abril 30, 2005

O dia em que a Rússia ganhou a guerra


Há sessenta anos atrás, reconhecendo que tudo estava perdido face ao avanço das tropas soviéticas em Berlim, Hitler mostrou a sua verdadeira face e fugiu pelo suicídio a assumir as responsabilidades pela temível tragédia que tinha desencadeado: a culpa não era dele, mas da raça superior alemã afinal não estar à altura!

Só na ofensiva sobre Berlim a URSS perdeu quase tantos homens quanto os EUA no conjunto da guerra, e a Alemanha sofreu quase metade das suas baixas. Sem Churchill não havia ninguém em 1940 para impedir Hitler de ganhar. Sem Roosevelt e o apoio material, naval e militar americano o triunfo teria sido no mínimo muito mais difícil para não dizer impossível; mas ele só conseguiu entrar na guerra na Europa depois de Hitler lhe ter feito a cortesia de declarar guerra em Dezembro de 1941, forçando os norte-americanos a acordar do seu torpor apaziguador do ditador nazi. Mas sem Estaline e sem a incrível determinação do exército russo e dos demais povos da URSS a vitória teria sido impossível em 1945. Ou como dizia Churchill, se Hitler invadisse o inferno, ele não teria problemas em aliar-se com o diabo em pessoa. Takes one to defeat one? A ironia, claro, é que Estaline tinha confiado em Hitler, e recusou-se a acreditar na realidade da invasão alemã do verão de 1941, não fazia sentido, dizia ele! O ditador de Berlim era afinal mais fanático do que o ditador de Moscovo pensava.

Enfim, só espero que não venham os analistas do costume tirar daqui a consequência natural do seu raciocínio guerrista; ou seja, que temos todos de apoiar totalmente o senhor Putin nas suas políticas actuais. Afinal não se trata, acima de tudo, de mostrar gratidão por quem livrou a Europa de Hitler? É que foram os russos mais do que quaisquer outros que o fizeram... Isto de manipular a história tem as suas armadilhas.

Publicado por bruno cardoso reis em sábado 30 abril 23:19 | Comentários (70)

Bolas, não fazia ideia que tinhamos sido tão poucos

Seguindo o exemplo da Maçonaria, a "Atlântico" fez uma lista com as pessoas que leram a revista. Sou eu, mais cinco desgraçados. Só que, ao contrário dos maçons, estes tornaram a lista pública, através de um anúncio pago. Bufos!

Publicado por danieloliveira em sábado 30 abril 03:01 | Comentários (6)

Pequenos desaforismos em forma de perguntas pertinentes

Será que o novo grão-mestre da maçonaria vai ser pedreiro?

Se o relativismo é mudar quando apetece, o anti-relativismo é mudar quando convém?

Quando será que os nossos analistas se vão cansar de adivinhar mudanças radicais no futuro, e vão começar a ver continuidades radicais no presente?

O Espírito Santo fechado à chave? Chamem-me herege mas não era suposto Ele estar em toda a parte?

É para rezar contra os lobos ou pelos lobos?

O PP já voltou a ser CDS? E o Paulo Portas também vai mudar de nome?

Isso de «25 de Abril sempre» quer dizer feriado todo o santo dia?

Publicado por bruno cardoso reis em sábado 30 abril 02:08 | Comentários (3)

abril 29, 2005

Móvel a crédito para a prisão do Dubai

Segundo o pai de Ivo Ferreira, jovem detido no Emirados Árabes Unidos, o embaixador de Portugal na Arábia Saudita terá, quando chegou a Dubai, telefonado para o jovem, preso, para saber se alguém o podia ir buscar ao Aeroporto. Em que Mundo vivem estes embaixadores? Não terá o rapaz coisas mais importantes em que pensar? Custa assim tanto apanhar um taxi?

PS: Conheço há muitos anos o Ivo. Espero que seja libertado rapidamente. Porque é um excelente cineasta. Porque gosto dele. Mas, acima de tudo, porque o que fez, em qualquer país civilizado, não pode dar pena de prisão. Que o Ministério dos Negócios Estrangeiros faça alguma coisa. E depressa.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 29 abril 18:36 | Comentários (37)

Os trocadilhos de Sousa Tavares

O Tribunal de Júri de Ponta Delgada recusou-se a aplicar, aos condenados no processo de pedofilia de Lagoa, um artigo do Código Penal que aplica penas mais pesadas para o abuso sexual de menores do mesmo sexo do que do sexo oposto. Diz o juiz Araújo de Barros que a Constituição, no seu artigo 13º, proíbe a discriminação em função da orientação sexual. Um Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 2003, criticado duramente por este juiz, tinha considerado que os crimes de abuso heterossexual com adolescentes seriam "mais normais".

Hoje, Miguel Sousa Tavares, indignado com o tribunal de Ponta Delgada, pergunta: «Ou o tribunal achará que para um rapaz de dez anos, por exemplo, é igual o trauma de ser abusado por uma mulher ou homem?». Ao pegar no exemplo do rapaz a ser abusado por uma mulher, Miguel Sousa Tavares limita-se a usar os nossos preconceitos: ele acha que um rapaz até gostaria. Mas imaginemos que ele fazia a pergunta ao contrário: «Ou o tribunal achará que para uma rapariga de dez anos, por exemplo, é igual o trauma de ser abusada por um homem ou mulher?» Era mais difícil a resposta, não era? Porque o preconceito é uma coisa lixada.

Da mesma maneira que, se afirmarmos que a lei não pode discriminar os homossexuais abusadores de adolescentes soa pessimamente. Mas se dissermos que, para a Lei, o abuso de um heterossexual é menos grave do que o abuso de um homossexual, como é que soa?

Atalhando caminho: a lei deve ser igual para todos. E igual para todos é igual para todos os abusadores e criminosos, desde que comentam o mesmo crime. O crime é sempre grave. Porque se a Lei descrimina o homossexual, então quer dizer que atenua a culpa do heterossexual. Parece-me óbvio. Esteve bem o Juiz.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 29 abril 17:40 | Comentários (56)

Um ano

Fez ontem um ano que as fotos de Abu Ghraib foram conhecidas do Mundo. As condenações ficaram-se pela arraia-miúda. Não houve investigações com garantias de independência ao secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, ao ex-director da CIA, George Tenet, e ao então comandante das forças no Iraque, general Ricardo Sanchez. No entanto, tendo recebido inúmeros sinais de alarme, nada fizeram. No entanto, aprovaram técnicas de interrogatório ilegais que criaram todas as condições para que este nojo fosse possível.

Esta semana, a Human Rights Watch exigiu uma investigação independente a estes senhores. E avisou: abusos semelhantes podem estar a acontecer em Guantanamo e no Afeganistão. Se a ocasião faz o monstro, quem, tendo responsabilidades de direcção, não mede dos seus actos, é indigno de ter responsabilidades políticas e militares. Para que não se repita.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 29 abril 16:46 | Comentários (7)

abril 28, 2005

S.O.S. Português em apuros


Imagem para consumo externo

Neste momento, os telejornais e as rádios já deram a conhecer ao país o terrível aperto em que se encontra Ivo Ferreira, o jovem cineasta português preso no médio oriente. Não, não foi sequestrado por terroristas num país inimigo do Ocidente. Ivo Ferreira foi preso por ter dado umas passas num charro no Dubai, emirado que pretende vir a ser uma das maiores potências turísticas internacionais e que se farta de fazer operações de charme junto das celebridades internacionais para vender uma imagem cosmopolita e tolerante.

Sem saber bem o que lhe aconteceu e provavelmente sem conhecer as leis locais (em países próximos, como o Iémen, o haxixe é legal e omnipresente), Ivo Ferreira já está preso há 23 dias. Um britânico detido na mesma ocasião e com as mesmas acusações foi libertado numa questão de horas pela sua embaixada. Quanto ao nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros, o mínimo que se pode dizer é que não se adaptou ainda aos tempos e às necessidades de acompanhar os portugueses nos locais do turismo global de massas – viu-se depois do tsunami de Dezembro e confirma-se agora. Não temos embaixada no Dubai, e a representação diplomática na Arábia Saudita parece estar a meio-gás com funcionários aposentados e transferências. No tempo do email, correspondeu-se por carta com a família de Ivo e sugeriu que estes contactassem o MNE em Lisboa.

Ivo Ferreira está numa cela com 18 outros detidos, vai ser presente a tribunal amarrado de pés e mãos e arrisca-se a apanhar cinco anos de cadeia. Não é tarde demais para o MNE enviar um emissário e resolver esta trapalhada com um pouco de diplomacia. Até um pouco de pressão publicitária também poderia resultar: se o Brasil pediu ao Ronaldo para ajudar num caso de sequestro no Iraque, será que não seria de pedir uma mão ao Figo?

Publicado por ruitavares em quinta-feira 28 abril 19:44 | Comentários (47)

abril 27, 2005

Zita

É normal que se mude de opinião e, mais ainda, de partido. Mas há um núcleo central de princípios, mais marcado pela história de vida do que pela história política, que dificilmente muda: as posições morais e sobre os costumes. Se olharmos para homens vindos da esquerda, como Pacheco Pereira, ou vindos da direita, como Freitas do Amaral, notamos que transportam do seu passado muitas destas convicções.

Acontece, no entanto, a algumas pessoas, um autêntico terramoto identitário. Não deixa pedra sobre pedra. Há em Portugal uma geração que, vinda da esquerda, confundiu a sua formação pessoal com a luta contra a ditadura ou com o activismo revolucionário do PREC. Não houve, na sua juventude, qualquer diferença entre vida privada e vida partidária.

Tendo entrado para o PCP com quinze anos, Zita Seabra entregou-lhe a sua vida. Ao sair, abandonou tudo: amigos, hábitos, profissão. Por isso, percebe-se que esteja irreconhecível. Mas vê-la como porta-voz dos opositores à descriminalização do aborto, reescrevendo as posições que teve no passado, ultrapassa tudo o que se pode esperar de alguém. Zita Seabra até pode ser contra a legalização do aborto. Mas aceitar ser usada, no Parlamento, como troféu, é diminuir-se a si e à sua história. Quem aceita estar sempre a regressar ao seu passado para o renegar já só se renega a si mesmo.

Nada disto é novo. Há anos que esta protegida de Pedro Santana Lopes se degrada à frente dos nossos olhos. Zita Seabra é uma nova Cândida Ventura, um novo Chico da CUF. Uma ex-comunista que nunca conseguiu ser mais do que uma ex-comunista. Uma medalha de latão que ninguém quer levar para casa. Uma história triste.

"Expresso", 23 de Abril de 2005

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 27 abril 13:32 | Comentários (17)

Fumo negro

Até esta semana, estava à frente da Congregação para a Doutrina e Fé, herdeira do Santo Ofício. E fez jus à sua história. Perseguiu todos os teólogos desalinhados. Na sua lista de vítimas está Hans Kung, Eugen Drewermann, Edward Schillebeeckx ou Leonardo Boff. Porque «o cristão é uma pessoa simples» e «os bispos devem defender esta gente sincera dos intelectuais». Salvem-nos os iluminados.

Do seu passado liberal de defesa do Concílio Vaticano II e de critica feroz à congregação que agora dirigia, não ficou nada. Bastou uma nomeação para cardeal, em 1977, para que lhe passassem os devaneios de juventude. Ele que há muito se achava predestinado para chegar ao topo da escalada no poder da Igreja.

Sempre desconfiou do diálogo inter-religioso e do ecumenismo de João Paulo II: «não há salvação fora da Igreja Católica». Bem pode Bento XVI corrigir o “Cardeal Panzer”. O seu percurso na Igreja vale mais do que mil juras de conversão à tolerância.

É contra a homossexualidade, é explicitamente contra a igualdade de género, é contra o divórcio, é contra a Turquia na União Europeia, é contra o comunismo e o capitalismo. Nem a música rock escapa ao seu dedo censório, acusando-a de ser um veículo de mensagens satânicas. Mas não se pense que Ratzinger é contra tudo. Nos seus escritos mostrou uma comovente compreensão para com a pena de morte. Desde que não seja antes da concepção, claro.

Ao escolher o “Pastor Alemão” como seu novo Ayatollah, o conclave escolheu o pior do anterior Papa: a intransigência moral sem a fraternidade social. A partir desta semana o rosto da Igreja é o rosto da intolerância e do dogmatismo de Ratzinger. João Paulo II confessou: «tenho medo dele». Garantem que estava a brincar. Não vejo onde está graça.

"Expresso", 23 de Abril de 2005

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 27 abril 13:20 | Comentários (21)

Nem que para isso dê uma ajuda a golpes militares e sequestros de presidentes eleitos

«Condoleezza Rice quer uma Venezuela "totalmente democrática"»

PS: não gosto de Chavez, mas não só foi eleito como foi depois a plebiscito e a referendo constitucional. Não gosto eu mas, ao que parece, gostam os venezuelanos. À democracia venezuelana pode faltar-lhe muito, mas naquela parte do globo não serão concerteza os EUA a dar lições na matéria. Digamos que lhes falta autoridade. Se Condoleezza quer democracia na Venezuela pode começar por deixar de tentar criar instabilidade no País. Ajudava um bocadinho.

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 27 abril 12:52 | Comentários (14)

A estratégia de Lisboa

A notícia do dia foi o fim das negociações entre o PS e o PCP para uma coligação às autárquicas de Lisboa. Seria de esperar que o PCP não desejasse ter menos vereadores do que o BE nesta coligação, apesar do BE ter tido mais votos em Lisboa nas últimas eleições. O que é verdadeiramente extraordinário é que – segundo relata a imprensa – o PCP parece não admitir menos vereadores do que próprio PS! – descontado o Presidente da Câmara que seria sempre socialista.

Recusar por razões mesquinhas uma coligação que poderia dar um sinal de colaboração entre as esquerdas e tentar tirar Lisboa da estagnação em que se encontra representa, evidentemente, uma enorme falta de respeito para com a esquerda e os lisboetas. O PCP lá sabe com que linhas é que se cose – e não é certamente com as mesmas com que os comentadores ingénuos tanto elogiaram um "humano" Jerónimo nas legislativas.

Cruciais são agora as implicações deste rompimento. Se bem conheço os atavismos da nossa esquerda, o BE nunca se aliará ao PS sem o PCP, por medo de depois ter o PCP na oposição "pura" ao poder que enlameia. Mas o BE comete um grande erro se pensar assim. Se o PCP é caprichoso, esse é um problema do PCP e não se resolve com um segundo capricho do BE. O BE, aliás, que tem crescido com um discurso de "ser diferente dos outros" (certo ou errado, pouco importa), não pode esquecer-se que esses "outros", ao contrário do que pensa, não são só os partido do centrão. Grande parte do eleitorado do BE votou nele para que fosse diferente do PCP. Ou seja, para partido entrincheirado no ódio ao PS e ao compromisso já nos basta o PCP. Se o BE seguir esse caminho, a desilusão entre a maioria dos seus simpatizantes será enorme.

Dito isto, existem razões a favor e contra uma aliança em Lisboa com um candidato pré-selecionado, Manuel Maria Carrilho, que não é conhecido por ser propriamente um jogador de equipa. Mas o estado calamitoso de Lisboa deve obrigar todos os actores a fazerem um esforço de tolerância, paciência e criatividade.

O BE poderia marcar a diferença e ganhar o respeito de toda a gente dizendo que aceita negociar não com base em números de vereadores ou candidatos mas com apenas duas condições: a) que a coligação dê início a um período de verdadeira construção de um projecto colectivo para Lisboa que até agora não apareceu, através (por exemplo) da realização de uma espécie de "estados gerais" que permitam a realização da condição b) que a coligação transcenda as meras fronteiras do PS e do BE, incluindo independentes, membros de associações de defesa do património e da qualidade de vida, etc.

Se este movimento lisboeta mais amplo fosse criado conseguir-se-ia a) credibilizar a coligação para além do mero prémio eleitoral de "conquistar Lisboa"; b) repartir as responsabilidades pelos actores e c) isolar aqueles que por razões egoístas abandonaram o combate pela mudança de que Lisboa tem necessidade como de pão para a boca.

Adenda: Mário Soares defende que se salve a coligação das esquerdas em Lisboa como parte de uma estratégia que passa pelas presidenciais. Ouvi, na SIC-notícias, Inês Serra Lopes dizer que não entende a preocupação de Soares. Bem, por isso é que Inês Serra Lopes não passa de Inês Serra Lopes, ao passo que Soares com a sua idade ainda dá uma lição à maioria dos comentadores que por aí anda. Como é evidente, se a direita ganhar em Lisboa a considerável maioria da esquerda nas últimas eleições poderá esvaziar-se como um balão de ar, perdendo a dinâmica para as presidenciais (que Cavaco, contrariamente ao que se diz, está longe de poder ganhar se a esquerda apresentar um bom candidato que não seja Guterres ou Vitorino – e o melhor até agora é Manuel Alegre). Quem sofreria mais com isto seria o próprio PS, cuja maioria parlamentar não corresponderia então à maioria sociológica e se encontraria desmoralizada por não ter ganho a maior cidade do país e ter perdido a presidência. O raciocínio de Soares está, como é evidente, correctíssimo.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 27 abril 02:45 | Comentários (34)

O "relativismo" dá mesmo um jeitão

Na mouche, a crónica de José Vítor Malheiros, no Público de ontem [sem link]:

«Quando alguém como Ratzinger chama a atenção para o "relativismo moral" da sociedade moderna mas, ao mesmo tempo, afirma que "não há salvação fora da Igreja Católica" [...] ou condena o aborto em nome da defesa da vida mas se mostra compreensivo para com a pena de morte, compreendemos que os "valores morais universais e absolutos" que defende são apenas a supremacia das posições do Vaticano sobre todas as outras, com as variantes regionais e temporais que este entenda defender.
O Vaticano não possui qualquer autoridade para falar de "relativismo moral" pois essa é a sua moeda corrente. Um dos domínios onde isso é gritante – e só não vê quem não quer – é a questão dos direitos das mulheres no seio da Igreja. A Igreja não pode considerar que o mais alto papel a que uma mulher pode aspirar é lavar os pés do Papa e falar de duplicidade de critérios. Como não pode abençoar torcionários e autores de massacres e falar do direito à vida, ou amordaçar as opiniões divergentes no seu seio e falar dos direitos humanos. Ou condenar milhões de africanos a morrer de SIDA ameaçando-os com o inferno se usarem o preservativo e falar da piedade, do perdão e do amor de Cristo.»

Publicado por ruitavares em quarta-feira 27 abril 02:26 | Comentários (15)

abril 26, 2005

25 de Abril Hoje (ou seja, ontem)

O 25 de Abril é hoje incontestável. Alguém se atreve a defender, seriamente, o regresso ao 24 de Abril? Alguém contesta o princípio de que Portugal deve ter um sistema liberal e democrático?

Como não é possível argumentar com o essencial, concentra-se toda a acrimónica dos deserdados de Abril nos custos da Revolução. Geralmente são os mesmos que acham que é totalmente inaceitável discutir sequer os custos da invasão do Iraque pelos EUA para lhe dar a sagrada liberdade (O derrube de Saddam pela força, interna ou externa, foi aliás coisa que nunca constestei, desde que esta última feita dentro da lei, ou seja, autorizada pela ONU, e sobretudo acompanhada de um plano sério de recuperação do país; embora sempre achasse isso coisa muito difícil de levar a cabo bem, e impossível com Bush no leme).

Suponho que o que os capitães de Abril deviam ter feito era esperar por uma invasão americana. Perdiam-se umas vidas, mas salvavam-se umas empresas.

É claro que o 25 de Abril teve custos. Todas as revoluções as têm, quer em termos económicos quer em vidas. Mas o mesmo sucede com todos os processos de transição para democracia, mesmo os não revolucionários. Veja-se a vizinha Espanha, uma transição sem dúvida de louvar, mas em que se esquece que morreu bem mais gente do que no terrível PREC português. Veja-se o custo económico das magníficas revoluções democráticas na Europa de Leste. A revolução portuguesa foi das mais baratas, sobretudo no nível mais importante que é o das vidas. Inaugurou mesmo, segundo o insuspeito Samuel Huntington, uma terceira vaga de revoluções democráticos, bem menos custosas e bem mais virtuosas do que todas as anteriores.

Sobretudo cabe perguntar: se se podia fazer melhor, e no campo económico ou da descolonização seria desejável que se tivesse feito melhor - mas é claro que a crise nos dois campos era já muito séria antes da revolução - então porque é que não se fez melhor antes? Onde estavam as elites do regime dispostas a liberalizar de cima? A resposta é que em 1974 estavam quase todas em ruptura com o regime porque tinham percebido que o poder instalado não queria liberalizar, de Sá Carneiro a Spínola é só escolher.

O argumento final é que o MFA não era democrático: veja-se o Pacto MFA partidos, ou as nacionalizações, ou as prisões arbitrárias. Mas nenhum processo revolucionário é democrático ou sequer legal! E quanto ao MFA, ele não existia. Deixou de existir como entidade unitária, apesar da propaganda em contrário, logo a seguir ao 25 de Abril. O que o unia era a oposição ao velho Estado Novo. Existiam antes várias correntes que tentaram controlar a sigla e o processo revolucionário. A que acabou por triunfar, tendo como figura central Melo Antunes, era sem dúvida democrática. Sem ela não estaríamos agora a celebrar os 30 anos das primeiras eleições totalmente livres da história portuguesa. Há poucas datas mais importantes na história portuguesa. Somos todos filhos dessa madrugada que convém não esquecer.

Publicado por bruno cardoso reis em terça-feira 26 abril 18:53 | Comentários (21)

25 de Novembro: objectivo Alasca

Guilherme Silva diz que o facto de Durão Barroso ser presidente da Comissão Europeia é uma conquista do 25 de Abril.

Publicado por celsomartins em terça-feira 26 abril 15:03 | Comentários (8)

O dia perfeito

Antes e depois de 25 de Abril de 1974 a história portuguesa não tem sido sempre fantástica, mas esse dia foi perfeito. Às 00h00 tínhamos um país com censura, polícia política, presos de opinião e uma população habituada ao medo. Vinte e quatro horas depois os jornais eram publicados sem "exame prévio", a polícia política agonizava, os presos estavam em vias de sair das cadeias e o povo começava a perceber que não havia razões para o medo. Para um só dia, não se pode arranjar melhor. É talvez o mais belo da nossa história e um dos mais belos da história do século XX, porque antes dele ninguém dava dez tostões por revoluções pacíficas em países periféricos e esquecidos. Entretanto, vários povos puderam gozar revoluções pacíficas, dos polacos aos checos, dos ucranianos aos brasileiros das "diretas já". E podem ter a certeza que entre os líderes desses movimentos, a revolução dos cravos é conhecida e admirada.

Tenho uma certa pena de não ter escrito nada no Barnabé durante este dia. Mas isso foi só porque das 00h00 às 24h00 vivi plenamente o Dia da Liberdade enquanto tal. E se ao chegar a casa vejo nos blogues que há gente que ainda não conseguiu engolir nem admitir o 25 de Abril, isso só me dá um certo gozo suplementar. Como bom ateu, não lamento a falta de crença nos outros. Que vivam uma boa vida, tendo apenas que abrir alas para a alegria daqueles para quem o 25 de Abril é o Natal dos portugueses que amam a liberdade – o dia mais bonito do ano.

Publicado por ruitavares em terça-feira 26 abril 00:14 | Comentários (27)

abril 25, 2005

A Ximenes o que é de Ximenes, a Alkatiri o que é de Alkatiri

Para todos os que, como eu, andaram a aplaudir Ximenes Belo, em Lisboa, aqui está o que já deveríamos esperar: uma tentativa de golpe político em defesa de um Estado confessional. Um bispo incapaz de aceitar a liberdade religiosa. Um bispo incapaz de aceitar a legitimidade de um governo democraticamente eleito. Um bispo incapaz de regressar ao templo, depois de instaurada a democracia. Fica a dúvida: se 96% da população é católica, porque o preocupa tanto que as aulas de religião e moral sejam facultativas? E fica a suspeita: que a Igreja de Timor só diga alto o que homens como Ratzinger pensam baixinho. Mas Timor é uma lição: a defesa de um Estado laico é uma das principais garantias de um Estado democrático. Esperemos que a jovem democracia timorense ultrapasse, mais uma vez, este obstáculo.

PS: Nem dei por ele se ter ido embora. Ximenes Belo já não é o bispo de Dili. Ou seja, onde liam Ximenes devem passar a ler Igreja Católica timorense. A mesma que alaudimos, reresentada por Ximenes, há uns anos.

Publicado por danieloliveira em segunda-feira 25 abril 22:53 | Comentários (47)

Bom dia


Publicado por joaomacdonald em segunda-feira 25 abril 03:06 | Comentários (29)

abril 24, 2005

Vinte e quatro ou vinte cinco de abril?

Depois de Ratzinger, ter Telmo Correia a líder do CDS/PP fecharia uma bela semana. Afinal o CDS/PP escolheu Ribeiro e Castro, um líder mais inteligente e sintonizado com a modernidade. Ribeiro e Castro, no entanto, pode cair na armadilha de Freitas. Quando ontem fez aquele que foi considerado o seu melhor discurso, contornou habilidosamente as questões de costumes. Os militantes, que tanto aplaudiram outros passos da sua intervenção, ficaram estranhamente silenciosos quando ele disse que "sempre existiram famílias monoparentais" e que "o CDS não discriminou ninguém", ou que a sua oposição pessoal ao aborto não era "confessional". Provavelmente, o público terá achado isto um pouco meias-tintas. Resta saber se Ribeiro e Castro vai ser ele mesmo e trazer o partido para a moderação ou se se vai aproximar do reaccionarismo que faz sonhar a base militante que ainda agora aplaudiu ruidosamente a UNITA para se silenciou pouco educadamente perante os convidados da CGTP.

Na resolução deste problema está, como sempre, a fuga à sombra do destino do CDS: a irrelevância?

Publicado por ruitavares em domingo 24 abril 16:15 | Comentários (9)

Ratzinger : o papa revolucionário e o tradicionalismo

Hoje vamos começar uma volta ao mundo, talvez em menos de oitenta dias. Não vamos de balão ou avião, mas à boleia de alguns postes. E claro teríamos de começar pelo centro do mundo nestes últimos dias: Roma e o Vaticano. A minha primeira reacção à eleição de Ratzinger foi, como é que é possível uma escolha tão má? Depois pensei melhor. E a minha reacção mais reflectida foi, como que é possível uma escolha tão, tão má? Ratzinger, um velho da Velha Europa, e sobretudo um homem de ideias velhas. Que afirmou: ‘os fiéis são pessoas simples que é preciso proteger dos intelectuais’. Uma frase reveladora, de facto, da sua grande inteligência, porque é difícil pensar numa afirmação mais insultuosa para os católicos e para a rica tradição intelectual da Igreja. O homem que afirmou que não há salvação fora da Igreja Católica e que se opôs completamente à entrada da Turquia na Europa em nome das suas raízes cristã. (Aparentemente a parábola do bom Samaritano nunca lhe chegou aos ouvidos).

Há portanto um problema da imagem do papa Ratzinger por causa da sua total falta de carisma pessoal. Mas ela é agravada pelo seu desempenhado e pelas suas declarações como orgulhoso herdeiro dos inquisidores. E há a oportunidade perdida de eleger um líder que influenciasse as questões internacionais com uma autoridade acrescida numa época em que se está a fazer o reequilibrar do poder no mundo entre os seus centros tradicionais na América e na Europa e o resto do planeta. Ou seja, de levar até à sua conclusão lógica o esforço de internacionalização do Vaticano e do colégio dos cardeais nos últimos cem anos e sobretudo por parte de João Paulo II.

Um papa de transição? Talvez, mas não creio. Porque Ratzinger é o mais próximo a um chefe de facção que se encontra no catolicismo. A eleição de uma personalidade com este perfil é tão rara que se pode considerar revolucionária. E teve sempre consequências péssimas se não foi rapidamente corrigido no conclave seguinte. Aqueles que em Portugal nos vêm explicar que tudo isto é normal e devia ser esperado, só mostram a sua própria ignorância, de que ridiculamente acusam os católicos liberais. Nada de espantar, afinal, num país em que muitos na Igreja Católica durante muito tempo adoptarem como mote a frase de Ratzinger, e em que os anticlericais acharam que a melhor forma de lidar com as religiões era procurar negar-lhe qualquer espaço no campo intelectual. Portugal deve ser o único país na Europa que não tem um único centro ou departamento ou faculdade dedicado ao estudo das religiões no ensino superior público. A Igreja Católica é necessariamente conservadora, e o liberalismo católico não faz qualquer espécie de sentido? As reformas na Igreja são uma aberração? Claro que as tradições são para defender? Esta eleição foi o que se esperava? Vamos por partes...

A Igreja conservadora? Nem conservadora nem progressista. É verdade que o papa anterior beatificou Pio IX. Mas Pio IX foi eleito como a grande esperança dos liberais católicos, antes de se voltar contra o liberalismo depois de várias conflitos. E a própria ideia de convocar um concílio, em 1870, foi uma inovação significativa em relação aos séculos anteriores. Mais, João Paulo II também beatificou frei Bartolomeu dos Mártires que tinha participado no concílio de Trento e tinha como mote ‘A Igreja está sempre a precisar de reformas’; e João XXIII, de que muito me tenho lembrado nestes dias, nomeadamente no seu ataque ‘aos profetas da desgraça' que só vêm os males do mundo actual. Tradição? As mulheres desempenharam funções, alguns dizem que até de bispo, nos séculos iniciais do cristianismo, as quais depois, por uma série de reformas, se tornaram exclusivo de sacerdotes homens. Preservar qual tradição? A Igreja Católica, ao contrário da Igreja Ortodoxa, por exemplo, tem evoluído muito, frequentemente no meio de grandes polémicas e conflitos, mas o lado que tem o apoio papal a determinado momento muitas vezes acaba por ceder ao espírito dos tempos. Evoluir é parte da tradição do catolicismo, embora ao rimo de uma instituição muito vasta e muita antiga, o que é bem diferente de ser imobilista.

O liberalismo católico não faz qualquer sentido? Suponho que nunca tenham ouvido falar da polémica no século XVI entre intelectuais protestantes defensores do servo-arbítrio, como Lutero, e pensadores católicos, como Erasmo, defensores do livre-arbítrio do homem; as discussões entre os defensores da importância do que se faz nesta vida e os defensores da predestinação. A ideia de liberdade é um dos eixos importantes do pensamento teológico católico. E nem vou detalhar a geneologia nos séculos seguintes. Mas muitos dos grandes pensadores liberais no século XIX eram católicos. Claro que a uns nomes é sempre possível opor outros. E o pensamento católico e o papado não pode ser reduzidos à política, a conservadores e progressistas. Mas esse é precisamente o ponto! Houve frequentes conflitos entre as autoridades da Igreja e os alguns pensadores mais ousados, como em qualquer organização, mas esta tensão não foi sempre resolvida, sobretudo no longo prazo, no sentido de manter o que estava. Tem havido muitas reformas no catolicismo, e algumas até foram num sentido «conservador», ou seja, de reforçar a autoridade do centro e fazer interpretações mais restritivas da doutrina e da disciplina. Outras foram no sentido contrário. Dizer que no catolicismo ser a favor de reformas não faz sentido, isso é que não faz sentido nenhum.

Era normal que o chefe da facção conservadora na Igreja fosse eleito papa? Na verdade não era. Por isso se costuma dizer que quem entra papa sai cardeal. Os favoritos, os líderes de uma ou outra corrente na Igreja acabaram quase sempre por ser preteridos por uma figura pelo menos vista como sendo de compromisso e geralmente menos conhecida. É essa a lógica das regras quase milenares que estabelecem que os cardeais que participam no conclave precisam de uma maioria de dois terços para eleger um papa. O objectivo desta reforma muito antiga foi evitar as lutas de facções, acabar com as violentas campanhas eleitorais que se tinham verificado até então. Em 1996, João Paulo II, segundo se diz com o apoio de alguns dos cardeais da Cúria, fez uma reforma que alterou esta regra, ao permitir a eleição do papa com maioria simples. O que altera a dinâmica do conclave. Ou seja, todos os cardeais sabem que a facção dominante pode esperar até ao trigésimo sufrágio e decidir por maioria simples que o seu homem será papa! Isso retira o incentivo ao compromisso, torna mais fácil perpetuar no poder um determinada corrente, e cria um maior risco de divisões e conflitos no futuro. Claro que há quem ache isso bem, e prefira uma seita a uma igreja verdadeiramente global e portanto muito diversa, mas essa não é a tradição católica.

Estou portanto curioso em saber se o papa Ratzinger, que denunciou o relativismo, mas deu algumas cambalhotas significativas na sua vida – de jovem teólogo progressista e crítico radical do seu antecessor na Congregação da Doutrina da Fé, a bispo e cardeal cioso da sua autoridade –, é realmente um tradicionalista numa questão central: a eleição do papa. Ou seja, se irá restabelecer a regra dos dois terços para a eleição papal. Afinal se ele foi uma figura tão consensual como cardeais que lhe são próximos têm dado a entender, isso não deveria ser um problema.

Finalmente, para um analista destas questões a eleição de Ratzinger é um teste interessante. Até que ponto o agora Bento XVI ultrapassará a lógica de poder e de facção que foi a sua durante tantos anos, e virá a ser, como alguns prevêem, em mais uma cambalhota, um construtor de pontes e de novos caminhos? Ou será como papa um continuador do cardeal: um disciplinador, um vigilante, um defensor de quanto menos melhor desde que absolutamente fiéis à sua linha? Quanto do carisma e influência do papa se deve ao prestígio do lugar e quanto à sua personalidade? Até que ponto um alemão de 78 anos consegue ser uma figura mobilizador dentro e para além da Igreja, seja na Europa, que reage ao seu conservadorismo, seja no resto do mundo que vê mais um velho branco numa posição de poder? As suas primeiras nomeações e a sua primeira encíclica serão uma primeira pista. Mas a sua última homilia como cardeal e as primeiras como papa parecem apontar para um papa Ratzinger.

Mas até pode ser que o papa Ratzinger venha a ter algo de disciplinador e algo de benévolo. Desconfio, no entanto, que tenderá a ser disciplinador de teólogos incómodos e de esquerda, e compreensivo e benévolo para, por exemplo, os cardeais conservadores seus amigos que vieram já violar o segredo do conclave para dizer que ele foi sempre o favorito. Pai (severo) do povo e mãe (benévola) dos ricos diziam no Brasil de Getúlio Vargas...

Publicado por bruno cardoso reis em domingo 24 abril 12:29 | Comentários (22)

abril 23, 2005

Isto promete


"O bolo foi oferta do senhor cardeal."

Apesar de um excelente post do CAA no Blasfémias, seguido de também excelentes comentários por parte de um leitor José Barros, há gente que ainda não compreende o disparate pegado que é o apelo à desobediência civil – que o Cardeal Trujillo exige os funcionários públicos católicos do estado espanhol encarregados de casar homossexuais. E já não digo disparate jurídico, porque isso ficou mais do que respondido pelo post e comentários referidos, mas disparate político e estratégico. É que o cardeal não percebeu que os "seus" católicos não se arriscam só a perder o emprego.

Deixo só mais esta: vai ser lindo ver os casais cerceados nos seus direitos agora legais a processar os funcionários que ilegalemente os prejudicarem. Vai ser lindo ver os devotos a pagar belas indemnizações aos sodomitas e lesbianas a quem negaram o cumprimento da lei. Ou seja, vai ser lindo ver casamentos de homem-sexuais em que o enxoval vai ter sido, na prática, oferecido pela burrice do Vaticano.

Eu tinha dito que o papa Ratzinger ia ser uma diversão pegada para os incréus. Houve quem não concordasse.

Publicado por ruitavares em sábado 23 abril 15:41 | Comentários (40)

Rádio Televisão do Papa

A RTP está a transmitir, em directo, uma conferência de imprensa do novo Papa. Talvez numa alusão ao papel a que se tem prestado o canal público de televisão nacional, o Cardeal que anunciou a presença do Papa resumiu bem o que por aqui se tem passado: "nos últimos meses temos visto a comunicação social ao serviço da Verdade".

Publicado por pedro sales em sábado 23 abril 10:04 | Comentários (14)

abril 22, 2005

O candidato ideal


Bolton a apontar o dedo.

Alguns dos nossos analistas de questões internacionais quando foi anunciado o nome do Sr. Bolton para embaixador dos EUA na ONU apressaram-se a vir mais uma vez desenvolver a agora tão na voga teoria do quanto pior melhor. O homem era um crítico destrutivo da ONU? Óptimo!! Era com ele que se iria conseguir reformar a instituição internacional. O homem não faz ideia do sentido da palavra diplomacia? Óptimo, era mesmo isso que era preciso para negociar essas reformas com quase duzentos países!! Só é pena que isto reduza a análise a um verdadeiro exercício esotérico: não se trata da tarefa habitual de ir para além do óbvio, trata-se de ver em tudo o exacto contrário daquilo que aparenta! Todo o mundo é ilusão!

Só é mesmo pena que o Senado norte-americano não leia a imprensa portuguesa de qualidade. Apesar de dominada por republicanos, a sua comissão de relações externas - 10 republicanos, 8 democratas, mas felizmente um dos republicanos é um moderado de Rhode Island - decidiu suspender a nomeação por três semanas para aprofundar a questão da capacidade de Bolton para o lugar. Uma das alegações é que ele tentou colocar na prateleira funcionários do Departamento de Estado que tinham contrariado as suas alegações fantasiosas sobre ADMs em Cuba! As dúvidas expressas por Colin Powell sobre a sua personalidade instável também pesaram.

Mesmo que o Congresso americano acabe por aceitar a sua nomeação, o que é apesar de tudo bem possível por uma simples lógica política, parece difícil continuar a argumentar que ele era o homem ideal. E então se o rejeitar... Mas esperam mais três semanas pelo fumo branco de Washington para saber a opinião dos nossos especialistas.

Publicado por bruno cardoso reis em sexta-feira 22 abril 17:24 | Comentários (6)

Dois coelhos com uma cajadada

O Vaticano, através do seu Prefeito do Conselho para a Família, Alfonso López Trujillo, ordena a objecção de consciência aos católicos que forem funcionários públicos do estado espanhol e celebrarem matrimónios entre pessoas do mesmo sexo. E acrescenta:

«Não é facultativo. Todos os cristãos devem estar dispostos a pagar o preço mais elevado, inclusive a perda do emprego»


Olha Sócrates: aqui está uma maneira expedita e pouco dispendiosa de emagrecer a função pública. Pelo menos se houver tantos católicos e tão convictos como se diz.

Publicado por ruitavares em sexta-feira 22 abril 17:23 | Comentários (15)

A Queda


São os últimos 12 dias de Hitler. Enfiada num bunker, a “fina-flor” do nacional-socialismo assiste à derrocada do regime e à queda do seu Führer. Hitler dirige tropas inexistentes e salta do delírio eufórico para a cólera ressentida, da fúria para o desalento. No meio da depressão colectiva, fanáticos delirantes como Goebbels e sua mulher Magda juntam-se ao seu ídolo na morte, oportunistas como Himmler, Hans Krebs ou Göring tentam salvar a pele, ingénuas, como a secretária de Hitler, Traudl Junge, vivem o pesadelo como viveram o sonho, longe de tudo o que se passa lá fora, homens como Albert Speer têm, depois de todo esterco em que mergulharam, um último segundo de decência. Na hora da queda, a tragédia transforma-se em farsa.

Hitler gostava da sua cadela, era afectuoso com Eva Braun e com a sua secretária, chorava. Era humano. E parece que houve quem se chocasse com a revelação do óbvio. Não percebo a polémica. Hitler não era um monstro. Os monstros não existem. Era um homem. É bom que se saiba que o Holocausto não foi um acidente da história nem um acontecimento sobrenatural. Pode sempre voltar a acontecer. Porque o Inferno é feito por homens que choram, que amam e que sofrem. Isso é que o torna mais abjecto.

“A Queda” (“Der Untergang”), de Oliver Hirschbiegel, é um dos melhores retratos de um ditador que já vi. Sem caricaturas (como se fosse necessário). O Hitler ali mesmo ao pé de nós. Quase como se fosse intimo. E uma visita dos alemães ao seu passado. Um muito bom sinal. Conseguissem todos os países manchados pelo horror (é verdade que nenhum chegou onde chegou a Alemanha nazi) fazer o mesmo e dormiríamos mais descansados.

Publicado por danieloliveira em sexta-feira 22 abril 16:17 | Comentários (22)

Façam uma vaquinha

Há dias, Luis Nobre Guedes veio dizer que não podia ser líder do CDS-PP porque era advogado e isso era incompatível com a política (a escolha torna-se óbvia). Hoje, António Pires de Lima disse, na entrevista a Judite de Sousa, que teria muito honra em ser presidente do partido mas tinha uma família numerosa para sustentar. E pensar que já houve gente maldosa que dizia que o CDS era o partido dos ricos... Melhor seria - em vez de fazerem um congresso - optarem por uma quermesse para pagar ao futuro líder. Nós também não queremos que eles passem dificuldades.

Publicado por celsomartins em sexta-feira 22 abril 01:18 | Comentários (14)

abril 21, 2005

Um papa para todos os gostos


Para aqueles a quem apetece queimar o papa Ratzinger, podem agora fazê-lo de forma prática e até sob uma aparência devota!


Para quem acha que o inquisidor é tão doce como o mel, aqui está uma forma prática de o provar, sem margem para dúvidas, mesmo aos mais descrentes!

Publicado por bruno cardoso reis em quinta-feira 21 abril 17:58 | Comentários (19)

O Bragança que proclamou a independência do Brasil


O liberal senhor D. Pedro I do Brasil e D. Pedro IV de Portugal, libertador dos dois povos irmãos... Só foi pena o mano Miguel. Não sei há quanto anos foi [mas já me disseram: 1822, o que para 2005 dá, ora 9 fora nada... bem, é só fazer as contas].

Publicado por bruno cardoso reis em quinta-feira 21 abril 17:45 | Comentários (6)

Vítima da tirania e do imperialismo


O Alferes Joaquim José da Silva Xavier, chamado "O Tiradentes", precursor do republicanismo, do liberalismo e da auto-determinação dos povos no mundo de língua portuguesa, executado por ordem da dinastia de Bragança há exactamente 213 anos. No Brasil comemora-se hoje o feriado do Dia de Tiradentes.

Publicado por ruitavares em quinta-feira 21 abril 17:09 | Comentários (7)

Salva-nos o iluminado

Todos perseguidos pelo Pastor Alemão:


Hans Kung


Eugen Drewermann


Edward Schillebeeckx


Leonardo Boff

«O cristão é uma pessoa simples (…) e os bispos devem defender esta gente sincera dos intelectuais». Cardeal Joseph Ratzinger

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 21 abril 14:42 | Comentários (49)

«Tanto espírito no feto e nenhum no marginal»*

Joseph Ratzinger é contra o aborto, que considera corresponder a «uma cultura de morte». Joseph Ratzinger não se opõe à pena de morte.

*Frase de uma canção de Caetano Veloso

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 21 abril 14:41 | Comentários (28)

Um mau negócio

Aqui vão os dois textos do último fim-de-semana, no “Expresso”

De facto, o PSD é o mais português de todos os partidos. É um pequeno comerciante à espera de uma boa oportunidade de negócio. Mas, quando chega à oposição, abre falência: não tem nada para oferecer. A sua vacuidade deixa-o sem rumo, sem quadros e entregue a quem mantenha algumas migalhas do poder: caciques locais e autarcas.

Os empresários são a base de legitimação ideológica, em qualquer país civilizado, de uma direita democrática. Mas, em Portugal, os empresários dependem do Estado. Fracos, esperam ser protegidos da concorrência, dos chineses, dos espanhóis, dos sindicatos, da seca, das chuvas, da Europa. São os mais anti-liberais dos anti-liberais. Num país pobre, só multinacionais e economistas é que gostam do mercado livre.

Cavaco Silva percebeu tudo isto muito bem: as elites económicas domésticas querem um Estado forte, interveniente e previsível. Que distribua o ouro do Brasil e da Europa com generosidade. Que proteja os que já estão instalados. Que ofereça uns subsídios e umas empreitadas. O cavaquismo teve muito para dar. E deu tudo. Guterres seguiu-lhe os passos.

O que se pedia a Barroso era que continuasse a obra feita: conquistar o governo para o seu partido, distribuir a riqueza, de forma equilibrada, por clientelas privadas e públicas e, acima de tudo, ficar o máximo de tempo no poder. Era simples. Mas Barroso deitou tudo a perder. Porque, vindo da extrema-esquerda, se converteu à direita errada no país errado. A direita liberal pensa em grande e a sua clientela, a da finança, é demasiado gananciosa para o nosso capitalismo de mercearia. Durão Barroso era um megalómano. Depois de um episódio chamado Santana, a base social de apoio do PSD preferiu a segurança de Sócrates.

Durão deixou ao PSD apenas o PSD. E o PSD, sem mais nada, é Marques Mendes e Luís Filipe Menezes. Uma pobreza de meter dó.

16 de Abril, “Expresso”

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 21 abril 14:40 | Comentários (3)

Lá fora

Inseguro e deprimido com o seu desempenho, é fora de casa que Portugal procura a confirmação da sua virilidade. O elogio fácil chega-lhe. Uma atençãozinha. Um piropo.

Lá fora é onde tudo o que aqui falha se resolve. Num país civilizado, diz-se, nada do que aqui se passa acontece. Lá fora não há burocracia. Lá fora não é esta balbúrdia. Lá fora as pessoas com valor são tidas em conta. Lá fora é toda uma outra existência. Lá fora é a Utopia. E por isso, quando somos bons lá fora, confirmamos que, não fosse o triste karma que nos acompanha, seríamos bons cá dentro. Mas não somos. Porque cá dentro é a “piolheira”. Um atraso de vida. Salvam-nos os estrangeirados que, tendo ido lá para fora, nos trazem a boa-nova.

Quando Portugal ganhava os “Jogos sem Fronteiras”, o país vibrava. Quando fizemos a Expo e o Euro e os estrangeiros viram «do que somos capazes», rejubilámos. Quando Durão foi para presidente da Comissão, deixando o país num caos, mostrámos patriotismo e fomos a retaguarda, pronta a sofrer pelo reconhecimento de um dos nossos. Quando se fala de um Papa português, ficamos ébrios. Quando querem um português para dirigir a Autoridade para os Refugiados, até lhe chamamos um Figo. O que é a Autoridade para os Refugiados? O que é que isso interessa? É lá fora e pode ser nosso. Venha a taça. Portugal existe para ser visto.

Continuamos a viver o sonho do imigrante: sair desta desgraça, andar lá fora a lutar pela vida, voltar com o reconhecimento dos que aqui ficaram. Das elites ao povo de baixo, é o que todos esperam: que corra bem, lá fora.

16 de Abril, “Expresso”

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 21 abril 14:39 | Comentários (1)

1, 2, 3 arrematado pelo senhor ali do canto


Leilão de salvados - 23 e 24 de Abril, Lisboa

Publicado por nunosousa em quinta-feira 21 abril 09:29 | Comentários (7)

Unidos pelas embirrações

Nos últimos tempos tem havido sempre ponderosas razões para, como às vezes nos gritam aqui os comentadores, "deixar os papas em paz!". Primeiro era por respeito à fé dos outros; depois porque o papa estava doente; depois porque o papa morreu; agora porque há papa novo. E outras tantas variações sobre o tema: "se não vais dizer bem, cala-te".

Às vezes há uns rodriguinhos. Por exemplo, no Blasfémias escreve o João Miranda o seguinte: "Um liberal que defende que a Igreja não deve ter um Papa conservador faz tanto sentido como um liberal que defende que o líder do PCP não deve ser comunista". Não é um post ao melhor nível do João Miranda porque a analogia está longe de ser perfeita. Reparem: na primeira metade fala-se de um papa "conservador" e na segunda de um líder do PCP "comunista", quando o par correcto seria católico-comunista ou então conservador-ortodoxo. Ou seja: defender que um papa não fosse católico é que seria como defender que um líder do PCP não fosse comunista, porque de resto existem católicos que não são conservadores e comunistas que não são ortodoxos.

A propósito, lembro-me bem de quando Brejnev morreu. Na altura, toda a gente – e especialmente os não-comunistas – tentava adivinhar quem seria o sucessor e que consequência traria cada um dos nomes: Gromiko? Tchernenko? Andropov? Gorbatchev? Toda a gente, meus caros, metia o bedelho, para grande irritação de Cunhal e dos PCPs. E posso garantir que a maior parte das pessoas no Ocidente e no Leste – numa época de guerra fria e pânico nuclear – desejava um comunista moderado e modernizador.

Já não estamos na guerra fria, mas no meio de uma guerra religiosa latente e vivemos no pânico de um choque de civilizações – contexto no qual João Paulo II, convém dizê-lo, se comportou impecavelmente. Ora anteontem a chaminé da capela sistina deitou fumo branco. O novo papa veio à varanda, e vimos que seria o equivalente católico ao homem do KGB, o frio funcionário capaz de censurar Brejnev por moderação.

No entanto um gajo dá uma volta pelos blogues de direita liberal e o que vê? Estão felicíssimos. Porque, supostamente, a esquerda está chateada. Acham uma boa solução, porque o Espírito Santo nos livrou de um papa de esquerda. Estas fixações mórbidas na esquerda, no entanto, não os impedem de usar argumentos passíveis de render royalties a Jerónimo de Sousa: "É tempo da «inteligentzia» perceber que a Igreja Católica não é uma agremiação recreativa e cultural...", exactamente o mesmo que o camarada secretário-geral diz quando quer calar uns camaradas mais recalcitrantes.

Já agora, deixem-me assinalar aqui uma coisa que pode ter escapado ao pessoal no meio deste entusiasmo todo. Para a esquerda ateia e libertária Ratzinger não faz mossa absolutamente nenhuma. Bem pelo contrário, é uma escolha divertidíssima. Até já voltaram as missas em latim que George Brassens reclamava ("sans le latin, sans le latin / la messe nous emmerde")! Para quem Ratzinger é a pior de todas as escolhas é para os católicos moderados e reformistas. E não estou só a falar dos católicos de esquerda, mas dos próprios católicos liberais de direita: Pedro Mexia ou Andrew Sullivan compreenderam-no bem. E não é por serem menos liberais nem menos católicos. Mas claro que não é Mexia nem Sullivan quem quer: é preciso prezar mais o raciocínio do que o desdém pela esquerda, tarefa manifestamente esgotante.

O que é mais extraordinário é que gente que passa o tempo com "nhã-nhã-nhã o liberalismo isto" e "nhã-nhã-nhã nós os liberais" se tenha esquecido em poucas horas de que Ratzinger coloca o liberalismo ao mesmo nível das outras falsas ideologias de que os católicos devem fugir – como aliás, da modernidade em geral. Os católicos têm de ter uma "crença simples nas verdades da igreja" – e acabou-se.

Mas que importa? O homem é anti-relativista! Viva! Hurra! Nem vale a pena perguntarmo-nos se o anti-relativismo de alguém que acredita numa verdade revelada tem sequer a mínima semelhança com o anti-relativismo, por exemplo, de um empirista.

Até dá pena Bin Laden não ser católico, porque anti-relativista maior do que ele não sei se há.

Publicado por ruitavares em quinta-feira 21 abril 02:15 | Comentários (17)

abril 20, 2005

«Tenho medo dele»

João Paulo II disse, uma vez, sobre Joseph Ratzinger: «tenho medo dele». Não é agora que vou pôr em causa a infalibilidade papal. E compreendo que se tenha algum receio daquele que dirige a congregação que é herdeira do Santo Ofício. Mas como não sou católico, tanto me faz. Desde que não se queira meter nas leis dos Estados e, através delas, na minha vida, por mim está tudo bem. O seu rebanho que o ature.

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 20 abril 19:48 | Comentários (27)

Edgar Correia 1945-2005

Depois de João Amaral, Luis Sá e ainda outros, faleceu Edgar Correia. Infelizmente para o país – porque se trata de uma geração de enormes qualiades – o destino tem sido muito madrasto para os renovadores comunistas.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 20 abril 13:47 | Comentários (18)

O espírito da Terra e das Horas

Não caro leitor, não é de rock nem de pop que se vai aqui falar. Os Galandum Galundaina são antes cultores de música folk, e da boa. Diria mais, sagrada, sagradamente profana ou, se preferirem, profanamente sagrada, mas sagrada. São quatro músicos da Terra de Miranda que desde 1996 se dedicam a recolher e fazer renascer o cancioneiro popular daquela região de Trás-os-Montes. E para folgança cá da rapaziada, fazem-no com um rigor verdadeiramente salutar. Digo-o sem a menor dúvida – o som que arrancam dos instrumentos, todo junto, respira de forma cristalina sem soar puro, na má acepção da palavra, e sim puro no sentido em que traz ainda poeira pendurada nas notas.

Galandum, pelo que se pode ler nas recolhas de Giacometti e Lopes-Graça, era uma canção dançada, bastante antiga e muito comum na região de Miranda do Douro. Seria instrumentalmente bastante aparatosa: tamboril, gaita de foles, fraita, pandeiro, pandeiretas, castanholas, carracas, ferrinhos e assobio dento labial. Pois é, é mesmo um excelente nome para o projecto.

O primeiro disco, L Purmeiro, data de 2002, o segundo, Modas i Anzonas, é deste ano e encontra-se nas lojas (eu encomendei ambos no site da banda). Lhaços, alboradas, rimances e modas, cantadas ou não, são magnificamente trazidas aos nossos ouvidos pelas fraitas, gaitas de foles, charrascas, sanfonas e o restante sem número de instrumentos que os Galundaina utilizam na sua música. As vozes e os coros cantam as histórias das canções, da terra pois claro, ou, nas palavras de Fernando Lopes-Graça, “do homem transmontano, parcela do homem universal nos seus momentos de funda identificação com o espírito da Terra e das Horas”. Identificação com o espírito da Terra e das Horas – é folk sim senhor, e grande.

Publicado por nunosousa em quarta-feira 20 abril 04:20 | Comentários (10)

Terceiro anel

Bento - arrojado, rápido e eficiente. Foi o guardião do glorioso durante vinte épocas - um dos reinados mais longos nas balizas da catedral. Nesse tempo, sob o seu comando, a fé voava mais alto.

Publicado por nunosousa em quarta-feira 20 abril 04:01 | Comentários (17)

Resultado após prolongamento

Trento: 1 - Vaticano II: 0.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 20 abril 01:17 | Comentários (14)

A democracia dos crentes

Ontem, no DN, Luís Delgado declarou que não havia processo mais democrático do que a eleição do Papa. Mas, no Público, Fidel Castro lamenta discordar: democracia, democracia, não há como a cubana.

Publicado por ruitavares em quarta-feira 20 abril 00:53 | Comentários (11)

abril 19, 2005

O papa unificador

Contra o liberalismo, o marxismo, o relativismo, o materialismo, o capitalismo, o socialismo e a modernidade. Parece-me que estamos cá todos.

Publicado por ruitavares em terça-feira 19 abril 17:54 | Comentários (39)

Viva o grande inquisidor!

O cardeal Joseph Ratzinger é o novo papa.

Publicado por ruitavares em terça-feira 19 abril 17:48 | Comentários (38)

abril 18, 2005

E a moral, não merece ser discutida?

José Manuel de Mello em entrevista à revista do Expresso (16-04-2005):

“A minha família nunca foi profundamente germanófila, embora tivesse um bocadinho o estigma da Guerra Civil de Espanha em que se envolveu. O meu avô ajudou de várias formas o lado nacionalista, que acabaria por sair vencedor. Em minha casa fizeram-se muitas camisolas para levar a Espanha. O meu pai tinha a carta de pesados e foi em comboios a guiar o camião para levar produtos. O meu avô e a minha família sempre foram gente que acreditaram na autoridade e na ordem. A opinião que corria lá em casa era essa. Mas não se pode deixar de contextualizar isto no tempo em que foi. Impressiona-me esta necessidade de pedir desculpa, como o Papa veio pedir desculpa, ou o Presidente Chissano, que já não é presidente, mas que foi ao Norte e disse que falta aos portugueses pedirem desculpa. Pedirem desculpa de quê? Foi um contexto. Foi uma época, e nessa época era como era. Não éramos diferentes dos outros. Que se capitalize hoje isso por razões políticas ou outras, é um completo exagero.”

É a quarta maior fortuna nacional (segundo a edição especial de 2004 da revista Exame) estimada em 693,33 milhões de euros.

Publicado por luísmah em segunda-feira 18 abril 22:06 | Comentários (34)

Um “bom” exemplo de Responsabilidade Social Empresarial

“Em 1993, a empresa Portucale do grupo Espírito Santo adquiriu 507 hectares de terreno rural integrado na Companhia das Lezírias com um estatuto de protecção claro: tratava-se de um terreno cujo uso agrícola não podia ser modificado por estar em zona de protecção de linhas de água e área de montado. O preço de m2 foi, aliás, calculado nestas condições. Passado pouco tempo, a empresa apresentou um projecto urbanístico, pretendendo transformar m2 agrícolas em m2 urbanos. Em termos financeiros é como pegar numa nota de banco e acrescentar-lhe uns zeros, pedindo depois ao Banco de Portugal que a carimbe a dizer que está válida. Era o que ia acontecendo em 1995 quando o então ministro da Agricultura Duarte Silva aprovou o projecto em vésperas de saída do governo. O ministro seguinte, Gomes da Silva, conseguiu travar a urbanização e o derrube de 2.600 sobreiros. Ficou mesmo assim um campo de golfe.

Recentemente, nas vésperas de entregarem as chaves do gabinete, três ex-ministros entre os quais Luís Nobre Guedes – e para ruína da imagem que tanto quis construir – aprovaram a dita urbanização, alegando a figura de «projecto estruturante» de «imprescíndivel interesse público»! Horas depois de o despacho (ver terça-feira, 29 de Março) ser conhecido, já os bulldozers arrasavam os sobreiros centenários. Nunca um despacho se despachou tão depressa e não há notícia de uma Direcção Regional tão célere. Que eficácia! Que belo Governo se perdeu!

Não sabemos a interpretação que no Grupo Espírito Santo se faz do conceito de sustentabilidade, uma vez que integra o Business Council for Sustainable Development. Mas uma coisa é certa: não é sustentável que qualquer Governo tenha atitudes de solicitude destas. Mais ainda nas vésperas de sair.
O que dirá o cidadão comum ou mesmo outras empresas, de toda esta eficácia num país em que a burocracia se tornou uma arma de desmoralização?

Já existe uma acção em tribunal e o novo Governo já suspendeu a decisão, mas espera-se que este caso seja lembrado como exemplo. É que há regras bem simples como a decência e a equidade.”

(Luisa Schmidt, Expresso 16-04-2005)

E só para completar, o Banco do grupo, mais conhecido por BES (o tal que também recebeu fundos do Pinochet), intitulou o seu relatório de responsabilidade social de 2003 da seguinte forma: A Sabedoria Financeira ao Serviço do Desenvolvimento Sustentável...Vê-se...


Publicado por luísmah em segunda-feira 18 abril 21:51 | Comentários (9)

O barco do amor

Barroso e esposa aceitam convite para cruzeiro de 20 mil euros com destino desconhecido.

Se o bom nome de Portugal tem voado alto desde que o "cherne" é Presidente da Comissão Europeia, agora também navega mais longe. Como se pode ler na notícia, o convite partiu de um amigo de Barroso, Spiro Latsis, que é dirigente de um grupo financeiro com interesses em áreas como a alta-finança, o petróleo e o mar. A ser verdade, as boas práticas lusas começam a dar cartas na Europa, o que é importante para afastar a imagem que se colou aos nossos deputados europeus, segundo a qual, nas reuniões, apenas lhes interessava discutir três coisas: Timor, têxteis e taco. Poder-se-á acrescentar agora o turismo?

Publicado por nunosousa em segunda-feira 18 abril 15:35 | Comentários (19)

Os ricos que salvem o partido

«Não é conciliável ser-se advogado e presidente do partido. Aliás, acho que uma das coisas que hoje vale a pena pensar é nesta convivência entre os interesses e a política. Os interesses não são compatíveis com a política.» Luís Nobre Guedes, entrevista Público, RR, 2

Publicado por celsomartins em segunda-feira 18 abril 15:27 | Comentários (2)

Última hora: duplicam as possibilidades para Papa português

O jornal Público traz hoje uma revelação surpreendente (pp. 4 e 5). Dom José da Cruz Policarpo e Dom José Saraiva Martins são afinal…gémeos. Os perfis dos cardeais não deixam margem para dúvidas, são duas biografias decalcadas, ainda que Saraiva Martins não assine Policarpo para evitar confusões inevitáveis. O Barnabé sabe que, no conclave esta situação insólita está longe de ser vista como um óbice. Em caso de doença ou atentado a substituição fica assim facilitada. Outra hipótese que ainda não foi afastada foi a de um pontificado bicéfalo (coisa que desde o episódio de Avinhão deixou de ser inédita). Comentando esta possibilidade, o cardeal Ratzinger deixou mesmo cair um desabafo: «ó meu amigo, já tivemos um que foi papa três vezes, a Igreja é uma instituição aberta à mudança, porque não experimentar este formato?».

Publicado por celsomartins em segunda-feira 18 abril 15:21 | Comentários (3)

O karma de Ratzinger

Público - Ultima Hora: «Cardeal Joseph Ratzinger apela ao combate contra "ditadura do relativismo"«. Isto já deixou o João Miranda do Blasfémias todo contente, e é a ocasião ideal para eu contar uma velha história, lida já não me lembro onde.

Estamos num colóquio ecuménico. O representante budista vai até ao palanque e fala acerca do karma, do nirvana e alayavijnana.

Os circunstantes ouvem com atenção e dizem: uau, que fixe, que interessante! Se isso funciona contigo, óptimo.

Depois vem o hindu. Faz uma breve resenha dos seus milhares de deuses, incluindo shiva e agni, lakshmi e ganesh.

A plateia aplaude. Uau, que porreiro, que espectáculo. Se funciona contigo, tudo bem.

E o colóquio continua assim a tarde inteira. Vem o judeu com moisés, o muçulmano com maomé, vários animistas com animações (em powerpoint), espíritas, mormones e zoroastrianos. E o público reage sempre da mesma forma simpática.

Nesse momento, levanta-se Joseph Ratzinger. Fala um pouco sobre deus-uno e deus-trino, distinguindo os atributos do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ainda tem tempo para tratar da Virgem Maria, dos Santos e dos Apóstolos.

A plateia está rendida. Uau! Que... – mas Ratzinger interrompe, furioso.

– Não é nada uau, seus cretinos! Não é "fixe", não é "óptimo", não é "se funciona contigo"! Isto é a VERDADE, o resto é tudo MENTIRA, quem acredita nisto vai para o CÉU e quem acredita no resto vai parar ao INFERNO, perceberam finalmente?!

A plateia engole em seco. Ficou um pouco surpreendida com os decibéis e os perdigotos. A pouco e pouco ouvem-se os primeiros aplausos:

– Uau, que fixe, que óptimo. Eh pá, se isso funciona contigo, é o máximo.

Publicado por ruitavares em segunda-feira 18 abril 15:09 | Comentários (24)

Ah, grande maluco!

Segundo a SIC-notícias (que agora está no modo de propaganda gratuita às ideias do cardeal com nome de banda de heavy-metal) Ratzinger também é contra o liberalismo, um mal dos tempos como o marxismo, mas "que converte o eu em medida de todas as coisas".

É o meu gajo! Ratzinger a papa! Não só porque discordo absolutamente dele e isso me facilita as coisas, como pelo gozo de ver como vão os nossos liberais católicos desenrascar-se com um papa assim.

Publicado por ruitavares em segunda-feira 18 abril 02:17 | Comentários (5)

Mas não a lei da morte

DN Online: «Funerárias em revolta contra lei.»

Publicado por ruitavares em segunda-feira 18 abril 01:05

Quase todos os nossos eleitores

Do Expresso: "O líder do PND vai propor aos mais de 300 militantes que, hoje [ontem], em Aveiro, participam na Convenção Nacional..."

Publicado por ruitavares em segunda-feira 18 abril 00:55 | Comentários (3)

abril 17, 2005

Um mestre em Lisboa

No segundo ano da faculdade o pessoal começou a dizer que havia um livro de história completamente original, chamado O Queijo e os Vermes. Este livro não tinha sido escrito no seio de nenhuma das correntes historiográficas que já então aqueciam os ânimos dos nossos professores – a dos Annales, francesa, ou de uma das correntes anglo-saxónicas – mas por um italiano chamado Carlo Ginzburg, que é o senhor da imagem ali acima. Até havia um novo nome para esta corrente: a micro-história. E um professor recém-chegado à faculdade, Pedro Cardim, ia sugerir esse livro como leitura obrigatória na sua cadeira de História Cultural e das Mentalidades da Idade Moderna.

Não dava para esperar até ao terceiro ano. Alguns de nós foram até à livraria procurar O Queijo e Os Vermes. As funcionárias não o encontravam; o livro não tinha edição portuguesa (só brasileira, uma excelente tradução na Companhia das Letras, com um quadro de Arcimboldo na capa); perguntaram se era um livro sobre gastronomia. E nós não, que era um livro de história, sobre um moleiro do século XVI que havia sido preso pela inquisição por heresia. Esse moleiro, Domenico Scandella, chamado Menocchio, tinha desenvolvido a sua teologia e cosmogonia altamente particulares e dava uma explicação quase naturalista para o início da vida: os homens (e os anjos) não tinham sido directamente criados por Deus; tinham aparecido na matéria primeva como os vermes aparecem no queijo. Mais curioso ainda, este moleiro não era nenhum analfabeto; tinha lido livros, emprestados ou possuídos por ele, e chegava a discuti-los com os inquisidores.

O Queijo e Os Vermes era, de facto, completamente original. Mas a seguir a esse, lemos todos os livros de Ginzburg a que pudemos chegar a mão: praticamente todos em irrepreensíveis edições da Companhia das Letras, todos com pinturas de Arcimboldo na capa. Dois têm edição portuguesa também muito cuidada: A Micro-História e Outros Ensaios (na DIFEL) e História Nocturna sobre o sabá da bruxas (na Relógio d'Água, se não me engano). Além dos temas, a teoria de Ginzburg era também altamente personalizada. Naquela altura (como hoje ainda), alguns historiadores tentavam fazer da disciplina uma ciência social e comparavam-se aos sociólogos e economistas; outros afirmavam que a história não passava de um género literário. Ginzburg afirmava que a história repousava sobre um método indiciário e as suas comparações eram inesperadas: dizia que o trabalho dos historiadores era semelhante ao dos médicos, psicanalistas ou detectives. O documento era para o historiador o que o sintoma é para o médico, os sonhos para o psicanalista e a pista para o detective. Os seus artigos podiam juntar Freud e Sherlock Holmes no mesmo parágrafo. Ainda no último livro que li dele No Island is An Island, sobre cultura inglesa, Ginzburg mantem toda a sua imaginação historiográfica numa escrita cada vez mais rigorosa.

Para mais, Ginzburg é ainda o herdeiro de uma época de ouro da cultura italiana que me deixa sempre fascinado. A sua mãe, a romancista Natalia Ginzburg, trabalhava com Italo Calvino e Cesare Pavese naquele que foi um autêntico dream team da Editora Einaudi em Turim. Italo Calvino, em particular, não era só um dos maiores escritores do século, era também um editor de talento: parece que foi ele que inventou o termo microstoria para uma colecção da Einaudi, tal como foi ele quem deu um toque no título de Obra Aberta, que propulsou Umberto Eco para a fama académica ainda na fase pré-O Nome da Rosa. Na impossibilidade de viver na Lisboa de Dom Manuel I ou na Amesterdão do século XVII, não me importaria de reincarnar na Turim de 1950-60.

Carlo Ginzburg é actualmente professor da University of California - Los Angeles e fala amanhã, segunda-feira, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa [17h30, auditório 2]. O organizador é o mesmo Pedro Cardim que nos apresentou a O Queijo e Os Vermes. O título da conferência será "Representing the Enemy. The French Prehistory of the Protocols of the Elders of Zion". Mas, pelos menos para mim, poderia ser outro qualquer.

Publicado por ruitavares em domingo 17 abril 21:23 | Comentários (1)

Eis uma verdadeira heresia

Uma empresa publicitária pretendeu usar a canção «Ring of fire» um clássico popularizado por Johnny Cash num anúncio de um creme para as hemorróidas. Felizmente a família do genial músico americano não deixou.

Publicado por celsomartins em domingo 17 abril 18:16 | Comentários (5)

abril 16, 2005

O melhor recomeço

Decorre em Aveiro, este fim-de-semana, a II Convenção Nacional da Nova Democracia. A refundação do partido é o desejo do seu líder, Manuel Monteiro.

Aqui há umas semanas falavam em redefinição, perceber aquilo que eram, desde logo tentar compreender se são de esquerda ou de direita. Enfim, detalhes sem a mínima importância, e se não então atente-se nas palavras de Monteiro: «a refundação do partido passa por virá-lo mais para a prática e não só para conceitos vagos». Recomeçam bem. Já agora, porque não tentar o centro-esquerda?

Publicado por nunosousa em sábado 16 abril 20:42 | Comentários (16)

abril 15, 2005

Como é que ninguém se tinha lembrado disto antes...

PSD-Madeira vai requerer a inconstitucionalidade de várias normas da Constituição da República.

Publicado por pedro sales em sexta-feira 15 abril 13:02 | Comentários (26)

abril 14, 2005

Juizo e atenção

Num interessante blogue liberal (que só pela cíclica preguiça burocrática do Barnabé tem estado fora da nossa lista de recomendações) o AAA insurgiu-se contra este meu post do outro dia (para resumir: sobre o candidato conservador britânico que alterou uma sua foto para parecer que sempre tinha estado de acordo com a mais recente linha dura anti-imigração do seu partido). Acusou-me de ser insultuoso e de fazer juizos de intenção. Nos comentários, pedi-lhe que apontasse quais eram os juizos de intenção e quais eram os insultos, porque a partir daí poderíamos falar. E o AAA teve a simpatia de escrever este post:

À atenção do Rui Tavares que não vê insultos nem juízos de intenção neste seu post.

Na minha modesta opinião, isto são insultos: «oportunista, cobarde e desonesto»

e isto é um juízo de intenção: «Isto é Le Pen puro: "vocês sabem que eu não digo tudo o que penso sobre os pretos e os árabes e os outros; vocês, por outro lado, também não precisam de dizer a ninguém, mas votem em mim, porque eu penso o que vocês pensam"».

Mas que sei eu, que nem sequer percebo Newspeak?

Vamos desossar a questão.

Em primeiro lugar, eu não disse que "não via" insultos nem juizos de intenção no meu post. Pedi ao AAA que me dissesse quais eram, porque não dá para discutir no vazio. Agora que ele fez o favor de citar os excertos que considerou relevantes, cá vai: não vejo insultos nem juizos de intenção no meu post.

Mas então "oportunista, cobarde e desonesto" não são insultos? Depende. Se eu for muito bem a passear na rua e alguém me chamar "ladrão!", isso é um insulto. Mas se eu lhe tiver mesmo roubado a carteira, é uma constatação.

Ora o post em questão era acerca de um político capaz de manipular uma foto

para reescrever a sua biografia – e eu espero que isso não esteja na definição de "honesto" do AAA. E era acerca de um partido que, de acordo com a maioria dos jornais e comentadores, decidiu endurecer e enfatizar o seu programa contra a imigração porque viu outros partido praticamente racistas aumentar as suas votações em eleições recentes com um discurso anti-imigração. E isto, aqui entre nós, é um caso de "oportunismo".

Mas além disso, ainda chamei "cobardes" aos tories. Pois foi. E foi porque, tendo eles vontade de ganhar votos à conta da xenofobia, se deram à lata de não a assumir verdadeiramente, adoptando como lema um capcioso "Are You Thinking What We're Thinking?". O subentendido deste "Are You Thinking What We're Thinking", como a generalidade da imprensa britânica reparou, é "thinking... but not saying". O que não é propriamente corajoso. Os homens estão em campanha, por amor de Zeus! Ou dizem, ou não dizem. Como bem reparou o Luís Lavoura aqui nos comentários, tivemos um exemplo semelhante com o "Sabe mesmo que é?" de Santana, que toda a gente considerou... cobarde.

Por último, o meu "juízo de intenção". Ter dito que isto era Le Pen puro. Eu não sei o que é que a generalidade das pessoas pensa que Le Pen e a sua Frente Nacional fazem. O AAA talvez ache que Le Pen se limita a babar-se e grunhir que não gosta de pretos nem de árabes e que assim conquista votações de dois dígitos nas eleições francesas. Ora acontece que o registo de Le Pen, salvo ocasiões bem coreografadas para o interior do partido, é o innuendo e não o bombástico. E as segundas figuras da FN, então essas, limitam-se a dizer, tanto quanto possível, coisas aparentemente triviais como "um pai cuida em primeiro lugar dos filhos e só depois dos forasteiros", "os franceses querem ser respeitados", etc.

Aproveito para dizer que vivia em França quando Le Pen passou à segunda volta das presidenciais e sei muito bem que território piso quando faço esta comparação. Por exemplo: ouvi ao vivo numa conferência de imprensa Bruno Gollnisch, número dois da FN, um tranquilo pai de família, casado com uma estrangeira, que fala vários idiomas (entre eles o japonês e o português) – mas que é mais sinistro do que o próprio chefe. Nessa campanha, Le Pen foi à Rádio Alfa – dos emigrantes portugueses – e escolheu, como um dos seus músicos portugueses favoritos, o Fausto de Por Este Rio Acima. Tudo muito civilizado.

Em simultâneo, as poucas pessoas que assumiam ter votado em Le Pen – grande parte nem à família dizia – sabiam que o seu candidato não se esticava muito na TV e nos jornais, mas faziam um ar cúmplice e diziam on a les mêmes idées, il pense comme nous, etc. O que ele dizia em campanha era pouco importante. O que tinha sido importante havia sido a piscadela de olho. Estás a pensar no mesmo que eu estou a pensar?

De forma que não fiz juizo de intenção nenhum. Fiz uma analogia, e parece-me que bastante justa. Repare o AAA que eu não digo que Michael Howard é um racista como Le Pen – espero que não o seja, até porque o próprio Howard, sendo judeu, faz parte de uma minoria no Reino Unido –. Digo que adoptou temas e estilos idênticos, porque o são. Também não especulo sobre se os tories detestam gente de pele escura como os lepenistas. Não vou por aí, até porque isso seria... um juizo de intenção.

Uma das grandes tragédias da políticas actual é a direita, quando está desesperada na oposição e sem imaginação para mais, lançar mão dos temas xenófobos e racistas. Já o vimos com Portas, Durão, Chirac (um famoso discurso sobre "le bruit et la puanteur" dos imigrantes) e muitos outros. Não pensem que o facto de o fazerem de uma forma matizada os salva, até porque os racistas também já o fazem de uma forma matizada.

De forma que nessas ocasiões convém ser muito claro a contrariar estas tentações com adjectivos rigorosos: oportunistas, cobardes, desonestos. Para evitar, precisamente e acima de tudo, o newspeak e o doublethink. Matérias em que o AAA, aliás, há-de ter sido modesto. O seu problema não foi com o newspeak, foi mesmo com o português.

Publicado por ruitavares em quinta-feira 14 abril 21:01 | Comentários (7)

Novo endereço

Pessoal, o endereço do Barnabé mudou. Na conta antiga já recebíamos mais spam do mensagens reais, o que dificultava muito a gestão do nosso correio.

Agora quem quiser dirigir-se ao Ismael do Barnabé (que é o primo esquerdo do Barnabé Rebelo de Sousa) deve dirigir uma mensagem do seu cliente mail para o endereço abaixo, tendo o cuidado de substituir o texto que se encontra entre parênteses recto, inclusive, pelo sinal de at, vulgo arroba.

ismael[substitua por arroba]barnabe.weblog.com.pt

Obrigado e desculpem o incómodo de vos forçar a actualizar as agendas.

Publicado por ruitavares em quinta-feira 14 abril 20:24 | Comentários (2)

Parabéns, Porto!


Imagem do fotoblogue holandês Galveston's Way

Hoje não me interessa quanto custou, quanto vai custar, como vai ser. Quero só dar os parabéns à cidade do Porto por ter conquistado uma belíssima peça de arquitectura e por ter uma casa dedicada à arte que é como a água.

Pode viver-se algumas semanas sem artes plásticas, pode sobreviver-se (mal) a um mês sem livros, pode passar-se algum tempo sem teatro e sem cinema. Mas não se pode passar mais do que dois ou três dias sem música.

Publicado por ruitavares em quinta-feira 14 abril 17:41 | Comentários (25)

Boas notícias para a Segurança Social

Público - Última hora: «Poluição atmosférica reduziu esperança de vida em oito meses, diz OMS»

Publicado por ruitavares em quinta-feira 14 abril 17:29 | Comentários (4)

Evolução

No Público: "Portugal é um dos três países da UE sem dados oficiais sobre racismo" [sem link].

Primeiro passámos da fase "os portugueses não são racistas" para a fase "será que os portugueses são racistas?". Agora estamos na fase "não quero saber quão racistas somos".

Publicado por ruitavares em quinta-feira 14 abril 17:23 | Comentários (16)

O Papa do Poder

Uma vergonha. Sem internet em casa (até para a semana, em que voltarei a postar normalmente), nem a produtividade mínima, com os textos do "Expresso", consegui garantir. Aqui estão os quatro, dos dois últimos dois fins de semana.

A morte de Karol Wojtyla transformou, de súbito, um Papa controverso numa figura inatacável. E, no entanto, este pontificado significou, em muitos aspectos, o maior retrocesso da Igreja desde da esperança do Concilio do Vaticano II.

Há coisas que não são novas: a exclusão das mulheres do sacerdócio, o desprezo pelos homossexuais, a recusa da pluralidade de organizações familiares, a repulsa pelo prazer sexual. Enfim, o medo da liberdade. Ele é a condição para a manutenção do poder da Igreja Católica sobre a organização das nossas sociedades e, mais importante, das nossas cabeças.

O principal objectivo do pontificado de João Paulo II foi, em grande parte, conseguido: reforçar o papel político da Igreja. Passando à ofensiva contra a laicidade em Estados maioritariamente católicos. Tentando recuperar para o Vaticano o papel de árbitro na paz e na guerra. Legitimando moralmente o seu poder, através de um discurso social anti-liberal e contra a modernidade - mais do que contra o capitalismo -, ao mesmo tempo que, dentro da Igreja, dava força a movimentos próximos do poder económico. Ajudando o clero que, em países comunistas, lutavam contra a ditadura, mas perseguindo os que, na América Latina, se associavam a movimentos sociais e políticos contra regimes opressores.

É verdade que pôs em causa o passado da Igreja, mas não deixou que outros, na Igreja, pusessem em causa o seu presente. Calou-os. Foi um dos maiores defensores do diálogo com outras Igrejas e um dos maiores opositores ao diálogo dentro da Igreja.

Foi o Papa das multidões e da televisão. Foi o mais eficaz dos papas. Mas nem ele pode travar o definhamento da Igreja nos países mais desenvolvidos. Nos países onde, não havendo escassez, a liberdade individual é condição de felicidade. Um Papa muda a Igreja. Mas não muda o Mundo. Felizmente.

"Expresso", 10 de Abril de 2005

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 14 abril 16:58 | Comentários (14)

Compromisso Portugal

Como já é da praxe, os empresários portugueses deram a sua opinião sobre o programa do Governo. Ficaram, ao que parece, desiludidos. Estão no seu direito. Mas está na altura de perguntar a quem diz ter um compromisso com Portugal o que está disposto a fazer pelo País.

O tecido empresarial português é digno de um país do Terceiro Mundo. O investimento em investigação e desenvolvimento é quase exclusivamente público. Metade das empresas portuguesas foge ao fisco. Do que se gasta em formação profissional, quase nada é para trabalhadores no activo e quase tudo é subsidiado pelo Estado. Não faltam excepções a este cenário, mas meio século de proteccionismo marcou o estilo.

No entanto, de cada vez que estes empresários falam é para nos explicar como deveríamos ser governados. E ninguém lhes pergunta quanto investem em investigação. Quanto tempo de formação profissional é dado aos seus “colaboradores”. O que fizeram as empresas têxteis com os subsídios para a sua modernização.

Não vale a pena dizer que o problema é dos trabalhadores que temos, da lei que temos, do país que temos. A Siemens, com os mesmos trabalhadores, tem mais de mil e quinhentos engenheiros dedicados à investigação. A Autoeuropa, com a mesma lei, usa a negociação para disputar a produtividade. Muitas empresas, quase sempre estrangeiras, no mesmo país, provam que é possível fazer de forma diferente.

Não achava mal que os empresários mais reivindicativos assumissem um compromisso com Portugal: esquecerem a próxima empreitada e o próximo concurso decidido pelo próximo Governo. Querem menos Estado? Sejam mais empresa. Mas se tudo o que têm para dar ao País são lições de ciência política, bem podem vir os espanhóis tomar conta disto. Suspeito que não ficaremos pior servidos.

"Expresso", 10 de Abril de 2005

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 14 abril 16:57 | Comentários (3)

A fauna do Atlântico

É uma nova revista. Esteve para se chamar “Ocidente”, mas porque o termo incluía a tibieza ideológica da Europa, optaram por lhe chamar “Atlântico”. Nada de especial a dizer. É apenas um exercício de tradução livre e caricatural da mesma lenga-lenga neo-conservadora do costume. Talvez um pouco mais arrojado: até há quem se aventure na defesa da guerra do Vietname. É de homem. Mas a fauna do “Atlântico” é que me interessa.

A direita portuguesa não tinha, ao seu dispor, desde a ressaca da ditadura, intelectuais. Tinha alguns economistas, juristas e tecnocratas, é verdade. Mas faltava quem lhe desse uma certa respeitabilidade ideológica. Nesta matéria, a direita não é diferente da esquerda: precisa de intelectuais para ganhar legitimidade. Quanto mais não seja, para zurzir nos intelectuais sem parecer taberneira.

Recentemente, entusiasmada com ascensão de uma direita agressiva do lado de lá do Oceano, apareceu esta fornada. É verdade que, quando se fala dos costumes, o macho latino que neles habita sai das cavernas. É também verdade que, quando se fala da história portuguesa mais recente, lhes foge o pé para o chinelo. Mas, regra geral, tentam afastar-se da telúrica direita portuguesa.

Os seus inimigos principais são o “pensamento dominante”, o “relativismo”, o “multiculturalismo”, os europeus em geral e os franceses em particular. Qual seita estalinista, encontraram no lado de lá do Atlântico o Sol dos povos.

Agora têm uma revista. A “Atlântico” nasce com a ajuda de empresários como de Jorge Mello, dados ao mecenato ideológico, e recebe uma providencial boleia do “Público”, que transformou o primeiro número num encarte gratuito e lhe garante a distribuição e produção no futuro. Não é qualquer grupuculo que tem direito a tamanhas mordomias. Sim, porque do ponto de vista da sua representatividade ideológica, estamos a falar de um grupusculo. Moral da história: ao contrário do que pensam, é possível viver sem o mercado. Basta ter os amigos certos.

"Expresso", 3 de Abril de 2005

PS: Depois deste texto, escrito na manhã da publicação, já li toda a revista. Para a semana escreverei um post sobre algumas pérolas deste "Atlântico".

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 14 abril 16:54 | Comentários (4)

A Europa de Frankenstein

Para defender o “sim” à Constituição Europeia, a televisão francesa tinha convidado José Manuel Barroso para o programa “Cem minutos para convencer”. Mas Barroso tem-se desdobrando em declarações públicas, cada uma mais desastrada do que a outra. A entrevista, que estava marcada para Abril, foi cancelada. Argumento: seria demasiado tempo dado a um dos lados da contenda. No caso, cem minutos de borla para o “não”.

Mas o menor dos problemas dos franceses será Barroso. À direita, é a entrada da Turquia. À esquerda, é a directiva Bolkestein. O Partido Socialista Francês, em tudo diferente do nosso PS, está partido a meio.

Nada em comum entre as duas posições. A entrada da Turquia só pode ser vista como uma boa notícia. Um rude golpe para os que acreditam no choque de civilizações. Já com a directiva Bolkestein, a história é outra. Nela encontra-se o espírito da Constituição proposta. Aplicar, na criação de um mercado único de serviços, a lei do país de origem das empresas é um truque. Os liberais querem conseguir na secretaria o que não conseguem nas urnas: uma lei laboral menos rigorosa. Para o conseguir recorrem, se preciso for, à chantagem.

Venha uma constituição. E venha, urgentemente, a união política. Mas que não se perca na Europa o que se ganhou nos Estados. A bem da União, espero que os franceses chumbem esta Constituição. Nesta Europa, onde não mandam todos o mesmo, é dos eleitores franceses que agora dependemos.

"Expresso", 3 de Abril de 2005

Publicado por danieloliveira em quinta-feira 14 abril 16:52 | Comentários (3)

Podemos sempre diminuir a esperança média de vida

O programa do governo defende que "é condição essencial que a idade de reforma vá acompanhando a evolução da esperança média de vida". Ontem, em declarações à Lusa, uma fonte do Ministério do Trabalho afirmou que essa proposta "não significa que a idade da reforma vá aumentar".

Publicado por pedro sales em quinta-feira 14 abril 11:55 | Comentários (21)

abril 13, 2005

No país dos Aiatolas

O Parlamento do Irão aprovou ontem uma lei que autoriza o aborto, até às 16 semanas, em caso de deficiência mental ou malformação do feto, alargando o âmbito de uma lei que apenas permitia o aborto nos casos em que a vida da mãe estivesse em risco. Ou seja, o Irão do “eixo do mal” e dos Aiatolas, terá um quadro legal cuja única diferença em relação ao português será a proibição do aborto nos casos em que a mulher foi violada.

E, mesmo essa medida de mediana humanidade, é posta em causa pelos aiatolas cá do burgo. O ano passado, quando interpelado no “Prós e Contras” da RTP, se aceitava a legalidade do aborto nos casos em que a mulher é violada, um dos dirigentes do pomposamente intitulado movimento Pró-Vida respondeu seca e prontamente que não. Uma vida é uma vida, disse. É esse o problema existente no único país europeu que persegue as mulheres que fazem um aborto. A lei de um Estado laico continua a ser ditada por considerações teológicas e por fundamentalistas que, em nome de uma visão abstracta da humanidade, se revelam da mais fria impiedade sobre os seres humanos.

Publicado por pedro sales em quarta-feira 13 abril 18:34 | Comentários (38)

Hoje, às 18h30

HELENA MATOS é a convidada do próximo É A CULTURA, ESTÚPIDO!, que vai ter lugar no próximo dia 13 de Abril (quarta -feira), às 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz. HELENA MATOS é a Directora da Revista Atlântico, a propósito da qual falaremos de revistas de ideias e pensamento político em Portugal, numa conversa com a jornalista Anabela Mota Ribeiro. Ricardo de Araújo Pereira apresenta e, como sempre, faz o stand-up final. Poderá também ouvir as escolhas dos críticos e jornalistas residentes: José Mário Silva, Pedro Mexia, João Miguel Tavares, Nuno Costa Santos, Daniel Oliveira e Pedro Lomba. Os encontros É A CULTURA, ESTÚPIDO!, organizados pelas Produções Fictícias, continuarão a realizar-se até Junho de 2005, uma vez por mês, sempre à quarta-feira, pelas 18.30h, no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz.

Publicado por danieloliveira em quarta-feira 13 abril 12:51 | Comentários (10)

abril 12, 2005

Atribulações de conservadores carreiristas


À esquerda, Ed Matts e Ann Widdecombe protestam contra a deportação de uma família nigeriana. À direita, a mesma foto, alterada em obediência à linha partidária dos conservadores sobre imigração. Ver notícia aqui.

Em Inglaterra, a campanha eleitoral arranca. A campanha dos Conservadores aposta forte no sentimento anti-imigração. A direita, em desespero de causa, vai buscar as suas ideias à extrema-direita. Talvez por ter acompanhado o momento alto do lepenismo em França, o lema dos tories parece-me especialmente tenebroso: "Are You Thinking What We're Thinking?". Isto é Le Pen puro: "vocês sabem que eu não digo tudo o que penso sobre os pretos e os árabes e os outros; vocês, por outro lado, também não precisam de dizer a ninguém, mas votem em mim, porque eu penso o que vocês pensam". Além de oportunista, cobarde e desonesto.

A foto acima, alterada para fazer parte do folheto de um carreirista e desajeitado candidato conservador, Ed Matts, é uma ilustração colorida de um assunto muito sério. Aqui em Portugal, e agora que a direita está na oposição letárgica, não demoraremos muito a ver os mesmos reflexos.

Já agora, aproveito para dizer que nestas eleições estou a torcer pelos Liberais-Democráticos: anti-guerra do Iraque, pró-direitos civis e individuais, pró-imigração, liberais nos costumes e na política, sociais-democráticos na sociedade, pragmáticos na economia. Pelo que vejo, estão neste momento à esquerda dos trabalhistas. Além disso, como o sistema inglês favorece as maiorias absolutas e o bipartidarismo, coisas que acabam por ser sempre nefastas para a democracia, junto o útil ao agradável.

Publicado por ruitavares em terça-feira 12 abril 19:55 | Comentários (16)

Revelações

O papa afinal era partidário do regime comunista polaco!



O papa afinal era o quinto membro dos U2!



O papa afinal nem era católico! Era xiita!



O papa afinal era a favor do preservativo!

De análise por hoje é tudo. O espaço para a homilia já estava ocupado, e bem, pelo Rui, que ainda é mais crente no poder do papa do que muitos católicos!

Publicado por bruno cardoso reis em terça-feira 12 abril 19:17 | Comentários (18)

abril 11, 2005

São João Paulo Magno, aquele do preservativo

Em verdade, em verdade, vos digo: na semana que terminou foi mais fácil um camelo passar pelo pixel de um écran de plasma do que um texto verdadeiramente equilibrado sobre o papa passar pela mesa de um editor de jornal. Claro que todos estavam escritos com uma antecedência que por vezes se media em décadas. No caso do The Guardian, até o autor do obituário morreu antes do obituário ser publicado. Noutros jornais, o correspondente que estava em Roma continuava em simultâneo a debitar ensaios em varios números pejados de notas de rodapé.

Quando chegou a hora, a imprensa despejou as toneladas de papel que já tinha preparado com todo o vagar nos últimos anos e a televisão os milhares de horas de documentários e notícias prontos desde o tempo do último chefe de redacção. Sobre isso se acumularam ainda as horas de transmissão ao vivo, as entrevistas, os repórteres no local. Algures numa redacção, alguém terá dito: "se não agora, quando?"

Em todas estas entrevistas, em todos estes obituários, em todas estas colunas de opinião se notava que os autores estavam conscientes de quão fino era o gelo que pisavam. Por isso tivemos Mário Soares a concordar com Timothy Garton Ash a concordar com José Manuel Fernandes a concordar com Luís Osório a concordar, a concordar, a concordar. Mesmo nos blogues, qualquer espertinho que esticasse a cabeça da toca era tratado como se fosse o culpado pela morte do próprio Karol Wojtila.

Não que não tenham saído coisas boas desse concordar todo. Por exemplo: durante uns tempos vamos poder descansar da ladaínha segundo a qual Reagan acabou com o comunismo. Durante uns tempos tera sido afinal o papa. Depois chegará o dia de Thatcher. Só mais tarde se lembrarão de Havel, Walesa e Gorbatchev e talvez, com sorte, dos próprios povos dos países do Leste da Europa. Mas isso só quando não houver mais obituários pré-redigidos.

Houve quem, todavia, fizesse mais do que apenas concordar. Houve quem entrasse em roda livre. Esses são aqueles que, de forma macabra, se sentem vitoriosos com esta morte. Hoje, em simultâneo, em dois jornais diferentes, o DN e o Público, João César das Neves e Mário Pinto decidiram canonizar o papa recém-falecido. Os títulos dos seus textos são

"A Intercessão de São João Paulo Magno"
e
"São João Paulo Magno, o Papa do terceiro milénio" [sem link]

Santo! E não só santo, mas magno, como Gregório Magno e Alberto Magno. Esta nem para Agostinho de Hipona, Tomás de Aquino, Francisco de Assis ou António de Lisboa – a mais rápida canonização de sempre – se lembraram. Mas não é certamente por ignorância que estes dois ilustres membros da Opus Dei e professores da Católica tratam uma canonização como se fosse favas contadas. Eles sabem muito bem que a canonização tem os seus prazos e as suas hierarquias e que um fiel que se substitua ao espírito santo e à igreja nessa tarefa está, objectivamente, a incorrer num pecado