquer contradição entre as palavras do futuro ministro das Finanças e as promessas eleitorais de José Sócrates.
Ou porque José Sócrates foi ambíguo, não se comprometendo com nenhuma solução nessa matéria, como disse ontem na RTP2 Miguel Coutinho, director do Diário de Notícias, ou, para seguir as palavras do "Público" ou de Vital Moreira, que o futuro primeiro-ministro só se tinha comprometido a não aumentar o IVA, nada dizendo sobre os restantes impostos.
Leitor assíduo da transcrição integral do debate entre Sócrates e Santana (há gente para tudo...), o Barnabé Rebelo de Sousa logo nos informou que as coisas não tinham sido bem assim. Nem só Sócrates, por uma e única vez, não foi nada ambíguo, como nem sequer falou falou do IVA - a não ser para criticar a política seguida por Durão Barroso.
Aqui fica, então, a transcrição da resposta de José Sócrates, no frente-a-frente com Santana Lopes, quando questionado sobre a politica fiscal do seu governo.
Eu não estou de acordo que se baixem os impostos por essas duas razões. Porque isso destabiliza ainda mais as finanças públicas e porque isso é uma ameaça ao bom funcionamento e à qualidade dos serviços públicos em Portugal. Mas também não estou de acordo com a subida de impostos, não estou. Porque isso também já foi uma receita do passado. Isso já foi feito no passado e não produziu bons resultados. Eu não acho que os problemas das contas públicas em Portugal se possam fazer à custa da Economia, fazendo lançar impostos. Neste momento, no meu ponto de vista, criaria ainda condições para um arrefecimento ainda maior da economia portuguesa. Ora eu acho que esse não é o caminho. O caminho é o caminho do crescimento, da aposta no crescimento, porque só a aposta no crescimento pode fazer com que possamos resolver o problema das finanças públicas, combater o desemprego e também combater as injustiças sociais. "
José Sócrates, 3 de Fevereiro de 2005
A jornalista italiana raptada sobreviveu aos raptores e foi solta pelos serviços de segurança italianos. Tarefa bem mais difícil para ela e para os agentes que a libertaram foi sobreviver aos soldados americanos. Valeu-lhe a prontidão de um agente que, para a salvar. perdeu a vida.
O cavaleiro solitário parte, mas um dia regressará. O último que atravessou o deserto americano, Durão Barroso, regressou para ser Primeiro-Ministro. Por mim, acho que Portas não devia sair de território pátrio para ficar debaixo dos nossos olhos vigilantes.
Aqui e no programa "Eixo do Mal" cometi uma injustiça com Mário Lino, o novo ministro das Obras Públicas, ao afirmar que participou no processo de privatização das águas quando, na realidade, ajudou a travar o projecto de Durão Barroso. Fica aqui a correcção. No programa espero poder fazer o mesmo. Quanto ao novo ministro das Finanças, nem precisei de esperar um dia para ver confirmados todos os meus temores. E este é, não preciso de dizer, o ministério que mais conta para os próximos quatro anos.
Campos e Cunha diz que subida de impostos é praticamente inevitável
A partir de hoje as caixas de comentário do Barnabé têm um bannerzito de publicidade. Não se trata de publicidade do Barnabé, contudo — mas da própria weblog.com.pt, no seguimento de um pedido do Paulo Querido a que acedemos com prazer, tal como ele tem sido inexcedível na hospitalidade com que recebe o Barnabé e centenas de outros blogues nacionais. Desta forma colaboramos na viabilização do projecto weblog.com.pt, para o qual se destinam os eventuais proventos desta publicidade.
Miguel Matos Chaves agarra Pole Position.
A Síria tem que abandonar imediatamente o Líbano. O Líbano é uma democracia e nós apoiamos firmemente todas as democracias. Foi com agrado que vi que o príncipe herdeiro da Arábia Saudita enviou a mesma mensagem.
George Bush, 3 de Março
Para as Obras Públicas o homem que ajudou a tratar da privatização da água.
Para a Saúde o homem que ajudou a tratar da privatização da gestão hospitalar.
Para as finanças um ortodoxo do déficit zero e do Pacto de Estabilidade.
Para a Cultura uma mulher de esquerda mas sem qualquer peso político.
Para a Segurança Social, uma boa escolha.
Para os Negócios Estrangeiros, alguém que mostra que nesta matéria, para o PS, não há nem direita nem esquerda, somos todos do centro.
Para a Presidência do Conselho de Ministros, a Defesa, o Ensino Superior (que continua separado do seu parente pobre), Segurança Social e Saúde, Sócrates é o que prometeu: Guterres mais pobre.
A esquerda do PS ficou praticamente de fora deste governo.
Freitas acaba a sua carreira política como ministro de Sócrates, atrás de António Costa. A esquerda deu-lhe pouco no fim de tão longa viagem.
Gama vai para a Presidência da Assembleia da República, antes de se retirar.
Vitorino fica guardado ou para a Presidência ou para nada.
Disse várias vezes durante a campanha que tinha esperanças de que José Sócrates viesse a ser melhor primeiro-ministro do que líder da oposição ou candidato. Esperanças não são certezas, mas hoje tive a primeira desilusão.
Primeiro, as boas notícias: José Lello não é ministro, tal como Jorge Coelho. Mariano Gago voltou à Ciência e Tecnologia, agora com o Ensino Superior. Podem dizer-me que Correia de Campos não será o ministro da saúde mais à esquerda, mas tenho dele a melhor das ideias em termos de exigência, inteligência e honestidade. Temos o regresso de António Costa — nada mau. Mas depois temos incógnitas e funcionários políticos. Podemos ficar horas a fazer de conta que conhecemos perfeitamente o CV de Manuel Pinho ou a competência de Campos e Cunha, mas para já — e esperemos que mude — não são os nomes que poderiam reconfortar um país em estado de crise crónica.
Independentes respeitados na sociedade, temos um — que merece um parágrafo só para ele. Devo dizer que não é o facto Freitas do Amaral vir do centro-direita que me incomoda na sua escolha para Ministro dos Negócios Estrangeiros. Se formos por aí, prefiro um centro-direita consequente do que a esquerda-mole que costuma ser apanágio do PS — e não me esqueço de que Freitas foi mais rápido e convicto a opôr-se à Guerra do Iraque do que o "esquerdista" Ferro Rodrigues. Desse ponto de vista, tudo bem. Mas o problema não está aí. Se Sócrates queria independentes de peso porque só escolheu este? E se Freitas queria de novo servir o país porque não fazê-lo numa pasta difícil mas vital e onde a credibilidade de um independente com o CV de Freitas seria uma garantia e uma alavanca (refiro-me nomeadamente à Justiça)? O cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros com a dignidade de Estado é o paraíso do governante e será interpretado pela oposição e por um número crescente do eleitorado (principalmente quando o ressentimento aumentar — e aumenta sempre) como um pagamento pelo útil apoio de Freitas ao PS em plena campanha. É um péssimo princípio, sobretudo na fase actual do país, e um preço alto a pagar em credibilidade por um ministério onde não faltavam boas alternativas.
Finalmente, as mulheres. Tenho vindo a dar cada vez mais importância a este sinal, porque é de um sinal que se trata e da vontade ou não que um governo tem em dar esse sinal. Aqui ao lado, Zapatero escolheu dar esse sinal e tem um governo paritário. E é com um enorme espanto que eu vejo que Sócrates escolheu apenas duas mulheres. Pior do que Durão, menos que Santana. Nem pode escapar ao observador atento que ocupam as mesmas pastas que ocupavam no governo Santana, a Cultura e a Educação. Serão porventura áreas cativas "femininas"? Não pode haver mulheres nas Obras Públicas, no Ministério da Presidência ou na Administração Interna? Nenhuma é ministra de Estado. O facto de em todo o Governo haver apenas duas mulheres sem peso político individual na Cultura e na Educação não faz senão confirmar os piores estereótipos de subalternização tanto das mulheres como dessas áreas governativas.
Enfim. Como é um governo mais curtinho esperemos pelos secretários de Estado, que vão ser bem importantes, e esperemos principalmente pela acção. Mas já me parece que, com uma maioria absoluta e todas as condições, Sócrates não vai ser nenhum Zapatero (que por sua vez não tem maioria absoluta nem todas as condições, mas governa sem complexos e tem feito um trabalho de modernização da Espanha que nos vai deixar aqui acantonados nos nossos atavismos).
Nada como ver Carlos Magno dizer que este governo vai ser alvo de críticas à direita e à esquerda para ganhar um pouco de esperança. E há que reconhecer que temos razões para ter esperança:
-a tralha não regressa. Nem Pina Moura, nem Lello, nem Carrilho.
- Mariano Gago, Augusto Santos Silva e António Costa fazem parte do governo. Vieira da Silva na Segurança social é um sinal de que não vem aí mais do mesmo nesta matéria.
- Freitas do Amaral,que foi contra aguerra do Iraque, um dos políticos mais experientes e independentes da democracia portuguesa vai dar um contributo a um governo de salvação nacional. Boa moeda.
- Vitorino ou é candidato à presidência, o que é uma muito boa notícia, ou francamente eu não consigo perceber o que vai naquela cabecinha loira.
Primeiro-ministro, José Sócrates.
Ministro de Estado e da Administração Interna, António Costa.
Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Diogo Freitas do Amaral.
Ministro de Estado e das Finanças, Luís Campos Cunha.
Ministro da Defesa, Luís Amado.
Ministro da Economia, Manuel Pinho.
Ministro do Trabalho e da Segurança Social, Vieira da Silva.
Ministro da Justiça, Alberto Costa.
Ministro da Saúde, Correia de Campos.
Ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e das Pescas, Jaime Silva.
Ministro das Obras Públicas, Mário Lino.
Ministro da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.
Ministro do Ensino Superior e Ciência, Mariano Gago.
Ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira.
Ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva.
Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima.
Ministro do Ambiente, Francisco Nunes Correia.
Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Jorge Lacão.

Nota mental: não fazer piadas sobre Augusto Pinochet. Tem 89 anos e está doente.
Para além disso, recebeu comunhão do próprio João Paulo II, aquando da visita deste ao Chile em 1987, pela sua rectidão religiosa. Isto tem de querer dizer qualquer coisa para além, claro, do facto do cânone 915 do Código de Direito Canónico não proibir que a comunhão seja dada a assassinos. Bem, assassino de milhares de pessoas sim, mas... de certeza que não eram inocentes! Às tantas eram comunistas! Ou ainda pior, talvez casados pelo registo?
Nota: ausento-me agora por uns dias mas não queria ir sem deixar aqui algo com que os verdadeiros democratas da nação se pudessem entreter

está impedido de dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles visitantes que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, promover ou principalmente praticar sexo sem prazer para fins meramente reprodutivos
O respeito pelo culto e pela reverência devida a Deus e aos Santos deste culto obrigará cada fiel à revisão da sua consciência e à abstenção de tomar parte na comunhão bloguística. Convida-se a todos os fiéis que apenas pratiquem sexo para fins reprodutivos e sem prazer que se abstenham de receber digna e frutuosamente os textos de Barnabé sobre matérias religiosas.
A reversio, o blogue Barnabé reconhecerá naqueles que recebam os mesmos textos sobre matérias religiosas de forma sisuda e até agressiva os inequívocos sinais de culpa de quem não pratica sexo com o referido prazer para os ditos fins não-reprodutivos com as inevitáveis e funestas consequências para o raciocínio e a sensibilidade que o público em geral conhece.
Ad maiorem gloriam Barnabei
a)_________________________
Pe Rui Tavares
Um jornalista da SIC foi assaltado no Brasil, com outros portugueses, e há dois dias que o jornalista e a sua estação fazem disto assunto nacional.
Rui Sá, actual vereador da CDU na Câmara do Porto e que há três anos que viabiliza o executivo minoritário do PSD, não fecha a porta a uma coligação com o PS, mas sublinha que, antes de discutir alianças, importa saber «qual é o programa de esquerda que o PS tem para a cidade do Porto».
Andei sem tempo e nem cumpri uma promessa que tinha feito há muito: a de publicar aqui, a meio da semana, os meus textos do Expresso do fim-de-semana. Começarei a fazer isso, sem falta, na próxima semana. E para redimir-me, publico no link em baixo os meus textos escritos, ao longo destas semanas, no “Expresso”. Para quem tiver paciência.
8 de Janeiro
A coisa
Ele quer mobilizar Portugal. Quer que o País olhe para o futuro. Que os portugueses acreditem no futuro. Que tenham a esperança que tanto tem faltado. Ele não é do contra. Aliás esse é um dos aspectos negativos na vida política portuguesa que ele vai mudar. Este hábito de, quando se chega ao governo, destruir tudo o que foi feito.
Ele não deixa espaço para dúvidas. Garante que haverá sentido de Estado, diálogo, responsabilidade e ponderação como se exige a um primeiro-ministro.
Ele tem um projecto. Um projecto ambicioso e, no entanto, responsável e realista. Um projecto que vai mobilizar o país. Um projecto inovador. Que dará a Portugal um desígnio. Ele está convicto de que acreditando, fazendo as apostas certas, Portugal pode ser uma nação moderna e preparada para os grandes desafios do Século XXI.
Por mim, estou mobilizado. Tenho esperança e olho para o futuro com optimismo. Com José Sócrates, eu acredito. Só me falta conhecer alguns pormenores. Nada de especialmente relevante. O que é que José Sócrates pensa sobre qualquer coisa? Não sou esquisito, qualquer coisa serve. Qualquer uma.
A forma está encontrada. Falta só saber se tem algum conteúdo.
A coisa, só nos falta a coisa.
O prisioneiro
Amanhã, a Palestina vai a votos. Esperar destas eleições uma mudança substancial para o Médio Oriente não é apenas uma ingenuidade. É má-fé. A Palestina não é nem será uma democracia plena porque as democracias exigem estados viáveis e autónomos. Pedir à Palestina democracia e controlo da segurança é o mesmo que pedir a um prisioneiro que guarde a sua prisão.
Por agora, a Palestina ainda será o que Israel quiser que a Palestina seja. Israel, que goza de um estranho estatuto de excepção na comunidade internacional, tem tornado aquele território ingovernável. Não há democracia dentro de muros. Dentro de muros só pode haver caos, violência e corrupção. E só quando Israel compreender – ou a comunidade internacional obrigar Israel a compreender – que viverá melhor com uma Palestina livre e viável é que poderá encontrar, em conjunto com o lado de lá do Muro, a paz. O seu futuro está preso às gigantescas prisões que são a hoje a Cisjordânia e Gaza.
Uma mais do que improvável vitória de Mustafa Barghouti, primo de um outro Barghouti mais conhecido, e defensor de uma terceira via de desobediência civil não armada e de combate à corrupção, seria a melhor notícia para a Palestina. Mas nem tamanha surpresa faria esquecer as demolições, as execuções e a humilhação diária dos checkpoints. Por enquanto, a democracia na Palestina está nas mãos do seu carrasco.
Breves
Mau ambiente no balneário. O PS ia galvanizado para a partida no Estádio do Dragão, contando com o decisivo Pinto da Costa. O PSD reforçou o seu plantel, e fez entrar Pôncio Monteiro para o 11 inicial. Ainda o jogo estava nos primeiros minutos e já Pôncio, numa entrada por trás, derrubava o capitão da sua própria equipa. O treinador manda Pôncio para o balneário. Mau prenúncio para a equipa laranja.
Um queijo real. Se o PS não tiver maioria absoluta, haverá sempre a possibilidade de negociar com os quatro deputados do PPM e MPT. Parece piada? E se alguém tivesse falado, há cinco anos, de Daniel Campelo, o que pareceria?
Quem quer casar com a carochinha? Manuel Monteiro está disponível para viabilizar um orçamento do PS ou um orçamento do PSD.
Portugal, o salão de festas da Europa. Para diminuir o deficit, o Estádio de Leiria vai aceitar casamentos e baptizados.
Que mil guantanamos floresçam. A imprensa diz que os suspeitos de terrorismo sem culpa formada podem passar o resto das suas vidas em centros de detenção, vigiados pelas autoridades norte-americanas.
Um amor com direitos de autor. Yoko Ono proibiu a inclusão de “Yestarday” na colectânea “Paul McCartney Love Songs”
15 de Janeiro
O mergulho
Já nem é tanto o caso do mergulho. É a novela mexicana que, com este governo, se segue a cada caso. Um ministro vai entregar uns auscultadores usados à televisão de São Tomé. Para tão parca entrega aluga um Falcon e faz uma paragem num ilhéu paradisíaco. Depois, para se explicar, garante que foi tratar do negócio do ano para a Galp. O ministro da Galp diz que não sabe de nada. O Ministério do ministro diz que se esqueceu de avisar o ministro que outro ministro andava a tratar dos seus negócios. A Galp vem em defesa da história e informa que, no mergulho ministerial, esteve um quadro da administração da empresa. Dá-se a coincidência do referido quadro ser primo direito de Sarmento. O Mundo é, de facto, pequeno.
No meio da confusão, o pleonástico ministro ameaça demitir-se de um governo demissionário. Fica-nos a dúvida: como é que o que caiu cai da sua própria queda? Mas o que Sarmento queria, e conseguiu, era obrigar Santana a engolir o seu incómodo e mostrar que na relação com o chefe quem manda é o empregado. Sendo a derrota mais que certa, estas são as primárias para ver quem perde menos. É bom que Santana se habitue a esta ideia: até às eleições não conta com um único amigo.
Lembro-me de Morais Sarmento dizer que o magro orçamento do programa “Acontece” daria para pagar uma volta ao Mundo a cada espectador. Suponho que o ministro esteja agora a cobrar o seu quinhão. Se é esse o caso, reservo já o meu destino: qualquer república caribenha me serve. Os costumes são os mesmos, o clima mais agradável.
Um tsunami xiita
Aproximam-se as eleições no Iraque. Para o Ocidente é um descanso. Há eleições. Se há eleições há democracia. Se há democracia a invasão valeu a pena.
Já não falo da completa ausência de condições de segurança. Já não falo do facto de os candidatos abaixo dos cabeças de lista serem clandestinos. Já não falo do boicote sunita que tornará estas eleições num plebiscito à lista xiita, abençoada pelo líder religioso Sistani. Fico-me pelo sistema eleitoral.
No Iraque há enormes diferenças regionais que, em grande parte dos casos, coincidem com diferenças religiosas e étnicas. A Sul, xiitas. A norte, curdos. No meio, a minoria sunita que dirigiu o país durante décadas e que corre agora risco de ser varrida por um tsunami xiita. A bem da paz futura, tudo aconselhava uma solução federal que garantisse uma representação proporcional de cada província, fosse qual fosse a afluência às urnas em cada uma delas, dependente de precárias condições de segurança.
Mas os EUA decidiram-se pelo extremo oposto: um circulo eleitoral único. Resultado: os curdos, para aumentarem a sua representação, fizeram uma lista única, que não representa a diversidade política que se exige em democracia. Os xiitas fizeram o mesmo e vão limpar as eleições. Os sunitas, pelo contrário, preparam-se para um boicote livre ou forçado que os atira para fora do sistema.
Para compensar, os sunitas podem vir a ganhar uma quota de 25% no novo Parlamento. A emenda à libanesa é pior do que o soneto. Em vez de uma solução federal, que dê espaço para transferências graduais de poder, acentua-se a identidade religiosa, onde quem manda é o dogma da fé.
Perante tanto disparate e a teimosia em não adiar umas eleições impossíveis, fica claro o que sempre foi, na verdade, cristalino: o voto, no Iraque, é para inglês, alemão e francês verem.
Breves
EUA preparam iraquianos para participar em claques. «Não é verdade que as cheerleaders de toda a América formam pirâmides seis a oito vezes por ano? Será isso tortura?». As perguntas são de Charles Graner, acusado de abusos em Abu Ghraib, para explicar os corpos empilhados de presos iraquianos nus.
Acabou-se a caça aos gambozinos. O porta-voz da Casa Branca informou que os Estados Unidos desistiram de encontrar as armas de destruição massiva.
Estes mortos são só nossos. Indonésia quer tropas estrangeiras que estão a prestar ajuda humanitária fora de Aceh, província revoltosa onde, até ao tsunami, ninguém entrava.
O charme discreto de uma ditadura. Seguindo os restantes líderes internacionais, Sampaio pede paciência com a demora da China em respeitar os direitos humanos.
Nós só cá viemos ver a bola. Lobo Xavier diz que «o CDS é completamente alheio à crise política».
Voltar a acreditar. Guterres vai participar na campanha do PS. Não estarão a pedir demais aos eleitores?
22 de Janeiro
Papeis trocados
António Mexia anuncia com uma urgência inusitada 2-travessias-2 para o Tejo. E aproveita para desenhar no mapa o traçado do TGV. Era fundamental que o fizesse. Afinal de contas, vai começar a rodar em 2012, daqui a dois ou três governos.
Paulo Portas, recordista em salários para assessores e com uma generosa quota em colocação de lugares no Estado, lança a sua campanha contra o clientelismo no Estado. Na mesma linha moralizadora da política, candidatos do CDS preparam-se para ir ao Estádio do Dragão, ao beija-mão a Pinto da Costa. Mais uma facada no seu parceiro de coligação. Pelo país, cartazes do CDS dizem-nos que “A lealdade é útil a Portugal”. E a “competência” também, explica o partido de Mariana Cascais, Nuno Fernandes Thomaz e Celeste Cardona. E ainda mais a “convicção”, reafirma o mais recente dos convertidos ao europeísmo.
No PSD, vice-presidentes matam-se em praça pública e Santana Lopes esbraceja num dos mais épicos naufrágios da história da política portuguesa. Contra ventos e marés, afoga-se, enquanto, num ataque sem precedentes a José Sócrates, o acusa de querer governar como ele governou.
Sócrates, esse, entrou em crise adolescente. Não há dia que não bata, amuado, com a porta do carro. Não mete os pés nos debates, não fala com jornalistas e parece estar zangado por haver quem queira que ele faça campanha.
Resumo: o recordista das cunhas e das facadas faz campanha pela moral e pela lealdade, o primeiro-ministro faz oposição a si mesmo, o líder do maior partido da oposição, em plena idade do armário, não faz campanha e um governo de gestão apresenta planos quinquenais.
Não pensem que não aprecio o espectáculo. Os actores são bons. Os papéis é que estão todos trocados.
O modelo social chinês
Pode Portugal sobreviver numa economia globalizada e bater-se, em simultâneo, por um modelo social próximo do que foi construído na Europa do pós-guerra? O consenso da inevitabilidade do sacrifício diz-nos que não. Que estamos condenados a viver mal em prol de amanhãs que cantam. Que o modelo social europeu é incompatível com a globalização dos mercados. Eu digo o contrário: só com menos sacrifícios temos futuro.
Como as coisas estão, com a falta de qualificação dos nossos trabalhadores e empresários, o nosso campeonato será o da mão-de-obra barata da China, da Tailândia ou da Formosa. E mesmo assim perdemos.
O dilema é este: ou estamos dispostos a viver com sete contos por mês e as empresas de trabalho intensivo não fogem, ou disputamos um mercado de trabalho mais exigente. Conseguir as duas coisas é procurar a quadratura do círculo. Não se tem os melhores quadros, os melhores técnicos e a melhor investigação a trabalhar 48 horas por semana, a ganhar 150 contos por mês e a gastar trocos com as universidades. A redução de custos na mão-de-obra só nos pode empurrar para o Terceiro Mundo.
Que, em Portugal, a generalidade dos empresários e dos gestores, habituados a fugir ao fisco e a pagar miseravelmente aos seus funcionários, a viver de expedientes, dos apoios do Estado e de fundos europeus, se recusem a vê-lo, não me espanta. A maioria dos empresários portugueses é parte do problema e não da solução. Muitos dos que opinam sobre o futuro da economia nacional, num país realmente competitivo, não passariam da porta das empresas que hoje dirigem. Estão chocados com o que escrevo? Não é nem metade do que tem sido dito, até à náusea, sobre os trabalhadores portugueses.
Breves
Veja nas páginas amarelas. O presidente da Associação de Municípios pede a Soares nomes de autarcas corruptos.
E dispensava eleições: sozinho, ele chegava e sobrava. Escreveu o meu vizinho do canto direito: «Eu por mim, dispensava a campanha. E, já agora, dispensava as listas. Vinte ou trinta deputados chegavam e sobravam».
Deixe mensagem a seguir ao sinal I. Santana Lopes diz que, antes de aceitar ser Primeiro-Ministro, tentou falar com os ex-presidentes do partido, mas que Cavaco e Marcelo não lhe responderam à chamada.
Deixe mensagem a seguir ao sinal II. Condoleezza Rice quer marcar uma conversa com Vladimir Putin para lhe dar conta da preocupação dos EUA com os sinais crescentes de autoritarismo do Kremlin.
29 de Janeiro
É só fumaça
O PREC instalou-se, definitivamente, na direita portuguesa. Primeiro, o despesismo, que sempre foi, dizem os entendidos, apanágio da esquerda. 5,3% de deficit, um recorde assinalável para os últimos anos. Depois, as nacionalizações: Fundo de Pensões da CGD e dos CTT para o Estado. Finalmente, o que faltava: quando não se gosta de um tipo, toca de lhe chamar fascista.
Bagão Félix, com um invejável currículo na luta contra a ditadura e na consolidação da democracia portuguesa, não fez a coisa por menos. Nem quero imaginar o epíteto que tem reservado para José Sócrates. Rato de sacristia, parece-me o indicado. E para Jerónimo? Lacaio do Capital, pode ser?
Mas mal esta piranha de água benta deu o mote, logo o Pit Bull (não confundir com o do Porto) da direita fez o romance todo. No DN, António Ribeiro Ferreira imaginou um país dirigido pelo Bloco de Esquerda. Meninos de calções, de suástica no braço, mandando para campos de concentração todos os desalinhados, suponho que homossexuais e toxicodependentes incluídos. Ribeiro Ferreira, quando escreve, é assim mesmo: põe os neurónios em “stand by” e já ninguém o agarra. Todos se lembram das suas hilariantes reportagens sobre o Iraque, ao estilo “Vida Soviética”, mas ao contrário, quando tentou transformar o “Diário de Notícias” numa espécie de “Diabo” matutino, quer no estilo quer nas vendas.
E eu não lhe quero ficar atrás. Com a histeria revolucionária instalada na direita, imagino um país onde Pires de Lima ocupa fábricas, Morais Sarmento manda bloquistas para o Campo Pequeno e a Assembleia da República é cercada pelas Gerações Populares. Nesse dia, irei à janela do Parlamento e, qual Pinheiro de Azevedo, responderei definitivamente a Bagão: “Badamerda para o fascista!” E, assistindo a esta patética despedida da direita, voltarei a citar a saudosa figura: “É só fumaça! É só fumaça!”
A farsa
Sadr City é um bairro nos arredores de Bagdad. Antes, aparecia no mapa como Saddam City. E é isto mesmo que está a acontecer ao Iraque. Não, Moqtada Sadr, sobrinho do líder religioso que deu o nome ao bairro, não tomou nem vai tomar o lugar de Saddam. Está mesmo mais para lá do que para cá. Mas, no Iraque, os religiosos começaram a tratar dos assuntos do céu e da terra.
Em Sadr City, uma cidade com dois milhões de xiitas miseráveis, sempre desprezados por Saddam, diz-nos uma sondagem, ninguém faz ideia o que vai acontecer amanhã. No Iraque, mais de metade da população nem sabe o dia das eleições. Nas mesquitas, os líderes espirituais xiitas tratam do esclarecimento eleitoral: ou votam na lista abençoadas pelo Ayatollah Sistani ou vão para o Inferno. Nas ruas sunitas, a punição é mais terrena: “Votas morres”. E por ali ninguém põe em causa a credibilidade da ameaça.
É este o ambiente que por lá se vive. Bem podem os guerreiros de sofá falar de uma janela de oportunidades. A única janela que está aberta no Iraque é para o abismo. Ou a uma autocracia sucede uma teocracia, e a ordem prevalece sem oportunidade alguma para a democracia, ou, mais provável, o caos continua. Nada é promissor. Apenas um improvável benefício pode sair desta farsa: o Ocidente aprender de uma vez por todas que a democracia ou é uma conquista de um povo ou é apenas um fato engomado no corpo de um mendigo.
Breves
Cada um é para o que nasce. Sampaio diz que a coisa de que mais se orgulha nas suas funções é a de poder dar condecorações.
Pode sempre dar uma medalhinha ao moderador. Santana pede intervenção de Sampaio na polémica sobre os debates.
Pacto bravo. Construtores civis querem um pacto de regime para que obras não parem.
Negócios miudinhos. O Governo quer entregar as unidades de acolhimento de emergência para crianças em risco a entidades privadas, dando-lhes os edifícios e pagando-lhes as despesas.
Por favor, morra cedo. PS associa a idade da reforma à esperança de vida.
Um genocída despachado. Numa aldeia de sete pessoas um homem matou três e suicidou-se, conseguindo em poucos minutos reduzir a população em 57%.
CAMPANHA
Um programa “aspiracional”
É um leilão, a disputa programática entre o PS e o PSD. Eu dou 150 mil novos empregos. Eu reduzo em 20% o abandono escolar. Eu aumento o produto em 3%. Eu baixo a economia paralela para metade. Por fim, o PSD sobe a parada até ao impossível: aumentar a nossa produtividade de 65% para 75% da média europeia, em quatro anos. O PS fica-se.
À vontade nesta arte, o PSD supera-se. Quer poupar 100 milhões de euros na educação, «ajustando a oferta escolar às necessidades de ensino actuais». Como? Reduzindo as aulas de 50 para 45 minutos. Os miúdos estão mais espertos e, já sabemos, cada minuto conta para o rigor orçamental.
Claro que não há razões para levar demasiado a sério nada disto. Explicou-nos o ministro Mexia que tudo não passa de uma «meta aspiracional». Tão “aspiracional”, aliás, que os números para a previsão de crescimento enviados pelo Governo para a União Europeia são cerca de metade dos previstos no programa do PSD.
Mas há momentos em que os partidos escrevem o que realmente pensam. Veja-se esta pérola: «O “Estado-Providência” apoderou-se da liberdade de escolha dos cidadãos, pervertendo a sua própria razão de ser. Desresponsabilizou o cidadão e enfraqueceu a cultura de rigor e de exigência na sociedade.» É o que se pode ler no programa de um partido que, por uma razão obscura, resolveu chamar-se de social-democrata.
O que o PSD propõe é um Estado só para os pobres, enquanto os outros se fazem à vida. Só que um Estado só para os pobres é um Estado desleixado. “Para quem é bacalhau basta”, já se sabe.
Mas o problema do PSD é quando chega às promessas. Há votos para caçar e o eleitor é pouco “realista”. Aqui vai, para os títulos dos jornais: passar as listas de espera de 5 anos para seis meses, baixar o abandono escolar de 45% para 20%, triplicar o mercado de medicamentos genéricos, dar a mais 20% da população saneamento básico e por aí adiante.
É espantoso as coisas que se conseguem fazer com menos Estado e menos despesa. Ou os professores, os médicos, os assistentes sociais, as estradas, as condutas de água se pagam a si mesmas ou toda esta conversa é, por assim dizer, “aspiracional”. E as aspirações, como se sabe, compram-se a saldo.
5 de Fevereiro
Estou tão indignado!
Acontece em todas as campanhas eleitorais. Quanto maior a barbaridade, mais espaço nos jornais e televisões. Detectores de deslizes, de alarvidades e de confrontos estéreis, é nisto que se transformaram quase todos os jornalistas. Zero de conteúdo.
Acontece em todas as campanhas. Quanto maior a banalidade, maior a respeitabilidade. Bonecos de plástico e egocêntricos mimados, é nisto que se transformaram quase todos os políticos. Zero de conteúdo.
Acontece em todas as campanhas. Quanto mais sórdido o boato, maior o entusiasmo dos eleitores. “Tu que estás na política, diz-me lá… o gajo é mesmo homossexual?” E “homossexual” diz-se baixinho, que não temos nada a ver com a vida privada de cada um. Alcoviteiros hipócritas, é nisto que se transformaram quase todos os cidadãos. Zero de conteúdo.
Um político diz um disparate. O povo indigna-se e quer mais. O jornalista indigna-se e quer mais. Pede reacção ao opositor e espera por mais. Pede reacção à reacção e espera por mais. Pede reacção a todos sobre todas as reacções, num festival de futilidade. Se o político não quer, espreme-se até que saia alguma coisa. E neste jogo, só ganha o que mais se indignar.
Depois, quando toda a gente já está enjoada e não há indignação que chegue, quando a irrelevância de tudo se instalou definitivamente no debate, o especialista em indignações senta-se na secretária e indigna-se: «Nunca uma campanha desceu tão baixo. Já ninguém discute política.» A política até lá estava. Mas, no meio do burburinho, ninguém a ouvia. Na plateia, um longo bocejo: «Que seeeeeca! Quando é que isto volta a aquecer?»
«Nunca uma campanha desceu tão baixo». Acontece em todas as campanhas.
A verdadeira direita
A direita política está possessa. Não é que o tio Diogo se passou para o lado de lá. Diz Paulo Portas a um jornalista: «Você não conhece o centro-direita. A nossa gente não gosta disto.» A “nossa gente”, a do “centro-direita”, que é um eufemismo que por cá se arranjou, pode até não gostar. Mas também ela está em debandada.
Quem é Freitas do Amaral? É a Quinta da Marinha profunda. Um conservador, que quer ordem e pouca confusão. Sempre foi. É verdade que, como fundador do CDS, teve de conviver com uma militância que, por vezes, se entusiasmava e queimava umas sedes partidárias. Mas ele dedicou-se à democratização da direita portuguesa. Tarefa ingrata e cheia de percalços. Freitas representa hoje a direita social mais significativa. Aquela a quem a vida correu bem e que não gosta de ver as guinadas de Portas e a instabilidade de Santana. Falta-lhes juízo e a direita de Freitas gosta de juízo. Nem populismo, nem episódios mediáticos diários. Calma, a bem da Nação e na paz de Deus.
Por isso, o salto de Freitas para o PSD foi natural. Portas representava a direita recalcada com o 25 de Abril, com os imigrantes e com os indigentes. Só que o PSD foi tomado pelos desvarios de Santana. E Freitas saltou para o PS. Um homem de direita ajuizado quer Sócrates primeiro-ministro. Só me admiro com quem se admira.
É verdade que há um lado menos dignificante nestes saltos de Freitas do Amaral. Está sempre com quem ganha e tem uma certa tendência para apagar os vestígios do seu passado. Mas também nestas duas características ele representa bem a direita social. A que vive de negócios e do Estado e sabe que os negócios precisam de um Estado previsível. Diogo Freitas do Amaral não se engana. Está sempre do lado certo da história. Da sua história, claro.
Breves
Vota bê-bê-dê/bê-esse-dê. As pessoas normais apanham gripe quando a temperatura baixa. Com Santana Lopes é quando desce nas sondagens.
Quem merece o quê. Parafraseando o que se dizia sobre Hintze Ribeiro: a questão não é saber se Pedro Santana Lopes merece uma gripe, mas se a gripe merece Pedro Santana Lopes.
Eu, por mim, só sinto o choque térmico. O PS, moderno, pede um choque tecnológico. O PSD, pragmático, pede um choque de gestão. O CDS, tradicional, exige um choque de valores.
Se julgas que vou torcer pelo Porto, podes esperar sentado. O novo treinador do Porto, José Couceiro, diz que é de esquerda «a todos os níveis».
E cá, nem se metem folgas para ver o da Casa Pia! Nos EUA, há gente que se está a despedir para acompanhar o julgamento de Michael Jackons.
CAMANHA
A bem da biodiversidade
É como o campeonato nacional. Os dois são maus. Ou melhor: um é mau. Diz pouco ou nada. Mas de repente já nem se nota. Porque o outro é… como é que hei de dizer? O outro é… Santana Lopes. Sabem aquela vergonha quando sentimos compaixão pela figura alheia, por mais distante que ela nos seja? É isso que se sente com Santana. Nunca foi nada, mas vencia. E dos vitoriosos nunca nos rimos. Agora é um farrapo em delírio, sempre a tropeçar em si próprio.
A frase mais alucinada saiu-lhe quando, falando da clonagem e da eutanásia, afirmou: «o choque tecnológico também entra aqui, na biodiversidade e na eutanásia». Santana desfaz-se em palavras, mas nunca faz a menor ideia do que está a dizer. Não há maneira de pôr isto de uma forma simpática: é absolutamente ignorante. Tão ignorante que nem sonha que é ignorante. Como animal político, trata-se de um fenómeno de tal forma absurdo que devemos defender a sua sobrevivência. A bem da biodiversidade.
O momento mais estranho, que melhor representa a tragicomédia em que se transformou a sua campanha, foi exactamente aquele em que Santana resolveu falar das questões “civilizacionais”. Sempre pensei que esta obsessão pela eutanásia e pelo casamento de homossexuais tivesse como objectivos não falar da economia e da crise social, dar gás aos boatos sobre Sócrates e, imitando a estratégia de Bush, unir a direita em torno do preconceito. Mas Santana, para parecer moderno e talvez “tecnológico”, acabou o debate mostrando simpatia pelas duas causas. Depois de ter perdido o centro-direita para o PS, deu a direita, de mão beijada, ao CDS.
Só em dois momentos esteve, não digo bem, mas mais ou menos normal: quando disse que as propostas do PS eram muito parecidas com as do PSD e quando lembrou o que será o regresso dos guterristas. Na primeira, porque não anda longe da verdade. Na segunda, porque conseguiu, por minutos, que nós nos esquecêssemos dele.
E perante tudo isto, Sócrates não teve de fazer nada, não teve de dizer nada, não teve de se comprometer com nada a não ser repetir banalidades. Exactamente como ele gosta. Um ar decidido enquanto o adversário se atira ravina abaixo. Mas neste confronto com um cadáver adiado, Sócrates tem um problema: não tem como dramatizar estas eleições.
12 de Fevereiro
A coisa absoluta
«O País precisa de uma coisa nova no governo», disse, esta semana, José Sócrates à Antena 1. E é tudo o que tem para dizer. Que é nova e que, sendo uma coisa, precisa de ser absoluta. Ou seja, o País precisa de uma coisa absoluta. Só que, digo eu, o problema está mais na coisa do que, salvo seja, na sua dimensão.
Olhemos para o passado: foi por falta de maioria absoluta que Guterres travou a reforma fiscal de Sá Fernandes? Foi por falta de maioria absoluta que Pina Moura aldrabou as contas públicas jurando ter 1,9 de défice? Foi por falta de maioria absoluta que houve Armando Vara, Fernando Gomes, Narciso Miranda? Foi por falta de maioria absoluta de Guterres perdeu as autárquicas e se foi embora? Com maioria absoluta teria corrido melhor?
Foi por falta de maioria absoluta que o défice aumentou ainda mais com Durão Barroso? Que houve mais 200 mil desempregados? Que Portugal se enterrou na crise? Foi por falta de maioria absoluta que Durão perdeu as Europeias e se foi embora? Foi por falta de maioria absoluta que Santana foi o que foi? Com maioria absoluta teria corrido melhor?
Nos últimos 20 anos nenhum governo morreu às mãos da oposição. Todos se finaram de morte natural ou por suicídio inevitável. Ou porque estavam cansados ou porque eram maus. Nenhum caiu por ser minoritário.
As perguntas são estas: Com maioria absoluta do PS haverá uma reforma fiscal? Será defendido o serviço público de saúde? Haverá clareza nas contas públicas? Voltará a existir Rendimento Mínimo e será revogada a lei laboral? Grande parte da direita sabe que Sócrates já ganhou as eleições e conhece tão bem como eu as respostas a estas perguntas. Só uma coisa lhes tira o sono: um PS dependente da sua esquerda.
Obcecado por sexo
Não discutimos Deus, não discutimos a Pátria, não discutimos a Família. Era estes os dogmas de Salazar. Com o mesmo tom bafiento e dogmático, um padre da Igreja de São João de Brito, no alto do seu púlpito, disse aos fiéis para não votarem em partidos que fossem contra a “moral da Igreja”: «divórcio nunca, aborto nunca, casamento de homens com homens nunca, casamento de mulheres com mulheres nunca, eutanásia nunca, poligamia nunca».
Desta homilia, uma novidade: a poligamia está em debate nestas eleições. Definitivamente, começo a ficar mais entusiasmado com a campanha. Quanto ao resto, já se sabe. Há uma parte da Igreja, felizmente cada vez mais minoritária, que ainda não se habituou à liberdade de pensamento dos seus fiéis. Desse sector ultra-conservador pouco se ouve sobre o desemprego, a pobreza, a guerra, a injustiça. Só o castigo os move. Vivem obcecados pelo sexo. Até os compreendo. É humano.
Numa coisa concordo com quem tem defendido a posição deste sector mais radical da Igreja: são livres de dizer o que querem. Nos púlpitos, nas procissões, nas notas pastorais. É lá com eles e eu não tenho nem quero ter nada a ver com isso. O que me deixa realmente incomodado é que os jornalistas obriguem os candidatos a responder a este padre, como se ele tivesse qualquer relevância para o debate político. Entre ele e a IURD, só uma coisa os separa: as instalações onde reúne o seu rebanho são mais antigas e a música menos popular. De resto, para esta franja ultra-minoritária da Igreja, resta pouco mais do que isto: lutar contra os afectos. Uma guerra perdida. Ninguém os ouve. Não falam para ninguém.
Breves
A direita um pouco baralhada. Os amigos de Santana dizem que ele ficará na liderança no PSD se tiver 30%. Já Portas é candidato a primeiro-ministro.
Cada partido tem o Jerónimo que merece. Alberto João Jardim quer expulsar Cavaco Silva do PSD.
O animal feroz volta a atacar. Sócrates esclarece daquilo em que é diferente de Guterres: «Sou um reactivo primário. Mais sanguíneo».
Aliás, o Mundo não fala de outra coisa. Santana Lopes declarou que a presença de Portugal no Iraque fez com que Portugal fosse mais respeitado no Mundo.
“Fast democracy”. Eleições autárquicas na Arábia Saudita. As mulheres não votam, os conselhos municipais não têm poder e metade dos seus membros são nomeados. Nenhuma liberdade. Mas ainda assim há quem fale em democracia. Tivemos uma assim. Durou 48 anos.
CAMPANHA
Os heterónimos de Portas
Quem se lembra do Paulo, director do “Independente”? “Enfant terrible” e desconcertante. As instituições não lhe diziam nada. O poder não lhe dizia nada. Assassino implacável de caracteres, nada o fazia parar. Não olhava a meios, não tinha limites. Liberal e populista, sempre do lado de fora do sistema.
Quem se lembra do Paulinho das Feiras? Foi ele que pôs o nome a circular. Ia de feira em feira, multiplicava-se em beijos, tinha sempre uma palavra amiga para o idoso e o desvalido. De clarim em riste, arregimentava os ex-combatentes. De boné aprumado, era o guardião da lavoura e anti-europeísta empedernido. Conservador e radical, contra os imigrantes e os indigentes. Prometia entrar no sistema para mudar o sistema.
Quem se lembrará do ministro Paulo Portas? Pose de Estado e ar emproado. Todo ele é respeito. Só ele já é um órgão de soberania. Em defesa do mar, da estabilidade, da Europa e das instituições. Portas já não grita, segreda. Portas já não desce ao povo, nem se entrega a espontaneidades. Faz revista às tropas e monta a tenda. Está dentro do sistema para defender o sistema.
Paulo, Paulinho, Senhor Ministro, um camaleão. Paulo Portas não existe. Existem e existiram muitos Portas. E é esse o segredo da sua longevidade. Em cada eleição um líder novo. Vive da falta de memória. Disse que ficava muitas vezes. Nunca ficou. Disse o que fazia outras tantas, nunca se lembrou. No caminho, fez as suas vitimas: Manuel Monteiro, Cavaco Silva, João de Deus Pinheiro, Leonor Beleza. A lista não termina e, provavelmente, o próximo será Santana Lopes. Um dia, voltarão todos para se vingar.
Até lá, nesta campanha, Portas usa mais uma máscara sem que ninguém a veja. Já Santana exibe orgulhosamente a sua, no Carnaval em que se transformou a campanha do PSD. Tão espalhafatoso que nem pôde sair à rua nos dias de folia. Ninguém o distinguiria das mais burlescas figuras. Enquanto, à direita, Portas tiver tão fracos adversários tem o futuro garantido. Muitos heterónimos ainda criará Paulo Sacadura Cabral Portas. Um artista. Dos bons.
19 de Fevereiro
Os lugares comuns
As coisas funcionam assim: um comentador afirma. O político repete. O jornalista reproduz muitas vezes. O humorista transforma em caricatura. E o povo começa a dizer na rua. Passamos a ter um facto indesmentível, mesmo que todos os factos o desmintam.
Alguns exemplos do passado: o CDS estava morto e só esperava a primeira oportunidade para fazer a fusão com o PSD. Santana Lopes era imbatível em campanhas eleitorais. José Sócrates, graças à sua imagem enérgica e moderna, iria ser apelativo para jovens e urbanos. A tomada do poder no PCP pela linha ultra-dura iria fechar o discurso do partido, cercado pela má vontade da comunicação social. O Bloco de Esquerda estava confinado ao voto urbano levezinho, amigo das causas fracturantes, incapaz de compreender os sentimentos da maioria dos portugueses e destinado a ser um partido residual.
Tudo certezas indesmentíveis. Todas desmentidas. Portas está em grande, Sócrates é cinzento, Santana uma tragédia em campanha, Jerónimo goza da condescendência socialmente preconceituosa dos jornalistas e é na sua fraqueza que vai buscar simpatia, Louçã é dos lideres mais populares.
Tudo diferente, fazem-se novos retratos: Portas teve os ministros mais competentes e é imbatível, Santana nunca acerta uma e é amador, Sócrates nunca diz nada, Jerónimo é diferente de todos porque sendo fraco é humano, Louçã é um moralista.
Porque é que as opiniões se fazem por ondas e se contradizem a cada momento, mesmo quando, em Portugal, são sempre escritas e ditas pelas mesmas pessoas? Por preguiça. A opinião, em Portugal, pouco mais faz do que repetir chavões. Não tem memória nem se baseia em nada. Ninguém lê os programas políticos, poucos conhecem a história e a base social dos partidos e, na ignorância, mais vale repetir lugares comuns.
À boleia de Lúcia
Devo esclarecer: tenho por Lúcia de Jesus o respeito que tenho por qualquer pessoa. Tinha 97 anos e morreu. Faz parte da naturalidade da vida. Teve a vida que quis ter e eu não tenho nada a ver com isso. Afirmar que a admirava seria hipócrita. Era-me, por assim dizer, indiferente.
Como símbolo, estando ligada ao fenómeno de Fátima, representava uma Igreja mais conservadora e popular. Longe de ser consensual para os católicos, o fenómeno de Fátima sempre foi visto pela hierarquia da Igreja com desconfiança. Manifestação de fé popular que fugia ao seu controlo. Depois fez o que o poder faz sempre: se não os vences, junta-te a eles e dá ordem ao caos. Fátima passou a ser, então, o principal espaço de promoção nacional e internacional da Igreja nacional.
Seguindo a tradição de Fátima, quando Lúcia de Jesus morreu os olhos de Portas e Santana brilharam. Pareciam lágrimas, mas era só o contentamento de dois oportunistas. Se o povo gosta, nós cá estamos. Nós somos o povo e sentimos como o povo. Santana pôs a gravata preta e comoveu-se. Portas fez-se convidado na missa para a família e comoveu-se. Interromperam a campanha. Fizeram o país vestir de luto.
Só que já não estamos em 1917 ou nos anos 40. Portugal está irreconhecível. Na Igreja, que viu finalmente Fátima transformada num espaço religioso e não de adoração de santas vivas, a coisa não caiu bem. O momento era deles, não destes recém convertidos à peregrinação. Os católicos, esses, duvido que tenham gostado.
É este passo que a direita portuguesa ainda não deu. Tal como o PCP, falam de um país que se está a ir, que já não está cá. Talvez um dia apareça, em Portugal, uma direita igual à que existe pela Europa. Aí, saberemos que este País finalmente mudou. Haverá então alguma esperança.
Breves
Sabes contar até 10 e queres uma carreira aliciante? Alista-te no CDS. Fernandes Tomaz, secretário de Estado dos assuntos do Mar e cabeça de lista do CDS por Santarém, confessou que, antes de ser convidado, do mar só conhecia a praia e de Santarém só sabia de Fátima e da tourada.
Já despediram os assessores? O desemprego atingiu os níveis mais altos desde 1998. Santana Lopes diz que foi por causa da dissolução do Parlamento e da demissão do governo.
Eles andam aí. Nas ruas do Porto, Sócrates passeou-se na companhia discreta de Narciso Miranda e Manuel Seara.
E foi por isso mesmo que nomeou Santana Lopes. Sampaio, sempre polémico, diz que Portugal precisa de políticos mais competentes.
CAMPANHA
O último texto sobre a campanha eleitoral perdeu-se no caminho.
26 de Fevereiro
A lei divina
O Papa João Paulo II, ou alguém por ele, resolveu lançar esta graça: comparar o aborto ao Holocausto. Já nem me dou ao trabalho de me indignar. Sobre o aborto já foi dita, pela Igreja mais conservadora, tanta barbaridade que até ignominias deste calibre parecem banais. Resta-me, sobre esta matéria, destacar apenas uma diferença entre os dois incomparáveis fenómenos: enquanto sobre o Holocausto o Vaticano se manteve, quase sempre, num cómodo silêncio, sobre o aborto não há dia que não se indigne.
O mais importante vem depois. Diz a cúpula da Igreja Católica que Hitler chegou ao poder através de um Parlamento regularmente eleito e que foi a partir desta forma aparentemente democrática que se preparou a tragédia que se abateu sobre a Europa. E esclarece: «Basta trazer à memória estes acontecimentos para compreender claramente que a lei estabelecida pelos homens tem limites precisos». E dá finalmente o salto lógico que faltava: as leis que despenalizam o aborto, mesmo que democraticamente votadas, são um abuso. A conclusão causa um calafrio na espinha a qualquer defensor da laicidade do Estado: diz o Papa que os parlamentos estão a «ultrapassar as suas competências» e a «entrar em conflito com a lei de Deus e a lei da natureza».
E este infeliz episódio resume bem o pontificado de Karol Wojtyla: a tentativa de devolver à Igreja o papel político que perdeu, batendo-se de forma descarada por leis e estados confessionais. Para quem julgue que o perigo vem sempre do Islão, talvez seja altura de ficar atento ao que se passa dentro no Ocidente. A Arábia Saudita é só o que, se não resistíssemos sempre a estas ofensivas, poderíamos todos vir a ser.
Fenómeno do Entroncamento
Nas últimas eleições, o PCP subiu ligeiramente, muito graças à bonomia e ao efeito surpresa de Jerónimo de Sousa. Só que a simpatia do novo secretário-geral, excelente para campanhas, de pouco valerá no tipo de combate político mais caro ao PCP. E diz pouco ao eleitorado que os comunistas mais prezam: o operariado e seus descendentes. Talvez por isso, a subida do PCP não se sentiu da mesma forma nas zonas mais industrializadas e de maior implantação comunista. E foi exactamente em concelhos como o Barreiro, Marinha Grande, Sintra, Seixal, Moita, Almada e Entroncamento – onde teve um recorde eleitoral –, que o Bloco de Esquerda teve os seus melhores resultados, ultrapassando a fasquia dos 10%.
O eleitorado do Bloco já não se resume a intelectuais, quadros superiores e jovens urbanos. Para além do voto de protesto inorgânico e flutuante, o Bloco conquistou um novo tipo de eleitores. Vêm dos grupos sociais mais desperançados: trabalhadores jovens e precários, funcionários públicos desmotivados, operários em tudo diferentes da mitologia revolucionária. Vão ao cinema, acabaram o liceu e navegam na Internet. Esperavam mais do que a vida lhes deu.
Se o Bloco de Esquerda pensasse que, para se implantar, lhe bastaria substituir o PCP, modernizando o seu discurso, estaria a cometer um erro histórico. O problema do PCP não é, como se viu, a imagem. É a falta de horizonte. Mas, se, por outro lado, o Bloco julgasse que bastaria ser um franco-atirador à caça do voto de protesto, então a sua tragédia seria ainda maior. O Bloco tem de querer mudar o poder, sem o temer. Se assim não o fizesse, os seus novos eleitores mais convictos não resistiriam à frustração.
Breves
Santana critica Santana. De partida, Santana Lopes manifestou a sua oposição à eleição indirecta dos lideres do PSD. Sempre foi coerente nesta posição. Apenas com um pequeno intervalo: quando se tratou da sua própria eleição.
Carmona critica Carmona. Seguindo este grande movimento auto-crítico da direita, indignado com o caos das ruas lisboetas, Carmona Rodrigues vai mandar retirar a floresta de placards plantados por Carmona Rodrigues.
Euromilhões. Na sede do CDS, ao Largo do Caldas, continua-se à espera que alguém se digne a levantar um prémio: a liderança do “centro-direita”.
Um militante anti-imperialista. Bush diz que a Síria «tem de acabar com a sua ocupação do Líbano».
De acordo com o pedido de uma circular da weblog.com.pt, informa-se que os blogues desta casa vão ter uma suspensão técnica de cerca de uma hora daqui a muito pouco. Os autores dos blogues não poderão publicar entradas e os comentadores não poderão comentar. Em troca, entrarão finalmente ao serviço os novos servidores e cessarão os problemas de servidor interno que faziam com que tantos comentários não conseguissem entrar por excesso de acessos. Cessarão também os períodos de inacessibilidade dos blogues da weblog.com.pt.
Uma em cada seis adolescentes portuguesas faz sexo sem contraceptivo.
Ao contrário digo eu. A assunção recorrente que a direita tem de que a esquerda acredita ser a panaceia da sociedade é bastante precipitada. Deste lado nunca ouvirão dizer o mesmo sobre a direita que pensa e produz ideias.
E, evidentemente, não acredito que a esquerda e muito menos eu temos o monopólio do debate. (Gostava francamente de saber onde é que o Paulo Pinto Mascarenhas, que conheço apenas do que escreve no seu blog, foi buscar esta ideia.)
E não, PPM, não está a ser desmancha-prazeres ao recordar-nos que a democracia é precisamente um debate contínuo e exigente. Digo-lhe, com muita sinceridade, que está a ser precisamente o contrário.
Estava a ver a edição do Público de hoje e saltou-me aos olhos esta notícia. Ora aqui vai um trecho: “Um padre católico português anunciou hoje a sua recusa em dar a comunhão aos católicos que usam métodos contraceptivos, que recorrem à reprodução assistida ou que aceitam a actual lei em vigor sobre o aborto.O padre Nuno Serras Pereira invoca o cânone 915 do Código de Direito Canónico para, "na impossibilidade de contactar pessoalmente as pessoas envolvidas", lhes dar conhecimento público de que "está impedido de dar a sagrada comunhão eucarística a todos aqueles católicos que manifestamente têm perseverado em advogar, contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes". Nesta categoria incluem-se, de acordo com o padre Nuno Serras Pereira, todos os que usam "diversas pílulas, DIU e pílula do dia seguinte" e os que recorrem a "técnicas de fecundação extra-corpórea, selecção embrionária, criopreservação, experimentação em embriões" e outros métodos de reprodução medicamente assistida. Votar ou participar em campanhas a favor da legalização do aborto, aceitar ou concordar com a actual lei em vigor e defender a eutanásia também são motivos que impedem o padre de dar a comunhão.” Isto não é uma piada. É trágico. É uma ataque muito sério aos direitos da mulher e à liberdade individual de todo e qualquer indivíduo. É um ataque a conquistas, no plano do direito à sexualidade, que foram difíceis de obter. A pílula não é a morte de um inocente. Usar o DIU não é pecado. Afinal nem na constância do matrimónio se tem direito ao prazer? O sexo só tem funções reprodutivas? E claro, a referência ao aborto e à eutanásia, as “bestas” para este moralismo. Onde está a igreja progressista? Ainda existe?

Não pode ter escapado a ninguém que tenha seguido a campanha presidencial nos EUA: "europeu" era um insulto. O simples facto de John Kerry ter uma mulher estrangeira (e faladora) e saber exprimir-se em francês (melhor do que Bush em inglês) era embaraçoso. A ideia de que os EUA tivessem de conversar com Bruxelas um anátema.
Passaram uns meses e agora, naquele mundo hiper-coreográfico das operações de propaganda, dir-se-ia que Bush, Rumsfeld e Condoleeza Rice passam agora uma boa parte do seu tempo na Europa e já pouco faltará para montarem casa e os vermos sorver o seu cappuccino na mesa de Sartre do Café de Flore. Só que do lado dos EUA as coisas não mudaram: a Europa continua a ser uma coisa "tão chata como a libertação feminina" (na formulação deste texto de Stephan Richter no The Globalist) que se despromoveu a quase-aliado (como defende Imannuel Wallerstein neste outro). Duas opiniões interessantes para perceber porque é que nos podemos ter tornado numa daquelas famílias em que se faz de conta que se ouve o outro mas no fundo cada um segue a sua vida — e, tal como nessas famílias, talvez esse seja mesmo o melhor caminho.
O Supremo Tribunal Americano proibiu a pena de morte para crimes cometidos por menores de 18 anos. O judiciário estadual mais prejudicado com esta medida será o do Texas, onde um terço destas sentenças foi emitido nos últimos anos — e relembre-se já agora que durante os mandatos locais de George W. Bush nunca foi exercido o poder de indulto que a constituição outorga ao governador do estado norte-americano com mais aplicações da pena de morte. Também foi no Texas que se levou a cabo mais de metade das execuções juvenis recentes.
Pois então parece que após (em primeiro lugar) os levantamentos populares libaneses (e em segundo lugar) as pressões diplomáticas conjuntas dos EUA com a terrível "Velha Europa" e principalmente esses mariquinhas desses franceses, a Síria começa a dar sinais de que vai mesmo retirar do Líbano. É bonito, e dá sempre razões para festejar, ver uma potência ocupante retirar de uma nação estrangeira que invadiu sob falsos pretextos. Ainda por cima no Médio Oriente. Estou aqui a lembrar-me de mais dois casos a pedir iguais resoluções, mesmo ali ao lado.
A reacção ao meu post era esperada. Em Portugal, brincar com a Igreja Católica é absolutamente proibido. Uma piada que nem sequer visa o Papa, mas sim o aproveitamento que fazem da sua debilidade, através de uma exposição nos media que é perfeitamente imoral, é completamente deturpada e objecto de todo o tipo de manipulação. A mim, pobre não crente, não me espanta nada disto, vindo de quem veio. Foi até revigorante, diga-se, bem como um excelente veículo para revelar a intolerância que se nutre por quem não crê ou considera a Igreja Católica objecto de crítica ou de humor, tal como outra instituição qualquer. Levantaram-se as vozes dos moralistas, dos puritanos, das virgens ou dos meramente oportunistas. Enfim, foi bonita a festa. E com este frio, confesso, o calor das fogueirinhas até soube bem.
Começou, à minutos, a primeira edição do programa "Parlamento" na RTP2 depois das eleições. Tudo normal, não fosse a absoluta novidade de PSD e PP não terem aceite o convite da RTP e não terem enviado nenhum representante. Bem sabemos que perderam 35 deputados no dia 20, mas não há desculpa que consiga escamotear a falta de consideração que os dois grupos parlamentares da direita revelam por quem os elegeu e paga o seu ordenado. Já sabíamos que não tinham líderes, agora sabemos que já nem arranjam quem os represente.
A recorrente “escandaleira” espelhada nos comentários, resultado de uma reflexão que começou aqui, de uma boa piada que apareceu ali e de uma acertada observação mais além, assenta numa falácia para a qual já não há grande paciência.
Os críticos, e não me interessa a sua proveniência ideológica, deslizam para o moralismo, que é chão que já deu uvas. É que se parte do princípio que se está a atacar (se é que se está, e se estiver, siga em frente) um líder religioso e, com isso, a mexer com crenças que, supostamente, estão acima de qualquer reparo e, por consequência, a ofender pessoalmente um crente. A verdade é que não se está.
Quando eu, ou qualquer outro (suponho), criticamos ou gozamos com o Papa, estamos, acima de tudo, a visar o líder de uma instituição que possui, entre outras coisas, um determinado poder de influência sobre a sociedade, não importa agora qual o seu alcance. O Papa está no mesmo patamar que o líder do movimento de Canas de Senhorim, da Opus Gay, do presidente de um clube de futebol.
Ao criticar ou gozar com alguma destas figuras, é-me absolutamente indiferente que um cristão ache que estou a gozar com a sua fé, que um regionalista pense que lhe insulto a terra, que o homossexual me ache homófobo, que o adepto pense que desprezo as suas cores.
Por outro lado, com certeza que não entrarei numa igreja para cuspir na pia baptismal, não irei a Canas de Senhorim chamar nomes ao dono do café, não chamarei maricas a alguém e não direi ao meu amigo portista, benfiquista ou seja lá o que for que ele é um atrasado mental.
Fora disso, lamento, posso verbalizar o que me apetecer e não admito que me acusem de insultuoso.
Voltando ao Papa: aqui, a questão nem sequer é teológica. Trata-se do Papa, uma criatura que é tudo menos inocente, tendo resvalado muitas vezes ao longo do seu pontificiado para algo a que se poderia chamar, sem hesitações, de perversidade.
Aqui, e noutros sítios onde escrevo, continuarei tranquilamente a criticar a Igreja Católica ou a usá-la como matéria prima para fazer humor.
E siga a discussão.
Desculpem a falta de jeito. Aqui vai o link do T. Eagleton para o artigo. Vale mesmo a pena. o tal artigo

Uma editora portuguesa, creio que a Civilização, prepara-se para editar o livro de Anne Applebaum, Gulag: uma História, vencedor do Prémio Pulitzer em 2004 (categoria de não-ficção). Anne Applebaum, politicamente conservadora, é jornalista e tem uma coluna regular no Washington Post. Pelo que conheço da autora, e também pelo excerto publicado no último sábado no Público (link para texto não disponível), suspeito que o livro deverá procurar deliberadamente a polémica pela equivalência moral que estabelece entre os crimes do comunismo soviético (e não apenas do estalinismo, note-se bem) e os do nazismo. Não sei se esse será o melhor ponto de partida para estudar a história. Mas também não julgo que haja razões para negar a validade desse tipo de exercícios comparativos, como tanta gente fez a propósito do Livro Negro do Comunismo.
A propósito do último atentado em Israel (é sempre tão arriscado falar no último atentado, podemos sempre ser surpreendidos nas notícias...), vale a pena referir o artigo de Terry Eagleton, que dá o título a este post, publicado no The Guardian, de 26 de Janeiro. Embora esta referência esteja ligeiramente desactualizada, a importância do texto explica-a. Terry Eagleton é professor na Manchester University, intelectual de nomeada, teórico marxista, que merecia um maior interesse por parte do mundo editorial nacional. Eagleton trata, neste artigo, de uma forma corajosa e lúcida, a questão dos bombistas suicidas, sem os “lugares-comuns” frequentemente utilizados nesta discussão. Procura pensar, no contexto do Médio Oriente, o que significa uma pessoa matar-se por uma causa. “Blowing yourself up for political reasons is a complex symbolic act, one that mixes despair and defiance. It proclaims that even death is preferable to your wretched way of life.” O que aconteceria se este artigo tivesse sido escrito e publicado em Portugal?
«Não é este o momento para falar desse assunto», respondeu Mota Amaral aos jornalistas à saída da despedida do Presidente da República quando questionado sobre uma eventual candidatura sua à presidência.
Um dia uma piada sobre o Papa terá em Portugal o efeito que uma piada sobre outra pessoa tem. Gargalhadas se for excelente; sorrisos se for para sorrir; um hã-hã rápido se for fraquinha; um encolher de ombros se for muito má; um ligeiro incómodo se for de mau gosto; um risinho culpado se for de humor negro. Mas esse dia ainda não chegou: para já até uma piada corrente gera reacções escandalizadas de quem não foi visado ao lê-la. É como um acidente de carro que não conseguem deixar de olhar. Assediam, insultam e agridem o autor como se ele fosse culpado de atropelamento e fuga. Mas também não deixam de querer lucrar em mostrar-se uns mais escandalizados do que outros.
Calma, pessoal! Não há nada para ver – são só os nossos talibãs. Gostam de apedrejar, como os pagãos a São Barnabé.
Hipóteses de líderes para a abertura da direita liberal à sociedade:


Já leram a última do Financial Times? Paul Wolfowitz, o actual secretário-adjunto da Defesa dos Estados Unidos, lidera a lista de candidatos a propôr pela Administração Bush para a presidência do Banco Mundial. Uma das figuras mais importantes do já “famoso” grupo de neo-conservadores que tomou de assalto a Casa Branca nos últimos anos, um dos principais arquitectos da Guerra do Iraque e com um “passado fascinante”, se se confirmar a regra de escolher um norte-americano para uma das mais prestigiadas organizações internacionais para o desenvolvimento, vai ser interessante ver o que sairá da cartola de Wolfowitz (e de Bush) para promover o desenvolvimento mundial.....
O Papa já bebe sozinho por uma palhinha. Os médicos estão em crer que, a partir de amanhã, poderá começar a gatinhar sem amparo alheio. Aguardamos ansiosos.
Resolvi retirar daqui a nota explicativa porque, obviamente, não merecem explicações algumas.
Alberto João Jardim diz que não apoia nenhuma das candidaturas à liderança do PSD porque não quer ter nada a ver com o circo. É feio renegar assim uma vida inteira dedicada à muito digna actividade circense.