A Federação Internacional do Automóvel proibiu a utilização de piercings em provas como a Fórmula 1 ou o mundial de rallys.
O agnóstico Martin Kettle no Guardian confessa-se impressionado pela lição de vida ao aproximar da morte de João Paulo II. Independentemente da retórica que a possa rodear. Alguns no Vaticano usam isso ao serviço da sua interpretação muito abrangente do que seja a eutanásia. Tal como Kettle vejo no seu exemplo o melhor argumento contra os que vêm uma doença incurável como uma morte antecipada, ou aceitam os prognósticos médicos como um juízo final; mas também contra o culto da vida vegetativa em que a tendência para o excesso moralista em torno de questões complicadas tende a degenerar.
A BBC Radio 4 resolveu celebrar a Páscoa muito ecumenicamente destacando o assassínio há 25 anos atrás do Arcebispo de San Salvador, Óscar Romero, em plena missa. Ele sabia que ia morrer, mas estava convencido de que o seu sacrifício era necessária para o seu país encontrar uma paz justa. A julgar pelas declarações dos protagonistas dos acordos de paz de 1992 tinha razão. Parece que foi considerado demasiado político para se avançar desde já com o processo de canonização. E, no entanto, foi um «bispo vermelho» especialmente paradoxal, pois era realmente um figura moderada num país de extremos. Mas todos os bispos vermelhos o são um pouco. Como dizia esse outro bispo vermelho D. Hélder Câmara que cito de memória: ‘Quando disse temos de alimentar quem tem fome, chamaram-me santo. Quando perguntei, porque é que eles têm fome, chamaram-me comunista!’
Quanto ao Spectator chamou a atenção para os 300 milhões de cristãos perseguidos por várias formas de ateísmo de Estado ou outros regimes poucos tolerantes. O que não deixa de ser apropriado. Mas um cristão a sério preferirá sempre ser perseguido a ser perseguidor...
Lobo Xavier, usando de uma certa liberdade argumentativa, diz que o PCP e o Bloco defendem «que não há crime mesmo que a IVG seja provocada na vespera do nascimento».
O meu primeiro texto do fim-de-semana passado, no Expresso.
Trinta mulheres desfilaram, esta semana, pelas ruas de Havana. Como as mães da Praça de Maio, na Argentina, arriscam tudo pelos seus filhos e pelos seus maridos. Em Cuba, são conhecidas como as “damas de branco”.
Há dois anos, o regime castrista, em apenas três dias, prendeu 75 opositores. Um mês depois estavam todos julgados. No total, 1475 anos de prisão. Não havia dúvidas: tratavam-se de perigosos “mercenários ao serviço dos Estados Unidos”. As suas profissões são as mesmas de muitos presos políticos em todo o Mundo: jornalistas, escritores e intelectuais.
Em todo o Mundo, uma parte significativa da esquerda apoia Fidel Castro. E muitos intelectuais, como Garcia Marquez ou Luís Sepúlveda, entregam-se ao apoio a esta ditadura com um especial empenho. A razão, para além de uma certa nostalgia pela estética revolucionária, é pragmática: que haja alguém que faça frente à omnipotência do vizinho americano. Há lições que, definitivamente, levam tempo a aprender: os inimigos dos nossos inimigos não são, necessariamente, os mais recomendáveis dos amigos.
É verdade que, com o bloqueio, os Estados Unidos dão a Fidel Castro o adversário externo de que ele precisa. E dão aos cubanos, quando olham para a alternativa que lhes é apresentada em Miami, a confirmação de uma evidência: o problema do poderoso vizinho não é haver uma ditadura em Cuba. Nessa matéria, têm um longo currículo de conivências no continente. O incómodo é bem mais prosaico: aquela ditadura não é a sua ditadura.
Acredito que muitos dos opositores que, em Cuba, se batem contra Fidel Castro serão gente de direita. É normal. O que conhecem da esquerda não é lá muito animador. Mas são quem, no seu país, corre todos os riscos pela decência e pela liberdade. Para mim, chega e sobra. São a minha gente. Eles e as suas damas.
O meu segundo texto no Expresso do fim-de-semana passado.
Primeiro foi a nomeação de John Bolton como embaixador dos Estados Unidos na ONU. «Se o edifício do secretariado da ONU perdesse dez andares não faria diferença nenhuma», ironizou. «Qualquer reforma deveria ser no sentido de considerar apenas um membro permanente: os EUA», defendeu. Ou seja, o homem certo no lugar certo.
Depois, foi Paul Wolfowitz para a Presidência do Banco Mundial. De forma pragmática, terá de trabalhar com governos de todo o Mundo e de toda a espécie. Estão a imaginar melhor para o lugar do que um dos principais arquitectos da aventura iraquiana? A política exportação dos “valores americanos” terá mais um valioso instrumento.
Era uma tradição: a Europa ficava com o FMI e os Estados Unidos com o Banco Mundial. Mas a tradição já não é o que era. Os EUA vetaram, em 2000, o nome europeu para a presidência do Fundo Monetário. Pode a Europa fazer o mesmo com Wolfowitz? Claro que não. No casamento transatlântico, já se sabe, estamos destinados a fazer o papel da esposa submissa.
Para nos salvar, uma nova teoria está em voga: tudo é o contrário do que parece. Reagan parecia burro e era brilhante. Roosevelt parecia ignorante e era intuitivo. Bush, que parece as duas coisas, só pode ser um génio. A mesma teoria se aplica a Wolfowitz: a escolha é boa porque ele é péssimo para o lugar. É o que se escreve em muita imprensa internacional. No Banco Mundial, um representante dos “neocons” será uma raposa num galinheiro. Excelente. Será ele a interceder pelas galinhas junto da alcateia. E, quem sabe, até se pode vir a transformar no mais dócil dos galináceos.
E estas são as escolhas George Bush para a Primavera-Verão de 2005. Era agora que ele se ia converter ao multilateralismo e aproximar-se da Europa, não era? Os sinais não podiam ser mais animadores.
No Público de ontem encontra-se este texto de Maria Filomena Mónica sobre a investigação policial ao caso de Joana Cipriano, a menina desaparecida e presumivelmente assassinada em Portimão. Sobre o fundo do artigo, nada a dizer: Filomena Mónica tem toda a razão ao denunciar o trabalho pior do que feito com os pés (e o que há de pior que "feito com os pés"? feito com os tornozelos? com a barriga das pernas?) pelas polícias portuguesas. Mais razão além dessa tem quando recorda que a própria polícia decidiu coroar o seu mau trabalho com o espancamento da maior suspeita, e coroar esse espancamento com a velha história de que a presa "caiu das escadas abaixo". Um trabalho primoroso, ao mais alto nível daquilo de que as polícias portuguesas são capazes.
Portanto estava eu ali a ler um texto de Maria Filomena Mónica, a gostar de poder concordar com a colunista, e já preparado para o ritual momento de anglocentrismo que certamente não faltaria ali ao virar do parágrafo.
E não faltou, como é evidente.
Mas o que é extraordinário é a forma:
«Quem esteja habituado a ver filmes anglo-saxónicos, certamente notou a diferença entre o que se passa nos tribunais americanos e ingleses e nos portugueses. [...] Uma das minhas séries preferidas intitula-se The Prime Suspect. Produzida pela empresa de televisão Granada, tem na actriz Helen Mirren uma espantosa inspectora da polícia (o script, impecável, é da autoria de Lynda La Plante). Para além dos méritos artísticos do programa, demonstra a forma como, no Reino Unido, a maioria dos crimes são resolvidos, não por confissões, mas exactamente por análises laboratoriais.»
Ou seja, a realidade portuguesa fica a perder quando comparada com a ficção anglo-saxónica. Isto independentemente dos ghettos violentos de Londres ou Filadélfia também ficarem a perder com aquela simpática cena de pancadaria no Pátio das Cantigas.
Mas afinal porque tenho eu um problema com uma comparação destas? Não se está mesmo a ver que os anglo-saxónicos são melhores do que nós? Está sim senhor. E também se estava mesmo a ver que a mãe da miúda era culpada.
Para quem ainda não sabe: A VICAIMA, em conjunto com a JOMAR e o Grupo FINIBANCO, está ligada à 16ª fortuna nacional – ÁLVARO PINHO DA COSTA LEITE -, de acordo com a edição de 2004 da revista EXAME com o ranking dos mais ricos de Portugal. Diz a Exame: “É irmão de Ilídio Pinho e de António, Armindo e António Pinho da Arsopi. Construiu a pulso a sua ascensão bilionária que tem como principal suporte os negócios na indústria das madeiras. Nos anos 80, esteve na emergência da nova finança privada até constituir o seu pequeno grupo financeiro em torno do Finibanco.” São 366 milhões de euros.......
Para quem se assume como um consumidor socialmente responsável: Quando forem comprar madeira ou produtos de madeira, porque não exigir madeira que cumpra as normas do Forest Stewardship Council (FSC)?
O Forest Stewardship Council (FSC) é um sistema credível de certificação para madeira e produtos de madeira reconhecido internacionalmente e que garante que a madeira provém de florestas geridas segundo fortes critérios ambientais e sociais.
Na República em que vivemos, nada me envergonha mais do que uma sórdida Guarda Nacional que leva o seu nome.
Não há portugueses entre as vítimas do sismo na Indonésia
Luis Filipe Meneses diz que a pseudo-aristocracia do partido já lhe está a dar facadas nas costas. SIC
Confesso: começou friamente a minha relação com o novo disco dos Go-Betweens. Uma coisa assim tipo “amigos amigos oceans apart”, muito pouco “tu cá tu lá”, mais tipo “você isto e você aquilo” ou “e o senhor como vai”, estão a ver? Uma coisa assim a puxar ao "peço o obséquio", topam?
Apenas dez dias passados e não posso senão reconhecer que vai longe o amargo de boca, que 80% do disco é “pop vintage go-betweenseana” e o resto são cantigas (e bem boas).
Robert, Grant, venham de lá esses ossos e desculpem qualquer coisinha. Afinal, o vosso melhor álbum pode mesmo ainda estar por vir. Contra mim falo, mas se dúvidas houvesse deveriam dissipar-se instantaneamente ao som de "Here Comes a City", "Finding You", "No Reason To Cry" ou "Boundary Rider".
Venha o próximo.
DN Online: «Maçonaria acerta parceria com a 2:»

Patriarca diz que "moda" de reduzir Jesus à condição humana "destrói a fé" católica
O PSD organizou hoje uma sessão de formação sobre trabalho autárquico. Por apenas 100 euros, os dirigentes laranjas com aspirações a dirigir uma câmara puderam ouvir os preciosos conselhos de Manuela Ferreira Leite ou Isaltino Morais.













José Mourinho está na Terra Santa, a convite de Shimon Peres, para participar numa série da acções destinadas a promover a paz entre israelitas e palestinos. Amanhã dará um curso para treinadores de futebol das duas nacionalidades. Trata-se de uma iniciativa meritória – e José Mourinho, sem dúvida, o exemplo ideal – para uma região onde é necessário, mais do que nunca, saber aceitar compromissos que não satisfazem completamente nenhuma das partes, não desejar a aniquilação dos adversários, e não alimentar ilusões de vitória total em todos os campos.
«Cocktail com Viagra deixa jovens impotentes.», Sic Notícias

Caravaggio, The Denial of Saint Peter (Met NY)
Deve ser da sazão. Mas quem disse que acção, drama e efeitos especiais distraem as mágoas e aliviam o coração, não viu isto. Para maiores de 18 e menores de 32... Não digam que não avisei.
Acho que posso dizê-lo sem problemas: estou desiludido. Estou verdadeiramente desapontado. E mais, sinto-me traído. Para mim o estado de graça acaba de acabar. Kaput. Finito. Chega. Basta. Caramba. Chiça.
Duas semanas quase inteiras de governação PS, duas semanas a devorar os jornais dia a dia, hora a hora, sempre à espera da notícia certa, da notícia mais aguardada de todas. E nada. Amanhã é sexta-feira santa portanto também já não deve ser amanhã que lá vamos, e depois, bem, depois mete-se o fim de semana e como tal: nada.
A verdade é só uma: 15 dias de poder socialista e ainda não declarámos guerra aos EUA?!?! Freitas é um cobarde. Um cobarde. Morra o estado de graça. Já. Morra o estado de graça, morra.
PIM!
Nota: o retrato já vai a caminho da Sala Oval.
Hoje, no DN, Luís Delgado defende o direito à vida da americana Terri Schiavo.
«Que mundo é este, meu Deus? Gritem, enviem apelos, cartas, e-mails, tudo o que for possível para salvar Schiavo!»
Nas mesmas páginas, e em tom igualmente pungente, Rui Gomes da Silva batalha contra a "morte política" de Pedro Santana Lopes. Que mundo é este, meu Deus?
Tinha começado a escrever sobre Aron e Kennan, mas o Pedro e o Ivan facilitaram-me a tarefa. Queria sobretudo insistir na ironia de ver dois espíritos independentes, que tiveram grandes problemas em serem aceites e em conquistarem e manterem o seu espaço de reflexão particular, serem agora adoptados pela ortodoxia vigente por estes lados. Estou longe de concordar com tudo o que escreveram, e tenho sobretudo problemas com Kennan, pelas razões que o Pedro e o Ivan referiram. Mas sempre apreciei a fortaleza de espírito, a vontade de manter os olhos bem abertos à realidade (custa mais do que parece), e o estilo cristalino.
Seguem-se algumas referências e linques complementares às dos ilustres bloguistas anteriormente citados. (E sim, Kennan e Aron eram realmente bastante altos, dizem).
Aron morreu em 1983. Mas alguns dos seus livros mais importantes nada perderam do seu interesse e ‘actualidade’. Por exemplo, Penser la Guerra : Clausewitz, um duelo de gigantes em dois rounds, em que as passagens sobre a guerra de guerrilhas ou a guerra como continuação da política assentam que nem uma luva ao Iraque. Ou République Imperiale, uma das melhores análises das aventuras dos EUA no Mundo na altura em que foi publicada, nem panegírico nem condenação. Ou o enorme - literalmente - clássico das Relações Internacionais, Paix et Guerre entre les Nations, que entre outras coisas desfaz a relação linear entre ideologia e política externa. Para quem estiver interessado na vida e obra existe uma equilibrada biografia, fiel à complexidade de Aron, por Nicholas Bavarez. Infelizmente está tudo ou quase por traduzir.
Kennan, agora falecido aos 101 anos, foi o autor do artigo mais citado de sempre da Foreign Affairs, que marcou o início da Guerra Fria ao definir uma estratégia de contenção da União Soviética. Mas ele foi desde cedo um crítico da ortodoxia que tinha ajudado a criar e que tanto o queria recompensar! Porque achava, para grande irritação dos falcões da altura, que a URSS acabaria por cair de podre, e que portanto a contenção devia ser essencialmente pacífica e não militar. Um lírico, claro! Saiu do serviço diplomático em 1950, e publicou umas Memoirs muito bem esgalhadas, que comprei há uns anos por acaso em segundo mão. Um texto digno de Indiana Jones, mas de fato e gravata, da Berlim de Hitler à Moscovo de Stalin, passando pela Lisboa de Salazar. Descobri depois que ele tinha ganho o Pulitzer com elas.
Deixo aqui alguns excertos de uma das últimas e melhores entrevistas de Kennan (que só esta disponível integralmente para subscritores na New York Review). O mesmo estilo brilhante e corrosivo de sempre, com a patine deliciosa dos noventa e muitos anos. Um grande americano, mas não do tipo que agrada aos neo-conservadores. Leiam:
We export to anyone who can buy it or steal it the cheapest, silliest, and most disreputable manifestations of our "culture." No wonder that these effusions become the laughingstock of intelligent and sensitive people the world over.
What we ought to do at this point is to try to cut ourselves down to size in the dreams and aspirations we direct to our possibilities for world leadership. We are not, really, all that great. We have serious problems within our society these days; and it sometimes seems to me that the best help we could give to others would be to allow them to observe that we are now confronting those problems with a bit more imagination, courage, and resolve than has been apparent in the recent past.
Serving in Berlin at the height of Hitler's military successes, in 1941, I tried to persuade friends in our government that even if Hitler should succeed in achieving military domination over all of Europe, he would not be able to turn this into any sort of complete and long-lasting political preeminence and I gave reasons for this conclusion. And we were talking, then, only about Europe. Applied to the world scene, this is, of course, even more true. I can say without hesitation that this planet is never going to be ruled from any single political center, whatever its military power.

Quando alguém que lhe é mais querido vai desta para melhor, o Rui Tavares tem por hábito escrever um post de homenagem intitulado “Parem as Máquinas”!
Ao tomar conhecimento da morte de George Kennan na passada sexta-feira, não posso dizer que esse tenha sido o meu primeiro impulso. Li pouca coisa do senhor (alguns artigos e excertos de livros) e conheço as suas ideias sobretudo em segunda mão. Mas Kennan é uma daquelas figuras em que qualquer pessoa medianamente interessada na história das relações internacionais do século XX acaba por tropeçar. A sua influência no pensamento estratégico dos Estados Unidos foi imensa. Estes obituários do New York Times e do Guardian explicam com algum detalhe o impacto que o seu célebre “longo telegrama” de Fevereiro de 1946 (mais tarde publicado, sob pseudónimo, na Foreign Affairs, com o título “The Sources of Soviet Conduct”) teve na mente dos decisores políticos em Washington, na alvorada da Guerra Fria. Kennan foi uma espécie de pai intelectual da doutrina da “contenção”, que de forma mais ou menos deformada, orientou toda a postura estratégica dos EUA face à União Soviética durante a Guerra Fria.
Na sua carreira diplomática, teve também uma ligação a Portugal: em 1943, Kennan foi o chargé d’affaires da legação americana em Lisboa e foi ele o primeiro interlocutor de Salazar nas negociações que haveriam de conduzir à concessão da Base das Lajes aos EUA um ano mais tarde (ver, sobre isto, o artigo do historiador Luís Nuno Rodrigues com link mais abaixo).
Kennan foi um homem contraditório em muitos aspectos. Foi ele quem destruiu as ilusões de vários responsáveis americanos em relação à URSS de Estaline imediatamente após a II Guerra Mundial, advogando uma resposta robusta a todas as intrusões soviéticas na esfera de interesses norte-americana. Mais tarde, porém, considerou que as suas palavras tinham sido mal interpretadas – segundo ele, o comunismo deveria ser combatido por meios políticos e económicos (como o Plano Marshall) e não tanto por uma postura militar agressiva. Kennan opôs-se à formação da NATO, manifestou a sua apreensão perante a escalada nuclear, e foi um crítico severo do envolvimento americano no Vietname (bem como das guerras mais recentes do Kosovo e do Iraque)
Kennan era um pensador solidamente ancorado na tradição “realista” das relações internacionais, o que ajuda a explicar o seu cepticismo relativamente às ambições “universalistas” de vários presidentes americanos em matéria de política externa. Aliás, as suas opiniões acerca da democracia de massas eram, no mínimo, dúbias. Nos anos 30, Kennan (um misantropo com inclinações depressivas) escreveu que a América precisava de um “despotismo benévolo”, sendo que uma das suas principais premissas deveria ser a restrição drástica do direito de sufrágio (negros, imigrantes e mulheres deixariam de poder votar). Colocado na Embaixada em Berlim nas vésperas da II Guerra Mundial, referiu-se por diversas vezes à Alemanha nazi em termos ambíguos: para ele, Hitler viera devolver à Europa central a estabilidade que esta perdera desde o colapso dos Habsburgos e o advento de democracias instáveis. A sua admiração por soluções políticas fortes, ou mesmo autoritárias, não se desvaneceu com o passar do tempo: em várias entrevistas, por exemplo, confessou-se um admirador de Vladimir Putin. Num artigo publicado em finais do ano passado na revista Relações Internacionais, José Cutileiro diz que Kennan se considerava a si próprio como “um homem do século XVIII” (certamente que pré-1789) e, no fundo, talvez resida aí a chave para compreender estas facetas mais desconcertantes da sua personalidade.
Os artigos de e sobre Kennan referidos neste post podem ser consultados neste website
PS: Só hoje reparei que o Ivan já tinha escrito sobre Kennan, num post que depois actualizou com uma amável referência a este meu texto.
Este mundo está perdido. O João Miranda atacou selvaticamente os resultados do neo-liberalismo dogmático do senhor Bush nas páginas do Blasfémias. Leiam:
Claro ele provavelmente não se apercebeu. Mas lá que o texto se adapta que nem uma luva... Gosto quando uma ortodoxia mostra uma racha na muralha de aço.
PS - E já agora João, a mim que até sou um adepto do comércio livre como principio, pode explicar que terriveis problemas é que a UE ou os EUA têm tido por causa do seu proteccionismo (relativamente a produtos agricolas dos paises pobres)? E a Somália, essa velha conhecida nossa, que grandes vantagens tem tirado das suas fronteiras inteiramente abertas, sem Estado para empatar? Nada como a simplicidade dos dogmas, pena a realidade interferir um bocadinho.
E ainda... O João Miranda respondeu aqui. Eu comentei a resposta. Fica aqui o essencial da réplica: o comércio livre puro nunca existiu, pelo menos desde que existe Estado e temos registos. Sempre houve condicionamentos ao comércio, claramente isso não impediu o crescimento económico.
Menos condicionamentos, fiscais pelo menos, é melhor. Mas como regra e se todos trabalharem honestamente nesse sentido. (O que evidentemente não é o caso de Bush que sistematicamente tem tentado violar as regras da Organização Mundial de Comércio - mais um exemplo do valor do internacionalismo). Quem quiser aprofundar a questão pode ler este excelente e curto livro, Pop Internacionalism de Paul Krugman, que desmonta muito dos mitos anti-comércio mais livre. Krugman, note-se, é um liberal de esquerda e um dos mais prestigiados economistas americanos, e nas horas vagas um dos críticos mais temidos de Bush e companhia.
Mas é hipocrisia exigir abertura total quando os países ricos não a praticam. Sobretudo quando se sabe que um reforço do proteccionismo é um recurso habitual na fase de arranque de uma economia. Os EUA, a Alemanha e o Japão, por exemplo, recorreram a medidas de protecção das suas indústrias emergentes no passado (e ainda hoje tentam de vez em quando). Nada como alguma história económica para colocar areia na engrenagem das ideologias economicistas.

Depois de muitos anos de retórica da parte dos críticos, e depois de alguns anos de trabalho por parte da ONU, Kofi Annan apresentou hoje as suas propostas para a reforma da ONU e para o Objectivo do Milénio. O texto completo de Annan pode ser lido aqui, e em breve estará no Barnabé Rebelo de Sousa.
Chegou agora a altura de perceber exactamente o que é que os críticos querem. Nomeadamente o comediante senhor Bolton, que suponho que vá continuar a insistir que deve haver apenas um membro no Conselho de Segurança: os EUA. O que lhe resolvia realmente muitos problemas. Ou do brilhante especialista em desenvolvimento senhor Wolfowitz (que nunca teve nada a ver com o assunto como podem ver pela sua biografia oficial, mas foi embaixador na Indonésia de Suharto, esse grande exemplo de desenvolvimento e liberdade!). Mas realmente estou curioso para ver que propostas alternativas surgem em cima da mesa. Como vão responder a estas reformas ambiciosas, que eliminam alguns dos defeitos da organização, e portanto dificilmente podem ser recusadas por quem antes os atacava. Tanto mais que Annan tem o cuidado de dizer que os Estados têm um papel fundamental, que a sua fraqueza e falência é causa de tragédias terriveis, mas que os Estados por si só não chegam para resolver os problemas cada vez mais globais do futuro. Simples, mas verdadeiro.
Annan apresenta as suas propostas organizando o texto em torno das famosas três liberdades, mote de Roosevelt, o principal responsável pela criação da ONU em 1945: liberdade face ao medo, liberdade face à fome, e liberdade para viver com dignidade. Nada mais apropriado do que relembrar estas palavras do mesmo Franklin Delano a respeito da nascente ONU: "O perfeccionismo, não menos do que o isolacionismo ou o imperialismo ou uma politica assente apenas no poder, poderá ser um obstáculo no caminho para a paz entre as nações."
Discurso sobre o Estado da União de 6 de Janeiro de 1945.
Ontem em editorial no Público, José Manuel Fernandes, propôs o que julga ser um dos caminhos que o Banco Mundial sob a liderança de Paul Wolfowitz deve assumir nos seus financiamentos: a “promoção de mercados livres”.
Eu gostava de saber de onde vem esta ideia de que os mercados devem ser livres para que haja desenvolvimento?!!!! Nos anos 80, grande parte da América Latina, por pressão de instituições multilaterais como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, decidiu adoptar uma série de medidas ecónomicas que abriram os seus mercados e ainda hoje está a pagar por isso com os níveis de pobreza a atingir uma grande parte da população.
Na Ásia, principalmente no Nordeste Asiático, a Coreia do Sul e Taiwan, pelo contrário, decidiram “borrifar-se” para o FMI e o BM, e adoptaram uma outra receita. Normalmente gosta-se de falar das suas políticas de exportação (que uns lêem como abertura aos mercados externos) como modelo para os países em vias de desenvolvimento, mas aquilo de que se fala pouco (porque não é politicamente correcto) é o proteccionismo forte e feio que os governos praticaram para sustentar o crescimento de uma série de indústrias estratégicas que hoje são a sua verdadeira base de sucesso e que contribuiram para os baixos níveis de pobreza nesta região.
O que eu quero dizer é que os “mercados livres” não são a panaceia para os males do sub-desenvolvimento.
A perseguição ressentida da direita portuguesa a Freitas do Amaral começa a cheirar muito mal. Em Portugal a mudança de campo político –desde que da esquerda para a direita – é vista como um sinal de amadurecimento. Passa-se do MRPP ou do PCP para o PSD como quem começa a apreciar um bom vinho ou uma boa pintura.
Já Freitas do Amaral, que não mudou de campo político, transformou-se num terrível traidor, como se um homem conservador, que valoriza o direito internacional, não pudesse ficar horrorizado com Abu Grahib ou Guantanamo.
O pecado tomou proporções impronunciáveis quando o homem entrou para o executivo. Como se viu ontem na apresentação do programa do governo, abespinham-se os guardiães do templo ideológico porque o professor se sente melhor na companhia de uma esquerda moderada do que na deles, que não tiram a expressão «centro direita» da boca mas continuam a suspirar por um Portugal do Minho a Timor.
Agora a intolerância ganhou foros internacionais. O PPE tomou as dores dos seus filiados portugueses e vai suspender Freitas por achar inaceitável a sua presença num governo socialista. Já estamos no terreno da pura bizarria. Porque é que, por toda a Europa, partidos de centro-esquerda e centro-direita podem fazer coligações e Freitas não pode «coligar-se» unipessoalmente (é, afinal, essa a sua condição como associado do PPE) com o PS? Nos Estados Unidos é normal os democratas convidarem republicanos para a administração e vice-versa. Em Israel trabalhistas e conservadores já estiveram coligados várias vezes. Já Freitas, é um traidor.
Trabalhadores da Casa Pia pedem reunião a provedora
as putas, que às quatro e vinte da madrugada de uma terça-feira não se vêem do táxi a esta hora da noite, que já devem estar no buraco para onde foram levadas, ou voltaram para casa, porque não há negócio que justifique este começo de Primavera e não há condições de circulação para a clientela.
As putas à beira do túnel do Marquês são baratas. Quem lá passar de carro e perguntar a fugir, como faz a miudagem por estultícia inocente, sabe que são.
É visão nocturna para quem vem do Marquês. As grades das obras ao lado do parque, as poucas luzes da Joaquim António de Aguiar, a Rua Castilho às escuras.
Assim como quem, lá para cima, no Porto, vai tomar café à Rua da Constituição depois do jantar e vê as carrinhas descarregar as que caminham sem gosto da Latino Coelho para a Alegria e para a Santos Pousada às dez e meia da noite.
Mas estamos em Lisboa. O lixanço das obras do túnel é o mau do negócio. Nem baratas a coisa vai nesta noite. Quatro da manhã costuma ser hora de serviço, mas não se vê uma na Artilharia 1.
“O subchefe da Polícia apontou, detrás da secretária, o cano da esferográfica.
‘Profissão?’
As duas mulheres trocaram olhares, a mais velha e gorda deu um passo em frente como se quisesse ir entregar a resposta em mão. Entregou, baixinho:
‘Putas…’
O subchefe da Polícia fez uma careta de desagrado, abanou tristemente a cabeça e censurou:
‘Então isso diz-se assim?’
A mulher, a mais velha e gorda, não compreendeu que diabo queria o subchefe da Polícia, ficou calada, a pensar, pensou que talvez não tivesse sido respeitosa o suficiente. Emendou:
‘Putas, senhor subchefe.’”
Crónica dos Bons Malandros, Mário Zambujal, Bertrand, 1980
É o túnel do Marquês durante o dia a dar cabo da vida às pessoas, é o Sá Fernandes a embargar, é o negócio lixado à noite. Raio de cidade, não se resolve nada e isto um gajo de dia a querer andar à vontade na rua e não pode e só há pó na estrada e nos passeios.
E à noite o problema é as putas da Artilharia 1, que desapareceram cedo na noite, e o melhor era que não fosse um problema, era bom que as coisas tivessem corrido para melhor, que tivessem desaparecido para tratar da vida delas e não da dos outros, que fazer o túnel fosse menos chatice que a vida delas.
Lá vai Lisboa, com a saia cor do mar, e todo o bairro é um noivo que com ela vai casar.
Santana Lopes decide sobre recandidatura à Câmara de Lisboa após Congresso do PSD
Hoje, no Parlamento, o PS fez todo o debate sobre o programa do governo à esquerda. Nuns casos (educação, cultura, sociedade de informação e justiça) pode. Noutros (imigração, lei eleitoral, idade de reforma e gestão da saúde) não. Mas a inexistência de direita leva naturalmente a esta estratégia. Portas foi fazer ajustes de contas com Freitas. O PSD está em depressão profunda. Agora, vai ser assim por uns tempos: o debate vai fazer-se entre as esquerdas. Ainda bem. Para variar.
Calhou-me responder a uma mini-entrevista via email de Soraia Amaro, uma jornalista do DIário de Aveiro. Como a entrevista focava uma série de questões correntes sobre os blogues, a blogosfera e o Barnabé, decidi publicar aqui as minhas respostas para os interessados.
- Como e quando surgiu a ideia de criar um blog? Para servir que propósito?
A ideia de fazer um blogue surgiu no Verão de 2003 por iniciativa do Daniel Oliveira, a que depois se juntaram as minhas manias a propósito do título e grafismo e os temperamentos do André Belo, do Celso Martins e do Pedro Oliveira. Hoje o Barnabé tem mais membros e serve os propósitos dispersos de todos – e muitas vezes propósito nenhum. Para os interessados, contei uma vez essa história aqui: http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/052450.html .
- A exposição na «blogosfera» é positiva? Tem vantagens/desvantagens? Quais?
Boa definição: tem aquilo que se poderia designar precisamente por vantagens/desvantagens, muitas vezes exactamente as mesmas. A título de exemplo, permite-nos dar opinião sobre muita coisa, o que por vezes leva as pessoas a achar que temos opinião sobre tudo.
- O que se é no dia-a-dia que não se mostra no blog? Há uma(s)
personagem (s) criada (s) para o blog? O que se diz no blog que não se
diz cara-a-cara?
Não se deveria ser nem dizer nada no blogue que não se desejasse mostrar a pessoas que não sabemos quem são e que, tomadas no seu conjunto, não caberiam na nossa sala de jantar. Mas raramente se consegue levar esta regra a bom porto.
- A assinatura usada nos blogs nem sempre permite perceber de quem se
trata. No caso, as pessoas à volta associam-nos ao blog?
No caso particular do Barnabé, a única regra para os membros é não usar pseudónimo. O resultado é cada um dos barnabéus forçosamente associado a tudo o que escreve.
- O grande boom de blogs nacionais ocorreu durante o Verão de 2003. O
que levará as pessoas a, em vez de sair, ir à praia, arejar, dedicarem
uma parte do seu dia à criação de uma plataforma on-line onde podem,
em muitos caso, ser «outras pessoas»?
Efectivamente a ideia do Barnabé surgiu, como já disse acima, nesse mesmo Verão. Mas os mais ajuizados de nós impuseram a proposta de que primeiro fôssemos à praia arejar e só depois – a partir de 10 de Setembro – fundássemos oficialmente o Barnabé. De resto, um blogue não é menos virtual do que qualquer outra forma de comunicação. A pessoa pode ter as suas ideias ou até escrever os textos no meio de uma expedição de montanhismo.
- a manutenção do blog é feita diariamente? Há um «compromisso» de
postar periodicamente? Os leitores reclamam novos textos?
Ao contrário das desculpas esfarrapadas que todos nós damos, um blogue dá muito trabalho e só depois de dar muito trabalho é que ganha um mínimo de interesse. A manutenção deve ser diária ou quase e devem publicar-se textos ou imagens com uma boa frequência. Se não for assim a ferramenta não está a ser usada da forma que ela pede, e os leitores não reclamarão novos textos – simplesmente porque deixarão de aparecer. A recompensa por esse trabalho é uma escrita melhor – mais precisa, rica e evocativa – uma atenção mais exigente e um raciocínio mais ágil. Deste ponto de vista, a coisa é comparável ao exercício de um qualquer desporto: se não se pratica regularmente não se aprendem as manhas nem se obtêm os benefícios desejados.
- que blogs visita habitualmente?
Dependendo do momento e das restantes obrigações, o número varia muito. O género também. Entre os blogues político-culturais, visito por exemplo (da esquerda para a direita): Blogue de Esquerda, Renas e Veados, A Praia, Vida Agridoce, Esplanar, Contra a Corrente e Blasfémias. Entre os blogues que mais invejo estão: Blof, Laranja Amarga, Fora do Mundo, Blogue dos Marretas e A Causa foi Modificada. Alguns dos melhores blogues são portugueses, mas vale a pena ler o Hipopótamo Zeno e o Diário de Lisboa (brasileiros) ou o Arts & Letters Daily e o These Modern Times (norte-americanos).
- O Barnabé conquistou um espaço privilegiado na «blogosfera», sendo
uma referência para todos os que se movem neste espaço e se interessam
por política. Que influência exerce sobre os autores a certeza de que
algo é esperado deles, de que a sua posição será uma referência para
muitos leitores?
É muito difícil responder a essa pergunta sem trair as verdades dos restantes barnabés. De resto, esse "espaço privilegiado" é uma armadilha. Às vezes é privilegiado principalmente para apanhar porrada – o que, pensando bem, forma o temperamento.
- Os textos do Banabé foram editados em livro. Como se chega até aí?
quem é o publico desse livro?
O livro foi uma ideia de terceiros que aceitámos com muito entusiasmo e que deu uma trabalheira demente. Foi preciso mais do que trasladar – seleccionar, reescrever e recontextualizar – para traduzir a leitura do blogue para o livro, que é um objecto completamente diferente.
Curiosamente, há quem ache que tirar um blogue da internet é traí-lo. O Barnabé foi precisamente fundado em oposição a essa ideia: não é um meio em particular que nos atrai, mas antes a possibilidade de criar um estilo que consiga saltar entre formatos.
Quanto ao público do livro: total mistério. Ainda maior do que o público do blogue.
- E como não podia deixar de ser, o que é que tem o Barnabé que é
diferente dos outros?
Essa é, no nosso caso, a maior das ironias e deve ser deixada sempre em modo de pergunta. Aqueles que não gostam do Barnabé entendem esse lema como símbolo de arrogância. Outra leitura possível é mais metafísica: o que tem cada um que é diferente dos outros?
Nós próprios – e aqueles que nos lêem – andamos diariamente à procura de saber o que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros. Essa irresolução já estava na própria cantiga do Sérgio Godinho a que fomos roubar o nosso nome e o nosso lema.
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Curiosamente, depois de responder a estas perguntas pensei que a última resposta não me satisfazia e que deveria ser reformulado da seguinte forma, que enviei para a jornalista.
- E como não podia deixar de ser, o que é que tem o Barnabé que é
diferente dos outros?
Boa pergunta.

O João Miranda fez-me o favor de responder da forma prevísivel que confirma a minha tese sobre o seu neo-liberalismo ortodoxo. Fê-lo com o desenvolvimento de quem tem muita cartilha para despejar, vou tentar ser mais breve. As empresas com capital do Estado, ou privado, ou misto, não são competitivas no abstracto. Claro que o mais importante são bons gestores, bons quadros e a qualidade dos trabalhadores e do equipmento, e boas estratégias de gestão. Mas para empresas como a Boeing, a Airbus, ou a Sorefame, empresas pesadas que geralmente concorrem a grandes concursos públicos, contar com o apoio do Estado é fundamental. E, por isso, privadas ou públicas tem uma relação muito próximo com a elite política. Já agora, sabe o João Miranda quantos políticos nos EUA saem directamente do poder para conselhos de administração numa quantidade de empresas privadas as mais diversas (e depois voltam ao governo, claro)? Qualquer dia vai acordar para o mundo real e apanhar um susto. Halliburton, ouviu falar?
O João Miranda, e alguns dos comentadores barnabitas, subscrevem o mito bem nacional do desgraçadinho. A Sorefame sobreviveu graças ao condicionamento industrial, nunca foi competitiva... A Sorefame tem material em dezenas de países, comboios desde a India a Los Angeles. Precisava de ser melhor gerida, mas era um empresa de referência a nível internacional. Se não somos capazes de fazer alguma coisa com empresas como esta, bem podemos esperar que os investidores estrangeiros venham cá criá-las. Portugal nada pode pesar neste mercado dos grandes contratos? Mas a Holanda ou o Canadá pesam porquê? Afinal estamos na UE para ver passar comboios?
Finalmente, se a Sorefame não prestava, não podia ser competitiva, porque é que a Bombardier se deu ao trabalho de a comprar e encerrar? Está a transferir máquinas (e parece que quadros) para outras unidades para quê? O monopólio e a eliminação de concorrentes serão talvez capitalistas, mas liberais? Fico esclarecido, caro João, quanto ao seu marxismo neo-liberal (claro que desta vez quem tem toda a razão, a vanguarda, são os gestores internacionais).
Olhando para o futuro, estou curioso para ver se as OGMA também vão passar a não-competitivas. Afinal entre outras coisas é uma das poucas empresas no Mundo que faz manutenção de C-130 (aqueles aviões que os militares usam para transportar tudo por todo o lado)...
PS – Caro João, obrigado por se ter dado ao trabalho de elogiar o meu ajustamento à linha editorial do Barnabé. Estava a ficar com dúvidas. Mas fico satisfeito por achar isso, afinal os blogues de direita é que são os grandes especialistas no que é o Barnabé.
Por outro lado, Luís Nobre Guedes publicou louvores a todo o seu gabinete, reconhecendo oficialmente em Diário da República a "competência", "diligência", "zelo", "capacidade de decisão", "de trabalho e de organização", "disponibilidade constante", "dedicação", "eficiência" ou "sentido de responsabilidade" de nove secretárias, cinco adjuntos, quatro assessores, três motoristas e um assessor de imprensa – que, por acaso, é seu sobrinho.
O segundo aniversário da guerra do Iraque passou praticamente despercebido entre nós. Se não fossem as imagens de manifestações ocorridas em algumas capitais europeias, quase não se daria pelo assunto.
Há, no entanto, uma excepção. A Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque, iniciativa internacional inspirada no famoso “Tribunal Russell” criado em 1967 para “julgar” o envolvimento americano no Vietname. As suas sessões decorreram ontem e hoje, num auditório da Torre do Tombo, em Lisboa. Para mais informações sobre o sentido desta iniciativa, sua metodologia e participantes ver este site.
Aqueles que acompanham o Barnabé desde o início sabem qual é a minha posição perante a intervenção no Iraque: total discordância. No entanto, quando tomei conhecimento deste “tribunal de opinião pública”, em Novembro do ano passado, houve algo que me incomodou. Dias antes, a enfermeira britânica Margaret Hassan, funcionária de uma ONG e residente no Iraque há mais de trinta anos, tinha sido barbaramente assassinada por um grupo de “insurgentes” que depois fizeram questão de difundir na internet o vídeo da sua execução. A morte de Hassan foi apenas mais uma entre as muitas execuções que têm sido realizadas pelos grupos armados que se opõem à ocupação americana.
Por coincidência, o tribunal reúne-se em audiência numa altura em que vários regimes autocráticos do Médio Oriente (Egipto, Arábia Saudita) se sentem obrigados a dar alguns passos no sentido de uma abertura democrática, ou se verificam sinais encorajadores em relação a conflitos onde o impasse perdura há longas décadas (Palestina, Líbano).
É claro que a crueldade abjecta dos “insurgentes” iraquianos não deve servir de pretexto para aderirmos a retórica maniqueísta da administração Bush (“quem não está connosco, está contra nós”). Mas os críticos da guerra fariam mal em transformar a “resistência ao Império” na sua única proposta válida para o futuro do Iraque.
A guerra do Iraque foi um erro porque o seu custo humano dificilmente será redimido por um eventual desfecho feliz da actual transição iraquiana. Havia outros caminhos, porventura mais morosos e complexos, mas menos violentos e perigosos, que poderiam ter sido explorados para derrubar a tirania de Saddam.
Mas seria trágico - para os iraquianos, para a região e para o mundo - que os elementos empenhados na desestabilização do Iraque prevalecessem e ditassem a sua lei. Com todas as suas imperfeições, as eleições de Janeiro de 2005 não poderão senão ser saudadas pelos adeptos da democracia e dos direitos humanos. A força simbólica das imagens de mulheres iraquianas a exercerem o seu direito de voto, e do reconhecimento político das comunidades curda e xiita (historicamente oprimidas no Iraque), é um facto que não deverá ser menosprezado. É claro que os métodos democráticos podem ser usados para confiscar direitos e liberdades fundamentais e, inclusivamente, para suprimir a própria democracia. Mas lidar com essas incertezas é certamente preferível a um regime autocrático baseado num partido ou num ditador. Há um caminho de esperança que se abriu no Iraque em Janeiro e os países que manifestaram reservas em relação à intervenção devem acarinhá-lo.
Nesse sentido, é chocante ver como a “acusação” da Audiência portuguesa se apressa a contestar “o processo de democratização em curso” por considerá-lo “uma legitimação da ocupação” (Público, 19/1). É chocante porque traduz uma adesão infantil à lógica do “quanto pior melhor” e, ao mesmo tempo, revela uma tremenda insensibilidade relativamente às aspirações democráticas do iraquianos. E é uma posição estúpida porque demonstra não compreender uma realidade elementar: a maioria dos iraquianos está imensamente satisfeita por se ter visto livre de Saddam Hussein. Mas daí não resulta um especial sentimento de gratidão em relação aos americanos (com a possível excepção dos curdos iraquianos). Como bem explicam dois politólogos americanos (Marina Ottaway e Thomas Carothers, do Carnegie Endowment) num dos últimos números da Foreign Policy, as forças que mais poderão fazer pela democracia no Médio Oriente serão partidos islâmicos moderados (como o do primeiro-ministro Racep Erdogan na Turquia), que gozam de uma sólida implantação social. Nenhum deles se distingue pelo seu entusiasmo em relação aos EUA e ao “american way of life”. Aliás, um possível desenvolvimento irónico da política de Bush para o Médio Oriente poderá mesmo ser uma abertura democrática que a médio e longo prazo mine a primazia estratégica dos Estados Unidos na região (veja-se como o entusiasmo de Washington em relação à adesão da Turquia à UE tem esmorecido nos últimos meses…)
Por isso, o desejo de qualquer democrata em relação ao futuro do Iraque só poderá ser um: esperar que o processo constitucional em curso desemboque num compromisso aceitável no que toca à partilha do poder entre as três principais comunidades, por um lado, e a alguns direitos políticos e civis fundamentais, por outro lado. Depois, sim, é importante que a comunidade internacional e a opinião pública se empenhem em exigir que a força de ocupação respeite a vontade soberana do futuro governo iraquiano.
O escandaloso caso da Sorefame é um bom exemplo de como os dogmáticos vivem bem de olhos fechados. Com uma resposta pronta e previsível para tudo. A Sorefame foi vendida em nome da nova ortodoxia neo-liberal, que diz que tudo o que seja propriedade do Estado é mau – quando o problema está em haver ou não um processo transparente de escolha de gestores competentes. E que proclama que tudo o que seja investimento estrangeiro é bom – quando a questão devia ser, o que é que ele traz de durável para o País, sobretudo quando se trata de vender empresas com a mais-valia em know-how da Sorefame.
Uma grande multinacional, a Bombardier, decide eliminar uma concorrente chata, e de caminho, claro, ficar com o know-how e a maquinaria – num bom exemplo de tendências monopolistas que não podiam ser mais opostas ao meu entendimento de liberalismo. E o grande problema do João Miranda é que os investidores estrangeiros podem não gostar do pessoal aqui achar mal!!! Afinal onde está o respeito destes cafres pelo direito de propriedade??? Do que Portugal precisa mesmo é de mostrar respeitinho por investigadores estrangeiros como estes e aprender a cartilha dos “comentadores económicos” deste qualibre. Vai longe...
Suponho que o contrato de venda permita esta pilhagem. Se for assim o governo devia estudá-lo bem e evitar de futuro repetir a asneira crassa (se ainda houver alguma coisa para vender). E parece impossível que não se possa alegar má-fé, ela salta aos olhos. Mas claro se a maquinaria sair de Portugal, bem podemos argumentar. O governo devia usar contra este tipo de “gestores” estrangeiros todo o tipo de armas. Negociar com bons modos e esperar resultado, seria esperar um milagre tendo em conta a forma como a Bombardier conduziu todo o processo.
E seria bom o governo começar a olhar para as OGMA… De que serve trazer tecnologia por uma porta e deixá-la sair por outra? Tarefa ingrata para um governo novo, mas bem necessária.

Quem ganha com a manutenção de dezenas de milhares de imigrantes ilegais neste país? Ganham os empresários criminosos e as máfias. Empatam os políticos cobardes. E perdemos todos enquanto comunidade. Perdemos respeito por nós e pelos outros. Perdemos recursos para o estado. Perdemos em segurança para todos. E perdemos a capacidade de olhar para o espelho com a consciência limpa.
Quero que o meu país saiba quantas pessoas aqui vivem, quem são. Quero que façam parte da comunidade – não – quero que seja reconhecido que já fazem parte da nossa comunidade. Quero que as crianças nascidas em Portugal sejam portuguesas – uma tradição jurídica que é a portuguesa desde o tempo de Pombal e que deve ser restaurada.
É por estas razões que vou estar amanhã, domingo dia 20 de Março, às 14h30, na manifestação dos imigrantes ilegais no Martim Moniz em Lisboa. É tão importante para mim como para eles.
A situação que se vive hoje na Bombardier começa, perigosamente, a fazer lembrar os piores episódios do Governo Santana Lopes. Depois da Polícia de Intervenção ter forçado a entrada de membros da Bombardier nas instalações da empresa para desmantelarem as máquinas, o Governo acaba de emitir um comunicado manifestando-se "surpreendido e desagradado" com a decisão da multinacional Canadiana...
Pode ser que me falhe qualquer coisa, mas desde quando é que as forças policiais portuguesas estão sobre a tutela da Bombardier? A polícia age e o Governo não sabe? Repare-se que, mesmo depois do "desagrado" do Governo, a Polícia de Intervenção continua a permitir, no local, o desmantelamento das máquinas. Das duas uma, ou o Governo não tem coragem de assumir as ordens que deu, ou, pior ainda, o ministro António Costa não sabia de nada e não manda na polícia. Em todo o caso, isto começa bem...
* título da entrevista de Isaltino Morais ao Expresso.
Na próxima quarta-feira, a Secretária de Estado dos Transportes, Ana Paula Vitorino, tem marcada uma reunião com a direcção da Bombardier e da CP para tentar garantir que uma subsidiária da empresa estatal fique com a capacidade de produção existente na fábrica da Amadora.
Hoje, o Ministério da Administração Interna autorizou a Polícia de Intervenção a desbloquear a entrada da fábrica, permitindo que elementos da Bombardier comecem a desmontar, para deslocalizar para o estrangeiro, as mesmas máquinas que a Secretária de Estado pretende negociar daqui a 4 dias.
Para que serve, então, esta reunião se nesse mesmo dia as máquinas já podem muito bem estar a caminho da China ou do Paquistão? Qual é que será a cara desta representante do Governo, sabendo que um seu colega é que abriu as portas para partida das máquinas que ela deveria tentar manter em Portugal?
Ainda o programa de Governo não está aprovado e já ficámos sem saber quantos governos foram empossados. O de António Costa, ou o do Ministério dos Transportes? Parece que o primeiro manda mais. Sempre tem a polícia.
Que mais haverá a dizer quando vemos um realizador divertir-se assim à grande? Que bela profissão parece ser, e tão invejável. O homem pega num filme e põe ali tudo aquilo de que gosta: traineiras com luzinhas, gorros vermelhos à moda dos balantas de kumba ialá, música de documentários canadianos dos anos 70, uniformes azul-celeste e amarelo, um operador de câmara sikh, david bowie cantado por um brasileiro chamado pelé – e dá tudo certo. Essa é a maior. Dá tudo maravilhosamente errado: a amizade, a infância e ilusões megalomanas de aventura.
Diz a minha sobrinha Mariana – que por acaso vai fazer dez anos esta semana – "estava infinitas estrelas, tio". E é melhor ser pirata do que entrar na marinha.
Apenas fiz uma leitura superficial do programa do governo. Estas são, por enquanto, as minhas impressões:
Positivo: a desburocratização do sistema judicial, algumas novas regras em relação à paridade e um programa para aedcação que eu assinaria por baixo.
Negativo: os círculos uninominais tentando forçar, através de uma dinâmica que o circulo nacional não resolverá, a bipolarização, o aumento da idade da reforma acompanhando a esperança de vida, a privatização da gestão dos centros de saúde e falta de coragem na política de imigração, os direitos de cidadania apenas aplicados à terceira geração: os filhos dos "estrangeiros" nascidos em Portugal.
Pode ser que mude de opinião, com a leitura mais atenta. Mas, por enquanto, feito o balanço, o programa não é animador.
... para acolher Santana Lopes na CML. Estes desaforismos do João estão cada vez melhores.
Para o leitor sempre informado do Barnabé, o programa do XVII Governo está aqui [em PDF]. Ficará disponível também no Barnabé Rebelo de Sousa, ali na coluna da direita.
Para o leitor sempre ocupado do Barnabé aqui fica a lista de verbos da primeira página do índice do mesmo programa. Fique portanto sabendo que nos próximos anos o nosso governo vai
O pingue-pongue sobre as mulheres no governo – passe a contradição nos termos – prossegue. A jornada de hoje:
Miguel Sousa Tavares, no Público, ataca os críticos de Sócrates com este violentíssimo puxanço da direita:
«...não para substituir incompetentes por competentes, independentemente do género, nem sequer para substituir homens incompetentes por mulheres competentes: trata-se apenas de substituir homens, competentes ou não, por mulheres, competentes ou não.»
A que Ricardo Araújo Pereira consegue ripostar, no Inimigo Público, com um redemoínhante lob-volley da canhota:
«Se os governos que mandaram no país tivessem sido formados por mulheres, éramos bem capazes de acordar agora, em 2005, e descobrir o país enfiado na cauda da Europa, mergulhado numa crise gravíssima e com o desemprego muito elevado.»
Pongue.
Eis as perguntas que eu gostaria de fazer aos senhores que decidem os títulos dos filmes estrangeiros em Portugal:
– Porque detestam o cinema?
– Porque odeiam traduzir?
– Porque desprezam o público?
Eu imagino que tenha havido uma época em que dar ao filme em cartaz nos cinemas nacionais um título completamente diferente do original – em tema, em tom, em tudo – fazia sentido do ponto de vista comercial ou cultural. Pela primeira vez em cinquenta anos de Barnabé usarei maiúsculas para me fazer entender:
ESSA ÉPOCA ACABOU,
oh torcionários da arte.
E eu sei que há casos em que não se pode traduzir literalmente um título. The Life Aquatic with Steve Zissou não é um deles. O que justificará, então, que se pegue neste título deliciosamente elíptico e se esquarteje dele o apatetado "Um Peixe Fora de Água"? Nada justifica. Nada, a não ser a obsessão em conseguir que todos os filmes em cartaz no nosso país, presentes ou passados, tenham títulos indistintos. Não interessa traduzir o original; interessa encontrar uma variação funcionalmente equivalente aos títulos que em português foram usados naquele género específico desde que o pai Lumière viu a mãe Lumière a atravessar a rua pela primeira vez. Se for um filme "de acção" o título tem que ser criteriosamente escolhido entre um escol reduzidíssimo de palavras onde pontificam, como todos infelizmente sabemos, "fatal" e "perigoso/a/as". Se for uma comédia, o título tem de afocinhar no amplo espectro que vai do tontinho ao tolinho.
Basta. Vocês é que têm culpa do atraso português.
A desorientação de um coveiro depois da última pazada.
A RTP anúncia a versão redux de Apocalipse Now como um «grande filme de acção e aventura». Alguém se oferece para lhes dizer que Sylvester Stallone desta vez não entrou?
Segundo a SIC Notícias, a entrega do programa do Governo na Assembleia da República está atrasada mais de uma hora por causa de um "problema informático".
Agora que o Médio Oriente até parece encaminhado, que tal preocupar-nos um bocadinho com o Jardim aqui ao lado?
Onde estão os postes escandalizados da nossa direita - sempre tão liberal, sempre tão pronta, honra lhe seja, a combater pela liberdade fora de portas - a respeito disto?
João Soares espera vaga de fundo a favor da sua recandidatura à Câmara de Lisboa
Nota: imagem sacada do site http://inet.sitepac.pt
George Bush nomeia Paul Wolfowitz para a presidência do Banco Mundial...Depois do Bolton para a UN, outra bela notícia Made in Washington...
Seis em dez portugueses resistentes à imigração ....e já agora leiam este também..
Como de costume, um dos meus textos da coluna do “Expresso” do último fim-de-semana.
Se uma couve nasce no deserto, já se sabe, é o efeito dominó provocado pela intervenção no Iraque. Sem armas de destruição em massa, sem apoio popular à invasão, com uma curta mas já gloriosa história de torturas, há quem viva para encontrar uma razão, delirante que seja, para o desastre que foi esta guerra.
O “Economist” deu o mote e os adidos aqui na província seguiram a linha. Se uma mulher pediu um divórcio no Irão, é o dominó. Se no Líbano o povo pede a retirada da Síria, é o dominó. Se a Palestina elegeu Mahmoud Abbas, é o dominó. No Iraque, já ninguém sabe quem há de matar ou libertar, mas o que os salva é o dominó.
Só que a intervenção no Iraque não ajudou em nada laicização de um Estado, que sendo sanguinário, era laico. Pelo contrário, deu, ali e em toda a vizinhança, força às forças mais conservadoras do Islão. Só que, no Líbano, os confrontos entre etnias são história antiga e bastou ver as manifestações xiitas pró-sirias para perceber que o súbito interesse americano na matéria pode bem ter acordado o espectro da guerra civil. Só que, na Palestina, o Parlamento já fora eleito. O que não impediu que muitos se recusassem a reconhecer, então, a legitimidade da liderança de Arafat.
Que o mundo Árabe tenha sido sempre assunto pouco interessante para quem acredita que não há civilização onde não se consegue comprar a “Spectator”, é coisa que não espanta. Mas por aquelas paragens a história não começou, subitamente, há dois anos, quando guerreiros de sofá deixaram cair uma lágrima furtiva ao ver um 25 de Abril nas ruas desertas de Bagdad.
E o outro texto da coluna do “Expresso” do último fim-de-semana.
É mais uma das suas birras. O CDS enviou o retrato de Freitas do Amaral para o Largo do Rato. Acho inaceitável que o PSD não exija a foto de Lucas Pires e o PND a de Manuel Monteiro. Por mim, a julgar pela sua ultima entrevista, quero a de Adriano Moreira.
Mas esta é apenas a parte anedótica das reacções à escolha de Freitas do Amaral para ministro dos Negócios Estrangeiros. Se olharmos para a opinião pública portuguesa, veremos que, ao contrário do que se tem dito, Freitas do Amaral está longe de ser um radical. Foi contra a guerra no Iraque. Desconfia desta administração americana. Opõem-se a soluções unilaterais na resolução de conflitos. Em qualquer dos casos, está em sintonia com a esmagadora maioria dos portugueses. E, já agora, não anda longe das posições da maioria dos governos europeus.
O que se tem dito em alguma imprensa internacional e repetido em Portugal, com a histeria provinciana do costume, revela um muito particular entendimento da democracia. Se bem me lembro, houve eleições há duas semanas. Estranho seria que o novo MNE não reflectisse a opinião maioritária do País. Mas há quem ache que os assuntos internacionais são demasiado importantes para serem deixados à escolha democrática.
Freitas do Amaral merecerá ser atacado se, como já fez algumas vezes na sua vida, apagar o seu passado e desdisser tudo o que disse. Ficará com a sua fotografia no MNE, é certo. Mas entre ele e Jaime Gama ninguém dará pela diferença. Seria pouco, para quem já voou tão alto.
O Vaticano está preocupado com o sucesso editorial d´"O Código Da Vinci", afirmando, através do Cardeal Tarcisio Bertone, que "o livro está em todo o lado. Há o risco real de muitas das pessoas que o tenham lido acreditarem nas fábulas que traz".
Olhasse Nico para dentro de si e vislumbrasse alguma espécie de fundo ao abismo. Tivesse Patti Smith menos Rimbaud na cabeça à altura de “Horses”. Fosse Tori Amos mais esquiva à omnipresença de Kate Bush ou PJ Harvey menos obcecada por Beefheart (e por Patti Smith). Alucinasse Kristin Hersh um pouco menos nos dias inaugurais das Muses... enfim, tudo isto (e nada disto) faz de Amanda Palmer um caso sério. Na voz e teclas dos Dresden Dolls, acompanhada por Brian Viglione na bateria, dá corpo a um universo musical que traz numa ponta a Weimar de Brecht e Weill e na outra punk, rock soturno e, a espaços, a luz redentora da pop. Notáveis, a teatralidade e carnalidade cabaretianas da voz elástica que sussurra com a mesma intensidade que berra, até na mesma frase, e uma dúzia de canções marteladas entre a bateria e o piano, às vezes com as luvas de boxe calçadas. É o segundo registo da banda e já tem mais de meio ano, mas nunca é tarde para lhe pôr os ouvidos em cima, até porque, neste canteiro, já nada entusiasmava assim desde “Everyone Who Pretended To Like Me Is Gone”, dos The Walkmen. Mas isso daria outro post. Boas audições... e não a deixem morder-vos o pescoço.
E para quem não se importar de trocar o preto da indumentária por um, digamos, cinzento clarinho, "The Jeep Song" poderia muito bem ser uma grande grande canção de verão...
No espaço habitualmente dedicado aos inquéritos on-line, o site do "Público" tem neste momento a seguinte mensagem. “Este inquérito foi suspenso devido à constatação de uma fraude na votação. Foram detectadas máquinas que contornavam o sistema de validação concebido para impedir a repetição do voto pela mesma pessoa e que votavam sistematicamente na opção NÃO”.
Na origem da manipulação estava a seguinte pergunta: “Os medicamentos de venda livre devem estar disponíveis nos supermercados?". Pelos vistos, há quem não se contente em nos aconselhar sobre o que é melhor para a nossa saúde. Querem poder fazer o mesmo com o nosso voto.
«"Obrigado Bush, Obrigado EUA", reagiu um iraquiano-americano a uma equipa de TV em Kansas City, numa peça sobre a queda de Bagdad. Uma outra peça noticiava "mais um sucesso" da "política de reforço da segurança aérea" da Administração Bush; o repórter chamou-lhe "uma das campanhas mais notáveis da história da aviação". Numa terceira peça, transmitida em Janeiro, era descrita a determinação da Administração em abrir mercados para os agricultores americanos.
As três peças atrás descritas foram transmitidas em centenas de canais locais da televisão americana. O problema é que não foram produzidas pelos próprios canais. Na verdade, nem sequer foram escritas ou apresentadas por jornalistas. Lá — como aqui — as redacções têm sido encurtadas para diminuir despesas, mas a necessidade de conteúdos não tem feito senão aumentar. Estas três peças, como muitas outras nos últimos anos, foram introduzidas por pivots profissionais em telejornais identificados como tal, mas omitindo a sua origem: a própria Administração Central.
Desde os tempos de Clinton que os departamentos do estado americano têm desenvolvido uma forma de "informação" que consiste em passar pequenos clips de video com a história que a administração deseja fazer passar. Com Bush, o estratagema industrializou-se e refinou-se: os clips têm noventa segundo e vêm já editados no formato habitual de notícias de telejornal. Nenhum departamento passa sem eles. São enviados para cadeias que gerem feeds noticiosos. Estas reenviam-nos para canais locais de todo o país. Não vêm identificados enquanto propaganda governamental. No fim da peça, um "jornalista" limita-se a dizer: "Fulano de Tal em Kansas City".
Há poucas semanas descobriu-se que a Administração Bush tinha pago 240 mil dólares a um colunista para defender as suas reformas educativas. Bush deplorou o caso e fez de conta que não era nada com ele, o "colunista" não devolveu o dinheiro. Agora o New York Times descobre que desde há anos se tem andado a alimentar os espectadores americanos com milhares de peças sem origem jornalística. Vale a pena ler o artigo completo (o registo no NYT é grátis).
Como sempre, estou ansioso para ouvir a explicação dos bushistas liberais. Já sabemos que o mercado é uma garantia contra as interferências da propaganda estatal...
“Secretarias de Estado vão voltar a Lisboa”
O Partido da Nova Democracia vai realizar em Aveiro, nos próximos dias 16 e 17 de Abril, uma Convenção Nacional (sim, qu'isto não é cá gente de embarcar em congressos e quejandos!). O objectivo é simples: "esclarecer claramente se somos de direita ou de esquerda", declarou à LUSA uma fonte do PND.
Convém lembrar que este partido já participou em duas eleições nacionais, as europeias 2004 e as legislativas 2005, tendo obtido respectivamente 1% e 0,7% dos votos - e isto sem sequer saberem o que são! Imaginem agora onde podem chegar quando se decidirem. É imprevisível, mas quer-me cá parecer que o céu é o limite.

Tratando os lisboetas como idiotas, a Câmara Municipal como um hobby, a política como uma brincadeira e Carmona Rodrigues como seu criado, Pedro Santana Lopes regressa à autarquia. Santana não tem um pingo de vergonha na cara e alguém tem de lhe dizer que para tudo há limites. Mimado e absolutamente inútil para qualquer função, é absolutamente indigno de dirigir uma cidade que merece dedicação e competência. Se queria regressar, não se candidatava a deputado e aprimeiro-ministro. Lisboa não é um depósito para quem perde eleições.
Pedro Santana Lopes está à espera de convites para saber se volta para a Câmara. Está na altura da comunidade internacional ou da iniciativa privada fazer qualquer coisa por Lisboa.
Depois de digressão nacional, voltará o artista à nossa companhia?
Não posso deixar de concordar com o post do Rui sobre a composição do novo governo Sócrates. Creio que era importante haver paridade nos governos, no Parlamento e nas autarquias. Creio que era importante, também, ter deputados de outras etnias no parlamento. Mas gostava de acrescentar uma ou outra ideia sobre a questão das mulheres. É bem visível, num elenco governativo, a falta de mulheres; no entanto, há outras realidades menos visíveis que merecem ser referidas. A duração do desemprego feminino na União Europeia é mais longa do que a dos homens. As mulheres ganham menos do que os homens (em funções idênticas). No mercado de trabalho, as mulheres ocupam os empregos de baixo nível e têm dificuldade em atingir as chefias e os postos mais altos. Para além do que se chama trabalho fora de casa (curioso que se tenha demorado tanto a reconhecer o trabalho dentro de casa!), a mulher tem ainda sobre si o peso da responsabilidade doméstica, da casa e dos filhos (quando os tem). Dupla jornada, portanto. Isto não tem nada de natural, nem decorre de inevitabilidades biológicas. A diferença de género é cultural e socialmente construída, ao contrário da sexual. A mulher não tem características diferentes dos homens que a empurram para determinados empregos e trabalhos (por exemplo, enfermeiras, professoras, etc). A mulher “fada do lar” é uma invenção. As tão faladas “competências” não pertencem em exclusivo a nenhum dos sexos. As oportunidades, essas sim, são bem diferentes.

Grande oportunidade! Não percas! Viaja pelo mundo! Junta-te a Bush no combate pela liberdade!
Max Boot, um dos neo-conservadores, com a tradicional franqueza que me faz simpatizar com o grupo, tem um proposta radical para resolver o problema da falta de recrutas nos EUA (menos 25% do que as metas estabelecidas, e isto depois de um generoso aumento das regalias). Ele vem defender a criação de uma Legião da Liberdade com a promessa no final de cidadania americana Ele sabe que os impérios sempre recrutaram tropas fora das suas fronteiras. Aponta para o Terceiro Mundo como alvo preferencial. Mas desconfio que em Portugal não faltariam voluntários. Ou será que estou enganado?
Sabes, Bruno, eu acho que não há mesmo defesa possível para a falta de mulheres no governo do PS. E mais: parece-me que nem vale a pena tentar, quais mais não seja pelo detalhe seguinte. Sócrates andou por aí durante uns meses a dizer que era da Esquerda Moderna, do século XXI e de modelo nórdico. E uma pessoa pensa "esquerda". E pensa "moderna". E volta a pensar "esquerda". E volta a pensar "moderna" e "século XXI" e "modelo nórdico". E percebe que nem uma esparregata retórica consegue fazer encaixar nisto um governo que tem apenas duas mulheres de pouco peso político nas pastas do costume (independentemente da importância das pastas e da competência das pessoas). Não se previa que Sócrates seguisse à letra o exemplo de Zapatero, nem de Schroeder, Blair ou Jospin, mas eu pelo menos pensava que pudesse portar-se melhor do que Durão neste particular. Caso contrário, esta é a esquerda menos esquerda e a moderna menos moderna que se pode arranjar.
Para acrescentar a injúria ao insulto, o argumento — chamemos-lhe assim para facilitar — de que não existem mulheres em qualidade suficiente para preencher boa porção de um governo do nosso país parte do príncipio de que os ministros que ali temos são o supra-sumo da batateira. E isso, sinceramente, ainda ninguém viu. O governo pode até vir a ser competente se o for, mas para já estamos longe de poder dizer que se tenha atingido o limite de qualidade que a sociedade portuguesa pode dar, nem no que diz respeito a homens, nem muito menos no que diz respeito a mulheres. Pensa lá bem: não haverá oito mulheres igualmente competentes neste país? Seis? Quatro, que fosse, ou até três, mas sem ser sempre nas pastas do costume?
Portanto deixe-se a coisa esgotar todos os seus termos indignados, que são aqui muito justos. E reconheça-se que foi metida a pata na poça, e até ao joelho. Mas não se faça como fez o próprio Sócrates, tentando justificar o caso — por exemplo com a necessidade de confidencialidade na formação do governo, como se as mulheres fossem pegar no telefone no minuto subsequente ao convite para contar a novidade a todas as amigas.
Porque, das duas uma: ou se é da "esquerda moderna do século XXI" e se acredita em abrir o poder à diversidade social, ou se é um bocado ignorante e provinciano acerca do que quer dizer aquilo que se diz que se é. Deu para intuir qual era a resposta a este enigma quando Sócrates, em plena campanha para a liderança do PS, disse que gostaria de ter imigrantes no partido desde que não tivessem direito a voto.
Agora, resta a este governo ser de tal forma excepcional que prove para lá de todas as dúvidas de que nenhum destes ministros poderia ser substituido com vantagem por uma mulher.
«O PSD precisa de pessoas normais», diz Marques Mendes. Público de hoje.
A nomeação de Freitas do Amaral para o MNE corresponde sobretudo a uma lógica política interna. Mas será que faz realmente diferença nomear alguém que se opôs à intervenção no Iraque, e se referiu a Bush nos termos em que ele o fez? Sobretudo, como recorda o Daniel, com a nova doutrina Bolton, e quando, num governo equilibrado (excepto quanto a senhoras), está Luís Amado naquela área em que a cooperação com os EUA é mais importante.
Portugal não tem espaço de manobra para fazer uma grande política movida por alinhamentos ideológicos. Aliás, como se vê no caso de Bush e dos neo-conservadores, mesmo o Estado mais poderoso do Mundo tem grandes dificuldades em conduzir uma política externa nessa base.
A relação com os EUA não deve ser uma vaca sagrada. E a melhor forma de chegar de Lisboa a Washington vai ser cada vez mais via Bruxelas: quanto mais forte for a UE, mais interesse terão as posições portuguesas para os governantes americanos. Sobretudo para um governo como o de Bush que valoriza o poder acima de tudo.
Mas o artigo do Expresso tira conclusões que não fundamenta. Nada no texto permite concluir que Freitas foi mencionado na conversa com Bush. Sócrates aparentemente limitou-se, em resposta a uma chamada da iniciativa do senhor de Washington, a dizer aquilo que qualquer primeiro-ministro de bom-senso diria: continuamos interessados em cooperar com os EUA. O que é isto tem de humilhante?
Suponho que o artigo tenha esgotado a reserva de adjectivos indignados no Público por uns dias. Mas as Mulheres Socialistas esqueceram-se de explicar no meio de tanta indignação como é sendo elas tão competentes elegeram uma lider que qualificam de incompetente. Dito isto, tenho dificuldade em perceber como é alguém como a Maria Carrilho nunca chegou ao governo. Talvez tenha pouca paciência para mandar em homens.
PS – Fico satisfeito de ver o Acidental convertido ao feminismo militante.
Sócrates anunciou hoje uma medida que me parece genericamente acertada: a venda, fora das farmácias, de medicamentos que não necessitem de receita médica.
A Ordem dos Farmacêuticos e a Associação Nacional de Farmácias, no entanto, não concordam. E não concordam porque estão preocupados connosco, simples cidadãos. Apontam o perigo de um consumo excessivo de medicamentos de fácil acesso, bem como a não existência de uma palavra amiga e de conselhos de utilização no acto da compra.
Pessoalmente, agradeço e enternece-me a preocupação e deixo também, em jeito de retribuição, uma palavra carinhosa. Caras OF e ANF, não se incomodem connosco. Vocês dão este passo em falso convictos que nos defendem, mas fiquem sabendo que se conseguirem um preço melhor para a aspirina do que, digamos, os Mosqueteiros da Distribuição, então estão diante de um cliente que não perderão.
Sócrates não esperou a sua nomeação para sossegar a Administração Americana quanto à escolha de Freitas do Amaral para Ministro dos Negócios Estrangeiros. A George Bush não fica mal escolher para embaixador na ONU um homem que insultou a ONU. Mas Portugal é obrigado a dar a George Bush, que deve julgar que Portugal é uma pequena ilha no Altântico onde aviões militares americanos fazem escala, explicações sobre os ministros que escolhe. Mesmo que o ministro em causa tenho sido considerado suficientemente consensual para ser Presidente da Assembleia-Geral da ONU. Fica sempre bem prestar vassalagem. E, como se a humilhação não bastasse, o primeiro-ministro ou alguém por ele passa a informação para os jornais, para que o país saiba que temos um ministro superiormente autenticado.
Durante um tempo, os referendos serviram para fugir das questões. Se se mudar a lei, tal como defende Sócrates, e se permitir que estes aconteçam ao mesmo tempo que processos electivos, passarão a servir para ajudar quem tem maiorias nas suas campanhas. É só recordar o que aconteceu nas últimas eleições americanas, com dezenas de referendos sobre o casamento de homossexuais, que permitiram que Bush não se explicasse, na campanha, a lastimável situação económica em que o país se encontrava. Pouco interessa se não é o caso, com o referendo Europeu. Ao abrir este precedente não faltará maioria que não o aproveite.
Graças a Zeus que o PSD, apesar de ter ficado reduzido a setenta e poucos deputados, ainda teve a generosidade de deixar escapar dois lugarzitos para deputados monárquicos. Um artista de variedades como Nuno da Câmara Pereira é exactamente aquilo que estava a faltar à Assembleia da República. Dinâmico, desempoeirado, inovador. Como exemplo, veja-se esta pequena entrevista ao DN, onde conseguiu defender uma posição absolutamente inédita em mais de vinte anos de debates ad nauseam sobre o aborto. Ei-la: o aborto deve ser absolutamente proibido, mas livre para jovens moças até aos dezoito anos, porque "até à maioridade as jovens devem poder prevaricar". Então, digam lá: é de homem ou não é de homem?
para quem se interessa....de Londres