
Há sessenta anos atrás, reconhecendo que tudo estava perdido face ao avanço das tropas soviéticas em Berlim, Hitler mostrou a sua verdadeira face e fugiu pelo suicídio a assumir as responsabilidades pela temível tragédia que tinha desencadeado: a culpa não era dele, mas da raça superior alemã afinal não estar à altura!
Só na ofensiva sobre Berlim a URSS perdeu quase tantos homens quanto os EUA no conjunto da guerra, e a Alemanha sofreu quase metade das suas baixas. Sem Churchill não havia ninguém em 1940 para impedir Hitler de ganhar. Sem Roosevelt e o apoio material, naval e militar americano o triunfo teria sido no mínimo muito mais difícil para não dizer impossível; mas ele só conseguiu entrar na guerra na Europa depois de Hitler lhe ter feito a cortesia de declarar guerra em Dezembro de 1941, forçando os norte-americanos a acordar do seu torpor apaziguador do ditador nazi. Mas sem Estaline e sem a incrível determinação do exército russo e dos demais povos da URSS a vitória teria sido impossível em 1945. Ou como dizia Churchill, se Hitler invadisse o inferno, ele não teria problemas em aliar-se com o diabo em pessoa. Takes one to defeat one? A ironia, claro, é que Estaline tinha confiado em Hitler, e recusou-se a acreditar na realidade da invasão alemã do verão de 1941, não fazia sentido, dizia ele! O ditador de Berlim era afinal mais fanático do que o ditador de Moscovo pensava.
Enfim, só espero que não venham os analistas do costume tirar daqui a consequência natural do seu raciocínio guerrista; ou seja, que temos todos de apoiar totalmente o senhor Putin nas suas políticas actuais. Afinal não se trata, acima de tudo, de mostrar gratidão por quem livrou a Europa de Hitler? É que foram os russos mais do que quaisquer outros que o fizeram... Isto de manipular a história tem as suas armadilhas.
Seguindo o exemplo da Maçonaria, a "Atlântico" fez uma lista com as pessoas que leram a revista. Sou eu, mais cinco desgraçados. Só que, ao contrário dos maçons, estes tornaram a lista pública, através de um anúncio pago. Bufos!
Será que o novo grão-mestre da maçonaria vai ser pedreiro?
Se o relativismo é mudar quando apetece, o anti-relativismo é mudar quando convém?
Quando será que os nossos analistas se vão cansar de adivinhar mudanças radicais no futuro, e vão começar a ver continuidades radicais no presente?
O Espírito Santo fechado à chave? Chamem-me herege mas não era suposto Ele estar em toda a parte?
É para rezar contra os lobos ou pelos lobos?
O PP já voltou a ser CDS? E o Paulo Portas também vai mudar de nome?
Isso de «25 de Abril sempre» quer dizer feriado todo o santo dia?
Segundo o pai de Ivo Ferreira, jovem detido no Emirados Árabes Unidos, o embaixador de Portugal na Arábia Saudita terá, quando chegou a Dubai, telefonado para o jovem, preso, para saber se alguém o podia ir buscar ao Aeroporto. Em que Mundo vivem estes embaixadores? Não terá o rapaz coisas mais importantes em que pensar? Custa assim tanto apanhar um taxi?
PS: Conheço há muitos anos o Ivo. Espero que seja libertado rapidamente. Porque é um excelente cineasta. Porque gosto dele. Mas, acima de tudo, porque o que fez, em qualquer país civilizado, não pode dar pena de prisão. Que o Ministério dos Negócios Estrangeiros faça alguma coisa. E depressa.
O Tribunal de Júri de Ponta Delgada recusou-se a aplicar, aos condenados no processo de pedofilia de Lagoa, um artigo do Código Penal que aplica penas mais pesadas para o abuso sexual de menores do mesmo sexo do que do sexo oposto. Diz o juiz Araújo de Barros que a Constituição, no seu artigo 13º, proíbe a discriminação em função da orientação sexual. Um Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 2003, criticado duramente por este juiz, tinha considerado que os crimes de abuso heterossexual com adolescentes seriam "mais normais".
Hoje, Miguel Sousa Tavares, indignado com o tribunal de Ponta Delgada, pergunta: «Ou o tribunal achará que para um rapaz de dez anos, por exemplo, é igual o trauma de ser abusado por uma mulher ou homem?». Ao pegar no exemplo do rapaz a ser abusado por uma mulher, Miguel Sousa Tavares limita-se a usar os nossos preconceitos: ele acha que um rapaz até gostaria. Mas imaginemos que ele fazia a pergunta ao contrário: «Ou o tribunal achará que para uma rapariga de dez anos, por exemplo, é igual o trauma de ser abusada por um homem ou mulher?» Era mais difícil a resposta, não era? Porque o preconceito é uma coisa lixada.
Da mesma maneira que, se afirmarmos que a lei não pode discriminar os homossexuais abusadores de adolescentes soa pessimamente. Mas se dissermos que, para a Lei, o abuso de um heterossexual é menos grave do que o abuso de um homossexual, como é que soa?
Atalhando caminho: a lei deve ser igual para todos. E igual para todos é igual para todos os abusadores e criminosos, desde que comentam o mesmo crime. O crime é sempre grave. Porque se a Lei descrimina o homossexual, então quer dizer que atenua a culpa do heterossexual. Parece-me óbvio. Esteve bem o Juiz.
Fez ontem um ano que as fotos de Abu Ghraib foram conhecidas do Mundo. As condenações ficaram-se pela arraia-miúda. Não houve investigações com garantias de independência ao secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ao ex-director da CIA, George Tenet, e ao então comandante das forças no Iraque, general Ricardo Sanchez. No entanto, tendo recebido inúmeros sinais de alarme, nada fizeram. No entanto, aprovaram técnicas de interrogatório ilegais que criaram todas as condições para que este nojo fosse possível.
Esta semana, a Human Rights Watch exigiu uma investigação independente a estes senhores. E avisou: abusos semelhantes podem estar a acontecer em Guantanamo e no Afeganistão. Se a ocasião faz o monstro, quem, tendo responsabilidades de direcção, não mede dos seus actos, é indigno de ter responsabilidades políticas e militares. Para que não se repita.

Imagem para consumo externo
Sem saber bem o que lhe aconteceu e provavelmente sem conhecer as leis locais (em países próximos, como o Iémen, o haxixe é legal e omnipresente), Ivo Ferreira já está preso há 23 dias. Um britânico detido na mesma ocasião e com as mesmas acusações foi libertado numa questão de horas pela sua embaixada. Quanto ao nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros, o mínimo que se pode dizer é que não se adaptou ainda aos tempos e às necessidades de acompanhar os portugueses nos locais do turismo global de massas – viu-se depois do tsunami de Dezembro e confirma-se agora. Não temos embaixada no Dubai, e a representação diplomática na Arábia Saudita parece estar a meio-gás com funcionários aposentados e transferências. No tempo do email, correspondeu-se por carta com a família de Ivo e sugeriu que estes contactassem o MNE em Lisboa.
Ivo Ferreira está numa cela com 18 outros detidos, vai ser presente a tribunal amarrado de pés e mãos e arrisca-se a apanhar cinco anos de cadeia. Não é tarde demais para o MNE enviar um emissário e resolver esta trapalhada com um pouco de diplomacia. Até um pouco de pressão publicitária também poderia resultar: se o Brasil pediu ao Ronaldo para ajudar num caso de sequestro no Iraque, será que não seria de pedir uma mão ao Figo?
Activistas da Greenpeace absolvidos.
«DN Online: Cavaco com "dúvidas" sobre corrida a Belém.»
DN Online: Bloco rejeita coligações com PS. O Bloco de Esquerda (BE) não irá fazer qualquer coligação com o PS para as eleições autárquicas. A garantia foi dada ontem por Francisco Louçã, num encontro com jornalistas, em que assegurou também que o BE só aceitaria uma aliança de esquerda para Lisboa. Perante a ruptura entre PCP e PS, "uma coligação com os socialistas resultaria numa divisão da esquerda", justificou. A esquerda prepara-se para ir a votos dividida, o que, entende Louçã, proporciona "uma clarificação de alternativas".
É normal que se mude de opinião e, mais ainda, de partido. Mas há um núcleo central de princípios, mais marcado pela história de vida do que pela história política, que dificilmente muda: as posições morais e sobre os costumes. Se olharmos para homens vindos da esquerda, como Pacheco Pereira, ou vindos da direita, como Freitas do Amaral, notamos que transportam do seu passado muitas destas convicções.
Acontece, no entanto, a algumas pessoas, um autêntico terramoto identitário. Não deixa pedra sobre pedra. Há em Portugal uma geração que, vinda da esquerda, confundiu a sua formação pessoal com a luta contra a ditadura ou com o activismo revolucionário do PREC. Não houve, na sua juventude, qualquer diferença entre vida privada e vida partidária.
Tendo entrado para o PCP com quinze anos, Zita Seabra entregou-lhe a sua vida. Ao sair, abandonou tudo: amigos, hábitos, profissão. Por isso, percebe-se que esteja irreconhecível. Mas vê-la como porta-voz dos opositores à descriminalização do aborto, reescrevendo as posições que teve no passado, ultrapassa tudo o que se pode esperar de alguém. Zita Seabra até pode ser contra a legalização do aborto. Mas aceitar ser usada, no Parlamento, como troféu, é diminuir-se a si e à sua história. Quem aceita estar sempre a regressar ao seu passado para o renegar já só se renega a si mesmo.
Nada disto é novo. Há anos que esta protegida de Pedro Santana Lopes se degrada à frente dos nossos olhos. Zita Seabra é uma nova Cândida Ventura, um novo Chico da CUF. Uma ex-comunista que nunca conseguiu ser mais do que uma ex-comunista. Uma medalha de latão que ninguém quer levar para casa. Uma história triste.
"Expresso", 23 de Abril de 2005
Até esta semana, estava à frente da Congregação para a Doutrina e Fé, herdeira do Santo Ofício. E fez jus à sua história. Perseguiu todos os teólogos desalinhados. Na sua lista de vítimas está Hans Kung, Eugen Drewermann, Edward Schillebeeckx ou Leonardo Boff. Porque «o cristão é uma pessoa simples» e «os bispos devem defender esta gente sincera dos intelectuais». Salvem-nos os iluminados.
Do seu passado liberal de defesa do Concílio Vaticano II e de critica feroz à congregação que agora dirigia, não ficou nada. Bastou uma nomeação para cardeal, em 1977, para que lhe passassem os devaneios de juventude. Ele que há muito se achava predestinado para chegar ao topo da escalada no poder da Igreja.
Sempre desconfiou do diálogo inter-religioso e do ecumenismo de João Paulo II: «não há salvação fora da Igreja Católica». Bem pode Bento XVI corrigir o “Cardeal Panzer”. O seu percurso na Igreja vale mais do que mil juras de conversão à tolerância.
É contra a homossexualidade, é explicitamente contra a igualdade de género, é contra o divórcio, é contra a Turquia na União Europeia, é contra o comunismo e o capitalismo. Nem a música rock escapa ao seu dedo censório, acusando-a de ser um veículo de mensagens satânicas. Mas não se pense que Ratzinger é contra tudo. Nos seus escritos mostrou uma comovente compreensão para com a pena de morte. Desde que não seja antes da concepção, claro.
Ao escolher o “Pastor Alemão” como seu novo Ayatollah, o conclave escolheu o pior do anterior Papa: a intransigência moral sem a fraternidade social. A partir desta semana o rosto da Igreja é o rosto da intolerância e do dogmatismo de Ratzinger. João Paulo II confessou: «tenho medo dele». Garantem que estava a brincar. Não vejo onde está graça.
"Expresso", 23 de Abril de 2005
«O presidente do Conselho de Administração da Metro do Porto, Valentim Loureiro, regressa hoje à presidência da Metro do Porto. O responsável fez um balanço positivo da gestão de Rui Rio à frente da empresa, salientando que não há registo de irregularidades na entidade.»
Se Valentim Loureiro afiança que não há irregularidades, podemos dormir descansados.
«Condoleezza Rice quer uma Venezuela "totalmente democrática"»
PS: não gosto de Chavez, mas não só foi eleito como foi depois a plebiscito e a referendo constitucional. Não gosto eu mas, ao que parece, gostam os venezuelanos. À democracia venezuelana pode faltar-lhe muito, mas naquela parte do globo não serão concerteza os EUA a dar lições na matéria. Digamos que lhes falta autoridade. Se Condoleezza quer democracia na Venezuela pode começar por deixar de tentar criar instabilidade no País. Ajudava um bocadinho.
A notícia do dia foi o fim das negociações entre o PS e o PCP para uma coligação às autárquicas de Lisboa. Seria de esperar que o PCP não desejasse ter menos vereadores do que o BE nesta coligação, apesar do BE ter tido mais votos em Lisboa nas últimas eleições. O que é verdadeiramente extraordinário é que – segundo relata a imprensa – o PCP parece não admitir menos vereadores do que próprio PS! – descontado o Presidente da Câmara que seria sempre socialista.
Recusar por razões mesquinhas uma coligação que poderia dar um sinal de colaboração entre as esquerdas e tentar tirar Lisboa da estagnação em que se encontra representa, evidentemente, uma enorme falta de respeito para com a esquerda e os lisboetas. O PCP lá sabe com que linhas é que se cose – e não é certamente com as mesmas com que os comentadores ingénuos tanto elogiaram um "humano" Jerónimo nas legislativas.
Cruciais são agora as implicações deste rompimento. Se bem conheço os atavismos da nossa esquerda, o BE nunca se aliará ao PS sem o PCP, por medo de depois ter o PCP na oposição "pura" ao poder que enlameia. Mas o BE comete um grande erro se pensar assim. Se o PCP é caprichoso, esse é um problema do PCP e não se resolve com um segundo capricho do BE. O BE, aliás, que tem crescido com um discurso de "ser diferente dos outros" (certo ou errado, pouco importa), não pode esquecer-se que esses "outros", ao contrário do que pensa, não são só os partido do centrão. Grande parte do eleitorado do BE votou nele para que fosse diferente do PCP. Ou seja, para partido entrincheirado no ódio ao PS e ao compromisso já nos basta o PCP. Se o BE seguir esse caminho, a desilusão entre a maioria dos seus simpatizantes será enorme.
Dito isto, existem razões a favor e contra uma aliança em Lisboa com um candidato pré-selecionado, Manuel Maria Carrilho, que não é conhecido por ser propriamente um jogador de equipa. Mas o estado calamitoso de Lisboa deve obrigar todos os actores a fazerem um esforço de tolerância, paciência e criatividade.
O BE poderia marcar a diferença e ganhar o respeito de toda a gente dizendo que aceita negociar não com base em números de vereadores ou candidatos mas com apenas duas condições: a) que a coligação dê início a um período de verdadeira construção de um projecto colectivo para Lisboa que até agora não apareceu, através (por exemplo) da realização de uma espécie de "estados gerais" que permitam a realização da condição b) que a coligação transcenda as meras fronteiras do PS e do BE, incluindo independentes, membros de associações de defesa do património e da qualidade de vida, etc.
Se este movimento lisboeta mais amplo fosse criado conseguir-se-ia a) credibilizar a coligação para além do mero prémio eleitoral de "conquistar Lisboa"; b) repartir as responsabilidades pelos actores e c) isolar aqueles que por razões egoístas abandonaram o combate pela mudança de que Lisboa tem necessidade como de pão para a boca.
Adenda: Mário Soares defende que se salve a coligação das esquerdas em Lisboa como parte de uma estratégia que passa pelas presidenciais. Ouvi, na SIC-notícias, Inês Serra Lopes dizer que não entende a preocupação de Soares. Bem, por isso é que Inês Serra Lopes não passa de Inês Serra Lopes, ao passo que Soares com a sua idade ainda dá uma lição à maioria dos comentadores que por aí anda. Como é evidente, se a direita ganhar em Lisboa a considerável maioria da esquerda nas últimas eleições poderá esvaziar-se como um balão de ar, perdendo a dinâmica para as presidenciais (que Cavaco, contrariamente ao que se diz, está longe de poder ganhar se a esquerda apresentar um bom candidato que não seja Guterres ou Vitorino – e o melhor até agora é Manuel Alegre). Quem sofreria mais com isto seria o próprio PS, cuja maioria parlamentar não corresponderia então à maioria sociológica e se encontraria desmoralizada por não ter ganho a maior cidade do país e ter perdido a presidência. O raciocínio de Soares está, como é evidente, correctíssimo.
Na mouche, a crónica de José Vítor Malheiros, no Público de ontem [sem link]:
«Quando alguém como Ratzinger chama a atenção para o "relativismo moral" da sociedade moderna mas, ao mesmo tempo, afirma que "não há salvação fora da Igreja Católica" [...] ou condena o aborto em nome da defesa da vida mas se mostra compreensivo para com a pena de morte, compreendemos que os "valores morais universais e absolutos" que defende são apenas a supremacia das posições do Vaticano sobre todas as outras, com as variantes regionais e temporais que este entenda defender.
O Vaticano não possui qualquer autoridade para falar de "relativismo moral" pois essa é a sua moeda corrente. Um dos domínios onde isso é gritante – e só não vê quem não quer – é a questão dos direitos das mulheres no seio da Igreja. A Igreja não pode considerar que o mais alto papel a que uma mulher pode aspirar é lavar os pés do Papa e falar de duplicidade de critérios. Como não pode abençoar torcionários e autores de massacres e falar do direito à vida, ou amordaçar as opiniões divergentes no seu seio e falar dos direitos humanos. Ou condenar milhões de africanos a morrer de SIDA ameaçando-os com o inferno se usarem o preservativo e falar da piedade, do perdão e do amor de Cristo.»
O 25 de Abril é hoje incontestável. Alguém se atreve a defender, seriamente, o regresso ao 24 de Abril? Alguém contesta o princípio de que Portugal deve ter um sistema liberal e democrático?
Como não é possível argumentar com o essencial, concentra-se toda a acrimónica dos deserdados de Abril nos custos da Revolução. Geralmente são os mesmos que acham que é totalmente inaceitável discutir sequer os custos da invasão do Iraque pelos EUA para lhe dar a sagrada liberdade (O derrube de Saddam pela força, interna ou externa, foi aliás coisa que nunca constestei, desde que esta última feita dentro da lei, ou seja, autorizada pela ONU, e sobretudo acompanhada de um plano sério de recuperação do país; embora sempre achasse isso coisa muito difícil de levar a cabo bem, e impossível com Bush no leme).
Suponho que o que os capitães de Abril deviam ter feito era esperar por uma invasão americana. Perdiam-se umas vidas, mas salvavam-se umas empresas.
É claro que o 25 de Abril teve custos. Todas as revoluções as têm, quer em termos económicos quer em vidas. Mas o mesmo sucede com todos os processos de transição para democracia, mesmo os não revolucionários. Veja-se a vizinha Espanha, uma transição sem dúvida de louvar, mas em que se esquece que morreu bem mais gente do que no terrível PREC português. Veja-se o custo económico das magníficas revoluções democráticas na Europa de Leste. A revolução portuguesa foi das mais baratas, sobretudo no nível mais importante que é o das vidas. Inaugurou mesmo, segundo o insuspeito Samuel Huntington, uma terceira vaga de revoluções democráticos, bem menos custosas e bem mais virtuosas do que todas as anteriores.
Sobretudo cabe perguntar: se se podia fazer melhor, e no campo económico ou da descolonização seria desejável que se tivesse feito melhor - mas é claro que a crise nos dois campos era já muito séria antes da revolução - então porque é que não se fez melhor antes? Onde estavam as elites do regime dispostas a liberalizar de cima? A resposta é que em 1974 estavam quase todas em ruptura com o regime porque tinham percebido que o poder instalado não queria liberalizar, de Sá Carneiro a Spínola é só escolher.
O argumento final é que o MFA não era democrático: veja-se o Pacto MFA partidos, ou as nacionalizações, ou as prisões arbitrárias. Mas nenhum processo revolucionário é democrático ou sequer legal! E quanto ao MFA, ele não existia. Deixou de existir como entidade unitária, apesar da propaganda em contrário, logo a seguir ao 25 de Abril. O que o unia era a oposição ao velho Estado Novo. Existiam antes várias correntes que tentaram controlar a sigla e o processo revolucionário. A que acabou por triunfar, tendo como figura central Melo Antunes, era sem dúvida democrática. Sem ela não estaríamos agora a celebrar os 30 anos das primeiras eleições totalmente livres da história portuguesa. Há poucas datas mais importantes na história portuguesa. Somos todos filhos dessa madrugada que convém não esquecer.
Guilherme Silva diz que o facto de Durão Barroso ser presidente da Comissão Europeia é uma conquista do 25 de Abril.
«Durante mais de trinta e cinco anos, a política americana tem seguido uma rota populista tão previsível como um espectáculo de robertos [...] Os antagonistas deste melodrama familiar são instantaneamente reconhecíveis: o americano médio, humilde, sofredor, que trabalha no duro e paga os seus impostos; e a elite liberal [de esquerda], os sabichões de Manhattan e de Malibu, sorvendo os seus capuccinos enquanto planam sobre a arraia-miúda com os seus diplomas esquisitos [...] Os conservadores normalmente encaram a classe como um tópico inaceitável quando se fala de economia [...] Mas defina-se a política enquanto cultura e a classe torna-se imediatamente o tutano do discurso público.»
Mais uma narrativa interessante, ainda que já um pouco rotineira, das guerras culturais americanas, com passagem pelas eleições de 2004. Já reparam que se substituirmo "Manhattan" e "Malibu" por "Bairro Alto" e "Lux", já temos ali mais de metade do argumentário da lusoblogosfera de direita?
Antes e depois de 25 de Abril de 1974 a história portuguesa não tem sido sempre fantástica, mas esse dia foi perfeito. Às 00h00 tínhamos um país com censura, polícia política, presos de opinião e uma população habituada ao medo. Vinte e quatro horas depois os jornais eram publicados sem "exame prévio", a polícia política agonizava, os presos estavam em vias de sair das cadeias e o povo começava a perceber que não havia razões para o medo. Para um só dia, não se pode arranjar melhor. É talvez o mais belo da nossa história e um dos mais belos da história do século XX, porque antes dele ninguém dava dez tostões por revoluções pacíficas em países periféricos e esquecidos. Entretanto, vários povos puderam gozar revoluções pacíficas, dos polacos aos checos, dos ucranianos aos brasileiros das "diretas já". E podem ter a certeza que entre os líderes desses movimentos, a revolução dos cravos é conhecida e admirada.
Tenho uma certa pena de não ter escrito nada no Barnabé durante este dia. Mas isso foi só porque das 00h00 às 24h00 vivi plenamente o Dia da Liberdade enquanto tal. E se ao chegar a casa vejo nos blogues que há gente que ainda não conseguiu engolir nem admitir o 25 de Abril, isso só me dá um certo gozo suplementar. Como bom ateu, não lamento a falta de crença nos outros. Que vivam uma boa vida, tendo apenas que abrir alas para a alegria daqueles para quem o 25 de Abril é o Natal dos portugueses que amam a liberdade – o dia mais bonito do ano.

Para todos os que, como eu, andaram a aplaudir Ximenes Belo, em Lisboa, aqui está o que já deveríamos esperar: uma tentativa de golpe político em defesa de um Estado confessional. Um bispo incapaz de aceitar a liberdade religiosa. Um bispo incapaz de aceitar a legitimidade de um governo democraticamente eleito. Um bispo incapaz de regressar ao templo, depois de instaurada a democracia. Fica a dúvida: se 96% da população é católica, porque o preocupa tanto que as aulas de religião e moral sejam facultativas? E fica a suspeita: que a Igreja de Timor só diga alto o que homens como Ratzinger pensam baixinho. Mas Timor é uma lição: a defesa de um Estado laico é uma das principais garantias de um Estado democrático. Esperemos que a jovem democracia timorense ultrapasse, mais uma vez, este obstáculo.
PS: Nem dei por ele se ter ido embora. Ximenes Belo já não é o bispo de Dili. Ou seja, onde liam Ximenes devem passar a ler Igreja Católica timorense. A mesma que alaudimos, reresentada por Ximenes, há uns anos.
Depois de Ratzinger, ter Telmo Correia a líder do CDS/PP fecharia uma bela semana. Afinal o CDS/PP escolheu Ribeiro e Castro, um líder mais inteligente e sintonizado com a modernidade. Ribeiro e Castro, no entanto, pode cair na armadilha de Freitas. Quando ontem fez aquele que foi considerado o seu melhor discurso, contornou habilidosamente as questões de costumes. Os militantes, que tanto aplaudiram outros passos da sua intervenção, ficaram estranhamente silenciosos quando ele disse que "sempre existiram famílias monoparentais" e que "o CDS não discriminou ninguém", ou que a sua oposição pessoal ao aborto não era "confessional". Provavelmente, o público terá achado isto um pouco meias-tintas. Resta saber se Ribeiro e Castro vai ser ele mesmo e trazer o partido para a moderação ou se se vai aproximar do reaccionarismo que faz sonhar a base militante que ainda agora aplaudiu ruidosamente a UNITA para se silenciou pouco educadamente perante os convidados da CGTP.
Na resolução deste problema está, como sempre, a fuga à sombra do destino do CDS: a irrelevância?
Hoje vamos começar uma volta ao mundo, talvez em menos de oitenta dias. Não vamos de balão ou avião, mas à boleia de alguns postes. E claro teríamos de começar pelo centro do mundo nestes últimos dias: Roma e o Vaticano. A minha primeira reacção à eleição de Ratzinger foi, como é que é possível uma escolha tão má? Depois pensei melhor. E a minha reacção mais reflectida foi, como que é possível uma escolha tão, tão má? Ratzinger, um velho da Velha Europa, e sobretudo um homem de ideias velhas. Que afirmou: ‘os fiéis são pessoas simples que é preciso proteger dos intelectuais’. Uma frase reveladora, de facto, da sua grande inteligência, porque é difícil pensar numa afirmação mais insultuosa para os católicos e para a rica tradição intelectual da Igreja. O homem que afirmou que não há salvação fora da Igreja Católica e que se opôs completamente à entrada da Turquia na Europa em nome das suas raízes cristã. (Aparentemente a parábola do bom Samaritano nunca lhe chegou aos ouvidos).
Há portanto um problema da imagem do papa Ratzinger por causa da sua total falta de carisma pessoal. Mas ela é agravada pelo seu desempenhado e pelas suas declarações como orgulhoso herdeiro dos inquisidores. E há a oportunidade perdida de eleger um líder que influenciasse as questões internacionais com uma autoridade acrescida numa época em que se está a fazer o reequilibrar do poder no mundo entre os seus centros tradicionais na América e na Europa e o resto do planeta. Ou seja, de levar até à sua conclusão lógica o esforço de internacionalização do Vaticano e do colégio dos cardeais nos últimos cem anos e sobretudo por parte de João Paulo II.
Um papa de transição? Talvez, mas não creio. Porque Ratzinger é o mais próximo a um chefe de facção que se encontra no catolicismo. A eleição de uma personalidade com este perfil é tão rara que se pode considerar revolucionária. E teve sempre consequências péssimas se não foi rapidamente corrigido no conclave seguinte. Aqueles que em Portugal nos vêm explicar que tudo isto é normal e devia ser esperado, só mostram a sua própria ignorância, de que ridiculamente acusam os católicos liberais. Nada de espantar, afinal, num país em que muitos na Igreja Católica durante muito tempo adoptarem como mote a frase de Ratzinger, e em que os anticlericais acharam que a melhor forma de lidar com as religiões era procurar negar-lhe qualquer espaço no campo intelectual. Portugal deve ser o único país na Europa que não tem um único centro ou departamento ou faculdade dedicado ao estudo das religiões no ensino superior público. A Igreja Católica é necessariamente conservadora, e o liberalismo católico não faz qualquer espécie de sentido? As reformas na Igreja são uma aberração? Claro que as tradições são para defender? Esta eleição foi o que se esperava? Vamos por partes...
A Igreja conservadora? Nem conservadora nem progressista. É verdade que o papa anterior beatificou Pio IX. Mas Pio IX foi eleito como a grande esperança dos liberais católicos, antes de se voltar contra o liberalismo depois de várias conflitos. E a própria ideia de convocar um concílio, em 1870, foi uma inovação significativa em relação aos séculos anteriores. Mais, João Paulo II também beatificou frei Bartolomeu dos Mártires que tinha participado no concílio de Trento e tinha como mote ‘A Igreja está sempre a precisar de reformas’; e João XXIII, de que muito me tenho lembrado nestes dias, nomeadamente no seu ataque ‘aos profetas da desgraça' que só vêm os males do mundo actual. Tradição? As mulheres desempenharam funções, alguns dizem que até de bispo, nos séculos iniciais do cristianismo, as quais depois, por uma série de reformas, se tornaram exclusivo de sacerdotes homens. Preservar qual tradição? A Igreja Católica, ao contrário da Igreja Ortodoxa, por exemplo, tem evoluído muito, frequentemente no meio de grandes polémicas e conflitos, mas o lado que tem o apoio papal a determinado momento muitas vezes acaba por ceder ao espírito dos tempos. Evoluir é parte da tradição do catolicismo, embora ao rimo de uma instituição muito vasta e muita antiga, o que é bem diferente de ser imobilista.
O liberalismo católico não faz qualquer sentido? Suponho que nunca tenham ouvido falar da polémica no século XVI entre intelectuais protestantes defensores do servo-arbítrio, como Lutero, e pensadores católicos, como Erasmo, defensores do livre-arbítrio do homem; as discussões entre os defensores da importância do que se faz nesta vida e os defensores da predestinação. A ideia de liberdade é um dos eixos importantes do pensamento teológico católico. E nem vou detalhar a geneologia nos séculos seguintes. Mas muitos dos grandes pensadores liberais no século XIX eram católicos. Claro que a uns nomes é sempre possível opor outros. E o pensamento católico e o papado não pode ser reduzidos à política, a conservadores e progressistas. Mas esse é precisamente o ponto! Houve frequentes conflitos entre as autoridades da Igreja e os alguns pensadores mais ousados, como em qualquer organização, mas esta tensão não foi sempre resolvida, sobretudo no longo prazo, no sentido de manter o que estava. Tem havido muitas reformas no catolicismo, e algumas até foram num sentido «conservador», ou seja, de reforçar a autoridade do centro e fazer interpretações mais restritivas da doutrina e da disciplina. Outras foram no sentido contrário. Dizer que no catolicismo ser a favor de reformas não faz sentido, isso é que não faz sentido nenhum.
Era normal que o chefe da facção conservadora na Igreja fosse eleito papa? Na verdade não era. Por isso se costuma dizer que quem entra papa sai cardeal. Os favoritos, os líderes de uma ou outra corrente na Igreja acabaram quase sempre por ser preteridos por uma figura pelo menos vista como sendo de compromisso e geralmente menos conhecida. É essa a lógica das regras quase milenares que estabelecem que os cardeais que participam no conclave precisam de uma maioria de dois terços para eleger um papa. O objectivo desta reforma muito antiga foi evitar as lutas de facções, acabar com as violentas campanhas eleitorais que se tinham verificado até então. Em 1996, João Paulo II, segundo se diz com o apoio de alguns dos cardeais da Cúria, fez uma reforma que alterou esta regra, ao permitir a eleição do papa com maioria simples. O que altera a dinâmica do conclave. Ou seja, todos os cardeais sabem que a facção dominante pode esperar até ao trigésimo sufrágio e decidir por maioria simples que o seu homem será papa! Isso retira o incentivo ao compromisso, torna mais fácil perpetuar no poder um determinada corrente, e cria um maior risco de divisões e conflitos no futuro. Claro que há quem ache isso bem, e prefira uma seita a uma igreja verdadeiramente global e portanto muito diversa, mas essa não é a tradição católica.
Estou portanto curioso em saber se o papa Ratzinger, que denunciou o relativismo, mas deu algumas cambalhotas significativas na sua vida – de jovem teólogo progressista e crítico radical do seu antecessor na Congregação da Doutrina da Fé, a bispo e cardeal cioso da sua autoridade –, é realmente um tradicionalista numa questão central: a eleição do papa. Ou seja, se irá restabelecer a regra dos dois terços para a eleição papal. Afinal se ele foi uma figura tão consensual como cardeais que lhe são próximos têm dado a entender, isso não deveria ser um problema.
Finalmente, para um analista destas questões a eleição de Ratzinger é um teste interessante. Até que ponto o agora Bento XVI ultrapassará a lógica de poder e de facção que foi a sua durante tantos anos, e virá a ser, como alguns prevêem, em mais uma cambalhota, um construtor de pontes e de novos caminhos? Ou será como papa um continuador do cardeal: um disciplinador, um vigilante, um defensor de quanto menos melhor desde que absolutamente fiéis à sua linha? Quanto do carisma e influência do papa se deve ao prestígio do lugar e quanto à sua personalidade? Até que ponto um alemão de 78 anos consegue ser uma figura mobilizador dentro e para além da Igreja, seja na Europa, que reage ao seu conservadorismo, seja no resto do mundo que vê mais um velho branco numa posição de poder? As suas primeiras nomeações e a sua primeira encíclica serão uma primeira pista. Mas a sua última homilia como cardeal e as primeiras como papa parecem apontar para um papa Ratzinger.
Mas até pode ser que o papa Ratzinger venha a ter algo de disciplinador e algo de benévolo. Desconfio, no entanto, que tenderá a ser disciplinador de teólogos incómodos e de esquerda, e compreensivo e benévolo para, por exemplo, os cardeais conservadores seus amigos que vieram já violar o segredo do conclave para dizer que ele foi sempre o favorito. Pai (severo) do povo e mãe (benévola) dos ricos diziam no Brasil de Getúlio Vargas...

"O bolo foi oferta do senhor cardeal."
Apesar de um excelente post do CAA no Blasfémias, seguido de também excelentes comentários por parte de um leitor José Barros, há gente que ainda não compreende o disparate pegado que é o apelo à desobediência civil – que o Cardeal Trujillo exige os funcionários públicos católicos do estado espanhol encarregados de casar homossexuais. E já não digo disparate jurídico, porque isso ficou mais do que respondido pelo post e comentários referidos, mas disparate político e estratégico. É que o cardeal não percebeu que os "seus" católicos não se arriscam só a perder o emprego.
Deixo só mais esta: vai ser lindo ver os casais cerceados nos seus direitos agora legais a processar os funcionários que ilegalemente os prejudicarem. Vai ser lindo ver os devotos a pagar belas indemnizações aos sodomitas e lesbianas a quem negaram o cumprimento da lei. Ou seja, vai ser lindo ver casamentos de homem-sexuais em que o enxoval vai ter sido, na prática, oferecido pela burrice do Vaticano.
Eu tinha dito que o papa Ratzinger ia ser uma diversão pegada para os incréus. Houve quem não concordasse.
A RTP está a transmitir, em directo, uma conferência de imprensa do novo Papa. Talvez numa alusão ao papel a que se tem prestado o canal público de televisão nacional, o Cardeal que anunciou a presença do Papa resumiu bem o que por aqui se tem passado: "nos últimos meses temos visto a comunicação social ao serviço da Verdade".

Bolton a apontar o dedo.
Alguns dos nossos analistas de questões internacionais quando foi anunciado o nome do Sr. Bolton para embaixador dos EUA na ONU apressaram-se a vir mais uma vez desenvolver a agora tão na voga teoria do quanto pior melhor. O homem era um crítico destrutivo da ONU? Óptimo!! Era com ele que se iria conseguir reformar a instituição internacional. O homem não faz ideia do sentido da palavra diplomacia? Óptimo, era mesmo isso que era preciso para negociar essas reformas com quase duzentos países!! Só é pena que isto reduza a análise a um verdadeiro exercício esotérico: não se trata da tarefa habitual de ir para além do óbvio, trata-se de ver em tudo o exacto contrário daquilo que aparenta! Todo o mundo é ilusão!
Só é mesmo pena que o Senado norte-americano não leia a imprensa portuguesa de qualidade. Apesar de dominada por republicanos, a sua comissão de relações externas - 10 republicanos, 8 democratas, mas felizmente um dos republicanos é um moderado de Rhode Island - decidiu suspender a nomeação por três semanas para aprofundar a questão da capacidade de Bolton para o lugar. Uma das alegações é que ele tentou colocar na prateleira funcionários do Departamento de Estado que tinham contrariado as suas alegações fantasiosas sobre ADMs em Cuba! As dúvidas expressas por Colin Powell sobre a sua personalidade instável também pesaram.
Mesmo que o Congresso americano acabe por aceitar a sua nomeação, o que é apesar de tudo bem possível por uma simples lógica política, parece difícil continuar a argumentar que ele era o homem ideal. E então se o rejeitar... Mas esperam mais três semanas pelo fumo branco de Washington para saber a opinião dos nossos especialistas.
O Vaticano, através do seu Prefeito do Conselho para a Família, Alfonso López Trujillo, ordena a objecção de consciência aos católicos que forem funcionários públicos do estado espanhol e celebrarem matrimónios entre pessoas do mesmo sexo. E acrescenta:
«Não é facultativo. Todos os cristãos devem estar dispostos a pagar o preço mais elevado, inclusive a perda do emprego»

São os últimos 12 dias de Hitler. Enfiada num bunker, a “fina-flor” do nacional-socialismo assiste à derrocada do regime e à queda do seu Führer. Hitler dirige tropas inexistentes e salta do delírio eufórico para a cólera ressentida, da fúria para o desalento. No meio da depressão colectiva, fanáticos delirantes como Goebbels e sua mulher Magda juntam-se ao seu ídolo na morte, oportunistas como Himmler, Hans Krebs ou Göring tentam salvar a pele, ingénuas, como a secretária de Hitler, Traudl Junge, vivem o pesadelo como viveram o sonho, longe de tudo o que se passa lá fora, homens como Albert Speer têm, depois de todo esterco em que mergulharam, um último segundo de decência. Na hora da queda, a tragédia transforma-se em farsa.
Hitler gostava da sua cadela, era afectuoso com Eva Braun e com a sua secretária, chorava. Era humano. E parece que houve quem se chocasse com a revelação do óbvio. Não percebo a polémica. Hitler não era um monstro. Os monstros não existem. Era um homem. É bom que se saiba que o Holocausto não foi um acidente da história nem um acontecimento sobrenatural. Pode sempre voltar a acontecer. Porque o Inferno é feito por homens que choram, que amam e que sofrem. Isso é que o torna mais abjecto.
“A Queda” (“Der Untergang”), de Oliver Hirschbiegel, é um dos melhores retratos de um ditador que já vi. Sem caricaturas (como se fosse necessário). O Hitler ali mesmo ao pé de nós. Quase como se fosse intimo. E uma visita dos alemães ao seu passado. Um muito bom sinal. Conseguissem todos os países manchados pelo horror (é verdade que nenhum chegou onde chegou a Alemanha nazi) fazer o mesmo e dormiríamos mais descansados.
N'O Acidental: "Se a esquerda mandasse na Igreja... Os padres dariam preservativos em vez de hóstias."
Há dias, Luis Nobre Guedes veio dizer que não podia ser líder do CDS-PP porque era advogado e isso era incompatível com a política (a escolha torna-se óbvia). Hoje, António Pires de Lima disse, na entrevista a Judite de Sousa, que teria muito honra em ser presidente do partido mas tinha uma família numerosa para sustentar. E pensar que já houve gente maldosa que dizia que o CDS era o partido dos ricos... Melhor seria - em vez de fazerem um congresso - optarem por uma quermesse para pagar ao futuro líder. Nós também não queremos que eles passem dificuldades.

Para aqueles a quem apetece queimar o papa Ratzinger, podem agora fazê-lo de forma prática e até sob uma aparência devota!

Para quem acha que o inquisidor é tão doce como o mel, aqui está uma forma prática de o provar, sem margem para dúvidas, mesmo aos mais descrentes!

O liberal senhor D. Pedro I do Brasil e D. Pedro IV de Portugal, libertador dos dois povos irmãos... Só foi pena o mano Miguel. Não sei há quanto anos foi [mas já me disseram: 1822, o que para 2005 dá, ora 9 fora nada... bem, é só fazer as contas].

O Alferes Joaquim José da Silva Xavier, chamado "O Tiradentes", precursor do republicanismo, do liberalismo e da auto-determinação dos povos no mundo de língua portuguesa, executado por ordem da dinastia de Bragança há exactamente 213 anos. No Brasil comemora-se hoje o feriado do Dia de Tiradentes.
Todos perseguidos pelo Pastor Alemão:

Hans Kung

Eugen Drewermann

Edward Schillebeeckx

Leonardo Boff
«O cristão é uma pessoa simples (…) e os bispos devem defender esta gente sincera dos intelectuais». Cardeal Joseph Ratzinger
Joseph Ratzinger é contra o aborto, que considera corresponder a «uma cultura de morte». Joseph Ratzinger não se opõe à pena de morte.
*Frase de uma canção de Caetano Veloso
Aqui vão os dois textos do último fim-de-semana, no “Expresso”
De facto, o PSD é o mais português de todos os partidos. É um pequeno comerciante à espera de uma boa oportunidade de negócio. Mas, quando chega à oposição, abre falência: não tem nada para oferecer. A sua vacuidade deixa-o sem rumo, sem quadros e entregue a quem mantenha algumas migalhas do poder: caciques locais e autarcas.
Os empresários são a base de legitimação ideológica, em qualquer país civilizado, de uma direita democrática. Mas, em Portugal, os empresários dependem do Estado. Fracos, esperam ser protegidos da concorrência, dos chineses, dos espanhóis, dos sindicatos, da seca, das chuvas, da Europa. São os mais anti-liberais dos anti-liberais. Num país pobre, só multinacionais e economistas é que gostam do mercado livre.
Cavaco Silva percebeu tudo isto muito bem: as elites económicas domésticas querem um Estado forte, interveniente e previsível. Que distribua o ouro do Brasil e da Europa com generosidade. Que proteja os que já estão instalados. Que ofereça uns subsídios e umas empreitadas. O cavaquismo teve muito para dar. E deu tudo. Guterres seguiu-lhe os passos.
O que se pedia a Barroso era que continuasse a obra feita: conquistar o governo para o seu partido, distribuir a riqueza, de forma equilibrada, por clientelas privadas e públicas e, acima de tudo, ficar o máximo de tempo no poder. Era simples. Mas Barroso deitou tudo a perder. Porque, vindo da extrema-esquerda, se converteu à direita errada no país errado. A direita liberal pensa em grande e a sua clientela, a da finança, é demasiado gananciosa para o nosso capitalismo de mercearia. Durão Barroso era um megalómano. Depois de um episódio chamado Santana, a base social de apoio do PSD preferiu a segurança de Sócrates.
Durão deixou ao PSD apenas o PSD. E o PSD, sem mais nada, é Marques Mendes e Luís Filipe Menezes. Uma pobreza de meter dó.
16 de Abril, “Expresso”
Inseguro e deprimido com o seu desempenho, é fora de casa que Portugal procura a confirmação da sua virilidade. O elogio fácil chega-lhe. Uma atençãozinha. Um piropo.
Lá fora é onde tudo o que aqui falha se resolve. Num país civilizado, diz-se, nada do que aqui se passa acontece. Lá fora não há burocracia. Lá fora não é esta balbúrdia. Lá fora as pessoas com valor são tidas em conta. Lá fora é toda uma outra existência. Lá fora é a Utopia. E por isso, quando somos bons lá fora, confirmamos que, não fosse o triste karma que nos acompanha, seríamos bons cá dentro. Mas não somos. Porque cá dentro é a “piolheira”. Um atraso de vida. Salvam-nos os estrangeirados que, tendo ido lá para fora, nos trazem a boa-nova.
Quando Portugal ganhava os “Jogos sem Fronteiras”, o país vibrava. Quando fizemos a Expo e o Euro e os estrangeiros viram «do que somos capazes», rejubilámos. Quando Durão foi para presidente da Comissão, deixando o país num caos, mostrámos patriotismo e fomos a retaguarda, pronta a sofrer pelo reconhecimento de um dos nossos. Quando se fala de um Papa português, ficamos ébrios. Quando querem um português para dirigir a Autoridade para os Refugiados, até lhe chamamos um Figo. O que é a Autoridade para os Refugiados? O que é que isso interessa? É lá fora e pode ser nosso. Venha a taça. Portugal existe para ser visto.
Continuamos a viver o sonho do imigrante: sair desta desgraça, andar lá fora a lutar pela vida, voltar com o reconhecimento dos que aqui ficaram. Das elites ao povo de baixo, é o que todos esperam: que corra bem, lá fora.
16 de Abril, “Expresso”

Leilão de salvados - 23 e 24 de Abril, Lisboa
Nos últimos tempos tem havido sempre ponderosas razões para, como às vezes nos gritam aqui os comentadores, "deixar os papas em paz!". Primeiro era por respeito à fé dos outros; depois porque o papa estava doente; depois porque o papa morreu; agora porque há papa novo. E outras tantas variações sobre o tema: "se não vais dizer bem, cala-te".
Às vezes há uns rodriguinhos. Por exemplo, no Blasfémias escreve o João Miranda o seguinte: "Um liberal que defende que a Igreja não deve ter um Papa conservador faz tanto sentido como um liberal que defende que o líder do PCP não deve ser comunista". Não é um post ao melhor nível do João Miranda porque a analogia está longe de ser perfeita. Reparem: na primeira metade fala-se de um papa "conservador" e na segunda de um líder do PCP "comunista", quando o par correcto seria católico-comunista ou então conservador-ortodoxo. Ou seja: defender que um papa não fosse católico é que seria como defender que um líder do PCP não fosse comunista, porque de resto existem católicos que não são conservadores e comunistas que não são ortodoxos.
A propósito, lembro-me bem de quando Brejnev morreu. Na altura, toda a gente – e especialmente os não-comunistas – tentava adivinhar quem seria o sucessor e que consequência traria cada um dos nomes: Gromiko? Tchernenko? Andropov? Gorbatchev? Toda a gente, meus caros, metia o bedelho, para grande irritação de Cunhal e dos PCPs. E posso garantir que a maior parte das pessoas no Ocidente e no Leste – numa época de guerra fria e pânico nuclear – desejava um comunista moderado e modernizador.
Já não estamos na guerra fria, mas no meio de uma guerra religiosa latente e vivemos no pânico de um choque de civilizações – contexto no qual João Paulo II, convém dizê-lo, se comportou impecavelmente. Ora anteontem a chaminé da capela sistina deitou fumo branco. O novo papa veio à varanda, e vimos que seria o equivalente católico ao homem do KGB, o frio funcionário capaz de censurar Brejnev por moderação.
No entanto um gajo dá uma volta pelos blogues de direita liberal e o que vê? Estão felicíssimos. Porque, supostamente, a esquerda está chateada. Acham uma boa solução, porque o Espírito Santo nos livrou de um papa de esquerda. Estas fixações mórbidas na esquerda, no entanto, não os impedem de usar argumentos passíveis de render royalties a Jerónimo de Sousa: "É tempo da «inteligentzia» perceber que a Igreja Católica não é uma agremiação recreativa e cultural...", exactamente o mesmo que o camarada secretário-geral diz quando quer calar uns camaradas mais recalcitrantes.
Já agora, deixem-me assinalar aqui uma coisa que pode ter escapado ao pessoal no meio deste entusiasmo todo. Para a esquerda ateia e libertária Ratzinger não faz mossa absolutamente nenhuma. Bem pelo contrário, é uma escolha divertidíssima. Até já voltaram as missas em latim que George Brassens reclamava ("sans le latin, sans le latin / la messe nous emmerde")! Para quem Ratzinger é a pior de todas as escolhas é para os católicos moderados e reformistas. E não estou só a falar dos católicos de esquerda, mas dos próprios católicos liberais de direita: Pedro Mexia ou Andrew Sullivan compreenderam-no bem. E não é por serem menos liberais nem menos católicos. Mas claro que não é Mexia nem Sullivan quem quer: é preciso prezar mais o raciocínio do que o desdém pela esquerda, tarefa manifestamente esgotante.
O que é mais extraordinário é que gente que passa o tempo com "nhã-nhã-nhã o liberalismo isto" e "nhã-nhã-nhã nós os liberais" se tenha esquecido em poucas horas de que Ratzinger coloca o liberalismo ao mesmo nível das outras falsas ideologias de que os católicos devem fugir – como aliás, da modernidade em geral. Os católicos têm de ter uma "crença simples nas verdades da igreja" – e acabou-se.
Mas que importa? O homem é anti-relativista! Viva! Hurra! Nem vale a pena perguntarmo-nos se o anti-relativismo de alguém que acredita numa verdade revelada tem sequer a mínima semelhança com o anti-relativismo, por exemplo, de um empirista.
Até dá pena Bin Laden não ser católico, porque anti-relativista maior do que ele não sei se há.
João Paulo II disse, uma vez, sobre Joseph Ratzinger: «tenho medo dele». Não é agora que vou pôr em causa a infalibilidade papal. E compreendo que se tenha algum receio daquele que dirige a congregação que é herdeira do Santo Ofício. Mas como não sou católico, tanto me faz. Desde que não se queira meter nas leis dos Estados e, através delas, na minha vida, por mim está tudo bem. O seu rebanho que o ature.
Depois de João Amaral, Luis Sá e ainda outros, faleceu Edgar Correia. Infelizmente para o país – porque se trata de uma geração de enormes qualiades – o destino tem sido muito madrasto para os renovadores comunistas.
Não caro leitor, não é de rock nem de pop que se vai aqui falar. Os Galandum Galundaina são antes cultores de música folk, e da boa. Diria mais, sagrada, sagradamente profana ou, se preferirem, profanamente sagrada, mas sagrada. São quatro músicos da Terra de Miranda que desde 1996 se dedicam a recolher e fazer renascer o cancioneiro popular daquela região de Trás-os-Montes. E para folgança cá da rapaziada, fazem-no com um rigor verdadeiramente salutar. Digo-o sem a menor dúvida – o som que arrancam dos instrumentos, todo junto, respira de forma cristalina sem soar puro, na má acepção da palavra, e sim puro no sentido em que traz ainda poeira pendurada nas notas.
Galandum, pelo que se pode ler nas recolhas de Giacometti e Lopes-Graça, era uma canção dançada, bastante antiga e muito comum na região de Miranda do Douro. Seria instrumentalmente bastante aparatosa: tamboril, gaita de foles, fraita, pandeiro, pandeiretas, castanholas, carracas, ferrinhos e assobio dento labial. Pois é, é mesmo um excelente nome para o projecto.
O primeiro disco, L Purmeiro, data de 2002, o segundo, Modas i Anzonas, é deste ano e encontra-se nas lojas (eu encomendei ambos no site da banda). Lhaços, alboradas, rimances e modas, cantadas ou não, são magnificamente trazidas aos nossos ouvidos pelas fraitas, gaitas de foles, charrascas, sanfonas e o restante sem número de instrumentos que os Galundaina utilizam na sua música. As vozes e os coros cantam as histórias das canções, da terra pois claro, ou, nas palavras de Fernando Lopes-Graça, “do homem transmontano, parcela do homem universal nos seus momentos de funda identificação com o espírito da Terra e das Horas”. Identificação com o espírito da Terra e das Horas – é folk sim senhor, e grande.
Bento - arrojado, rápido e eficiente. Foi o guardião do glorioso durante vinte épocas - um dos reinados mais longos nas balizas da catedral. Nesse tempo, sob o seu comando, a fé voava mais alto.
Trento: 1 - Vaticano II: 0.
Ontem, no DN, Luís Delgado declarou que não havia processo mais democrático do que a eleição do Papa. Mas, no Público, Fidel Castro lamenta discordar: democracia, democracia, não há como a cubana.
Contra o liberalismo, o marxismo, o relativismo, o materialismo, o capitalismo, o socialismo e a modernidade. Parece-me que estamos cá todos.
O cardeal Joseph Ratzinger é o novo papa.
José Manuel de Mello em entrevista à revista do Expresso (16-04-2005):
“A minha família nunca foi profundamente germanófila, embora tivesse um bocadinho o estigma da Guerra Civil de Espanha em que se envolveu. O meu avô ajudou de várias formas o lado nacionalista, que acabaria por sair vencedor. Em minha casa fizeram-se muitas camisolas para levar a Espanha. O meu pai tinha a carta de pesados e foi em comboios a guiar o camião para levar produtos. O meu avô e a minha família sempre foram gente que acreditaram na autoridade e na ordem. A opinião que corria lá em casa era essa. Mas não se pode deixar de contextualizar isto no tempo em que foi. Impressiona-me esta necessidade de pedir desculpa, como o Papa veio pedir desculpa, ou o Presidente Chissano, que já não é presidente, mas que foi ao Norte e disse que falta aos portugueses pedirem desculpa. Pedirem desculpa de quê? Foi um contexto. Foi uma época, e nessa época era como era. Não éramos diferentes dos outros. Que se capitalize hoje isso por razões políticas ou outras, é um completo exagero.”
É a quarta maior fortuna nacional (segundo a edição especial de 2004 da revista Exame) estimada em 693,33 milhões de euros.
“Em 1993, a empresa Portucale do grupo Espírito Santo adquiriu 507 hectares de terreno rural integrado na Companhia das Lezírias com um estatuto de protecção claro: tratava-se de um terreno cujo uso agrícola não podia ser modificado por estar em zona de protecção de linhas de água e área de montado. O preço de m2 foi, aliás, calculado nestas condições. Passado pouco tempo, a empresa apresentou um projecto urbanístico, pretendendo transformar m2 agrícolas em m2 urbanos. Em termos financeiros é como pegar numa nota de banco e acrescentar-lhe uns zeros, pedindo depois ao Banco de Portugal que a carimbe a dizer que está válida. Era o que ia acontecendo em 1995 quando o então ministro da Agricultura Duarte Silva aprovou o projecto em vésperas de saída do governo. O ministro seguinte, Gomes da Silva, conseguiu travar a urbanização e o derrube de 2.600 sobreiros. Ficou mesmo assim um campo de golfe.
Recentemente, nas vésperas de entregarem as chaves do gabinete, três ex-ministros entre os quais Luís Nobre Guedes – e para ruína da imagem que tanto quis construir – aprovaram a dita urbanização, alegando a figura de «projecto estruturante» de «imprescíndivel interesse público»! Horas depois de o despacho (ver terça-feira, 29 de Março) ser conhecido, já os bulldozers arrasavam os sobreiros centenários. Nunca um despacho se despachou tão depressa e não há notícia de uma Direcção Regional tão célere. Que eficácia! Que belo Governo se perdeu!
Não sabemos a interpretação que no Grupo Espírito Santo se faz do conceito de sustentabilidade, uma vez que integra o Business Council for Sustainable Development. Mas uma coisa é certa: não é sustentável que qualquer Governo tenha atitudes de solicitude destas. Mais ainda nas vésperas de sair.
O que dirá o cidadão comum ou mesmo outras empresas, de toda esta eficácia num país em que a burocracia se tornou uma arma de desmoralização?
Já existe uma acção em tribunal e o novo Governo já suspendeu a decisão, mas espera-se que este caso seja lembrado como exemplo. É que há regras bem simples como a decência e a equidade.”
(Luisa Schmidt, Expresso 16-04-2005)
E só para completar, o Banco do grupo, mais conhecido por BES (o tal que também recebeu fundos do Pinochet), intitulou o seu relatório de responsabilidade social de 2003 da seguinte forma: A Sabedoria Financeira ao Serviço do Desenvolvimento Sustentável...Vê-se...
Barroso e esposa aceitam convite para cruzeiro de 20 mil euros com destino desconhecido.
Se o bom nome de Portugal tem voado alto desde que o "cherne" é Presidente da Comissão Europeia, agora também navega mais longe. Como se pode ler na notícia, o convite partiu de um amigo de Barroso, Spiro Latsis, que é dirigente de um grupo financeiro com interesses em áreas como a alta-finança, o petróleo e o mar. A ser verdade, as boas práticas lusas começam a dar cartas na Europa, o que é importante para afastar a imagem que se colou aos nossos deputados europeus, segundo a qual, nas reuniões, apenas lhes interessava discutir três coisas: Timor, têxteis e taco. Poder-se-á acrescentar agora o turismo?
«Não é conciliável ser-se advogado e presidente do partido. Aliás, acho que uma das coisas que hoje vale a pena pensar é nesta convivência entre os interesses e a política. Os interesses não são compatíveis com a política.» Luís Nobre Guedes, entrevista Público, RR, 2
O jornal Público traz hoje uma revelação surpreendente (pp. 4 e 5). Dom José da Cruz Policarpo e Dom José Saraiva Martins são afinal…gémeos. Os perfis dos cardeais não deixam margem para dúvidas, são duas biografias decalcadas, ainda que Saraiva Martins não assine Policarpo para evitar confusões inevitáveis. O Barnabé sabe que, no conclave esta situação insólita está longe de ser vista como um óbice. Em caso de doença ou atentado a substituição fica assim facilitada. Outra hipótese que ainda não foi afastada foi a de um pontificado bicéfalo (coisa que desde o episódio de Avinhão deixou de ser inédita). Comentando esta possibilidade, o cardeal Ratzinger deixou mesmo cair um desabafo: «ó meu amigo, já tivemos um que foi papa três vezes, a Igreja é uma instituição aberta à mudança, porque não experimentar este formato?».
Público - Ultima Hora: «Cardeal Joseph Ratzinger apela ao combate contra "ditadura do relativismo"«. Isto já deixou o João Miranda do Blasfémias todo contente, e é a ocasião ideal para eu contar uma velha história, lida já não me lembro onde.
Estamos num colóquio ecuménico. O representante budista vai até ao palanque e fala acerca do karma, do nirvana e alayavijnana.
Os circunstantes ouvem com atenção e dizem: uau, que fixe, que interessante! Se isso funciona contigo, óptimo.
Depois vem o hindu. Faz uma breve resenha dos seus milhares de deuses, incluindo shiva e agni, lakshmi e ganesh.
A plateia aplaude. Uau, que porreiro, que espectáculo. Se funciona contigo, tudo bem.
E o colóquio continua assim a tarde inteira. Vem o judeu com moisés, o muçulmano com maomé, vários animistas com animações (em powerpoint), espíritas, mormones e zoroastrianos. E o público reage sempre da mesma forma simpática.
Nesse momento, levanta-se Joseph Ratzinger. Fala um pouco sobre deus-uno e deus-trino, distinguindo os atributos do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ainda tem tempo para tratar da Virgem Maria, dos Santos e dos Apóstolos.
A plateia está rendida. Uau! Que... – mas Ratzinger interrompe, furioso.
– Não é nada uau, seus cretinos! Não é "fixe", não é "óptimo", não é "se funciona contigo"! Isto é a VERDADE, o resto é tudo MENTIRA, quem acredita nisto vai para o CÉU e quem acredita no resto vai parar ao INFERNO, perceberam finalmente?!
A plateia engole em seco. Ficou um pouco surpreendida com os decibéis e os perdigotos. A pouco e pouco ouvem-se os primeiros aplausos:
– Uau, que fixe, que óptimo. Eh pá, se isso funciona contigo, é o máximo.
Segundo a SIC-notícias (que agora está no modo de propaganda gratuita às ideias do cardeal com nome de banda de heavy-metal) Ratzinger também é contra o liberalismo, um mal dos tempos como o marxismo, mas "que converte o eu em medida de todas as coisas".
É o meu gajo! Ratzinger a papa! Não só porque discordo absolutamente dele e isso me facilita as coisas, como pelo gozo de ver como vão os nossos liberais católicos desenrascar-se com um papa assim.
DN Online: «Exército alicia jovens com garantia de bom emprego.»
DN Online: «Funerárias em revolta contra lei.»
Do Expresso: "O líder do PND vai propor aos mais de 300 militantes que, hoje [ontem], em Aveiro, participam na Convenção Nacional..."

No segundo ano da faculdade o pessoal começou a dizer que havia um livro de história completamente original, chamado O Queijo e os Vermes. Este livro não tinha sido escrito no seio de nenhuma das correntes historiográficas que já então aqueciam os ânimos dos nossos professores – a dos Annales, francesa, ou de uma das correntes anglo-saxónicas – mas por um italiano chamado Carlo Ginzburg, que é o senhor da imagem ali acima. Até havia um novo nome para esta corrente: a micro-história. E um professor recém-chegado à faculdade, Pedro Cardim, ia sugerir esse livro como leitura obrigatória na sua cadeira de História Cultural e das Mentalidades da Idade Moderna.
Não dava para esperar até ao terceiro ano. Alguns de nós foram até à livraria procurar O Queijo e Os Vermes. As funcionárias não o encontravam; o livro não tinha edição portuguesa (só brasileira, uma excelente tradução na Companhia das Letras, com um quadro de Arcimboldo na capa); perguntaram se era um livro sobre gastronomia. E nós não, que era um livro de história, sobre um moleiro do século XVI que havia sido preso pela inquisição por heresia. Esse moleiro, Domenico Scandella, chamado Menocchio, tinha desenvolvido a sua teologia e cosmogonia altamente particulares e dava uma explicação quase naturalista para o início da vida: os homens (e os anjos) não tinham sido directamente criados por Deus; tinham aparecido na matéria primeva como os vermes aparecem no queijo. Mais curioso ainda, este moleiro não era nenhum analfabeto; tinha lido livros, emprestados ou possuídos por ele, e chegava a discuti-los com os inquisidores.
O Queijo e Os Vermes era, de facto, completamente original. Mas a seguir a esse, lemos todos os livros de Ginzburg a que pudemos chegar a mão: praticamente todos em irrepreensíveis edições da Companhia das Letras, todos com pinturas de Arcimboldo na capa. Dois têm edição portuguesa também muito cuidada: A Micro-História e Outros Ensaios (na DIFEL) e História Nocturna sobre o sabá da bruxas (na Relógio d'Água, se não me engano). Além dos temas, a teoria de Ginzburg era também altamente personalizada. Naquela altura (como hoje ainda), alguns historiadores tentavam fazer da disciplina uma ciência social e comparavam-se aos sociólogos e economistas; outros afirmavam que a história não passava de um género literário. Ginzburg afirmava que a história repousava sobre um método indiciário e as suas comparações eram inesperadas: dizia que o trabalho dos historiadores era semelhante ao dos médicos, psicanalistas ou detectives. O documento era para o historiador o que o sintoma é para o médico, os sonhos para o psicanalista e a pista para o detective. Os seus artigos podiam juntar Freud e Sherlock Holmes no mesmo parágrafo. Ainda no último livro que li dele No Island is An Island, sobre cultura inglesa, Ginzburg mantem toda a sua imaginação historiográfica numa escrita cada vez mais rigorosa.
Para mais, Ginzburg é ainda o herdeiro de uma época de ouro da cultura italiana que me deixa sempre fascinado. A sua mãe, a romancista Natalia Ginzburg, trabalhava com Italo Calvino e Cesare Pavese naquele que foi um autêntico dream team da Editora Einaudi em Turim. Italo Calvino, em particular, não era só um dos maiores escritores do século, era também um editor de talento: parece que foi ele que inventou o termo microstoria para uma colecção da Einaudi, tal como foi ele quem deu um toque no título de Obra Aberta, que propulsou Umberto Eco para a fama académica ainda na fase pré-O Nome da Rosa. Na impossibilidade de viver na Lisboa de Dom Manuel I ou na Amesterdão do século XVII, não me importaria de reincarnar na Turim de 1950-60.
Carlo Ginzburg é actualmente professor da University of California - Los Angeles e fala amanhã, segunda-feira, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa [17h30, auditório 2]. O organizador é o mesmo Pedro Cardim que nos apresentou a O Queijo e Os Vermes. O título da conferência será "Representing the Enemy. The French Prehistory of the Protocols of the Elders of Zion". Mas, pelos menos para mim, poderia ser outro qualquer.
Uma empresa publicitária pretendeu usar a canção «Ring of fire» um clássico popularizado por Johnny Cash num anúncio de um creme para as hemorróidas. Felizmente a família do genial músico americano não deixou.
Decorre em Aveiro, este fim-de-semana, a II Convenção Nacional da Nova Democracia. A refundação do partido é o desejo do seu líder, Manuel Monteiro.
Aqui há umas semanas falavam em redefinição, perceber aquilo que eram, desde logo tentar compreender se são de esquerda ou de direita. Enfim, detalhes sem a mínima importância, e se não então atente-se nas palavras de Monteiro: «a refundação do partido passa por virá-lo mais para a prática e não só para conceitos vagos». Recomeçam bem. Já agora, porque não tentar o centro-esquerda?
PSD-Madeira vai requerer a inconstitucionalidade de várias normas da Constituição da República.
Num interessante blogue liberal (que só pela cíclica preguiça burocrática do Barnabé tem estado fora da nossa lista de recomendações) o AAA insurgiu-se contra este meu post do outro dia (para resumir: sobre o candidato conservador britânico que alterou uma sua foto para parecer que sempre tinha estado de acordo com a mais recente linha dura anti-imigração do seu partido). Acusou-me de ser insultuoso e de fazer juizos de intenção. Nos comentários, pedi-lhe que apontasse quais eram os juizos de intenção e quais eram os insultos, porque a partir daí poderíamos falar. E o AAA teve a simpatia de escrever este post:
À atenção do Rui Tavares que não vê insultos nem juízos de intenção neste seu post.Na minha modesta opinião, isto são insultos: «oportunista, cobarde e desonesto»
e isto é um juízo de intenção: «Isto é Le Pen puro: "vocês sabem que eu não digo tudo o que penso sobre os pretos e os árabes e os outros; vocês, por outro lado, também não precisam de dizer a ninguém, mas votem em mim, porque eu penso o que vocês pensam"».
Mas que sei eu, que nem sequer percebo Newspeak?
Vamos desossar a questão.
Em primeiro lugar, eu não disse que "não via" insultos nem juizos de intenção no meu post. Pedi ao AAA que me dissesse quais eram, porque não dá para discutir no vazio. Agora que ele fez o favor de citar os excertos que considerou relevantes, cá vai: não vejo insultos nem juizos de intenção no meu post.
Mas então "oportunista, cobarde e desonesto" não são insultos? Depende. Se eu for muito bem a passear na rua e alguém me chamar "ladrão!", isso é um insulto. Mas se eu lhe tiver mesmo roubado a carteira, é uma constatação.
Ora o post em questão era acerca de um político capaz de manipular uma foto
para reescrever a sua biografia – e eu espero que isso não esteja na definição de "honesto" do AAA. E era acerca de um partido que, de acordo com a maioria dos jornais e comentadores, decidiu endurecer e enfatizar o seu programa contra a imigração porque viu outros partido praticamente racistas aumentar as suas votações em eleições recentes com um discurso anti-imigração. E isto, aqui entre nós, é um caso de "oportunismo".
Mas além disso, ainda chamei "cobardes" aos tories. Pois foi. E foi porque, tendo eles vontade de ganhar votos à conta da xenofobia, se deram à lata de não a assumir verdadeiramente, adoptando como lema um capcioso "Are You Thinking What We're Thinking?". O subentendido deste "Are You Thinking What We're Thinking", como a generalidade da imprensa britânica reparou, é "thinking... but not saying". O que não é propriamente corajoso. Os homens estão em campanha, por amor de Zeus! Ou dizem, ou não dizem. Como bem reparou o Luís Lavoura aqui nos comentários, tivemos um exemplo semelhante com o "Sabe mesmo que é?" de Santana, que toda a gente considerou... cobarde.
Por último, o meu "juízo de intenção". Ter dito que isto era Le Pen puro. Eu não sei o que é que a generalidade das pessoas pensa que Le Pen e a sua Frente Nacional fazem. O AAA talvez ache que Le Pen se limita a babar-se e grunhir que não gosta de pretos nem de árabes e que assim conquista votações de dois dígitos nas eleições francesas. Ora acontece que o registo de Le Pen, salvo ocasiões bem coreografadas para o interior do partido, é o innuendo e não o bombástico. E as segundas figuras da FN, então essas, limitam-se a dizer, tanto quanto possível, coisas aparentemente triviais como "um pai cuida em primeiro lugar dos filhos e só depois dos forasteiros", "os franceses querem ser respeitados", etc.
Aproveito para dizer que vivia em França quando Le Pen passou à segunda volta das presidenciais e sei muito bem que território piso quando faço esta comparação. Por exemplo: ouvi ao vivo numa conferência de imprensa Bruno Gollnisch, número dois da FN, um tranquilo pai de família, casado com uma estrangeira, que fala vários idiomas (entre eles o japonês e o português) – mas que é mais sinistro do que o próprio chefe. Nessa campanha, Le Pen foi à Rádio Alfa – dos emigrantes portugueses – e escolheu, como um dos seus músicos portugueses favoritos, o Fausto de Por Este Rio Acima. Tudo muito civilizado.
Em simultâneo, as poucas pessoas que assumiam ter votado em Le Pen – grande parte nem à família dizia – sabiam que o seu candidato não se esticava muito na TV e nos jornais, mas faziam um ar cúmplice e diziam on a les mêmes idées, il pense comme nous, etc. O que ele dizia em campanha era pouco importante. O que tinha sido importante havia sido a piscadela de olho. Estás a pensar no mesmo que eu estou a pensar?
De forma que não fiz juizo de intenção nenhum. Fiz uma analogia, e parece-me que bastante justa. Repare o AAA que eu não digo que Michael Howard é um racista como Le Pen – espero que não o seja, até porque o próprio Howard, sendo judeu, faz parte de uma minoria no Reino Unido –. Digo que adoptou temas e estilos idênticos, porque o são. Também não especulo sobre se os tories detestam gente de pele escura como os lepenistas. Não vou por aí, até porque isso seria... um juizo de intenção.
Uma das grandes tragédias da políticas actual é a direita, quando está desesperada na oposição e sem imaginação para mais, lançar mão dos temas xenófobos e racistas. Já o vimos com Portas, Durão, Chirac (um famoso discurso sobre "le bruit et la puanteur" dos imigrantes) e muitos outros. Não pensem que o facto de o fazerem de uma forma matizada os salva, até porque os racistas também já o fazem de uma forma matizada.
De forma que nessas ocasiões convém ser muito claro a contrariar estas tentações com adjectivos rigorosos: oportunistas, cobardes, desonestos. Para evitar, precisamente e acima de tudo, o newspeak e o doublethink. Matérias em que o AAA, aliás, há-de ter sido modesto. O seu problema não foi com o newspeak, foi mesmo com o português.
Pessoal, o endereço do Barnabé mudou. Na conta antiga já recebíamos mais spam do mensagens reais, o que dificultava muito a gestão do nosso correio.
Agora quem quiser dirigir-se ao Ismael do Barnabé (que é o primo esquerdo do Barnabé Rebelo de Sousa) deve dirigir uma mensagem do seu cliente mail para o endereço abaixo, tendo o cuidado de substituir o texto que se encontra entre parênteses recto, inclusive, pelo sinal de at, vulgo arroba.
ismael[substitua por arroba]barnabe.weblog.com.pt
Obrigado e desculpem o incómodo de vos forçar a actualizar as agendas.

Imagem do fotoblogue holandês Galveston's Way
Hoje não me interessa quanto custou, quanto vai custar, como vai ser. Quero só dar os parabéns à cidade do Porto por ter conquistado uma belíssima peça de arquitectura e por ter uma casa dedicada à arte que é como a água.
Pode viver-se algumas semanas sem artes plásticas, pode sobreviver-se (mal) a um mês sem livros, pode passar-se algum tempo sem teatro e sem cinema. Mas não se pode passar mais do que dois ou três dias sem música.
Público - Última hora: «Poluição atmosférica reduziu esperança de vida em oito meses, diz OMS»
No Público: "Portugal é um dos três países da UE sem dados oficiais sobre racismo" [sem link].
Primeiro passámos da fase "os portugueses não são racistas" para a fase "será que os portugueses são racistas?". Agora estamos na fase "não quero saber quão racistas somos".
Uma vergonha. Sem internet em casa (até para a semana, em que voltarei a postar normalmente), nem a produtividade mínima, com os textos do "Expresso", consegui garantir. Aqui estão os quatro, dos dois últimos dois fins de semana.
A morte de Karol Wojtyla transformou, de súbito, um Papa controverso numa figura inatacável. E, no entanto, este pontificado significou, em muitos aspectos, o maior retrocesso da Igreja desde da esperança do Concilio do Vaticano II.
Há coisas que não são novas: a exclusão das mulheres do sacerdócio, o desprezo pelos homossexuais, a recusa da pluralidade de organizações familiares, a repulsa pelo prazer sexual. Enfim, o medo da liberdade. Ele é a condição para a manutenção do poder da Igreja Católica sobre a organização das nossas sociedades e, mais importante, das nossas cabeças.
O principal objectivo do pontificado de João Paulo II foi, em grande parte, conseguido: reforçar o papel político da Igreja. Passando à ofensiva contra a laicidade em Estados maioritariamente católicos. Tentando recuperar para o Vaticano o papel de árbitro na paz e na guerra. Legitimando moralmente o seu poder, através de um discurso social anti-liberal e contra a modernidade - mais do que contra o capitalismo -, ao mesmo tempo que, dentro da Igreja, dava força a movimentos próximos do poder económico. Ajudando o clero que, em países comunistas, lutavam contra a ditadura, mas perseguindo os que, na América Latina, se associavam a movimentos sociais e políticos contra regimes opressores.
É verdade que pôs em causa o passado da Igreja, mas não deixou que outros, na Igreja, pusessem em causa o seu presente. Calou-os. Foi um dos maiores defensores do diálogo com outras Igrejas e um dos maiores opositores ao diálogo dentro da Igreja.
Foi o Papa das multidões e da televisão. Foi o mais eficaz dos papas. Mas nem ele pode travar o definhamento da Igreja nos países mais desenvolvidos. Nos países onde, não havendo escassez, a liberdade individual é condição de felicidade. Um Papa muda a Igreja. Mas não muda o Mundo. Felizmente.
"Expresso", 10 de Abril de 2005
Como já é da praxe, os empresários portugueses deram a sua opinião sobre o programa do Governo. Ficaram, ao que parece, desiludidos. Estão no seu direito. Mas está na altura de perguntar a quem diz ter um compromisso com Portugal o que está disposto a fazer pelo País.
O tecido empresarial português é digno de um país do Terceiro Mundo. O investimento em investigação e desenvolvimento é quase exclusivamente público. Metade das empresas portuguesas foge ao fisco. Do que se gasta em formação profissional, quase nada é para trabalhadores no activo e quase tudo é subsidiado pelo Estado. Não faltam excepções a este cenário, mas meio século de proteccionismo marcou o estilo.
No entanto, de cada vez que estes empresários falam é para nos explicar como deveríamos ser governados. E ninguém lhes pergunta quanto investem em investigação. Quanto tempo de formação profissional é dado aos seus “colaboradores”. O que fizeram as empresas têxteis com os subsídios para a sua modernização.
Não vale a pena dizer que o problema é dos trabalhadores que temos, da lei que temos, do país que temos. A Siemens, com os mesmos trabalhadores, tem mais de mil e quinhentos engenheiros dedicados à investigação. A Autoeuropa, com a mesma lei, usa a negociação para disputar a produtividade. Muitas empresas, quase sempre estrangeiras, no mesmo país, provam que é possível fazer de forma diferente.
Não achava mal que os empresários mais reivindicativos assumissem um compromisso com Portugal: esquecerem a próxima empreitada e o próximo concurso decidido pelo próximo Governo. Querem menos Estado? Sejam mais empresa. Mas se tudo o que têm para dar ao País são lições de ciência política, bem podem vir os espanhóis tomar conta disto. Suspeito que não ficaremos pior servidos.
"Expresso", 10 de Abril de 2005
É uma nova revista. Esteve para se chamar “Ocidente”, mas porque o termo incluía a tibieza ideológica da Europa, optaram por lhe chamar “Atlântico”. Nada de especial a dizer. É apenas um exercício de tradução livre e caricatural da mesma lenga-lenga neo-conservadora do costume. Talvez um pouco mais arrojado: até há quem se aventure na defesa da guerra do Vietname. É de homem. Mas a fauna do “Atlântico” é que me interessa.
A direita portuguesa não tinha, ao seu dispor, desde a ressaca da ditadura, intelectuais. Tinha alguns economistas, juristas e tecnocratas, é verdade. Mas faltava quem lhe desse uma certa respeitabilidade ideológica. Nesta matéria, a direita não é diferente da esquerda: precisa de intelectuais para ganhar legitimidade. Quanto mais não seja, para zurzir nos intelectuais sem parecer taberneira.
Recentemente, entusiasmada com ascensão de uma direita agressiva do lado de lá do Oceano, apareceu esta fornada. É verdade que, quando se fala dos costumes, o macho latino que neles habita sai das cavernas. É também verdade que, quando se fala da história portuguesa mais recente, lhes foge o pé para o chinelo. Mas, regra geral, tentam afastar-se da telúrica direita portuguesa.
Os seus inimigos principais são o “pensamento dominante”, o “relativismo”, o “multiculturalismo”, os europeus em geral e os franceses em particular. Qual seita estalinista, encontraram no lado de lá do Atlântico o Sol dos povos.
Agora têm uma revista. A “Atlântico” nasce com a ajuda de empresários como de Jorge Mello, dados ao mecenato ideológico, e recebe uma providencial boleia do “Público”, que transformou o primeiro número num encarte gratuito e lhe garante a distribuição e produção no futuro. Não é qualquer grupuculo que tem direito a tamanhas mordomias. Sim, porque do ponto de vista da sua representatividade ideológica, estamos a falar de um grupusculo. Moral da história: ao contrário do que pensam, é possível viver sem o mercado. Basta ter os amigos certos.
"Expresso", 3 de Abril de 2005
PS: Depois deste texto, escrito na manhã da publicação, já li toda a revista. Para a semana escreverei um post sobre algumas pérolas deste "Atlântico".
Para defender o “sim” à Constituição Europeia, a televisão francesa tinha convidado José Manuel Barroso para o programa “Cem minutos para convencer”. Mas Barroso tem-se desdobrando em declarações públicas, cada uma mais desastrada do que a outra. A entrevista, que estava marcada para Abril, foi cancelada. Argumento: seria demasiado tempo dado a um dos lados da contenda. No caso, cem minutos de borla para o “não”.
Mas o menor dos problemas dos franceses será Barroso. À direita, é a entrada da Turquia. À esquerda, é a directiva Bolkestein. O Partido Socialista Francês, em tudo diferente do nosso PS, está partido a meio.
Nada em comum entre as duas posições. A entrada da Turquia só pode ser vista como uma boa notícia. Um rude golpe para os que acreditam no choque de civilizações. Já com a directiva Bolkestein, a história é outra. Nela encontra-se o espírito da Constituição proposta. Aplicar, na criação de um mercado único de serviços, a lei do país de origem das empresas é um truque. Os liberais querem conseguir na secretaria o que não conseguem nas urnas: uma lei laboral menos rigorosa. Para o conseguir recorrem, se preciso for, à chantagem.
Venha uma constituição. E venha, urgentemente, a união política. Mas que não se perca na Europa o que se ganhou nos Estados. A bem da União, espero que os franceses chumbem esta Constituição. Nesta Europa, onde não mandam todos o mesmo, é dos eleitores franceses que agora dependemos.
"Expresso", 3 de Abril de 2005
O programa do governo defende que "é condição essencial que a idade de reforma vá acompanhando a evolução da esperança média de vida". Ontem, em declarações à Lusa, uma fonte do Ministério do Trabalho afirmou que essa proposta "não significa que a idade da reforma vá aumentar".
O Parlamento do Irão aprovou ontem uma lei que autoriza o aborto, até às 16 semanas, em caso de deficiência mental ou malformação do feto, alargando o âmbito de uma lei que apenas permitia o aborto nos casos em que a vida da mãe estivesse em risco. Ou seja, o Irão do “eixo do mal” e dos Aiatolas, terá um quadro legal cuja única diferença em relação ao português será a proibição do aborto nos casos em que a mulher foi violada.
E, mesmo essa medida de mediana humanidade, é posta em causa pelos aiatolas cá do burgo. O ano passado, quando interpelado no “Prós e Contras” da RTP, se aceitava a legalidade do aborto nos casos em que a mulher é violada, um dos dirigentes do pomposamente intitulado movimento Pró-Vida respondeu seca e prontamente que não. Uma vida é uma vida, disse. É esse o problema existente no único país europeu que persegue as mulheres que fazem um aborto. A lei de um Estado laico continua a ser ditada por considerações teológicas e por fundamentalistas que, em nome de uma visão abstracta da humanidade, se revelam da mais fria impiedade sobre os seres humanos.
HELENA MATOS é a convidada do próximo É A CULTURA, ESTÚPIDO!, que vai ter lugar no próximo dia 13 de Abril (quarta -feira), às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz. HELENA MATOS é a Directora da Revista Atlântico, a propósito da qual falaremos de revistas de ideias e pensamento político em Portugal, numa conversa com a jornalista Anabela Mota Ribeiro. Ricardo de Araújo Pereira apresenta e, como sempre, faz o stand-up final. Poderá também ouvir as escolhas dos críticos e jornalistas residentes: José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos, Daniel Oliveira e Pedro Lomba. Os encontros É A CULTURA, ESTÚPIDO!, organizados pelas Produções Fictícias, continuarão a realizar-se até Junho de 2005, uma vez por mês, sempre à quarta-feira, pelas 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

À esquerda, Ed Matts e Ann Widdecombe protestam contra a deportação de uma família nigeriana. À direita, a mesma foto, alterada em obediência à linha partidária dos conservadores sobre imigração. Ver notícia aqui.
Em Inglaterra, a campanha eleitoral arranca. A campanha dos Conservadores aposta forte no sentimento anti-imigração. A direita, em desespero de causa, vai buscar as suas ideias à extrema-direita. Talvez por ter acompanhado o momento alto do lepenismo em França, o lema dos tories parece-me especialmente tenebroso: "Are You Thinking What We're Thinking?". Isto é Le Pen puro: "vocês sabem que eu não digo tudo o que penso sobre os pretos e os árabes e os outros; vocês, por outro lado, também não precisam de dizer a ninguém, mas votem em mim, porque eu penso o que vocês pensam". Além de oportunista, cobarde e desonesto.
A foto acima, alterada para fazer parte do folheto de um carreirista e desajeitado candidato conservador, Ed Matts, é uma ilustração colorida de um assunto muito sério. Aqui em Portugal, e agora que a direita está na oposição letárgica, não demoraremos muito a ver os mesmos reflexos.
Já agora, aproveito para dizer que nestas eleições estou a torcer pelos Liberais-Democráticos: anti-guerra do Iraque, pró-direitos civis e individuais, pró-imigração, liberais nos costumes e na política, sociais-democráticos na sociedade, pragmáticos na economia. Pelo que vejo, estão neste momento à esquerda dos trabalhistas. Além disso, como o sistema inglês favorece as maiorias absolutas e o bipartidarismo, coisas que acabam por ser sempre nefastas para a democracia, junto o útil ao agradável.
O papa afinal era partidário do regime comunista polaco!

O papa afinal era o quinto membro dos U2!

O papa afinal nem era católico! Era xiita!

O papa afinal era a favor do preservativo!
De análise por hoje é tudo. O espaço para a homilia já estava ocupado, e bem, pelo Rui, que ainda é mais crente no poder do papa do que muitos católicos!
Em verdade, em verdade, vos digo: na semana que terminou foi mais fácil um camelo passar pelo pixel de um écran de plasma do que um texto verdadeiramente equilibrado sobre o papa passar pela mesa de um editor de jornal. Claro que todos estavam escritos com uma antecedência que por vezes se media em décadas. No caso do The Guardian, até o autor do obituário morreu antes do obituário ser publicado. Noutros jornais, o correspondente que estava em Roma continuava em simultâneo a debitar ensaios em varios números pejados de notas de rodapé.
Quando chegou a hora, a imprensa despejou as toneladas de papel que já tinha preparado com todo o vagar nos últimos anos e a televisão os milhares de horas de documentários e notícias prontos desde o tempo do último chefe de redacção. Sobre isso se acumularam ainda as horas de transmissão ao vivo, as entrevistas, os repórteres no local. Algures numa redacção, alguém terá dito: "se não agora, quando?"
Em todas estas entrevistas, em todos estes obituários, em todas estas colunas de opinião se notava que os autores estavam conscientes de quão fino era o gelo que pisavam. Por isso tivemos Mário Soares a concordar com Timothy Garton Ash a concordar com José Manuel Fernandes a concordar com Luís Osório a concordar, a concordar, a concordar. Mesmo nos blogues, qualquer espertinho que esticasse a cabeça da toca era tratado como se fosse o culpado pela morte do próprio Karol Wojtila.
Não que não tenham saído coisas boas desse concordar todo. Por exemplo: durante uns tempos vamos poder descansar da ladaínha segundo a qual Reagan acabou com o comunismo. Durante uns tempos tera sido afinal o papa. Depois chegará o dia de Thatcher. Só mais tarde se lembrarão de Havel, Walesa e Gorbatchev e talvez, com sorte, dos próprios povos dos países do Leste da Europa. Mas isso só quando não houver mais obituários pré-redigidos.
Houve quem, todavia, fizesse mais do que apenas concordar. Houve quem entrasse em roda livre. Esses são aqueles que, de forma macabra, se sentem vitoriosos com esta morte. Hoje, em simultâneo, em dois jornais diferentes, o DN e o Público, João César das Neves e Mário Pinto decidiram canonizar o papa recém-falecido. Os títulos dos seus textos são
"A Intercessão de São João Paulo Magno"
e
"São João Paulo Magno, o Papa do terceiro milénio" [sem link]
Santo! E não só santo, mas magno, como Gregório Magno e Alberto Magno. Esta nem para Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Francisco de Assis ou António de Lisboa – a mais rápida canonização de sempre – se lembraram. Mas não é certamente por ignorância que estes dois ilustres membros da Opus Dei e professores da Católica tratam uma canonização como se fosse favas contadas. Eles sabem muito bem que a canonização tem os seus prazos e as suas hierarquias e que um fiel que se substitua ao espírito santo e à igreja nessa tarefa está, objectivamente, a incorrer num pecado muito grave. Também não é certamente pela mesma razão que nós aqui no Barnabé canonizámos São Rafael Bordalo Pinheiro, ou seja: porque nos apeteceu.
Mário Pinto e João César das Neves fazem-no porque a Opus Dei, a Comunhão e Libertação e, em geral, a extrema-direita católica, sente que chegou a hora de reclamar aquilo que é seu [mais sobre a questão da denominação aqui e aqui]. E do seu ponto de vista João Paulo II é seu e deu-lhes a igreja. João Paulo II será para eles o que Reagan é para a extrema-direita americana: uma alavanca sobre o resto da sua comunidade. Daí que tenham decidido esta canonização e "magnificação" sem nenhum valor canónico para entrar já de camartelo em riste sobre os seus adversários internos. Os católicos progressistas e mesmo as congregações mais clássicas, por muito devotas que sejam, que se cuidem. Vejam como o inquisidor César das Neves os trata:
Hoje ninguém pode negar a enorme transformação do Vaticano II, semelhante à de Trento. Mas, por muito que se mude, ainda há quem queira mais. A História repete-se [e] os críticos do Papa pretendem alterações que transformariam a Igreja Católica numa seita protestante.
Ou seja: metam a viola no saco, o Vaticano II já era. E mais: César das Neves tem razão. Com as nomeações de cardeais do último pontificado existe uma altíssima probabilidade de o próximo papa ser ainda mais conservador. Apesar de todo o entusiasmo, mesmo dos não-crentes, com a possibilidade de se nomear um papa não-europeu, brevemente poderemos vir a descobrir que a única qualidade que o futuro papa negro ou asiático ou latino-americano terá será precisamente a de ser negro ou asiático ou latino-americano. Não contem com muito mais do que isso para não terem que vir a desiludir-se.
Mas isto são problemas entre católicos, e portanto não me preocupam. Pessoalmente, vou apenas confessar a perplexidade que até um ateu ou agnóstico sente perante personagens da indigência religiosa e ignorância teológica de um Mário Pinto ou um João César das Neves. Eu sei que, neste último caso, não se pode esperar grande coisa de alguém que ao mesmo tempo acredita na graça divina e passa a vida a repetir que "não há almoços grátis", o que lhe deve dar um exíguo espaço mental para digerir a última ceia. E também sei que não podemos exigir um Pascal em cada geração. Mas é difícil guardar respeito por gente que troca o rigor de uma filosofia cristã com momentos altíssimos pela propagandeta e que usa a morte do "seu" papa como uma ocasião de megamarketing sectário.
Para o resto do mundo e para o resto da história, – enquanto os Mários Pintos apanham as canas – as favas ainda não se começaram sequer a contar. E João Paulo II corre o risco – talvez injusto – de vir a ser conhecido principalmente por apenas um aspecto do seu pontificado. Embora tenha sido um papa infinitamente melhor do que Pio XII, não foi, tal como este, capaz de ver de onde vinha o seu maior desafio.
João Paulo II foi, do ponto de vista interno, um papa conservador. Mas embora não se possa exactamente dizer que só é católico quem quer, é questão menor para um não-católico saber se as mulheres podem ou não rezar missa e os homossexuais serem ordenados padres. Do ponto de vista inter-religioso, foi certamente um bom papa, embora o seu ecumenismo fosse bem mais hegemónico do que normalmente se crê, e muitos protestantes ou judeus tenham ressentido uma certa subalternização por parte de João Paulo II (as palavras de ocasião da última semana são somente, diplomaticamente, isso). Mas ainda assim, e considerando que muitas outras religiões se acham também as únicas detentoras da verdade revelada, João Paulo II foi neste aspecto bem melhor do que seria de esperar à partida – e mais longe do que a maior parte dos seus homólogos.
Do ponto de vista extra-religioso, João Paulo II estava preparado para enfrentar novos campos de concentração. Estava preparado para enfrentar novos gulag, e parecia disposto a enfrentar fábricas com condições de trabalho desumanas. Já não estava tão preparado para enfrentar ditaduras paternalistas que protegessem ou tolerassem as suas comunidades católicas – veja-se Pinochet e Suharto – e mesmo algumas daquelas que as atacassem. Que João Paulo II tenha canonizado tanta gente e se tenha "esquecido" de beatificar o Arcebispo Romero e os jesuitas assassinados por militares, em El salvador, no ano de 1979 – no caso de Romero, enquanto rezava a missa – é simplesmente repugnante.
Mas aquilo que João Paulo II não estava de todo preparado para enfrentar era uma das piores epidemias, talvez mesmo a pior, da história da humanidade. E aí cometeu o seu erro trágico.
A epidemia de HIV/SIDA tinha infectado, até Julho de 2004, cerca de 38 milhões de pessoas. Destas, 25 milhões vivem na África Subsariana e mais de 15 milhões são mulheres, ao passo que mais de dois milhões dos infectados são crianças. Só até 2001, morreram mais de vinte milhões de pessoas, das quais nove milhões eram mulheres e quatro milhões e meio eram crianças. Há mais de nove milhões de crianças orfãs em resultado da pandemia.
Para quem quiser confirmar os factos, o relatório da ONU sobre o assunto está aqui.
João Paulo II não só não ajudou a fazer frente a esta epidemia, como atrapalhou o trabalho dos outros com a sua oposição à utilização do preservativo. Ainda por cima, trata-se de uma oposição que não tem um fundamento teológico tão sólido como outras da igreja católica (ao aborto, por exemplo). É tristemente irónico que os descrentes usem preservativo e sobrevivam quando os bons católicos não o usam e desobedecem a um mandamento – não matarás – colocando em risco a sua vida e a dos outros. Claro, pode ser-se casto. Mas só há contradição entre ser casto e ser fornicador, e nenhuma entre ser casto e usar preservativo. E seja como for, ser casto não é um mandamento, ao passo que não matar é.
É incompreensível que a mesma Igreja que exige que um tubo não seja retirado do esófago de Terri Schiavo ou que um tubo seja inserido na traqueia do seu sumo pontífice não consiga admitir que milhões de homens possam cobrir o seu pénis com um pedaço de latex para evitar morrer ou matar o seu próximo. A igreja já mudou de posição muitas vezes tarde demais – já foi contra a vacinação, a anestesia e o prolongamento artificial da vida – quantos milhões de mortes teremos de esperar até que mude neste particular?
Numa instituição altamente centralizada como é a Igreja Católica Romana, uma só palavra do papa bastaria. Muitas pessoas esperaram em vão por essa palavra, pois ela teria feito uma enorme diferença. Mas a atitude de João Paulo II foi em primeiro lugar inconsciente, depois teimosa e finalmente de uma irresponsabilidade criminosa.
Não li um único obituário de João Paulo II que fizesse justiça a este aspecto central do seu pontificado. Alguns parecem mesmo minimizar a influência que João Paulo II poderia ter tido sobre a pandemia. Como é possível, contudo, repetir ad nauseam que a sua influência era enorme, que milhões de pessoas foram até Roma só para o ver uma última vez, etc. – e depois dizer que a sua influência sobre a epidemia de HIV/SIDA seria pouca ou nenhuma?
Não teria sido possível que uma mudança de atitude de João Paulo II tivesse alterado o comportamento de um só entre cada mil humanos – 0,1% apenas da humanidade? Cerca de vinte mil vidas teriam sido salvas. Mas, segundo nos dizem, a influência do catolicismo é bem maior...
Que o vigário de Cristo não tenha dado ordens aos seus pastores para distribuírem baldes de preservativos (parece estranho? mas talvez Cristo o tivesse feito...) quando milhões de pessoas morriam em todo o mundo – esta vai ser a principal pergunta sobre João Paulo II dentro de uma geração. E talvez seja até a primeira pergunta a ser-lhe feita pelo seu deus, se ele existir, quando se encontrarem. Pense o leitor: se você tivesse esta história para defender, contaria com uma canonização?
Os congressos do PSD são tradicionalmente o melhor a que se pode aspirar em matéria circense na política portuguesa. Mas em Pombal até a comédia pareceu pífia. A qualidade dos actores? Certamente. Toda a gente sente (e penso que não apenas à esquerda) que se trata de figurantes promovidos a protagonistas por ausência de melhor. Mas o problema principal é, certamente, a qualidade do texto: um nada absoluto percorreu todos os discursos que ouvi. O mais revelador foi o de Manuela Ferreira Leite, alcandorada, entretanto, a reserva do partido: nada senão banalidades do género «Eles só sabem falar, nós sabemos fazer» e suas múltiplas variantes. Nem uma ideia para o país. Depois, como a doutrina não abunda, todos os equívocos são possíveis: Álvaro Barreto, por exemplo, disse que tinha achado o primeiro discurso de Menezes muito mais demagógico e populista do que o do seu opositor como se nunca tivesse sido ministro de Santana Lopes. Finalmente, lá veio António Borges com mais uma espiral de lugares comuns sobre a ética e a vocação para servir (talvez fosse interessante começar primeiro a fazer política e moralizar depois, não?) que não adiantam nem atrasam e servem apenas para criar uma imagem que só sobrevive enquanto não se metem as mãos na massa. Razão tinha Dias Loureiro: o PSD foi sempre o partido mais parecido com o país. Infelizmente isso nota-se agora como nunca.
P.S. Sempre quero ver, na segunda-feira, o que é que o tal jornalismo «culturalmente de esquerda» diz deste enorme vazio depois do que disse de Sócrates (um verdadeiro doutrinário ao pé de qualquer um destes rapazes).
Ontem a embaixada japonesa em Pequim foi alvo de violentos protestos populares. O motivo (ou pretexto): novos manuais escolares japoneses minimizam a violência nipónica contra chineses durante a II Guerra Mundial. A abertura ao capitalismo de Pequim não gerou um novo sobressalto democrático como o que provocou os incidentes da Praça Tianamen, mas pelos vistos, um recém adquirido sentido de indignação oriental levou milhares de chineses a manifestarem-se contra um manual escolar de um país estrangeiro. O fervor chegou ainda para partir restaurantes e lojas nipónicas, mas estranhamente não se viram tanques nas ruas de Pequim. A torrente avassaladora do mercado pode não chegar para reformas democráticas mas ainda vai dando para manifestações patrióticas «espontâneas».
Caro Daniel desculpa se interrompo a homilia anti-clerical chapa 3. Estou a brincar! Acho o teu texto (no Expresso) sobre João Paulo II não só a melhor, mas mesmo a única análise possível do papel do papa no mundo. Pena que, por exemplo, o Timothy Garton Ash, esse perigoso agnóstico clerical, não saiba ler portugês.
Só duas perguntas. Porque é que não puseste uma foto do Fidel Castro, esse outro grande amigo deste papa tão próximo de ditadores de esquerda? Conheces o discurso que o papa está a ler ao ditador chileno? É que se bem me lembro continha umas referências a direitos humanos...
Alguns meses depois das eleições o Iraque finalmente tem um novo presidente e um novo primeiro-ministro, agora só falta mesmo o governo. Parece que a tese do milagre – que o Iraque seria o primeiro país em que após as primeiras eleições multipartidárias se instalaria sem mais problemas uma democracia plena – afinal não fazia muito sentido.
Mas também se prova que não fazia sentido criticar a política americana e rejeitar a realização de eleições. Além de elas terem sido impostas aos americanos por Sistani com a ajuda da ONU, eram a melhor forma de acelerar o fim da ocupação americana e criar um sistema política melhor do que aquele que existia antes com Saddam e que permita isolar os extremistas próximos da al-Qaida. Numa guerra de guerrilha nunca se pode esperar pelo fim da guerra para lidar com os problemas políticos, isso seria ceder a iniciativa aos que recorrem à violência.
E há sinais positivos, embora o processo vá continuar a ser complicado. O novo presidente é o curdo, Jalal Talabani, que anunciou no discurso de posse a intenção de avançar com uma oferta de amnistia para os guerrilheiros iraquianos. Alguns líderes sunitas apelaram aos seus para se inscreverem no exército e parecem dispostos a negociar a nova constituição e participar nas próximas eleições. É que como Talabani explicou, na nova democracia iraquiana, se ela vier a existir, ninguém poderá ser punido por exigir a saída das tropas estrangeiras. Evidentemente.
No PSD, António Borges apresenta uma moção de estratégia ao Congresso, mas não perde tempo com minudências como ir a votos.
O PP tem quase uma moção de estratégia por militante, mas continua à procura de um candidato mais credível que o Wally.

O programa para Sábado na Grande Lisboa oferece uma alternativa clara. Ou ficar em casa a ver os caturros do PSD na sua espiral introspectiva até ao pai Cavaco, ou ir ver os velhinhos Skatalites no passeio marítimo de Algés. Fundados dez anos antes do partido do centro e da direita, ou do centro, ou do centro-esquerda, são mais inteligentes, bem humorados e afinados. Teriam dado um melhor governo para Portugal do que o de Santana, embora talvez tivesse sido mais sisudo.
No Congresso do PSD que hoje começa, Marques Mendes e Filipe Menezes disputam a liderança do partido, mas tudo indica que a moção de estratégia mais votada deve ser a de António Borges. Também o PP passa por um processo semelhante. Terminado o prazo para a entrega de moções, e, apesar de toda a conversa do líder da bancada parlamentar sobre o consenso existente à volta do perfil para o cargo, a verdade é que ainda ninguém deu a cara. Ou seja, a estratégia seguida pelos dois partidos de direita nos próximos tempos arrisca-se a não ter sido decidida, e a não merecer mesmo a concordância, de quem vai estar à frente do partido.
Sinal dos tempos. Com uma longa travessia do deserto pela frente, ninguém quer deixar o seu rentável lugar nos escritórios de advocacia de negócios para queimar o seu nome enquanto o estado de graça do partido socialista se mantém. Assim, mais vale brincar com o telecomando à distância e esperar que, no momento certo, caiam as marionetas de circunstância. Quando o poder socialista começar a sentir sinais de desgaste, não há de faltar quem apareça para carregar no botão para mudar de canal.
O cardeal Bernard Law é o ex-arcebispo de Boston, cargo de que foi obrigado a demitir-se em 2003 devido ao escândalo de pedofilia daquela arquidiocese. É justo lembrar que neste caso 600 pessoas se disseram vítimas de abuso sexual por parte de alguns padres ao longo de várias dezenas de anos, o que levou a Igreja americana a pagar cerca de 90 milhões de dólares de indemnizações aos queixosos. Não havia propriamente queixas contra Bernard Law, mas tornou-se insustentável a sua manutenção no cargo quando se soube que ele nomeara alguns dos padres "abusadores" para outros cargos na hierarquia da igreja, tendo conhecimento das queixas que pendiam contra eles.
Não sabemos se a RTP, certamente por falta de meios, dado que só fez deslocar 17 pessoas para o Vaticano, fará nota desta notícia, mas a verdade é que Bernard Law, o próprio, será responsável pela terceira das nove missas fúnebres a realizar no Vaticano nos próximos nove dias, como manda o ritual. É importante ouvi-lo, haverá com certeza uma palavrinha de amor para João Paulo II e para todos os crentes do planeta.
Estava eu a chegar ao Barnabé e, de repente, apercebo-me que entrei na porta errada. Interrompi a missa diária do Bruno. Quando acabares a homilia avisa-me. Já agora, Bruno, gostava que me explicasses donde tiraste a ideia que os ditadores precisavam de fazer um grande esforço para se darem bem com Karol Wojtila. Em que dia exactamente se deu a conversão de Augusto Pinochet?
O governo aprovou em conselho de ministros a limitação do número de mandatos de autarcas, presidentes de governos regionais e primeiro-ministros.
O papa Woytila foi um combatente toda a vida. Combateu o comunismo, o capitalismo desenfreado e por fim a doença. Alguns bloguistas queixaram-se com alguma razão que nesta celebração fúnebre se calavam as críticas e se ignorava esse lado combatente e controverso. Líder mediático como agora se diz (Mas que papa não o foi? Lembram-se do Renascimento?) Nunca foi homem de se preocupar com sondagens ou posições populares. E se é uma tradição respeitável na morte realçar as qualidades, concordo que se pode fazê-lo sem esquecer defeitos e controvérsias (o melhor obituário é provavelmente este no Herald Tribune, mas é quase um livro). E que este papa tinha grandes qualidades pessoais mas foi também uma figura controversa poucos negarão. Ou que foi um dos mais importantes papas da história. Talvez mais, no entanto, pelo impacto que teve no mundo, do que pelo que fez no interior da Igreja, em que algumas questões parecem mais adiadas do que resolvidas.
O seu percurso pessoal foi o dum resistente. Um das coisas que resistiu sempre foi o seu sentido de humor (quando lhe diziam que trabalhava demais, respondia que teria muito tempo para descansar quando morresse). Fez-se padre durante a ocupação nazi; estudou num seminário clandestino à noite enquanto trabalhava de dia, arriscando a prisão e a morte se fosse descoberto. Passou metade da sua vida de padre na resistência ao comunismo. Um episódio marcante foram as suas missas em Nova Huta, a cidade industrial em que o regime não queria igrejas. Woytila dizia missa ao ar livre em frente a uma cruz. Como papa também nunca precisou de igrejas tradicionais. A sua eleição foi um desafio decisivo ao poder comunista na Europa de Leste. Timothy Garton Ash (num dos melhores textos sobre o papa) e outros analistas da revolução polaca não têm dúvidas de que foi ele, desde a sua primeira visita em 1979, o grande motor do movimento popular polaco contra o regime. O exemplo da Polónia foi decisivo para o resto do Leste. Sem essa pressão de baixo, faltariam a Gorbatchev argumentos para avançar com a retirada soviética dos países vizinhos. Em termos do seu impacto internacional esse foi a sua vitória mais visível e indiscutível. E que vitória! No início dos anos oitenta quem acreditaria que tal seria possível: a Europa pela primeira vez unida e verdadeiramente livre?
O seu papel internacional vai mais fundo do que isso, no entanto. Garton Ash fala dele como o grande porta-voz de uma globalização ética a par da globalização económica ou institucional, o primeiro verdadeiro líder mundial. João Paulo II foi até ao fim, até à audiência que deu no ano passado a Bush em que o criticou uma vez mais a propósito do Iraque, uma voz decidida a favor da lei internacional e de instituições como a ONU. Com o diálogo constante com as outras grandes religiões mostrou que os líderes religiosos deviam ser os primeiros na construção da paz. A sua dimensão verdadeiramente universal fica demonstrada pelo número de líderes de todas as partes do mundo presentes no seu funeral, de todas as filiações religiosas ou filosóficos. Será em alguns casos uma vénia hipócrita. Mas mesmo esta é sinal de alguma coisa: até os belicistas, ou os ditadores parecem incapazes de ir abertamente contra esta lição de boas maneiras internacionais, se não se converteram pelo menos disfarçaram!
Mas um resistente prefere quebrar a dobrar. Vasco Pulido Valente chamou-lhe um papa da contra-reforma por causa da sua devoção aos santos e ao rosário. A ideia é interessante, mas na verdade quer uma coisa quer outra são mais antigas do que o século XVI, e os papas do Vaticano II não eram menos dados a essas devoções. No entanto, é verdade que como todos os líderes fortes, João Paulo II é mais fácil de apreciar de fora do que dentro. Foi um líder autoritário? A Igreja é uma associação voluntária, e costuma dizer-se que não é uma democracia. No entanto, a ideia de democracia representativa surge nas ordens religiosas católicas, e nos concílios, sínodos ou conclaves sempre se votou. Mas é verdade que dificilmente se imagina uma Igreja com campanhas eleitorais. E que Woytila, ele próprio um teólogo, tinha ideias fortes sobre muitos assuntos (alguns dirão demasiado fortes sobre demasiados assuntos), e que usou os seus poderes para corrigir o que considerava abusos. Ironicamente, um papa que considerava excessiva a importância que o mundo moderno dava ao sexo, contribui para lhe dar grande destaque na doutrina da Igreja.
Poucos notaram, no entanto, que foi mais benévolo para os teólogos
da libertação do que para os seguidores do arcebispo Lefebvre, o único grupo que expulsou da Igreja. E quantos homens de oitenta e quatro anos defendem o casamento dos homossexuais ou padres casados? Um amigo do papa citado por Garton Ash diz que ele se justificou nesses termos – não podia conceber uma mudança com esta idade – relativamente à sua posição sobre os preservativos, apesar dos efeitos da SIDA e do crescimento demográfico descontrolado entre os mais pobres deste Mundo, cuja sorte tanto o preocupava.
Woytila foi grande, mas não escapou aos feitios e defeitos do seu percurso e da sua época. E se é ilusório pensar que no passado houve um idade de ouro em que os cristãos seguiam realmente os mandamentos das suas Igrejas. Não o é menos pensar que com este papa tão popular, mas nem por isso menos contestado e surdamente desafiado, a Igreja Católica resolveu o seus problemas. Como dizia um dos 'santos' criados por ele, o nosso Frei Bartolomeu dos Mártires: 'a igreja está sempre a precisar de reformas!' Está sempre em crise, é esse o seu estado natural. Quem vier a seguir que faça melhor, se puder. João Paulo II ganhou amplamente o direito ao descanso.
Título do Público, a propósito deste número da Nature: «Humanos já eram solidários há 1,7 milhões de anos».
"A nossa civilização é burguesa. Não uso este termo no seu sentido marxista. Palermas! No vocabulário da arte moderna e da religião é burguês considerar-se que o universo foi feito especialmente para nós e para nos dar conforto, facilidades, amparo. A luz anda à velocidade de trezentos mil quilómetros por segundo para que possamos ver para nos pentearmos e para lermos no jornal que baixaram hoje de preço os presuntos. De Tocqueville considerava a tendência para o bem-estar como uma das tendências mais fortes duma sociedade democrática. Não podemos acusar por não ter tido na devida consideração o poder destrutivo provocado por esta mesma tendência."
in Herzog (edição portuguesa da Relógio d'Água, esgotada).
Será desta que me vou converter ao DN? Acho mais provável que a minha produtividade vá aumentar . Ou isso, ou vou ter mais tempo para ler os jornais americanos, de graça, claro...
Depois dos seus dirigentes terem andado três anos a representar o papel do partido com “sentido de Estado”, o Partido Popular, talvez desiludido com a fraca aceitação da encenação, optou decididamente por um novo papel. O de partido sem sentido do ridículo. Sem líder, e sem ninguém com vontade para se aborrecer muito com o assunto, o PP lembrou-se de uma original formula para tentar escamotear a sua incapacidade política, propondo que a discussão parlamentar sobre o referendo ao aborto seja adiada para depois do seu congresso partidário. O que, pelo andar da carruagem, pode ser lá para 2008 ou 2009, se até lá alguém se candidatar ao cargo. Em todo o caso até faz algum sentido, o futuro do país que espere por um partido que não tem futuro.
O Barnabé quer dar um modesto contributo para a árdua tarefa de escolher o novo chefe da Igreja Católica. Por isso lança um estudo de opinião com a seguinte pergunta: prefere um Papa teologicamente conservador como o nigeriano Francis Arinze, que certamente daria mais visibilidade aos problemas do continente africano, ou um ocidental mais liberal. Seja Cardeal por um dia e deixe o seu contributo na caixa de comentários.
Muitos países decretaram o luto nacional por causa da morte do Papa. Natural. Mais estranho é o caso francês. Pode um Estado ser tão zeloso com a sua laicidade, ao ponto de proibir jovens muçulmanas de usarem um lenço na cabeça na escola pública, por o considerar um sinal exterior de religiosidade, pôr a bandeira a meia haste por um líder religioso? Onde acaba a laicidade e começa a discriminação?
Depois de recuperar, graças à intervenção de São Judas, do estado de choque por ter admitido repetidas vezes o fim das cruzes sem valor artístico nas escolas, gostaria de deixar claro, para salvação da minha alma e absolvição dos meus pecados, o seguinte.
1. Estava a responder ao Rui, ao Nuno, a comentadores vários e às posições da Associação República e Laicidade.
2. Limitei-me a levar alguns dos argumentos até ao que, para mim, era a sua conclusão lógica. Nem sempre será a esperada pelos seus defensores. Mas é uma forma de argumentação muito usada, que tem a vantagem de iluminar contradições e suscitar esclarecimentos. Se errei foi por bem e limitei-me a discutir ideias.
3. Dizer que a lei manda isto ou aquilo não é argumento. Pode-se concordar ou não com a lei.
4. As escolas são um tipo de edifícios públicos. Há outros, e portanto pode-se considerar que é esse o contexto em que devem ser discutidas. As cruzes não são os únicos símbolos que violam a neutralidade desse espaços. O critério para mim e para o Rui deve ser o do seu valor artístico. Sem acrescentos para efeitos de pluralidade (para isso poderia criar-se um espaço ou parede em constante renovcação). As escolas são na minha experiência um sítio bastante chocante para as crianças. Eu e vários colegas procuramos saber se havia uma religião que proibisse a matemática, mas em vão. Quanto a serem da república, já tinha descoberto nos manuais de "história" da minha infância e juventude.
5. No seu manifesto a Associação República e Liberdade refere-se às convicções filosóficas, religiosas e/ou ideológicas individuais – i.e. do domínio privado de cada um. Para logo acrescentar ainda que socialmente maioritárias e com livre expressão no espaço público. Há nesta formulação uma tensão entre a velha crença jacobina na secularização a bem ou a mal do espaço público, e o liberalismo dos tempos actuais que na prática parece prevalecer. As crenças são privadas mas podem ter livre expressão pública. A fórmula é no mínimo estranha, mas a conclusão é de saudar.
Mas precisamente por causa dessa conclusão, e da Associação se afirmar repetidamente a favor da separação entre o Estado e as Igrejas é que eu não percebo que depois venha advogar a Lei Eleitoral de 1979 que no seu Artigo 153º ("Abuso de funções públicas ou equiparadas") estabelece que “O cidadão investido de poder público, o funcionário ou agente do Estado ou de outra pessoa colectiva pública e o ministro de qualquer culto que, abusando das suas funções ou no exercício das mesmas, se servir delas para constranger ou induzir os eleitores a votar em determinada ou determinadas listas, ou abster-se de votar nelas, será punido com prisão de seis meses a dois anos e multa de 10.000$ a 100.000$.” Alienígena seria talvez a palavra apropriada.
6. Todos nós somos obrigados a restrições no período eleitoral. É aliás mais um dos campos em que em Portugal abundam os regulamentos. É verdade. Mas nem todos nós somos sujeitos às restrições deste parágrafo da lei - nem patrões, nem sindicalistas, nem bloguistas - só mesmo os titulares de “funções públicas ou equiparadas” que são afinal, apenas e só os sacerdotes... Serei só eu a ver aqui uma flagrante contradição com a defesa da separação entre o Estado e as Igrejas?
7. O meu catolicismo, aliás bem peculiar, nada tem a ver com este debate. O meu liberalismo sim. Aliás, a Igreja Católica desde 1974 que repetidas vezes manifestou pública e oficialmente que não apoia nenhum partido. E padres, como professores e cruzes, há muitos, de todas as cores e feitios... Mas suponho, caro Nuno, que só mesmo uma cruz muito miraculosa teria efeitos (positivos ou negativos) no ensino.
Saudações separatistas e promessas de não voltar ao assunto.

Mote
BRUNO: Não me choca que se retirem os crucifixos das salas de aula, mas pergunto-me porque não se podem antes acrescentar outros símbolos (ateus ilustres, por exemplo).
RUI: OK, tudo bem. Por mim tanto faz.
BRUNO: E os crucifixos com valor artístico? Esses não deveriam ficar?
RUI: Claro que devem ficar. O critério é a classificação dos organismos competentes [DGEMN, IPPAR]. Alguns desses símbolos religiosos já estarão até classificados. Classificações suplementares poderão ser requeridas até por cidadãos individuais.
Glosa
Chegada a conversa a este ponto, restava contar os crucifixos sem valor artístico e retirá-los (ou de todo ou para o local que a escola designasse como sendo aquele onde os alunos pudessem colocar, no mesmo plano, objectos relativos às suas crenças filosóficas ou religiosas – as duas opções possíveis). Mas, caro Bruno, a tua última resposta é de tal forma estranha que não dá para perceber se tens algum problema em que eu concorde contigo ou se ainda estás em estado de choque por teres dito que não te chocava que os crucifixos fossem retirados.
Aliás, nem dá para perceber se naquela resposta te diriges a mim ou a outro "Rui Tavares", uma vez que o "Rui Tavares" com quem tu falas não diz coisas que eu disse, diz coisas que eu não disse e, pior ainda, diz coisas que eu fiz questão de não dizer. Desde logo, dizes que eles (o "Rui Tavares" e outros) não te responderam à questão do valor artístico à qual eu respondi afirmativamente como disse ali acima e se poderá confirmar aqui abaixo. Mas vou dar-te mais três exemplos:
Primeiro exemplo. O "Rui Tavares" ou alguém por ele terá aventado a "ideia de que é possível dar uma educação completa a uma criança sem nunca lhe falar de religião", – o que, como tu bem notas, eliminaria "boa parte da cultura até ao século XIX". Deve ser um idiota chapado, esse "Rui Tavares". Ainda bem que não sou eu (salvo erro, ninguém – nem eu, nem o Nuno Sousa nem entre os próprios comentadores, – sugeriu tal coisa neste debate). Bem pelo contrárío. O que eu escrevi foi: "[se] essa imagem não é de forma alguma necessária à aprendizagem". Enquanto professor (entre outras matérias, de história da arte) já devo ter mostrado aos meus alunos umas boas centenas de crucifixos, templos e representações de cenas religiosas. Isto implica, na maior parte dos casos, transmitir também alguns conhecimentos de história bíblica e da igreja, iconografia cristã e até uma coisa ou outra de teologia. E sem fazer polémica, ou seja, fazê-lo sem cuidar de se um quadro representa um milagre em que eu não acredito e, evidentemente, sem cuidar de se o quadro ofende ou não as crenças dos alunos – tal como, chegados à arte contemporânea, pouco me preocupa se o abstraccionismo lhes é ou não intolerável. Seja como for, isso é completamente diferente disto

e acho que estamos conversados.
Segundo exemplo. O "Rui Tavares" terá dito algo neste sentido: "Um sindicalista faz política. Um padre faz religião". Não sei onde ele terá ido buscar essa ideia. A mim não foi, porque aquilo que eu escrevi foi, imagine-se lá, isto
«...o sindicalista que promete expulsar o associado que votar na direita, bem como o patrão que deixa bem claro que prefere trabalhadores da sua cor política e (a fortiori) o padre que manipula os anseios de vida eterna ou de comunhão com Cristo de um eleitor estão a usar pressões extra-políticas para fins políticos. Se isto se passar durante uma campanha, qualquer deles comete um crime segundo a nossa lei eleitoral.»
Um sindicalista faz política, um patrão faz politica, um padre faz (e muito bem) política. O que nenhum deles pode fazer é chantagem – ou seja, exercer pressões extra-políticas sobre terceiros para influenciar o seu sentido de voto. Um padre, em plena missa, dentro do templo, pode exprimir as suas opiniões sobre questões correntes, incluindo políticas, e fá-lo todos os dias em plena liberdade. Mas comete uma ilegalidade ao dizer no meio de uma campanha eleitoral que fulano, se votar em determinado partido, é um mau católico, ou um pecador, alguém que, no fundo, deu um passo atrás no caminho da Vida Eterna. E entre um voto para quatro anos e a bem-aventurança para depois do fim dos tempos o desequilíbrio é demasiado grande. Aliás, qual é o espanto? Os padres não são excepção. Em matérias relativas a eleições todos somos sujeitos a certas restrições. Com excepção de ninguém, nem ex-presidentes da república – Soares que o diga. E a lei é bem mais dura para militares ou diplomatas, não tanto por serem funcionários públicos mas pela especificidade das suas funções.
Em terceiro lugar não temos um só exemplo mas diversas instâncias de uma mesma tendência em querer que o debate abarque tanta coisa que acabe por soçobrar sob o seu próprio peso. Isto inclui repetir perguntas que já foram respondidas, responder retoricamente a questões que não foram levantadas e insistir em exemplos que não são comparáveis. Trazes edifícios publicos em geral para uma conversa sobre escolas primárias, preparatórias e secundárias; perguntas se "há edifícios públicos onde podem ficar crucifixos por razões artísticas e históricas" (pela quarta vez, sim); notas que "o Rui diz que [a] lei manda que sejam preservados" mas queres saber se "concorda com essa lei" (este "Rui", e pela quinta vez, sim); especificas: "mesmo que choque alguns protestantes, ateus ou adeptos ferrenhos do expressionismo abstracto?" (pela sexta vez, sim). Como é evidente, a classificação serve precisamente para proteger património independentemente das suas circunstâncias. Não conheço ninguém que não concorde com a classificação de património.
Depois há esta pergunta que tu próprio chamas de "essencial": "Está o Rui, o Nuno ou os muitos comentadores laicistas de acordo com o mural (até aparecia no título e tudo!) do MRPP no átrio da Faculdade de Direito de Lisboa ou não?". Oh Bruno, mas eu nem sei de que mural estás a falar! Está dentro de uma sala de aula? Será aquele de homenagem aos dois estudantes maoistas mortos? Estará classificado? Se sim, não pode ser apagado. Se não, poderá em princípio ser apagado, mas esta decisão terá de ser tomada pelos orgãos académicos (assembleia de representantes, director, conselho directivo, senado) por causa de uma coisa chamada "autonomia universitária".
Mais graves são as perguntas retóricas sobre temas que ninguém levantou. Perguntar se "um católico pode ter direitos de cidadania plena ou não" como se alguém tivesse colocado esses direitos em causa, perguntar se "tem de ir à censura prévia" como se algo semelhante tivesse sido sugerido ou perguntar "acho que sou de esquerda devido à minha educação católica, será que posso?" quando se é um católico que foi convidado por agnósticos e ateus para escrever num blogue de esquerda já não são questões peregrinas: são questões alienígenas. E não sugerem só a trivial vitimização (alimentada aliás, por recorrentes referências às perseguições de cristãos, à repressão de católicos na Irlanda, etc.) como até uma certa paranóia. E, afinal de contas, tudo isto por causa de algo tão simples como saber se deve haver símbolos religiosos em escolas públicas ou ter havido uma associação que pergunta aos tribunais se um padre violou ou não a lei eleitoral em plena campanha.
Enfim. Para ser justo, não és apenas tu a perder o sentido das proporções quando se fala do catolicismo. O Marujo, outro católico por quem tenho bastante consideração intelectual e não só, chega a perguntar-me (aqui nos comentários ao post do Nuno Sousa) se o meu ponto de vista não levaria a que fossem também retiradas as bandeiras nacionais das escolas públicas para não ofender os monárquicos.
Então é a isto que o Marujo acha que retirar os crucifixos seria comparável. Caramba.
Olha, Marujo: estamos a falar de escolas públicas, ou seja, de escolas que são da república. A tua comparação só faria sentido se alguém tivesse sugerido retirar os crucifixos, não das escolas, mas das próprias igrejas católicas. Retirar as bandeiras da república das escolas da república para não ofender os monárquicos só se poderia comparar a retirar os crucifixos das catedrais para não ofender os judeus. Ou retirar as estrelas de David das sinagogas para não ofender os muçulmanos. E talvez seja melhor ficar por aqui antes que eu comece a ficar deveras preocupado. É que se os católicos progressistas e liberais fazem confusões destas entre estado e igreja, o que não farão os Legionários de Cristo.
Além disso, devo resguardar-me para o próximo passo desta polémica, em que provavelmente serei intimado a pronunciar-me sobre a estátua do Eusébio em frente ao Estádio da Luz.
Bruno, a deriva do teu texto fez-me pensar bastante na forma como lhe devia responder. Como leio tanta coisa nele que não posso reportar ao que eu efectivamente escrevi [1,2], optei por fazê-lo sendo breve.
Antes de mais os parabéns pelo título, que embora pecando por defeito ainda assim faz jus ao post como poucos. Passe a brincadeira, e para ser fiel à promessa de brevidade, só uma questão: porque não nos explicam antes quais são os benefícios de se ensinar as crianças a ler e a contar em frente a um crucifixo ou a outro símbolo religioso qualquer? Quem sabe eventualmente não nos convenceriam, logo a nós, incansáveis perseguidores de católicos? É que isto em matéria de razões nesse sentido hoje soube-me a pouco.
Alguns amigos acharam que se tratava de uma brincadeira de primeiro de Abril, portanto aproveito para esclarecer que não era e repetir o pedido:

Se a algum dos leitores do Barnabé acontecer encontrar por aí um Fiat Uno azul escuro (semelhante ao da foto acima) com placa de matrícula à antiga (ou seja, números brancos sobre fundo preto) com seguinte referência
QL-29-39
digam-me qualquer coisa para o email do barnabé: barnabe[arroba]yahoogroups.com – substituindo, como é evidente, o [arroba] pelo sinal @.
Obrigadinho a vossas mercês pela atenção.
Naquilo que só pode ser um exclusivo do correspondente da Capital no local, a capa deste jornal é hoje:
"Se existe Paraíso, Karol acabou de entrar".
Ou de como, numa época em que cada jornal finje ser mais piedoso do que a concorrência, se dá mostras de uma total ignorância teológica e se espezinha elementos centrais da teologia católica: o pecado de soberba (nomeadamente, a viciosa arrogância de se pretender adivinhar as razões de Deus), a entrada no paraíso após a ressureição dos corpos, etc. Há quem, inebriado, vá na onda.
Hesitei em escrever mais sobre este tema, até porque não estou seguro de não estar a violar a sagrada separação entre a Igreja e o Estado, a cometer o crime de fazer política com a religião. Ou seja, não sei se ainda gozo dos meus direitos cívicos plenos. Mas parece que os meus ilustres críticos não leram um passagem essencial da minha desconversa anterior:
Não estou a falar de crucifixos feito em massa, mas de coisas de mais monta.
E deixaram por responder perguntas essenciais. Por isso, aqui vai uma nova e derradeira dose.
Está o Rui, o Nuno ou os muitos comentadores laicistas de acordo com o mural (até aparecia no título e tudo!) do MRPP no átrio da Faculdade de Direito de Lisboa ou não? Com santinhos à volta, ou como está? Sobretudo, tanta letrinha e num uma sobre se estão de acordo ou não com uma lei que equipara os sacerdotes aos funcionários públicos e titulares de cargos públicos. Esta foi sempre a questão central nos dois postes que escrevi sobre o assunto.
Como é que se pode ser a favor de retirar as cruzes das escolas em nome da neutralidade do Estado e da liberdade das criancinhas, e depois ser a favor da discriminação do Estado contra as organizações religiosas e de limitações à liberdade de expressão? Muita coragem, de facto. Claro que se pode debater ou criticar as posições de padres ou de quem quer que seja, mas um Estado democrático não deve legislar para impedir esse debate.
A ideia de que é possível dar uma educação completa a uma criança sem nunca lhe falar de religião, por muito que isso seja chocante para certas sensibilidades, é realmente interessante. Claro, elimina-se boa parte da cultura até ao século XIX. E já agora, não se pode falar de guerras a filhos de pacifistas, porque isso pode ser muito chocante para elas? Um busto do Einstein pode aparecer ou não? Ou só se não se disser que o homem era crente e até dizia que 'Deus não joga aos dados'?
Sobre quem é que decide o que é ou não política, de facto, fiquei esclarecido. Um sindicalista faz política. Um padre faz religião. Simples. Mas já agora, um católico pode ter direitos de cidadania plena ou não, ou tem de ir à censura prévia para saber se as suas convicções religiosas estão a contaminar indevidamente as suas opiniões políticas? Eu, por exemplo, acho que sou de esquerda devido à minha educação católica, será que posso?
As igrejas e todos os demais bens da Igreja Católica (até os que legalmente à época não eram da Igreja mas de particulares, como por exemplo o convento de São Domingos que pertencia a Teresa de Saldanha e onde hoje estão os Pupilos do Exército) foram bem confiscados em 1911. Folgo em saber. Como edifícios públicos que são, retiram-se os símbolos religiosos? Ou há edifícios públicos onde podem ficar crucifixos por razões artísticas e históricas? O Rui diz que lei manda que sejam preservados. Mas concorda com essa lei, mesmo que choque alguns protestantes, ateus ou adeptos ferrenhos do expressionismo abstracto?
Portugal tinha uma religião de Estado até 1911? A maior parte dos Estados teve uma religião de Estado até mais tarde do que isso. E alterou esse facto sem perseguir a Igreja de Estado a seguir. Como houve e há Estados que ainda têm religião de Estado. Entre esses exemplos de atraso estão por a Noruega ou a Dinamarca, e esteve a Suécia até 2000. Na livre Grã-Bretanha perseguiram-se católicos na Irlanda do Norte até há bem poucos anos atrás, senão mesmo até hoje... Um exemplo que muitos Estados laicos seguiram e seguem com muito afinco.
A maioria dos Estados na Europa dá não só isenções fiscais às Igrejas, como paga-lhe subvenções substanciais para fins vários. Como o faz em relação à ópera e ao teatro, às indústria, aos sindicatos, aos partidos políticos, e a associações de todo o tipo de 'utilidade pública'.
Onde é que na constituição se diz que Portugal é um Estado laico? Em parte nenhum, que eu saiba. Tanto quanto sei fala-se apenas e bem de separação entre o Estado e as Igrejas. A grande maioria dos estados com separação não são laicos. Laicos mesmo só mesmo as ditaduras comunistas, a Turquia, o México, a França (e eventualmente os EUA). Como devem ter reparado só estes últimos podem ser classificados como democráticos. E por falar em França laica, que tal falar da choruda indemnização que pagou à Igreja Católica em 1926?
Indemnizações aos perseguidos da Inquisição Portuguesa? Brilhante ideia. Eu aliás tenho um interesse particular nessas indemnizações. Embora creia que em muitos vezes será difícil fazer prova, pelo menos no caso das vítimas que foram sobrevivendo por cá. Como acho que devem ser pagas a todos os perseguidos de todos os tempo (cristãos actualmente parece que são 300 milhões). Claro que isso significaria indemnizar também a Igreja Católica portuguesa pelos religiosos e religiosas expulsos em 1911, ou por Pombal, e até, suponho, os condenados pela Inquisição Portuguesa como António Vieira. Desde que não se simplifique a história à conta disso...
Rui Santos, comentador desportivo, na Sic Notícias: "Mantorras é uma dádiva divina, é um jogador divino... passou por muito sofrimento e é um exemplo de fé para o adepto benfiquista".
O texto do Rui é uma resposta exemplar na desconstrução de alguns argumentos passadistas, cativos de uma pseudo-ingenuidade face aos efeitos de símbolos religiosos na escola. No entanto parece-me que, mesmo sendo um bom exemplo - o da criança de uma família protestante - não se trata aqui meramente de diferenças identitárias dos alunos. A ideia de que a presença de um crucifixo na sala de aula é inofensiva é pouco defensável, e uma das razões principais é porque a escola não é só vivida por adultos mas, e essencialmente, por crianças. Portanto, esta instituição, central na formação de indivíduos e cidadãos, está na base de formas fundamentais de integração de valores e crenças em crianças. Se negamos tal coisa matamos a escola. Esta tem de ser um espaço de pluralismo, quer nas intenções pedagógicas ou sociais, quer no contexto cénico que a enforma. Por isso, e dados os anos de serventia, deseja-se aos crucifixos e às santinhas um eterno e santo descanso.

Cruz com representação de Cristo em sofrimento, colocada acima da bandeira nacional, na EB-1 de Santo Isidoro, Mafra, Lisboa.
Retirado deste relatório da Associação República e Laicidade.
Caro Bruno, não te imaginava ainda em 1911 e espero que não me imagines tu em 1911. É sempre um péssimo princípio para debate. Vamos antes conversar no pressuposto de que eu não sou o Afonso Costa e tu não és o Torquemada.
Repara que digo conversar, e não discutir. Não vou discutir contigo por uma razão: tu publicaste uma posta em que sugerias que, para além de se subtrair crucifixos de salas de aula, se pudessem adicionar outros símbolos ("ateus ilustres", aventaste) de outras crenças. E eu publiquei outra em que concordei contigo e disse: escolham, por mim tanto faz. Além disso, aduzi um exemplo real em que mostrava como qualquer das duas opções, embora evidente e consensual e perfeitamente trivial como príncipio, encontra sempre um qualquer engulho prático que a impede de ser concretizada. Ou seja: eu não discuto contigo, porque concordo contigo. Mais: concordo contigo por antecipação. O Rui de hoje concorda com o Bruno de anteontem que concorda com o Rui de há quinze para vinte anos. O problema é que o Bruno de ontem já começou a desconversar com o Bruno de anteontem.
Isto deixa-me um pouco desanimado. É que, fatalmente, a desconversa é sempre o momento B desta dança, e depois de "em princípio" os católicos concordarem que os símbolos da sua religião não podem ter lugar privilegiado na escola pública, lá surgem os obstáculos que impedem que eles abandonem o dito lugar privilegiado. No teu caso, o valor artístico. Mas se existem símbolos católicos nas escolas portuguesas que são obras de arte, eles estão protegidos pela sua classificação da Direcção Geral dos Monumentos ou do Instituto do Património. Se não estão classificados, qualquer cidadão pode requerer a sua avaliação e possível classificação. Desejo boa sorte nesta ventura a quem o tentar, mas em verdade vos digo que não deverá haver, entre as centenas ou milhares de crucifixos e santinhos das escolas portuguesas, material com valor artístico ou antiguidade que mereça a classificação. Praticamente a totalidade das nossas escolas primárias, preparatórias e secundárias tem menos de um século e os crucifixos e santos que numa grande maioria delas são expostos são de factura tão massificada como as mesas ou as cadeiras.
Seja como for, este rodriguinho apenas diria respeito à opção de subtrair os símbolos religiosos. No caso de se optar por abrir as paredes das escolas a outras crenças e admitir imagens requeridas ou oferecidas pelos alunos e/ou suas famílias, não vejo que problemas se possam colocar. Mas não deixará certamente de haver um qualquer obstáculo. Provavelmente o facto de as novas imagens serem colocadas à mesma altura e com o mesmo destaque das católicas destruirá o enquadramento cénico que envolve as imagens e diminuirá o seu valor patrimonial, com grande prejuízo para a comunidade nacional. Alguma coisa terá que haver.
Adicionalmente, dizes-me que não percebes porque considero a Associação República e Laicidade corajosa, tal como vários comentadores dizem que não percebem que mal fazem os crucifixos nas salas de aulas aos ateus e agnósticos.
Pois o problema começa precisamente por aí. Por não perceberem. Vou então, uma vez que é tão difícil entender a menorização dos ateus e agnósticos, dar o exemplo de um protestante. Como é sabido, grande parte dos protestantes não tolera imagens da cruz com representação de Cristo em sofrimento. Uma parte da minha família é luterana e já tive ocasião de ver como sinceramente ficam chocados quando, por exemplo, uma agência funerária envia uma urna com a representação errada para um funeral protestante. Não se trata de um capricho, mas antes de uma rejeição sentida com toda a honestidade. Qual será então a necessidade ou o sentido de expôr uma criança protestante a uma imagem que a vexa numa sala de aula do ensino público onde essa imagem não é de forma alguma necessária à aprendizagem? Qual será a necessidade ou o sentido de dar primazia cénica a uma imagem da Virgem Maria, colocando-a num altar nas salas ou corredores de uma escola, debitando autoridade sobre alunos agnósticos ou ateus que não lha reconhecem e a isso não são obrigados?
Muita gente acha simplesmente que os crucifixos "não fazem mal nenhum". Acham-no porque são católicos, porque se habituaram a vê-los ali, porque têm simpatia por eles ou porque lhes são indiferentes. Mas, pelos vistos, não conseguem perceber que não é assim para toda a gente. Que não o consigam perceber é uma cabal demonstração da menorização dos ateus ou agnósticos que tu também não vês. É que a hegemonia é tão natural a esta gente que simplesmente acham chato e impertinente que os outros lhes lembrem que não partilham da mesma estética ou exijam os direitos que a lei lhes dá.
Deixo para aqui abaixo algumas notas sobre as outras questões que levantas no teu post. Eu não tinham escolhido comentar sobre elas anteriormente, mas como me pedes comentários, aqui estão eles.
Em primeiro lugar, a questão das igrejas confiscadas em 1911 – aliás completamente extravagante em relação ao tema em apreço aqui acima. Não imaginava, aliás, que esse tema ainda fosse problema. Não é completamente verdade que as igrejas pós-1834 tenham sido feitas apenas com donativos particulares. O Reino de Portugal tinha uma religião oficial que era privilegiada e só no fim da monarquia se permitiu que outras religiões pudessem construir templos em Portugal (desde que não tivessem a fachada virada para a rua, ou seja, desde que fossem escondidinhos). Apesar da "liberdade religiosa", as outras religiões não podiam fazer proselitismo e a Igreja Católica foi protegida no "mercado das religiões" (como diriam os nossos neo-liberais), de forma que pelo menos se beneficiou desta acção do estado. Por outro lado, desde 1911 que já foi assinada ou revista uma Concordata por três vezes e que a Igreja Católica continuou a ser beneficiada. Não tenho objecções a que a instituição fosse indemnizada pela confiscação dos templos. Mas se fizéssemos as contas ao dinheiro que já poupou com as isenções de impostos a que tem direito e outras benesses, duvido que sobrasse grande coisa para ressarcir pelas confiscações de tais igrejas que, no fim de contas, foram feitas pelo povo português que era oficialmente católico enquanto nação. Aliás, se quiséssemos abrir a Caixa de Pandora das indemnizações, este seria sempre um montante ínfimo quando comparado com os pagamentos que teriam de caber aos descendentes de escravos ou de judeus expulsos e perseguidos em Portugal – pagamentos nos quais as Igreja Católica nacional não poderia deixar de participar, pois participante bem activa foi ela na justificação ou concretização de tais actos muito danosos. Queremos avançar ou dá-te jeito ficar só em 1911?
Quando ao Padre Lereno, devo dizer que acho que ele tem mais é que dizer o que lhe vai na alma. No entanto, a tua comparação entre os sindicalistas e os padres não é válida e existem bons argumentos para defender a lei eleitoral neste caso. Um sacerdote, de qualquer religião, é para os seus fiéis um elo de ligação entre a realidade quotidiana e uma outra sobrenatural que o comum dos mortais não controla. Grande parte dos fiéis tem, como é evidente, um enorme investimento emocional nesta outra realidade. Sofre ou anseia por ela. Isto faz com que sacerdotes pouco escrupulosos possam usar o seu ascendente religioso para fins políticos. Vimos os tristes resultados a que isto levou nos países islâmicos: "se não fizeres isto irás para o inferno"; "se fizeres aquilo terás direito a 70 virgens no Céu". Os casos do Padre Lereno ou do Padre Serras Pereira, raros e nada representativos da maturidade da Igreja Católica portuguesa nos últimos anos, são análogos a uma escala felizmente muito menor: não dar comunhão (por exemplo) a um fiel por razões políticas (apoiar ou votar em determinados partidos) é teologicamente muitíssimo grave.
Na política, toda a gente deseja influenciar toda a gente. Mas só temos o direito de influenciar outrem com argumentos políticos – é o caso do sindicalista que diz que tal governo seria mau para os trabalhadores. Mas o sindicalista que promete expulsar o associado que votar na direita, bem como o patrão que deixa bem claro que prefere trabalhadores da sua cor política e (a fortiori) o padre que manipula os anseios de vida eterna ou de comunhão com Cristo de um eleitor estão a usar pressões extra-políticas para fins políticos. Se isto se passar durante uma campanha, qualquer deles comete um crime segundo a nossa lei eleitoral.
Exibir-se numa escola um busto de Niels Bohr, de Fleming ou de Curie (à laia de exemplo) é apenas de salutar; trata-se de personalidades que contribuíram para o desenvolvimento da ciência, que é matéria sobre a qual se devem agudizar os espíritos críticos na escola do estado. Crucifixos e nossas senhoras são apenas manifestações de crenças que estão afinal remando, senão no sentido inverso, pelo menos numa outra esfera, esfera essa que a escola não deve incorporar a não ser pelo lado compreensivo dos fenómenos que lhe estão associados. Portanto, não se trata de negar o valor da igreja, mas antes questionar o sentido “pregador”, mesmo que muitas vezes subliminar (envergando “puras” nossas senhoras ou crucifixos a lembrar a presença de santas entidades), num espaço escolar. Num estado de direito, democrático, livre nas crenças e no professar de sistemas doutrinários, não se deve permitir que a escola pública, campo por excelência de reprodução e adensamento de tais princípios, baralhe essas fronteiras.

Caros Rui e Ricardo Alves, e ilustres comentadores
Não conhecia essa estatística sobre os frequentadores de colégios religiosos. Mas a ser verdade, é mais uma prova de que os argumentos jacobinos que levaram à proibição e fecho de todas as instituições de ensino religiosa em 1911, inclusive dos seminários, não faziam sentido.
O argumento artístico a “favor dos crucifixos” não é novo, nem é católico. Data pelo menos da Revolução Francesa, quando o pintor David e alguns outros jacobinos corajosos se opuseram à destruição de igrejas ou ao seu uso para paióis, fábricas ou cavalariças, precisamente com o argumento do valor artístico. Não estou a falar de crucifixos feito em massa, mas de coisas de mais monta. Murais e por aí adiante. E por falar em murais. Qual é a vossa posição, e já agora da Associação República e Laicidade, a respeito do mural do MRPP no átrio da Faculdade de Direito de Lisboa? É para limpar em nome da neutralidade do Estado, ou será que se for propaganda política pode ficar, não viola a neutralidade do ensino público? Por mim deixava ficar, por causa do valor artístico e sobretudo histórico. E nem era preciso colocar uns santinhos à volta para compor o ramalhete. Mas na universidade suponho que já podemos pressupor que os alunos trazem alguma independência de espírito de casa.
O facto de a maioria das igrejas serem edifícios públicos veio à baila a este propósito. Suponho que ninguém defenda que se aplique aí a doutrina laicista no seu sentido mais estrito, o que resultaria na sua demolição. Pelo menos para isso, felizmente há concordata... A confiscação de todos os bens da Igreja Católica – inclusive todo os bens imóveis – por Afonso Costa em 1911 é um facto histórico. Como o é, por exemplo, a condenação sem julgamento de todos os membros de ordens religiosos ao exílio perpétuo se não abdicassem desse estatuto. No século XIX, como aliás antes, muitas igrejas foram feitas substancial ou integralmente com doações privadas. Mais, a prestação de serviços religiosas fazia parte do papel de todos os monarcas até ao período contemporâneo, as pessoas esperavam isso do Estado.
Mas sim, caro Rui, como falámos, acharia bem interessante e pedagógico que houvesse uma zona da escola onde os alunos pudessem colocar os seus variados ícones. Compro! Como acharia bem que a Associação República e Laicidade promovesse cursos livres em livre-pensamento nas escolas públicas. Eu não sou a favor do Estado mínimo, e acho que na medida do possível os fundos públicos devem servir para apoiar as iniciativas da sociedade civil. Com uma preocupação de equidade claro. Isso é aliás eficiente, traz sinergias que permitem com pouco dinheiro público fazer mais do que seria possível de outra forma. O Estado ajuda a construir igrejas e outros templos, para não falar de todo o tipo de obras de assistência social por grupos religiosos? Faz muito bem. Como faz bem quando ajuda outras actividades culturais como a ópera ou o teatro com um público bem mais restrito...
A única coisa confusa no meu argumento sobre o Padre Lereno é que pelos vistos se invoca uma violação da lei eleitoral e não da constituição como inicialmente referi e corrigiu o atento comentador Caznocrat. Mas isso não altera o essencial: não se pode discriminar contra cidadãos na tomada de posições políticas ou mesmo partidárias por serem sacerdotes de qualquer religião. Confusa é a posição da Associação República e Laicidade que defende uma interpretação altamente restritiva da separação entre o Estado e as Igrejas, mas depois se socorre de uma lei que equipara os sacerdotes aos detentores de poder público ou aos funcionários do Estado! Isso nem o Rui nem o Ricardo comentam. A única forma da lei fazer algum sentido era proibir todos os dirigentes de pessoas colectivas ou funcionários das mesmas de fazerem declarações que pudessem constituir um apelo ao voto. O que seria manifestamente insensato e inaplicável.
Os velhinhos vão-se deixar levar pelo padre? É um argumento muito fraquinho. E os velhinhos do PCP deixam-se levar pelos sindicalistas? Mesmo que seja verdade, cada um tem o direito de se deixar levar por quem entender. É essa a essência de uma democracia liberal! E já agora, o que é que são posições políticas? Quem é que define o que é a política? O aborto é política? Que óptima definição de liberdade religiosa a de deixar quem quiser rezar fechadinho no seu quarto ou num local de culto qualquer, mas que não venham incomodar ninguém cá para fora com as suas convicções! Que generosidade! Claro que a ironia, para um erasmiano como eu, é que estes padres conservadores são bem capazes de, dentro da Igreja Católico, serem activos polícias da consciência... Mas isso são outras conversas.
Finalmente, caro Rui, a Associação República e Laicidade é corajosa porquê? Legítima é com certeza, e enriquecedora do debate sobre estas questões. Mas há algum risco de perseguição de ateus ou agnósticos em Portugal? Ou será que só quando não tiver oposição é que o livre-pensamento se considera livre? Algum comentador, caro Rui, considerou, como me sucedeu a mim, que o teu poste era “justa causa de despedimento” do Barnabé? Ainda outro comentador num poste anterior dizia-se perseguido pela propaganda religiosa porta-a-porta. Esse tipo de “perseguição” admito que exista. É um dos incómodos de um regime democrático.
É oficial: depois do nascimento de três crias de lince-ibérico em cativeiro, os candidatos a líder do CDS/PP são neste momento a espécie mais ameaçada de extinção na península.
Pedro Santana Lopes: "O que importa é ter bem presente que não podemos ter mais trinta anos com dezasseis governos"
Pois é, há homens assim. Homens que trabalham arduamente dando o melhor de si dia após dia, convicta e obsessivamente em prol de uma ideia. Entre julho de 2004 e fevereiro de 2005 PSL foi esse homem.
Acreditou que o país tinha que mudar, e em apenas cerca de seis meses, com custos próprios muitíssimo avultados, pôs os portugueses a pensar como ele. O que é isto senão competência? O que é isto senão coragem de mudar?
Obrigado Pedro, pela tua abnegação.
Porque é que os pivots dos telejornais já estão quase todos vestidos de luto?
Porque é que a agonia de Rainier do Mónaco se tornou, de repente, praticamente clandestina?
mas tenho a impressão de que o próximo Papa não será europeu.
E você?
«Quanto à cruzada mais recente contra os crucifixos nas escolas, nada tenho a opor, desde que os mesmos não tenham valor artístico. Mas em termos de qualidade de ensino não esperaria milagres, afinal há muito que os colégios religiosos estão entre os melhores no secundário. E em alternativa a Associação República e Laicidade podia sempre pensar em propor algo de positivo, por exemplo, imagens de ilustres ateus a par das cruzes.»
Eu teria para aí uns quinze anos quando uma manhã entrei no Conselho Directivo da minha Escola Secundária pública (a Luísa de Gusmão, à Penha de França) e reclamei por termos forçosamente de passar em frente a uma estatueta de Nossa Senhora ao ir para as aulas. Disse que isto evidentemente era ilegal e anti-pedagógico não só do ponto de vista da neutralidade que a escola pública deve guardar em relação às crenças religiosas ou não-religiosas dos seus alunos mas também do ponto de vista da igualdade de tratamento entre eles. Perguntaram-me o que propunha que se fizesse e eu disse que havia duas soluções evidentes:
– Prioridade à neutralidade: a estatueta seria retirada.
– Prioridade à igualdade: outros alunos poderiam propôr outras imagens, a ser colocadas no mesmo local, à mesma altura e com o mesmo destaque da estatueta.
A resposta foi "nem pensar, "porquê?", "porque não", "mas porquê?", "porque nem pensar". Apesar de toda a vitimização bem ensaiada do cristianismo, o cidadão não-religioso, ateu ou agnóstico já é naturalmente tratado como cidadão de segunda em Portugal.
Daí que não possa deixar de concordar com a proposta do Bruno Cardoso Reis que reproduzi aqui acima. E digo mais: os católicos deste país que escolham. Se optarem pela neutralidade, teremos as nossas escolas públicas limpas de símbolos religiosos. Se optarem pela igualdade teremos prateleiras pejadas de iemanjás, sousas martins, ganeshes, voltaires e espinosas, com um sagrado coração de jesus lá pelo meio. Eu durmo descansado com qualquer das soluções, e creio que a Associação República e Laicidade – que faz um trabalho corajoso e difícil no nosso país – também.
Quanto aos colégios privados religiosos, farão o que muito bem entenderem. São de facto óptimos para conseguir criar oito ateus em cada dez alunos. Se não fosse pela alta probabilidade de os restantes dois acabarem a precisar de psicoterapia intensiva, eu não deixaria de inscrever os meus filhos num.
O último texto do Luciano Amaral no DN foi glosado por vários blogues de direita. Podiam ler pior. Mas assaltam-me umas quantas dúvidas. Quem é que afirma, caro Luciano, que foi a Social Democracia que fez a Suécia rica? Quem é que afirma que a Social Democracia e o Capitalismo são incompatíveis? Quem é que afirma que existe um modelo fixo de Social Democracia e que não se pode melhorar a eficiência dos sistemas de saúde, reformas, educação, etc? Os Sociais Democratas suecos não são de certeza. Nem o actual governo socialista parece-me. Nem de certeza eu.
E já agora, pode ser que a Suécia tenha deixado de ser a quinta economia mundial no início do século XX, e que hoje esteja atrás da Espanha. Mas a Suécia tem nove milhões de habitantes, a Espanha tem quarenta e três milhões. E a Argentina desceu ainda mais nesse ranking, e na década de noventa bem seguiu a política monetaristas do consenso de Washington... Ou seja, as coisas não são assim tão simples.
Finalmente faltam alguns dados importantes aos críticos da miragem nórdica. Por exemplo, que a primeira economia do Mundo, os EUA, tem 45 milhões de pessoas sem qualquer direito a cuidados de saúde. Sabem quantos são na Suécia? Adivinhem... Mas estranhamente os problemas de simplismo a copiar modelos estrangeiros parece que não se aplicam ao novo sol da terra, os EUA e ao seu modelo económico.
Claro que os modelos estrangeiros devem ser aplicados com bom senso. Mas se alguma coisa a história do mundo nos últimos milénios nos tem ensinado é a importância do intercâmbio de conhecimentos (quem quiser a versão longa deste argumento leia Jared Diamond).

O caso encerra várias ironias. Mas fico-me pela mais importante. O artigo da Constituição que a Associação usa na sua queixa equipara os sacerdotes aos funcionários público ou detentores de poder público! Isto significa que a Associação é cúmplice daquilo que no seu entendimentos devia ser uma escandalosa violação da Separação entre a Igrejas e o Estado.
O dito artigo, aliás de aplicação duvidoso neste caso, uma vez que não é evidente que o padre Loreno tenha apelado ao voto num partido, tem de ser reformado urgentemente. Ninguém pode ser privado do seu direitos como cidadão por ser católico, ou até um padre falho de senso. Como é que o membro ou responsável de uma qualquer organização legal não-estatal os decide usar é assunto para ser debatido no interior dela e fora dela, mas não para ser legislado. A Associação República e Laicidade ganhava em distanciar-se dos tiques jacobinos do senhor Afonso Costa. Seria melhor terem-se concentrado no facto de que tal discursno nunca devia ter sido transmitido pela Antena 1.
Quanto à cruzada mais recente contra os crucifixos nas escolas, nada tenho a opor, desde que os mesmos não tenham valor artístico. Mas em termos de qualidade de ensino não esperaria milagres, afinal há muito que os colégios religiosos estão entre os melhores no secundário. E em alternativa a Associação República e Laicidade podia sempre pensar em propor algo de positivo, por exemplo, imagens de ilustres ateus a par das cruzes.
Só espero que a seguir não venham o resto dos edifícios públicos. É que desde que em 1911 o senhor ali em cima confiscou todos os bens da Igreja Católica em Portugal, a maior parte das igrejas são pertença do Estado. Por amor à arte tenham piedade pelo menos das igrejas!
É bonito ver os cardeais alinhadinhos em frente aos microfones aproveitando estas tristes circunstâncias para se baterem pela causa do não à eutanásia. Trata-se claramente de oportunismo, do aproveitamento de uma situação que envolve o estado de saúde crítico do seu representante máximo para defender uma causa. É triste.
Só que para além da tristeza que é ver a Igreja agir assim, são também pouco sérios, porque de certa forma usam de uma liberdade argumentativa um tanto ou quanto abusiva. Ninguém defendeu nem defende o direito à eutanásia para casos em tudo (repito, em tudo) semelhantes ao do Papa. De maneira que não é um bom princípio depararmo-nos com uma Igreja a misturar assim assuntos e a sujar uma discussão que se quer límpida e livre de demagogias.
Dão pois um mau exemplo, eventualmente até de sinal contrário ao do Papa, e amanhã já nem me admiraria se aparecesse outra vez o Lobo Xavier a argumentar "livremente" que há quem defenda a eutanásia para casos de unhas encravadas.

Como dizia o grande Nelson Cavaquinho, sei que quando eu morrer os meus amigos vão dizer que tive um bom coração, e alguns leitores do Barnabé que eu era um gajo porreiro. Mas se alguém quiser fazer por mim, que faça agora.
Leitores do Barnabé: se virem um Fiat Uno azul escuro, de matrícula QL-29-39
– ou como se diz nas esquadras: QUEBEQUE-LIMA-DOIS-NOVE-TRÊS-NOVE –
que foi furtada há cerca de dois dias ao seu proprietário temporal, por favor digam qualquer coisa para o email do Barnabé.
E se o Papa morrer, será que avisam o pessoal da Quinta das Celebridades?