Começo a perceber a popularidade noticiosa do amnésico pianista. Como diria Pacheco Pereira, está tudo lá, basta estar com atenção e ler os sinais: o pianista corresponde a uma espécie de homem ideal para certo imaginário feminino: é jovem, bem parecido, não fala, não se lembra de nada e ainda toca piano.
O Ministério da Educação precisa de uma “regeneração do sistema”. Tudo porque os recursos dedicados à Educação “são já hoje suficientes para proporcionarem melhores resultados , não fora um sistema sem eficiência e sem eficácia”. Assim sendo, o que é necessário é um “desafio de gestão ao qual é avessa a tradição cultural da Administração Educativa, que para ele não está preparada ou sequer vocacionada”, mais a mais quando se encontra refém dos “interesses individuais e egoístas, de educadores e professores, de funcionários não docentes, de sindicatos, dos editores, dos conselhos executivos, dos burocratas da Administração Pública”.
- Os formulários estavam errados; havia erros de registos; não houve verificação dos dados; manipulação da base de dados para a inserção de candidaturas fora de prazo e para a eliminação de candidaturas já existentes; saturação dos canais electrónicos; as operações dos sistemas de informática, que deviam ser feitas pelo Ministério, foram entregues à Compta; não houve coordenação entre os vários serviços envolvidos; deficiências de programação.
Conclusões do relatório, apresentado pela ex-ministra da Educação, Maria do Carmo Seabra, sobre o problema com o início do ano lectivo de 2004 .
O que é que ambos os parágrafos têm em comum? O nome de Abílio Morgado. Autor do livro “Educação Mudar é Possível - o que falta? Recursos ou políticas”, de onde foram retiradas as citações, Abílio Morgado foi também o secretário de Estado da Administração Educativa responsável pelo sistema de colocação de professores (e que entregou a sua gestão à Compta), responsável pelo caos no início do ano lectivo de 2004.
Que Abílio Morgado queira escrever um livro, tudo bem. Está no seu direito. Faça-nos é um favor e escreva sobre pecuária, politica de transportes ou mesmo um romance. O que quiser. Não publique é nada que tenha a ver com Educação, muito menos a dizer que tudo aconteceu devido a “falhas inaceitáveis de alguns funcionários públicos de topo [que] penalizaram gravemente o novo modelo do concurso de docentes, desperdiçando todas as condições objectivas para uma concretização sem sobressalto”.
Há limites para a falta de vergonha. E, neste caso, foram ultrapassados em muito. Fica-se apenas sem saber o que é que levou Manuela Ferreira Leite e Marcelo Rebelo de Sousa a associarem-se ao lançamento deste livro, caucionando intelectualmente a vergonha sem qualificação que é ver um responsável politico a atacar tudo e todos sem assumir nenhuma responsabilidade pelo sucedido e ainda vir dar lições de moral sobre como é que o Ministério deve ser gerido.
O Albarnabista
Suplemento alfarrabístico-jornalístico do BARNABÉ
Ano I – Número 1
Estreia-se O Albarnabista. É um suplemento do BARNABÉ que pretende trazer ao universo volátil dos blogues o universo volátil da imprensa de antanho. Todas as publicações aqui reproduzidas provêem de arquelogia praticada nos alafarrabistas do país, sótãos familiares e caves húmidas, com natural tendência sobre temáticas políticas e culturais. Falar-se-á apenas de periódicos anteriores ao século XXI. Aceitam-se sugestões através do habitual endereço.
Neste número: A Illustração, revista publicada em Paris entre 1884 e 1892.
Em destaque na imagem: uma “breve” sobre os ataques bombistas dos niilistas russos aos imperadores da Rússia. Na gravura, empregados dos caminhos-de-ferro russos procedem à desobstrução de uma linha onde viajavam os czares. A notícia termina: “Estas repetidas tentativas d’assassinato contra o Imperador teem de tal modo pôsto em sobresalto a Imperatriz de Rusia, que os medicos receiam immenso pela sua vida, e aconselham-na a que passe tres mezes em Veneza. É o que sua Magestade vae agora fazer. Pobre Imperatriz...!”.
De Eça a Zola
“Revista de Portugal e do Brazil”, lê-se logo abaixo do cabeçalho de A Illustração. Mas a verdade é que a publicação dirigida pelo jornalista Mariano Pina foi muito mais europeia do que qualquer outra coisa. Publicada em Paris entre 1884 e 1892, reuniu nas suas páginas a nata das letras portuguesas dos finais do século XIX: Cesário Verde, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco e, também, Émile Zola. “A nossa revista só procura um absoluto ecletismo que se ponha ao abrigo das influência de partido”, escrevia Pina numa nota editorial do número 22 (20-11-1888). Esse ecletismo e um sentido progressista estão bem patentes nos cinco números encontrados em Lisboa pel’O Albarnabista.
Inteligentemente ilustrada – a capa é sempre uma “photo gravura” que reproduz um monumento nacional ou estrangeiro (o frontespício do número 22 de Novembro 1888 apresenta “O estado da Torre Eiffel no dia 31 de Outubro de 1888 (178 metros de altura), vendo-se os dois primeiros andares já construídos) –, A Illustração é um luxo em termos de imagem: cenas de actualidades internacionais, reproduções de obras de arte, retratos de intelectuais e artistas. A capa do número 22 de 20 de Novembro de 1889 abre-se a um acontecimento de última hora: a morte do rei D. Luís, mostrando a “Chegada do carro fúnebre à igreja de São Vicente de Fora”. Lá dentro, três aspectos do velório acompanhados da seguinte nota: “Foi Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro o único artista a quem Sua Magestade a Srª D. Maria Pia permitiu que visitasse a câmara ardente de Cascais, e fizesse um croquis do cadáver d’El-Rei o sr. D. Luís I”. Neste mesmo número, um dos vários textos evocativos do monarca salienta a excelência das traduções por ele feitas de algumas peças teatrais de William Shakespeare.
De artigos de opinião a poesia, alguma prosa humorística ou reportagens, A Illustração revela querer estar sempre em cima dos acontecimentos, culturais ou políticos. Uma das prosas mais famosas (infelizmente não encontrada nestes números d’O Albarnabista) é a carta de Eça ao director celebrando o escritor francês Vítor Hugo (a sua mais recente reprodução está em Eça de Queiroz Jornalista, uma antologia de Maria Filomena Mónica publicada em 2003 pela editora Principia).
Mas há algumas preciosidades nos números aqui tratados. No número 8, por exemplo (20-5-1887), um extenso artigo de Luiz de Magalhães sublinha a importância de “Oliveira Martins e ‘A Província’”, periódico português da época. No número 20 de 20 de Outubro de 1887, Pina dedica página e meia de editorial ao cardeal patriarca de Lisboa, contra quem se insurge por este ter proibido os clérigos de participarem nas exéquias do maçon António Augusto de Aguiar. O espírito do progresso e os cuidados higienistas estão por todo lado. Uma “breve” deste mesmo exemplar alerta para o “Envenenamento pelo tabaco”. No número que traz a Torre Eiffel na capa faz-se uma longa reportagem sobre a Exposição Universal de Paris e diz-se que aquela é uma oportunidade única para Portugal mostrar o que vale. Páginas à frente, outra “breve” curiosa: “O Sol como força motriz” – referência à ideia revelada à Nature pelo cientista M. Ericsson, que propõe “um grande motor que recebesse todo o calor dos raios solares” como fonte de energia.
Mariano Pina
Mariano Pina (1860-1899), a par do seu irmão Augusto (1872-1938), foi personalidade importante no mundo das letras portuguesas. Estreou-se no Diário do Comércio em 1878 e foi correspondente da Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro em substituição de Guilherme de Azevedo. Para além de A Illustração, dirigiu ainda os periódicos O Espectro: castigo semanal da política (Paris, 1890) e O Nacional: jornal político, noticioso, absolutamente independente (Lisboa, 1890-91). Já Augusto de Pina, que frequentou a Academia Julien em Paris, foi director artístico do Teatro Nacional e colaborou na Ilustração Portuguesa. Uma colecção completa d’A Illustração, bem como autógrafos de vários colaboradores e referente correspondência, encontra-se guardada na Biblioteca Nacional – uma compra de Dezembro 1987 da Secretaria de Estado da Cultura com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian num leilão da Silva’s Leiloeiros.
FICHA
A Illustração
Director e proprietário: Mariano Pina
Local e data de publicação: Paris, 1884-1892
Na colecção d'O Albarnabista:
Nº 8 – 4º ano – volume IV, 20 de Abril de 1887
Nº 20 – 4º ano – volume IV, 20 de Outubro de 1887
Nº 22 – 5º ano – volume V, 20 de Novembro de 1888
Nº 1 – 6º ano – volume VI , 5 de Janeiro de 1889
Nº 22 – 6º ano – volume VI , 20 de Novembro de 1889
O Terras do Nunca chama a atenção, com um título um pouco excessivo, para um post que aqui escrevi criticando a nomeação de Nuno Cardoso para as Águas de Portugal e a consequente indemnização milionária dos seus ex-administradores. Não fui o único a fazer essa associação, mas devia ter tomado conhecimento do desmentido do governo. O erro é meu e assumo-o, apesar de me parecer que o Terras do Nunca é demasiado rápido a tirar conclusões sobre as motivações do meu erro. De facto, o governo desmentiu a notícia do Expresso e diz que não vai indemnizar os tais gestores. Até prova em contrário, o que publiquei estava incorrecto nesse ponto. Está feita a correcção.
Sobre o Nuno Cardoso mantenho tudo o que disse.
p.s: o título do post do Terras do Nunca levanta uma questão interessante. O que é que é caracteriza um blogueiro políticamente activo? Ou, colocando a questão ao contrário, quem é que, escrevendo num blogue que centra a sua atenção preferencialmente na política e na agenda que a domina, não é um "blogueiro politicamente activo"? As "agendas", já se sabe, são como os chapéus. Há muitas.
O Pedro Sales e o Rui Tavares nao gostaram de um texto que eu escrevi. Nada tenho a objectar. Resolveram adoptar uma pose de defensores da democracia, o que jà me parece um bocadinho exagerado... para nao dizer arrogante, com a ironia adicional de me acusarem a moi do dito pecado!
Democracia querer dizer respeitar a maioria e a minoria, respeitar os que votaram OUI e os que votaram NON. Ou serà que o Rui e o Pedro defendem que quando a direita ganha as legislativas, temos todos de passar a ser de direita? Aceitar um resultado é diferente de o aceitar acriticamente. Democracia quer dizer sobretudo respeitar a diversidade de opinioes, antes, durante e depois do voto. Maiorias também o Hitler e o Mussolini tiveram, referendos até Salazar os fez, faltou foi o resto.
Dei o meu merci democraticamente a quem ganhou (pelo contributo que deram para um grande avanço no meu doutoramento). Parece que ao Le Pen e ao Villiers é proibido. Mas o objectivo era muito simples: realçar que este NON é uma farsa na minha anàlise independente e apartidària, que é um direito que tenho aqui ou em qualquer lugar onde haja democracia a sério. Nem vou desenvolver o tema do voto contra Chirac ou este ou aquele dirigente. Ou do populismo fàcil dos referendos: vota-se no que apetecer e outros que lidem com os consequencias. Ou nos argumentos de sarjeta usados por alguns defensores do NON - que o tratado proibia o aborto ou a existencia de sector publico, por exemplo. Vou antes concordar com a grande novidade que o Rui e o Pedro aqui vieram dar: uma parte dos que votaram NON querem ainda mais Europa, sao ultra federalistas!!! Eu pensava que tinha dito isso no meu texto original, mas devo estar enganado. Ou seja, em França existe uma maioria clara a favor da UE, com estas reformas ou outras ainda mais ambiciosas!
Fico muito espantado por o Pedro Sales querer um Parlamento Constituinte, quando o preocupa muito o peso dos grandes paises nas novas regras de votaçao. Eles naturalmente teriam a maioria nesse tal Parlamento Constituinte. Mas realmente um texto aprovado por quatro ou cinco grandes Estados europeus e imposto a todos os outros dificilmente poderia ser descrito como democràtico.
Pode ser que tudo isto tenha sido um grande passo em frente da UE. Que Blair e os ingleses, ou os nossos amigos de Leste, se convertam subitamente ao federalismo e que o combate ao grande capital passe a ser consensual na Europa. Mas parece-me que é capaz de demorar mais do que os tres anos que foram precisos para chegar a este acordo. Desde uma Franco-Germania, a nucleos duros diversos em que Portugal pode conseguir entrar ou talvez nao, até ficar-se na mesma e algumas das reformas do tratado entrarem em vigor discretamente, tudo pode acontecer. Mas grande passo em frente para onde, com quem, para fazer o que?
Nada vejo neste renascer dos egoismos nacionais a que nao reduzo o NON mas que conta, e muito, neste resultado, que me alegre. Pormenor menor, mas com algum peso no evoluir deste maravilhoso projecto de uma Europa alternativa, nas proximas presidenciais francesas ninguém de esquerda aparece neste momento com possibilidades de ganhar depois de um referendo que a fragmentou completamente. Mas suponho que isso seja a democracia...
PS - vou suspender por umas semanas os meus postes por excesso de trabalho.
Público.pt: «Vítor Constâncio afasta candidatura à Presidência da República.»
Cientistas usam luz para controlar cérebro de moscas à distância.
A democracia, como diz a canção de Sérgio Godinho, pode mesmo ser “o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros”. Mas, como nenhum outro sistema, tem vantagens inegáveis e uma delas é precisamente o debate de alternativas. Discutem-se, vota-se e “que ganhe o melhor”. É isso mesmo que parece escapar ao Bruno.
A arrogância intelectual deste post é um bom exemplo do tipo de chantagem que os franceses acabaram, precisamente, de rejeitar. Para o Bruno não existe alternativa. Ou o “sim” ou o vazio. Mais a mais quando quem votou “não”, ou é racista, reaccionário ou ultrafederalista. Pelo meio, ainda conseguiu arranjar algum espaço para o Pacheco Pereira e para o Pedro Mexia.
O argumento é fulminante: quem votou “Não” votou ao lado do Le Pen. É pena é ter as pernas curtas, ou então sou forçado a concluir que o Bruno se encontra orgulhoso de estar ao lado de um corrupto como o Berlusconi, de Durão Barroso ou de alguém, como o autor do projecto de Constituição, Giscard D'Estaing, que ainda há três dia dizia que se o “não” ganhar lá terá que se realizar um novo referendo.
E fico ainda ansioso por perceber como é que o Bruno caracterizará o sentido de voto dos Holandeses, Polacos ou Checos que, segundo as sondagens, também se inclinam para dizer “não”. Porque o que é mais estranho no post do Bruno, que só entendo por ter sido escrito a “quente”, é que ele não se detenha, por um segundo que seja, para se questionar porque razão a maioria dos povos a quem a pergunta está a ser feita se inclina para dizer “não”. Se a Constituição é o único caminho, e não há outra solução possível, parece que o melhor mesmo parece ser mudar de cidadãos...
Foi esse o caminho argumentativo seguido pela maioria da imprensa portuguesa. O “não” ganhou porque as pessoas decidiram misturar tudo e, num referendo sobre a Constituição Europeia, discutiram questões internas e quiseram penalizar os políticos nacionais. O tom é pejorativo, mas foi precisamente isso que aconteceu - e é correcto que assim seja. Em primeiro lugar porque, no actual processo de integração europeia, não há nenhuma discussão politica relevante que não tenha que ser discutida à escala europeia. Do défice ao ensino superior, ou da politica fiscal à ambiental, tudo é Europa. Querer discutir a Constituição Europeia sem discutir a Europa, isso sim, é que seria uma farsa.
Penalizar os políticos nacionais, e a sua arrogância e chantagem, parece-me também do mais sensato que se pode fazer em democracia, principalmente quando entre eles podemos encontrar personagens como Giscard D'Estaing. O último argumento é mesmo o mais estúpido. A votação não teve nada a ver com a Europa, dizem os comentadores televisivos: foi um “voto francês”, entendível à luz das dificuldades da economia nacional. Espero que estejam dispostos a dizer, já daqui a 3 dias, que este é um “voto holandês”, e checo, e inglês, e...
Os franceses votaram, esmagadoramente, na rejeição deste projecto para a Constituição Europeia. Fizeram bem. Recusaram um processo que subverte as regras da democracia, tornando uns mais iguais que os outros, ao aceitar que nenhuma decisão se toma contra os interesses dos quatro maiores países (entre eles, curiosamente, a França).
Recusaram um processo que começou mal, com a nomeação de uma “Comissão de Sábios” e não, como devia ser, com a eleição democrática de uma Assembleia Constituinte. A questão parece formal, mas é um sinal preocupante do défice democrático existente num processo de construção europeia que tem sido feito, no seu essencial, longe da discussão pública e de costas voltadas para os cidadãos europeus.
Onde há democracia na União Europeia, como no Parlamento Europeu, não há poder. E onde está o poder, como é o caso da Comissão ou do Banco Central Europeu, não há democracia. Ou seja, não há debate de alternativas, reduzindo o espaço da participação cidadã e democrática.
Face à inexorável delegação de competências dos governos nacionais na União, e a consequente diminuição do espaço de manobra dos governos nacionais, a solução não é gritar que queremos a “nossa” soberania, como o fazem os nacionalistas, é exigir espaços de participação e democracia à escala europeia.
Votar “não”, ao contrário do que o Bruno se recusa a admitir, pode muito bem ter sido o voto mais europeu.
Já escrevi aqui que estou mais a favor do que contra esta constituição europeia. Estaria muito mais a favor, evidentemente, de outra constituição europeia, mais simples e sobretudo nascida de um verdadeiro processo constituinte. Tenho contudo, um problema: essa outra constituição não existe, e não se sabe se rejeitar a primeira será uma boa artimanha para se conseguir a segunda ou apenas a forma mais trapalhona de não se ter nenhuma.
Pois é. Parece uma coisa pouco frontal, mas quando não se tem as cartas todas a vida fica táctica.
No meio desta trapalhada, dou por mim a preferir este non a uma situação arrastada que os políticos europeus, com a sua arte, pudessem fazer de conta que não viam. Mesmo discordando dele, há que dizer que o non teve os seus méritos.
Ou seja: se é para partir a loiça, que seja para a partir toda de uma vez, e logo no início. Agora venha o debate – e mais respeitinho pelos cidadãos europeus.
Já agora: a propósito de respeito, parece-me que o Bruno não fica bem na fotografia que mostra o seu post logo aqui abaixo no Barnabé. O Bruno dá aos lepenistas (entre outros) os parabéns por esta vitória – como poderia ter dado, com muito mais propriedade, aos nossos políticos de terceiríssima qualidade, como Giscard d'Estaing e Durão Barroso. Mas a vitória pertence aos 55% que votaram non e que têm todo o direito a fazê-lo sem vir um gajo do outro lado atirar-lhes o Le Pen à cara. Eu até acho que eles estão globalmente errados, mas não deixo de compreender muitas das suas razões.
Obrigado aos reaccionários de Villiers, aos racistas de Le Pen da França acima de tudo. Obrigado aos ultra federalistas de esquerda que querem um super Estado europeu para acabar com o desemprego e o grande capital... Um claro NON contra a UE e a favor de mais UE.
Pacheco Pereira diz querer uma Europa mais democrática e mais modesta. Brilhante! Mais federalismo e mais impotência. Pedro Mexia diz NON a uma Europa a galope num caminho claro. Devagar e sem saber para onde parece-me de facto o sentido deste NON.
Desastre? Desastre foi 1914. Hoje é a noite da farsa.
PS: Obrigado ao André Belo pela assistência técnica.
Primeiras projecções da TV5 dão 55% ao Não e 45% ao sim no referendo ao Tratado para a Constituição Europeia.

Seiyun

Shibam

Mukala

Presidente Saleh
O governo socialista afastou 4 membros da Administração das Águas de Portugal, indemnizando-os em 500 mil euros, nomeando Nuno Cardoso para o lugar. Com a confusão que vai na distrital do Porto do PS, espero bem que saia mais barato afastar o Narciso Miranda e o Orlando Gaspar do radar das autárquicas socialistas. O país agradecia.

Fernando Gomes, nomeado pelo Governo de José Sócrates como administrador executivo da GALP.

Nuno Cardoso, nomeado pelo Governo de José Sócrates para a administração das Águas de Portugal.
O João Miranda, do Blasfémias, aproveita o aumento do escalão máximo de IRS proposto por José Sócrates para louvar as virtudes de uma taxa única. É uma questão de “justiça”, argumenta. Sim, que essas modernices dos impostos progressivos só têm servido para “redistribuir dinheiro dos que produzem bens e serviços que a sociedade valoriza para os que não contribuem com absolutamente nada para o bem estar dos outros”.
Que o discurso meritocrático pode ser uma das mais perniciosas formas de consagrar e legitimar a desigualdade social já se sabia, mas mesmo assim não deixa de ser extraordinário ouvir alguém defender que a responsabilidade dessa desigualdade impende necessariamente sobre “aqueles que não se prepararam, que trabalham pouco e mal e que não produzem nada de valor”.
Negando ao Estado qualquer papel no sentido da redistribuição da riqueza por via fiscal, o discurso de João Miranda seria pouco digerível em qualquer local do mundo. Mas em Portugal, o país que se habituou, durante décadas, a ver os partidos do Bloco Central encherem a administração pública com os seus “boys” e “girls”, quase todos a receberem mais do que os tais 60 000 euros do escalão máximo do IRS, não pode deixar de ser quase obsceno ver alguém defender que, no país que conhecemos, esta medida sacrifica “aqueles que se prepararam durante toda a vida, que são rigorosos no que fazem, que desempenham exemplarmente uma profissão e que por isso agradam aos seus clientes ou empregadores ao ponto de estes lhes pagarem voluntariamente mais de 60 mil euros por ano devem ser penalizados por isso.”
Leio isto e fico-me a lembrar dalguns casos notórios de gente rigorosa no que faz e que, por isso, agrada aos seus clientes e empregadores. Uma injustiça, sem dúvida, para

Celeste Cardona, nomeada para a direcção da Caixa Geral Depósitos, depois do “brilharete” no Ministério da Justiça
.

Mira Amaral, três anos na CGD garantiram-lhe uma reforma vitalícia de 18 ooo euros mensais .
Para, calhando, ter a oportunidade de dizer que não a semelhantes ignóbeis:
"Abuso à liberdade: BP só anuncia na imprensa após verificar notícias"
in A Capital (sem link)
"Gigantes financeiros adoptam atitudes «vergonhosas», segundo revista de publicidade ADage
BP censura trabalho de media com "ameaças"
A empresa de combustíveis decretou a directiva «2005 BP Corporate RFP», que impõe limites aos media, numa tentativa de abolir notícias que a possam prejudicar. Banco de investimentos Stanley Morgan segue caminho da petrolífera: cortar publicidade na comunicação social se as notícias não forem positivas.
ADRIANA SILVA AFONSO
A petrolífera BP - British Petroleum- - e o gigante financeiro Morgan Stanley encostaram a comunicação social à parede, impondo condições, relativamente à publicação de notícias que digam respeito às empresas. Para a BP, o caso é simples - sempre que haja a publicação de um artigo, sem que a petrolífera seja informada previamente, a publicidade será cancelada de imediato.
Suspensão de publicidade é também o método adoptado pela Morgan Stanley sempre que um órgão de comunicação elabore e divulgue uma notícia que não agrade à empresa. Por outro lado, todas as notícias, tidas como controversas, antes de serem publicadas, deverão passar pela agência de publicidade para serem revistas e, se necessário, alteradas.
A decisão da BP, denominada por «2005 BP Corporate-RFP», segundo consta, ainda não se aplica a Portugal. Contudo, a nível internacional a directiva está já a criar polémica. De resto, a revista de publicidade Advertising Age (AdAge), tida com uma das mais conceituadas, reagiu de imediato usando a palavra «vergonha» para definir a atitude da petrolífera britânica, assim como a do banco norte-americano.
Nos dias que correm, a liberdade de imprensa é um direito estipulado, assim como a liberdade de expressão. Desta forma, as atitudes da BP e da Morgan Stanley roçam a censura e a ameaça, considera a AdAge. Isto porque, no fundo, o que pretendem é exterminar todas e quaisquer notícias que possam, de alguma forma, denegrir a imagem construída na sociedade."
Se uma das suas filhas chegasse a casa e lhe dissesse: “Pai, aderi ao Bloco de Esquerda”. Como reagiria?
Teria de respeitar, mas seria um desgosto profundo.
E se a opção fosse pelo CDS?
O sentimento seria o mesmo.
Jerónimo de Sousa, à revista Sábado de 26 de Maio
Se não os podes vencer junta-te a eles. Deve ter sido isso que passou pela cabeça dos responsáveis da Câmara Municipal de Glasgow quando decidiram introduzir um polémico esquema para combater os crescentes problemas de obesidade entre os mais jovens.
De há um ano para cá que os 29 escolas secundárias da cidade têm um programa, Fuel Zone Points , que oferece pontos se a alimentação escolhida pelos alunos for saudável. Assim, por cada água em vez da Coca-Cola ou salada no lugar das batatas fritas, os jovens acumulam créditos que podem trocar por bilhetes de cinema, consolas ou mesmo o mais recente iPod.
Uma oferta que torna os Happy Meal da McDonald´s tão eficazes para cativar os jovens como o último filme de Manoel de Oliveira, e que já fez descer o consumo de batatas fritas de 80 para 45%. É o que se pode chamar um verdadeiro programa de substituição. Largam a “junk food” pelo consumismo.
... dizem alguns franceses quando se lhe pede para falar do referendo. Quem disse que abandonaram o seu velho hábito de levar a política ao extremo? Mas para se controlarem e não fazerem sangue como no passado (ALERTA : IRONIA), falam pouco no assunto, pelo menos nestes dias finais. Nada de autocolantes na lapela. Mas parece evidente que esta falta de debate calmo e racional é mau sinal para o OUI. Isso e o pequeno detalhe das sondagens.
As pessoas parecem cansadas e fartas de argumentos (e de políticos). Muitos defendem convictamente o NON em nome da sagrada França, ou da salvação da humanidade e dos seus empregos. Exigem deste tratado constitucional e da Europa um milagre que nenhuma lei pode obter: a resposta a todos os seus problemas. Claro, Bush e Blair esperam ansiosos pelo NON. Nada que perturbe os convictos. A realidade nunca perturbou. Ou talvez isso tenha mudado, mesmo em França...
Quem quiser mais sobre o mesmo, ainda que requentado, pode ler isto.

Sanaa.
O som de fundo é um “sermão” gravado em cassetes que são vendidas na rua. Logo se cala quando os muezzin começam a sua cantoria. Primeiro um, depois outro, depois outro. O chamamento para a oração toma conta de tudo. Só no perímetro de Sanaa Velha há quase uma centena de mesquitas, com os seus minaretes com altifalantes.
Vou a uma dos milhares de minúsculas lojas do suq para comprar um vestido tradicional que quero oferecer. Regateio e fico contente com o preço final. De certeza que estou a pagar mais do que devo, mas sabe-me a conquista. 1.300 reais, uma fortuna. Cinco euros e meio.
Vou ter com as minhas companhias de viagem para almoçar. Chegamos a uma “tasca” de bancos corridos. Apesar dos nossos pedidos para que não o faça, o patrão pede a um cliente que mude para outra mesa. Este obedece, feliz, olhando deslumbrado para as ocidentais. Quando estou com elas sou invisível.
Vamos a uma parte nova da cidade, que elas, há mais de um mês em Sanaa, não conhecem. Apanhamos um táxi colectivo. Há quarto tipos de transporte em Sanaa: autocarros, umas carripanas velhas deliciosas com direito a paragens fixas; táxis colectivos, umas pequenas carrinhas de nove lugares, que vão apanhando e largando pessoas, seguindo um caminho mais ou menos lógico; táxis, onde se tem de negociar o preço antes, podendo a variação entre o preço proposto e o aceite contar-se em muitas centenas de reais; e as motos, que ainda não ganhei coragem para experimentar.
O transito é caótico. Não quero ser injusto, mas acho que só vi dois semáforos em toda a capital. Os sentidos, as regras de transito, tudo é meramente indicativo. A buzina é a forma de comunicação e de expressão de sentimentos permanente.
No regresso – o que fomos ver não tem nada para contar – as lojas estão todas abertas. E assim ficarão ate à meia noite. Sobretudo os carpinteiros. Ainda chegamos a tempo de ver o pôr-do-sol no terraço da escola internacional de árabe, em Sanaa Velha. Nem consigo descrever as cores dos edifícios – que julgo serem de barro – e os efeitos de luz. À medida que anoitece as janelas das casas ficam coloridas quando as luzes das casas se acendem. Quase todas as casas têm vitrais. Jantamos ali mesmo, no terraço. Trouxe vinho. Uma garrafa. É permitido, a cada estrangeiro, trazer duas garrafas de álcool. Bebemos e sabe a pecado.
No dia seguinte partimos para o deserto de Hadhramout.
***
A camioneta é excelente. Melhor do que as portuguesas. Depois de transpormos as montanhas que cercam Sanaa, estamos na planície. Passamos por um mercado. Paragem. Os viajantes abastecem-se de qat, a droga de que vos falei antes. Um grupo rodeia-nos. Boquiabertos, olham para as minhas companheiras de viagem. São cada vez mais. Uma pequena multidão de mirones. Nem o excesso de roupa que elas usam, para o calor que está, os demove. Alguns fazem perguntas com o inglês que sabem. Tira-se uma fotografia, o que é sempre um momento de enorme excitação. Um deles, armado como tantos, exibe orgulhoso a sua kalashnikov. O motorista tenta-nos convencer a comprar qat.
A viagem continua. Terra primeiro. Depois areia fina e dunas. Depois calhaus pretos. Depois areia de novo. Oito horas assim. Passamos por imensos check points militares. Raramente nos mandam parar. A nossa camioneta é uma carreira normal, sem mais turistas do que nós.

Deserto de Hadhramout
Passamos por pequenas aldeias perdidas no deserto. Numa delas, almoçamos. Um restaurante e alguns camelos, nada mais. Uma placa manda ter cuidado com as minas que sobreviveram à Guerra entre o Iémen do Sul e o Iémen do Norte. O Iémen do Norte era islamista, implacável na aplicação da Sharia e aliado do Ocidente. O Iémen do Sul mais pobre, comunista e mais laico. Ainda se sentem as diferenças; dizem-me as minhas companheiras de viagem (eu ainda não fui ao sul) que por lá é mais frequente ver mulheres de cara destapada, uma raridade aqui pelo norte. Onde estou agora, na realidade, quase nem se vê mulheres.

Shibam
Entramos num oásis, que é o nosso destino. Passamos por Shibam, um aglomerado de edifícios com uma media de oito andares, feitos, mais uma vez, julgo eu, em barro. Chamam-lhe a “Manhattan do deserto”. Arranha-céus de outros tempos. Continuamos a nossa viagem. Shibam ficará para outro dia. A nossa base será Seiyoun, a maior cidade das redondezas, dominada por um palácio onde viveu o sultão Al Kathire. São 16 edifícios brancos e imponentes, que mais tarde foram transformados em forte.

Palácio de Al Kathire, Seiyoun
As ruas de Seiyoun estão cheias. No Iémen todo o dia é dia de feira. Iluminações "de natal" enfeitam as ruas. Foram postas para comemorar os 15 anos da unificação. Não há cidade que não esteja assim. O Presidente Saleh não olhou a despesas num pais miserável e tratou, na leva, de espalhar fotografias suas por todos os cantos do pais. Saleh de fato e gravata, Saleh de turbante, Saleh fardado, Saleh beijando crianças, Saleh indicando ao seu povo o caminho, Saleh para todos os gostos. O bigode de Saleh e omnipresente. Só consegue rivalizar com as fotografias do Xeque Yassin. Mas essas são escolha do povo, bem embaraçosa, por sinal, para um governo que alimenta uma profunda relação amorosa com Washington. O Hamas é bastante popular por estas bandas. E para a causa palestiniana os iemenitas, pobres ou ricos, inventam dinheiro para contribuir.
Depois de Seiyoun, iremos para Shibam. Depois a cidade portuária de Mukala. Por fim, a ilha de Socotra [Socotorá], quase na costa africana, mas ainda território iemenita. Disso falarei mais tarde. Agora passo a minha primeira manhã em Seiyoun, numa agradável esplanada de um jardim da cidade, onde bebo um batido de manga com groselha e um chá quente (tudo dulcíssimo, como sempre) enquanto uma silenciosa plateia nos observa. Não é, claro, em mim que estão interessados.
...foto tirada do site http://www.jornalinside.com
Devo dizer que pagarei com um sorriso nos lábios a minha taxa de 42% de IRS no dia em que tiver um rendimento superior a 60 mil euros. Não que seja assim uma coisa altamente provável, mas enfim.
O défice que encontrámos é muito superior ao que esperávamos encontrar... o IVA tem de aumentar de 19% para 21%.

...ou a minha estadia parisiense.
Deixo esta perplexidade, se ganhar o NON, quem é que ganhou: o Le Pen ou a ATTAC? Com quem é que se fala para renegociar o tratado (pois...)? Para tudo há remédio, mas alguns são bem amargos.
Foto cortesia do Nouvel Obs
DN Online: Monteiro com Carmona.

António Guterres é o novo alto comissário da ONU para os refugiados.
Acho piada a esta tendência comentarista para espalhar a culpa do défice pelas aldeias. Se continuamos a dizer que desde o 25 de Abril ninguém o controla não há como responsabilizar nenhum governo e os últimos - que subjugaram três anos de governação a este objectivo - saem impávidos e serenos. Afinal de que serviu a estonteante competência de Manuela Ferreira Leite e de Bagão Felix?


Licitem no link abaixo para comprar o ex-apartamento de Joseph Ratzinger em Bona: eBay-Artikel 4383370703 (Endet 19.06.05 13:43:58 MESZ ) - Domizil des heutigen Papst Benedikt XVI. von 1959-1963.
O PS culpa o governo PSD-PP pelo défice de 6,8%, o PSD responsabiliza os governos de António Guterres.





Bom trabalho: défice público é de 6,83%.

Tentarei, na medida do possível, ir contando a minha viagem por terras iemenitas. Na capital Sanaa [ou Saná], onde estou, não é difícil. Depois, não prometo nada.
Às 6 da manhã, a cantilena da chamada para a oração entra pela minha janela. Muitas cantilenas em despique. Não há mais nenhum som na cidade. Só a chamada para a oração. Como a cidade fica cercada por montanhas altas, os muezzin fazem se ouvir em eco. Parecem lobos a uivar. Ainda é de noite. Começou o dia em Sanaa.
Olho para a janela e vejo terraços desordenados e pequenos pátios internos, onde se come, se ouve música e se conversa. Como nas cidades do sul de Portugal. Como em qualquer cidade árabe. É o dia da unificação iemenita. Feriado nacional. Na rua, o barulho é permanente. As buzinas dos carros misturam-se com a música vinda de todo o lado. Na Estrada que circunda Sanaa Velha, que é um ribeiro em dias de chuva, até parece que souberam da vitória do Benfica, tal a festa de buzinas sem razão aparente. Em todo o lado se vende ou compra alguma coisa.
O primeiro suq [ou suco, como já se disse em português antigo e é de onde vem a palavra açougue] em que estive, em Sanaa Velha, é gigantesco. Os cheiros, os gritos, a música, tudo misturado. E gente. Imensa gente. Sai gente de todos os lados. E vultos negros, milhares de vultos negros. Nem uma mulher de cara destapada. A presença de um ocidental num pais com pouco turismo não provoca mais do que olhares curiosos, mas discretos. Os miúdos metem conversa. Tudo se tenta vender, mas não há muita gente a pedir dinheiro, num dos países mais pobres do Mundo.
Sanaa Velha é indescritível. É a medina mais bem preservada do Mundo. Fica-se sem fôlego. Parece que se fez uma viagem no tempo.
Os homens andam todos com os seus jambia, uns pequenos “sabres” retorcidos. As mulheres são um pano negro com dois olhos. Mas o ambiente é descontraído e amistoso. Basta fazer uma pergunta e logo se junta gente para ajudar, para me levar de moto, para me indicar o caminho, para saber o meu nome, de onde venho...
A tarde, toda a gente anda com uma bola de "qat" na bochecha. O "qat" é o vicio nacional. Uma droga leve que todos os homens (e mulheres) consomem a partir das duas da tarde. O habito nacional transformou-se num problema nacional. Sempre foi. Mas hoje consome-se com menos moderação. Resultado: ninguém trabalha à tarde e as plantações de "qat" estão a consumir toda a água de um pais que já foi fértil.
As mulheres tapadas escondem uma outra existência. Basta olhar para as pequenas lojas de roupa feminina, no suq, para descobri-la. Lingerie e roupa que, em Portugal, só se poderiam encontrar numa sex shop. As pessoas com quem estou estiveram num casamento. Mulheres de um lado, homens do outro. Sendo mulheres, foi com as mulheres que ficaram. E as mesmas mulheres, que na rua só deixam ver os olhos (as que deixam) ostentam, longe dos homens, generosos decotes em justos vestidos cheios de cores berrantes e brilhos sortidos. É este o seu pecado, só permitido longe do olhar lascivo dos homens. Não julguem que por ali eram modernas. A noiva nem sequer conhecia o noivo.
O Iémen é dos países mais duros para as mulheres, em todo o Mundo. A quase totalidade das mulheres é analfabeta, as execuções por questões de honra, que na maioria dos países árabes são a excepção, são aqui corriqueiras. Neste momento, uma mulher de vinte e pouco anos esta à espera de um julgamento (graças a alguma pressão internacional o já realizado terá de se repetir), por supostamente ter assassinado o marido. Casou com o homem aos 11 anos, aos 13 já era mãe, aos 15 mãe duas vezes. Chama-se, como a [sua companheira de infortúnio] nigeriana , Amina. Toda a gente sabe que foi um outro homem, por uma disputa de terras, que matou o seu marido. Mas ficou mais fácil assim. Uma sessão de tortura na prisão chegou para resolver o problema do assassínio. É para isto que as mulheres servem. Aos 16 anos já esperava a morte. O processo prolongou-se porque as execuções de menores se tornaram num problema internacional para o Iémen. Agora, Amina tem mais de vinte. Se for condenada, terá morte certa. Se não for, na aldeia é a morte que também a espera. Uma ONG ofereceu-se para a tirar do pais.
Estamos, dizem os livros, numa “democracia”. O Parlamento é eleito e até tem uma ministra, a dos direitos humanos. Ou seja, por aqui, isto quer dizer relações públicas para estrangeiros. Não é democracia nenhuma e esta ministra é uma aberração na realidade política e cívica iemenita. O Presidente não passa de um ditador, como qualquer outro. Mas o Iémen é um importante aliado dos EUA. Há que manter as aparências.
Meio dia. Recomeça a chamada para a oração. Alguns homens dirigem-se à mesquita, de mão dada. Mas, em geral, a vida continua imperturbável, apenas cortada por aquele despique de vozes. A religião está em todo o lado mas a vida corre sem ela. Os iemenitas não são fanáticos religiosos. O pais é que é brutalmente atrasado, e a Sharia vale mais do que a Lei e do que o Corão.
Já estou em Sanaa, capital do Iémen, no extremo meridional da Península Arábica. Estou noutro tempo onde o ambiente de festa, a simpatia e a generosidade das pessoas se mistura com enorme atraso e pobreza. Tudo é lento, tudo é barulhento. Nunca me senti tão estrangeiro em toda a minha vida. E gosto.
O Conselho Nacional do PP marcou as primeiras eleições directas do partido para o próximo dia 18 de Junho, cumprindo assim uma promessa de Ribeiro e Castro no último congresso. Telmo Correia, e alguns dos seus apoiantes, pronunciaram-se contra a decisão alegando que este não era o momento certo para avançar com a proposta. O timing, aliás, tem-se tornado uma obsessão de Telmo Correia, o homem que demora mais de um mês para se assumir como candidato, assina despachos polémicos 4 dias depois das eleições que dão maioria absoluta a outro partido e que assume que, se tivesse visto nas notícias que a assinatura era de duvidosa legalidade e inaceitável politicamente, não teria assinado. É o que se pode chamar de ética com a hora marcada. A dos telejornais.
Festa do Benfica "proibida" na Avenida dos Aliados!

Morreu Paul Ricœur, aos 92 anos.
Uma vez fui com o André Belo a uma residência de estudantes universitários para assistir a uma conferência do historiador alemão Reinhart Koselleck sobre o então projecto de memorial de holocausto em Berlim (o projecto de Peter Eisenman e Richard Serra, foi inaugurado recentemente depois de muita polémica).
Reinhart Koselleck, autor de uma obra essencial numa área afim à história das ideias (têm aqui uma lista do essencial em inglês), a begriffgeschichte ou "história dos conceitos", proferiu um excelente discurso, ponderado e elegante mas combativo sobre culpa, história e memória.
No fim da conferência, um velhinho que estava na primeira fila fez uma intervenção de excelente nível, comentando detalhadamente tudo o que outro dissera. Houve um diálogo entre os dois e as pessoas começaram a murmurar umas para as outras é o Paul Ricœur.
A nossa reacção foi como se nos tivesse saído o prémio acumulado, porque se Koselleck já era um historiador importante, Paul Ricœur era um espécime brilhante de algo ainda mais precioso: o filósofo lido por historiadores. Além, evidentemente, de um cidadão de percurso exemplar: socialista e pacifista antes da IIª Guerra Mundial, e resistente ao nazismo durante a Ocupação, o que lhe valeu a prisão nos campos de trabalho alemães. Depois da guerra, deu aulas e foi construindo a sua filosofia com ramificações sobre praticamente todas as subsdisciplinas (hermenêutica, ética, filosofia política, linguagem, teoria da história - vejam esta recensão a uma biografia de François Dosse). O livro que o levou a ser um "filósofo de historiadores" foi principalmente Temps et Récit, cujas preocupações vão da retórica à semântica e à hermenêutica e que liga a nossa relação com o passado à necessidade humana de narrativas e explora a capacidade destas narrativas poderem ou não ser traduzidas entre culturas. São três volumes, publicados entre 1983 e 85. Como se vê, não perderam importância.

Vou fazer o papel de vilão e roubar amigos. Nada como um bom ditador para animar a conversa, disse-me um. Outro, nada como um bom vilão para fazer um bom filme. Porquê esta fascinação pelo mal? Será, por que ser mauzinho é o melhor caminho para se ter e manter muito poder, e todos gostamos de mandar? Será porque o bem é chato e previsível, e a maldade mais criativa e inesperada? Ou simplesmente, o herói brilha mais quanto maior for a escuridão que o envolve?
Previsível parece-me ser afinalmente esta conversa. Há muita e muito boa arte com maus (ou seja, fracos) vilões. Muita arte não-narrativa dispensa-os de todo. Para contar uma história interessante e conquistar atenção numa conversa de mesa, o papão vem muito a jeito. Mas pode tolher ao facilitar a tarefa. Um bom vilão, demasiado verdadeiro sobretudo, pode bem cumprir o seu papel e matar, senão a história, pelo menos a inventiva. Ser muito criativo com ele bem poderia ser perigoso... E, no entanto, lá que falaram muito deste novo exemplar do Quarto Reich, este sim dos mil anos – o inesgotável império das obras sobre o Terceiro Reich – lá isso falaram. E, no entanto, lá que me está sempre a apetecer completar a minha carteira de filmes do Hitchcock, lá isso está.
Depois do PREC dos pequeninos que foi o governo do Santana Lopes, ainda que os tempos não estejam fáceis, temos governo, para variar. Da seca até aos incêndios, da colocação de professores até às farmácias, vários são os problemas que se arrastavam e que Sócrates resolveu com acerto. Só falta o deficit, um probleminha nacional com alguns séculos, e o crescimento económico, que tem uns anitos.
Em todo o caso a direita anda já tão alarmada com a comparação entre Santana e Sócrates, e com tão poucas munições, que primeiro o Vasco Pulido Valente (Pública sexta-feira passada sem linque) e agora , parece, o João Miranda vêm acusar o PS de não fazer um novo PREC!!! Lamento (nada), mas parece que mesmo as expropriações vão ser com conta, peso e medida.
E por voltar a falar em expropriações...
Em todos os Estados bem ordenados existem mecanismos LEGAIS de expropriação em nome do interesse público. Na Europa do Norte elas são frequentemente usadas como mecanismos de um melhor ordenamento urbano. É verdade que como diz o Luís Lavoura, as expropriações têm custos. Mas não seria escandaloso andar a pagar durante anos a manutenção dos nossos comboios à Bombardier que acabou com a nossa capacidade para os produzir?
Claro que uma empresa pode investir e desinvestir onde entender. Como um Estado pode entender que certos investimentos ou investidores lhe convêm mais ou menos. A Malásia, a China, ou Singapura há muito que o sabem, a Argentina achou que não precisava de se preocupar com isso, e vê-se o estado em que estão uns e outros.
O que o João Miranda insiste em não percebe é que uma empresa pode, mas não deve acabar com a concorrência de forma desleal. A Bombardier não veio cá criar nenhuma empresa que depois decidiu encerrar. Veio cá acabar em poucos anos com uma empresa que existia há décadas, era uma referência no campo da engenharia pesada a nível internacional, e que com melhor gestão poderia ter melhor fim. Claro que houve erros do lado português, e graves, mas isso não quer dizer que se tenha de entregar o resto do ouro ao bandido. Expropriar por sistema é mau sinal, nisso estou de acordo com Miranda e Lavoura. Mas quando se justificar e dentro da lei, porque não?
Durão Barroso desceu ontem à província e entendeu por bem, quando chegou ao país, dizer umas palavritas sobre o défice português. “Um número tão elevado em termos de défice público [6 ou 7%] exigirá determinação e um esforço muito significativo”, o que comprova que “o esforço feito por Portugal não foi tão significativo como o necessário”.
Porque isto é verdadeiramente obsceno talvez valha a pena recapitular um pouco os três últimos anos deste senhor.
Em 2002 faz campanha contra o governo socialista dizendo que este está a esconder um défice de 5% e que a solução para a crise é adoptar um “choque fiscal” que diminua os impostos. Ganha as eleições. O défice é de 4%, mas, mesmo assim Durão Barroso diz que o estado das contas públicas é muito pior do que alguma poderia ter imaginado e aumenta os impostos. Com o “discurso da tanga” o pais mergulha na maior crise económica e social dos últimos 20 anos, com mais 150 mil novos desempregados.
Depois de ter passado dois anos a exigir sacrifícios aos portugueses, Durão Barroso foge ao primeiro sinal de promoção pessoal e vai para Bruxelas. Depois de uma humilhante derrota nas eleições europeias, entrega o país a um aventureiro demagogo completamente desqualificado para o cargo.
Como este cartão de visita não parece ser suficiente para o fazer ter vergonha na cara para estar calado sobre tudo o que diga respeito ao país, o homem ainda tem lata para, de quando em quando, vir a Portugal dar lições sobre as suas soluções para a crise.
Como político já sabíamos que era uma miséria, mas como Homem é mesmo uma nódoa.
Fiz com grande curiosidade o teste proposto pelo Filipe Moura do BdE para saber melhor que terreno vou pisar dentro de uns dias... É que tenho dificuldades em situar-me na política à francesa. O teste parece-me funcionar bem porque traduz isso mesmo. Diz que sou plutôt à gauche. Mas tem alguns problemas com os partidos. Situa-me entre o pequeno movimento de Corinne Lapage, Cap 21 (mas menos moralista e mais pró-globalização), o Partido da Esquerda Radical (o que deve querer dizer que o meu clericalismo anda algo adormecido) e a ala direita – parece que por lá também existe disto – do PS francês. Depois ainda fala da UMP. Numa coisa, no entanto, o Politest não tem dúvidas. Todos os partidos de que me aproxima são pelo SIM à constituição europeia.
Grande parte das críticas à Constituição Europeia parecem-me vir de quem não a leu ou de quem não percebeu o que é a política à escala europeia ou o actual estado do Mundo.
Obsessão com o deficit e o mercado? A constituição deixa claro que se deve conciliar o controlo da despesa – que é um princípio básico de boa gestão em qualquer área, tudo o que se baseie na despesa descontrolada não é sustentável – e os princípios da economia de mercado que vêm do Tratado de Roma de 1957, com os objectivos sociais de uma Europa do bem-estar para todos. Constituição não democrática? A não ser que se defenda a eleição directa de todas as instituições europeias, ou seja uma Europa completamente federal, o que me parece especialmente problemático para um país pequeno como Portugal, a constituição é claramente um avanço. Há uma declaração dos direitos dos cidadãos da União. Há um direito de petição. Há mais direitos para os Parlamentos nacionais e para o Parlamento Europeu. E a UE passa a funcionar de acordo com regras de votação mais claras.
A ideia de que se pode votar NÃO e ser a favor de uma Europa melhor e mais forte, de um tratado mais aperfeiçoado, ou é má-fé, ou é uma ilusão bem-intencionada. Foram preciso anos para se alcançar um acordo num momento decisivo. Os EUA de Bush e a sua política de potência, e a saudável emergência do do mundo não-Ocidental, da China, da Índia, do Brasil, colocam um desafio fundamental ao europeus. Queremos continuar a ter uma voz no mundo? Se sim, só uma União Europeia mais forte o poderá conseguir.
Pensar que haverá por milagre uma constituição do Bloco ou da ATTAC, ou uma constituição à francesa ou à portuguesa, é um delírio. Aliás todas as boas constituições são pontos de encontro, não devem deixar ninguém completamente satisfeito. A perfeição é coisa inexistente, e o desejo da alcançar é perigoso em política. O triunfo do não à constituição seria um bom exemplo disso mesmo. Deixaria de pé todos os mecanismos de mercado que o não de alguma esquerda francesa diz rejeitar. Deixaria a França e a Europa em crise e ainda menos credíveis no Mundo. E deixaria os cidadãos europeus ainda mais impotentes. Brilhante, não?
Há mais de um ano que se esperava por uma notícia destas, e só não se percebe muito bem é porque é que o Sporting arrisca tanto e continua a pedir dinheiro para se ver livre do Ricardo. Paguem mas é os 5 milhões de euros a quem o quiser levar.
Nos próximos 15 dias não estarei aqui, andarei por aí.

Sanaa, Iémen
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Não será, provavelmente, pelas mesmas razões de Pacheco Pereira que votarei "Não" à Constituição Europeia. Mas a ausência de debate, a chantagem política, a ideia de que quem é contra esta Constituição é contra a Europa e a tentativa de fazer deste referendo um plebiscito a um facto consumado também me irritam. Pacheco Pereira criou um blogue, O Sítio do Não. Duvido que lá caibam todos os "nãos", muitos deles mais distantes entre si do que do "sim". Mas a ideia foi boa. Era engraçado, quase estranho, que Portugal começasse a discutir a Europa. Por mim, cá estarei para ajudar. A discutir e a chumbar esta Constituição.
Já agora, aconselho a ida ao site do "Não" em França, onde podem encontrar os argumentos das várias forças democráticas que estão contra esta Constituição.
Para que não fiquem sem o lado de lá, também foi criado um sítio do sim e, em França, o "Sim" está neste site.
Texto publicado no "Expresso", a 14 de Maio.
Está tudo doido. Primeiro foi Marques Mendes. Arrogante, corre com os mais queridos homens da nossa terra. Homens que ajudam o pequeno clube local a dar ao povo uma pequena alegria. Homens que dão a mão a incansáveis financiadores da democracia, generosos comendadores do 10 de Junho e laboriosos empresários locais. Homens que se batem de forma viril, por vezes incompreensível para a tibieza urbana, contra os que, oportunistas, lhes querem tomar o lugar.
Mas a decadência dos valores pátrios não acaba aqui. Esta semana, o Ministério Público, alheado das nossas mais profundas tradições, constituiu como arguidos um ex-ministro, um ex-tesoureiro partidário e três quadros do Espírito Santo. É a Santíssima Trindade que é profanada. Mesquinha, a Justiça terá descoberto um despacho do anterior Governo a permitir o abate de uns reles sobreiros para que ali se construísse um empreendimento turístico de “imprescindível utilidade pública”. Um ministro tira uns chaparros do caminho do progresso e faz qualquer coisa pela interioridade. Alguém lhe agradece? Não. É a inveja, o desporto nacional.
E este país tinha avançado como, não fosse aquela atençãozinha, aquele pequeno favor, aquele telefonema ao amigo lá do Ministério, aquela simpatia para a coisa não ficar presa nas malhas da burocracia? Não vêem, senhores magistrados? É um país que se move assim há séculos. Feito de pessoas que conhecem o valor da amizade. Pessoas que se ajudam e que não esquecem quem as ajudou. É um País solidário que começa agora a perder a sua inocência. E ninguém faz nada.
Texto publicado no "Expresso", a 14 de Maio.
Há anos que os funerais das associações mutualistas eram inspeccionados pelas autoridades competentes. As funerárias, com um volume de negócios que ronda os 400 milhões de euros anuais, achavam indecente que andassem para aí uns caramelos a dar descanso às almas por tuta-e-meia, valendo-se de benefícios fiscais e da ausência de lucro. Esta semana, o Tribunal Constitucional deu razão às associações. Mas os cangalheiros não desarmam e vão apresentar uma queixa à Autoridade para a Concorrência.
As associações mutualistas, que têm 700 mil sócios e vivem das suas contribuições, cresceram no fim do Século XIX como uma espécie de segurança social antes do Estado a ter. Em muitos casos, eram já os primeiros passos para o sindicalismo. Noutros, apenas uma forma dos mais pobres se valerem uns aos outros. Para quem não podia sequer sonhar com uma vida decente, a dignidade na morte era a última esperança. Por isso, o mutualismo, não se resumindo a isto, sempre foi um recurso muito procurado para o pagamento das despesas dos funerais. Esta tradição vinha, aliás, das irmandades do fim da Idade Média.
Hoje, estas associações são muito diferentes. Mas a ausência de lucro e a ideia de solidariedade entre iguais mantém-se. Por isso, os cangalheiros têm razão. São um corpo estranho no meio do seu negócio. Numa sociedade de mercado há regras. Quem não quer fazer dinheiro que não se meta no ramo. Se o lucro é o que faz rodar o mundo, quem não quer lucro trava o progresso e ofende o espírito da concorrência.
Neste mundo em que vivemos, a própria ideia de solidariedade é anti-liberal. E não faltará muito para que nos digam que a segurança social faz concorrência desleal aos fundos de pensões, os hospitais públicos às clínicas, as escolas aos colégios, os confessores aos psicólogos, os amigos à televisão. A verdade deste tempo é esta: a vida, sem lucro, não faz qualquer sentido. Para dizer a verdade, nem a morte, se não nos der dinheiro a ganhar, serve para seja o que for.
Público [sem link]: «Durão Barroso apela aos franceses que votem "sim"».
Público [sem link]: «Casa Branca exige à Newsweek que repare a imagem dos Estados Unidos».
Uma exigência singular, vinda da parte de quem teria verdadeiramente o poder para reparar a imagem dos Estados Unidos, nunca pediu desculpas pelas suas mentiras e tem um país inteiro para reparar – não em termos de imagem, mas no sentido próprio – por causa das suas acções: o Iraque. E que tal começar por aí?
Pedro Mexia respondeu aqui, da forma curta e nada grossa que o caracteriza, a este meu poste. Percebo que possa haver certo equívoco por causa do título, mas não se tratava de ver nos postes de PM uma defesa de um blogue ideal, one size fits all, mas sim de uma certa ideia de blogue.E as diferenças entre mim e o Pedro Mexia, especialmente depois deste esclarecimento dele, vão realmente escasseando. Deve ser destes tempos pós-pós-modernos.
Por outro lado, o que é pessoal? A cultura mais do que a política? Talvez. Mas talvez menos hoje do que antes. O que é política? O aborto é política ou é pessoal. E digam à Paula Rego que não é arte. Enfim, para citar o Dupond (ou será o Dupont?), ainda direi mais! De tudo um pouco se faz uma mundividência interessante, especialmente de pontes inesperadas entre coisas diversas. E realmente mais de transpiração do que de inspiração.
Tem três bicos o meu chapéu

Em que podíamos ter tudo e ficámos sem nada.
Assim sim, gosto de vos ver.
Quando Nobre Guedes chegou ao Governo reparou que tinha ministério mas já não tinha gabinete. José Luís Arnout tinha-lhe posto os tarecos na Rua do Século e ocupado o belo palacete. Sem espaço para trabalhar, e confirmando que a competência é mesmo “a marca dos ministros do CDS”, sabemos agora que Nobre Guedes tudo fez para proteger o erário público e evitar a duplicação de despesas com instalações e funcionários. Começou a despachar nas instalações do Banco Espírito Santo.
Hoje estou com a lagartada. Como diria um antigo presidente do clube: força Sportém!
Suponho que o João Miranda não defenda que devemos tolerar a fraude, o tráfico de influências, ou o trabalho escravo, porque isso pode criar custos acrescidos e desincentivar empresários, sejam eles portugueses ou estrangeiros?
Esta expropriação faz sentido se as instalações forem úteis para a manutenção das carruagens da CP, que costumava ser feita pela Sorefame, e que o governo compreensivelmente não quer entregar à Bombardier. Faz também sentido como sinal de que o golpe de génio final destes desinvestidores professionais, primeiro fechar a fábrica da concorrência e depois urbanizar os terrenos, não se concretizará.
Quanto ao Estado especulador imobiliário, não contesto que muitas autarquias o sejam, e alguns departamentos do Estado central sejam cúmplices nisso. Mas há exemplos de Estados civilizados e bem liberais – como a Inglaterra – em que não é assim. Não é inevitável, nem tem nada a ver com o Estado, tem tudo a ver com Portugal.

A Intérprete é o filme mais explicitamente político mais interessante que vi este ano. Pollack consegue fazer um thriller bem conseguido – apesar de algumas fragilidades, nomeadamente a interpretação por vezes meloso-dramática do Sean Penn – sem cair (geralmente) no previsível, ou trair a política difusa e confusa deste início de século. Só não fiquem à espera, como aparentemente sucedeu com alguns críticos, de um boletim de voto no final com uma cruzinha no sítio certo.
O governo não é de modas.
Mais uma vitória contra a especulação imobiliária.
Um anúncio útil, quem quiser desinvestir em Portugal não é bem vindo!
Como se já não fosse suficiente escrever, a partir de Chicago, uma das melhores colunas semanais dos jornais portugueses, a Joana Amaral Dias aderiu à blogosfera. O Bicho Carpinteiro é, por agora, escrito a meias com Medeiros Ferreira e Maria João Regala, mas os autores prometem adicionar mais comentadores.A julgar pelo primeiro dia, arrisca-se mesmo a ser uma companhia diária. Segue para os favoritos do Barnabé dentro de momentos.
O desaparecimento, anteontem, de Fernando Magalhães, crítico musical do Público, deixou-me muito triste. Magalhães era uma voz dissonante e convicta na crítica musical portuguesa em cujos textos líamos não apenas uma extraordinária paixão pela música como uma férrea resistência ao «fast food» musical. Os seus interesses andaram quase sempre nas franjas da popularidade (do prog-rock ao Krautrock, passando pelo jazz ou a folk). A mim que cresci musicalmente depois do terramoto do Punk - um sismo libertador que também trouxe alguns interditos - deu-me a conhecer alguns dos que são hoje os meus ídolos como Robert Wyatt, Nick Drake, Peter Hammill ou os King Crimson e a ver noutros que a crítica rotulava de «dinossauros progressivos», pioneiros de novos mundos sónicos e criadores de poéticas singulares. É claro que nem sempre (ou muitas vezes) concordava com as suas críticas, mas o modo como as escrevia, com um humor e uma entrega desalinhadas que não são deste tempo tão global e tão igual não retirava um cisco à atenção que despertavam. Com o seu desaparecimento, a crítica cultural portuguesa fica muito mais pobre.

Aqui está um país ideal para Bush invadir. Até já lá tem bases e tudo. E se não conhece, devia conhecer bem o regime autoritário e sangrento do seu aliado Islam Karimov, que acaba de reprimir de forma ainda mais sangrenta do que habitual uma manifestação de oposição ao seu poder pessoal. Mas, não sei porquê, duvido. Se for para repetir as asneiras do Iraque mais vale nem tentarem.
E estranho, amigos da direita liberal, sempre tão atentos à liberdade e à democracia, excepto na Madeira, e agora tão preocupados com a violação à liberdade das empresas por causa de uns míseros chaparros, que também o Uzbequistão não vos ocupe ou preocupe nem que seja por uns minutos. Será por causa do islamismo? Diz o nosso amigo Karimov que estes malandros são todos uns islamistas. Diz a BBC que as pessoas estão fartas dele e estes islamistas até são pacifistas. Pormenores. Como pormenor é, suponho, o facto do actual governo (quase completo) do Iraque ser dominado por... islamistas. Mundinho complicado.

Pedro Mexia abordou a questão do blogue ideal em dois textos que já foram mais recentes. Alguns dos comentários a que responde no segundo deles reflectem bem os problemas de qualquer discurso crítico em Portugal. Um país onde geralmente há uma, ou duas ortodoxias de pensamento. Onde se confunde crítica com dizer mal, o que se percebe por que há realmente muita gente que parece não saber a diferença, para quem a maledicência passa por pensamento crítico. Onde muitas vezes se diz que gostos não se discutem, quando nada dá mais gozo discutir. Onde se tende a reduzir tudo a questões pessoais, invejas quando se aponta falhas, vénias quando se realça qualidades.
É verdade que não existe um blogue modelo, pelo menos modelo obrigatório quanto ao conteúdo. São mais-qu’às-mães. Mas isso não impede que cada um possa ter o seu modelo de blogue e um consequente discurso crítico sobre a blogosfera. Apesar disso, os textos de PM parecem-me curtos apesar de longos para o meio, insatisfatórios apesar de interessantes.
O pretexto para esta reflexão de PM é explicar porque é que, embora reconheça que fez muito pela divulgação deste mundo virtual – coisa que ninguém discute – ele não gosta do Abrupto. Eu também não, mas não percebo que PM o justifique em termos de dizer que os blogues de que gosta são mundividentes, dão-lhe uma ideia de como o seu autor vê o que o rodeia. Ora isto é vago. Todos ou quase todos os blogues nos dão uma certa ideia da mundividência do autor, talvez mais os menos interessantes e mais confessionais, coisa que PM diz não gostar particularmente. O Abrupto é um bom exemplo. Há até quem atribua o seu sucesso a um exercício de voyeurismo intelectual consagrado na publicação do fan-mail: os seus leitores querem ver e ler o que JPP vê e lê para pensarem como ele pensa, e alcançarem o génio que ele é. Fica clara no blogue a bibliofilia de JPP, os seus gostos em poesia, pintura ou música, o seu interesse pelo estudo do comunismo, e mais raramente as suas opiniões políticas, mas apenas porque tem outros sítios onde as expor. O que me desinteressa do blogue é que o faz – excepto quanto à política – em doses cavalares e com pouca digestão. Ou seja, vemos o que JPP gosta que a gente veja. Mas o autor não oferece grandes razões para o fazer para além da sua pessoa.
Prefiro blogues que dêem menos em termos de simples visão, e mais em termos de explicação estética, análise política, divagação literária ou comentário humorístico. Mundividência sim, mas um bocadinho trabalhada se faz favor. E se assim for até a confessionalidade pode ser interessante. Interessantemente PM parece excluir a política da sua noção de mundividência. Há aqueles para quem é impensável uma visão não-política do mundo, outros para quem ela parece dispensável ou pior. Ainda recentemente um texto do Público reduzia a Blogosfera ao critério da influência política. Parece-me que por muito que se tente desistir da política, dificilmente a política desiste de nós. Mas tenho gostos ecléticos, que misturam géneros e preocupações. Para mim o que importa acima de tudo é que o autor acrescente um ponto. Na sua origem e estrutura os weblogs podiam tender para o modelo confessional, mas sentido originário e estrutura inicial raramente são definitiva prisão de palavras ou acções. É por isso que o discurso crítico faz tanto sentido, especialmente na blogosfera, onde tanto coisa ainda está em aberto. Nisso penso que PM e eu estamos de acordo.
Fiz o teste proposto aqui pelo Rui e estou, como ele, próximo dos "Verdes". Mas, ao contrário dele, da tendência verde que é contra esta Constituição Europeia. Depois dos "Verdes" aparece, mais distante, o Partido Comunista e a ala esquerda do PSF, por esta ordem, também as duas contra esta Constituição Europeia. Ao contrário do Rui, revejo-me não só na proximidade partidária mas na minha posição em relação ao Tratado Constitucional. Porque defendo um processo constituinte democrático, sou contra a constitucionalização da obsessão anti-deficitária que tem impedido a Europa da sair da crise em que se encontra e defendo a europeização dos direitos sociais, ausentes no Tratado, votarei convictamente "não". No caso, em Portugal.
Rui, o teste é bom. As tuas posições políticas é que, provavelmente, não batem certo com esta Constituição Europeia.
O Filipe Moura desafiou uma série de pessoal, e os barnabés entre eles, a fazer este teste político francês. Eu acabei por descobrir aquilo de que já sabia quando lá vivi: que estou entre os Verdes e o PSF. Mas não sei se concordo com o rigor do diagnóstico, nomeadamente sobre as questões da Constituição Europeia (inclinado para o sim, mas com dúvidas) e da responsabilidade pessoal. Para falar verdade, acho que este teste tem poucas perguntas e é um pouco tosco. Mas para mais detalhes, cliquem no linque abaixo.
Vous vous situez à gauche.
Les partis dont vous êtes le plus proche (dans l'ordre) :
1. les Verts
La tendance des Verts dont vous êtes le plus proche est en général plutôt POUR la Constitution européenne.
Et, dans une moindre mesure :
2. le Parti Socialiste
mais vous êtes plus ouvert sur les questions liées à l'évolution des moeurs.
Lors d'un référendum interne, les militants du Parti Socialiste se sont prononcés à 59% POUR la Constitution européenne. (L'aile droite du parti était en général POUR, l'aile gauche du parti, ainsi que Laurent Fabius et ses partisans, étaient CONTRE, le reste du parti était divisé).
Le(s) parti(s) qui vien(nen)t ensuite :
3. le Parti Radical de Gauche (PRG)
mais, en règle générale, vous accordez plus d'importance au contexte dans lequel les gens évoluent (ou moins d'importance à leur responsabilité personnelle).
Le PRG est plutôt POUR la Constitution européenne.
Octávio Machado é o candidato do PSD a Palmela. Obviamente, depois de blindar o balneário da câmara, o "palmelão" tratará de proteger os munícipes dos "Big Ladens" da política.
Luís Nobre Guedes chegou ao governo e levou logo um puxão de orelhas de Álvaro Barreto. Lembram-se? O Ministro do Ambiente aproveitou então a entrada de leão para passar ao país a ideia de que estava na política por acreditar em valores e não para servir interesses, tal como, aliás, todo o seu partido.
Nobre intenção, dirão uns acentuando enfaticamente "intenção". Permitam que discorde. A crer nos jornais não se confinou a mera intenção, foi antes uma postura coerente e efectiva do início ao fim (que até se estendeu pelos descontos). É só uma questão de perspectiva. Reparem, até podemos manter a frase - "acreditar em valores e não servir interesses" - que ela adequa-se na perfeição, sobretudo se substituirmos "valores" por "interesses" e "interesses" por "valores". E assim sim, está catita. Mas isto, friso, só a crer nos jornais.
Quanto às investigações, há que aguardar. Pacientemente. Da mesma forma como por exemplo a ponte de Entre-os-Rios caíu naturalmente (dada a constante remoção de areias era apenas natural que a ponte caísse), assim poderão naturalmente os sobreiros ter ruído. É que uma moto-serra aplicada horizontalmente na base de um sobreiro faz com que ele caia. Ou não? É tão óbvio que nem se percebe o espanto. Deixemos pois a justiça funcionar. O povo é sereno e isto pode ser só fumaça. Até porque, já estamos habituados, o problema disto tudo são os jornalistas, os ambientalistas, a PJ, os intelectuais e, muitas vezes acima de todos os outros, os sindicalistas. Ah pois.

Os últimos prisioneiros políticos do socialismo português.
Não, caro Rodrigo Adão Fonseca, eu não pretendi sugerir que você tolerasse o tráfico de influências [antecedentes desta conversa: um post meu aqui, e uma réplica do RAF ali]. Você é, bem entendido, contra o tráfico de influências, como eu sou evidentemente contra a estatização da sociedade e todos os portugueses são (como poderia ser de outra forma?) contra a construção desregrada. Aquilo que me contraria é a oportunidade da crítica à estatização a propósito de um caso de possível tráfico de influências que se levado a seu termo teria dado origem a mais um exemplo de construção desregrada.
Ainda por cima, no caso do sobreirogate, nada nos leva a crer que a acção do estado fosse excessiva. A crer nas notícias, o empreendimento do Espírito Santo foi recusado por uma funcionária técnica, com base em critérios técnicos, pelo menos quatro vezes numa década. Mais ou menos assim:
– Oh pá, podemos fazer um empreendimento ali?
– Não, que aquilo está cheio de sobreiros.
– E não podemos cortar os sobreiros?
– Não que os sobreiros são protegidos.
– Oh pá, mas o nosso empreendimento é que era bom!
– Não pode ser.
– Mas não pode mesmo? Não pode mesmo, mesmo, mesmo?
– Não.
O problema parece-me antes que está em o Espírito Santo ser um pouco duro de ouvido. Mas resolveu-se através do afastamento da dita funcionária e a declaração ministerial de que o dito empreendimento turístico seria de "imprescindível utilidade pública". Imprescindível, veja-se bem, o que quer simplesmente dizer que não se poderia passar sem ele. E tão imprescindível até que aquilo que tinha esperado durante mais de uma década não podia de todo esperar mais uns dias para ser resolvido por um novo governo.
Em vista deste quadro, dizer que se o estado não metesse o bedelho nestes assuntos não haveria tráfico de influências parece-me correcto, mas curto. Não haveria tráfico de influências – nem sobreiros.
A questão está em que ser proprietário, hoje em dia, já não significa nem apenas, nem exactamente, deter o jus utendi et abutendi, ou seja, o direito de usar e abusar de uma coisa sua. Existem coisas sobre as quais o direito de propriedade é limitado, e mais ainda no caso de um país pequeno e de recursos escassos: se eu for proprietário de um monumento nacional não posso demolir a fachada, se um curso de água nascer no meu terreno não posso despejar nele uma boa dose diária de mercúrio e se eu for proprietário de um extenso montado de sobreiro que comprei ao preço de 38 cêntimos cada metro quadrado para fins exclusivamente agrícolas não posso, naturalmente, construir ali prédios e hóteis. Não posso, sei que não posso e é bom que não possa. Até porque – regressando ao direito romano – a propriedade só é o direito de usar e abusar de coisa sua quateus juris ratio patitur, "conquanto a razão do direito o permita". E neste caso não permitia.
Donde: o estado não agiu excessivamente; limitou-se a repetir ao Espírito Santo aquilo que o Espírito Santo já estava careca de saber mas não queria aceitar.
Que o mesmo Espírito Santo – como talvez se venha a confirmar – tenha tido acesso a governantes dispostos a decretar que afinal o baixo era alto e o cru era cozido, os sobreiros dispensáveis e o empreendimento imprescindível, demonstra cabalmente que o excesso de poder do estado sobre a economia foi aqui um problema ridículo quando comparado com o excesso de poder do Espírito Santo sobre o estado.
Existem inúmeras ocasiões para deplorar o peso do estatismo sobre a sociedade (por exemplo: há casais que não podem contrair matrimónio neste país só pelo facto de serem ambos do mesmo sexo). O sobreirogate não foi um deles, a não ser que suponhamos que os sobreiros sejam dotados de vontade própria e vivam vergados sob o despotismo colectivista. Mas ele há gente para todo o tipo de opiniões escaganifobéticas.
Os britânicos deram-nos os Monty Python, Fawlty Towers, Allo Allo e, mais recentemente, The Office. Só por esses altíssimos momentos da comédia devemos eterna gratidão aos nossos velhos e pouco fiáveis aliados.
Mas Portugal sabe responder à altura, e acrescentar ao reconhecimento o retorno. Com três nomes apenas se escreve a palavra génio: João, Carlos, Espada. A sua coluna deste sábado no "Actual" do Expresso teria de ser reproduzida na íntegra, mas aqui ficam alguns excertos dignos da nossa retribuição cómica aos britânicos:
«Parabéns, Primeiro-ministro... Os meus amigos sabem, e os leitores atentos também, como estou longe de subscrever algumas das modas modernas do New Labour, a começar pela sua hostilidade contra a caça à raposa. Mas julgo ainda ser capaz de reconhecer um homem de carácter – "a gentleman, as one used to say" – e Tony Blair pertence a esse género em vias de extinção. O teste decisivo foi a questão do Iraque, e ele superou-o com clássica compostura, como Churchill gostava de dizer»(Confesso que aqui fico um pouco desiludido por João Carlos Espada não ter utilizado antes o título de Lady Thatcher, que seria bem mais apropriado, não é verdade?)
... «Almoços no Athenaeum De regresso a coisas sérias, tive dois almoços curiosos no Athenaeum, o imponente clube de Pall Mall, que deixa o meu Oxford & Cambridge um pouco apagado. John O'Sullivan e Kenneth Minogue são dois "true blue tories", amigos pessoais de sra Thatcher...»
«...O cenário não podia ser mais imponente. A câmara de debates da Associação de Estudantes reproduz integralmente a Câmara dos Comuns. Os mesmos rituais de discussão são ali seguidos, apenas com mais pompa e circunstância. Os jovens membros da associação dirigem os trabalhos vestidos a rigor: eles de casaca e rosa na lapela, elas de vestido comprido...»
«Um homem decente. A seguir ao debate, celebramos a vitória no bar do Randolph Hotel. Informo O'Hear de que Lord Plant acabar de aceitar juntar-se à Comissão Organizadora dos Encontros Internacionais de Estudos Políticos de Cascais. O'Hear é um distinto filósofo conservador, director do Royal Institute of Philosophy, e acabo de o convidar a associar-se também à comissão organizadora. Aguardo com alguma apreensão a resposta dele perante a chegada de um trabalhista: "Com todo o gosto. Plant é um homem decente e a garantia de que teremos discussões infindáveis." A seguir, brindamos à ideia de Universidade.»
E eu, daqui do meu cantinho, desejo também propor um brinde. Leitores, acompanhem-me! Ao regresso de João Carlos Espada à sua melhor forma...
Estou a ver que os outros barnabés lampiões estão – como eu – a adiar por uma semana os seus comentários. Fazem bem, fazem muito bem.
Há qualquer coisa que não está a funcionar bem com os comentários, como já não funcionava com os "trackback pings". Não sabemos qual é a origem do problema. Enquanto não o conseguirmos resolver, é provável que depare com uma mensagem de erro. Quero que saibam que não é nada com um ou outro comentador em particular (já recebemos queixas por email) mas um problema geral.
Pelo segundo ano consecutivo, o clube que tem a melhor equipa nacional corre o risco de ficar em terceiro lugar. A culpa é do Sporting. Não basta ser o melhor.
Então parabéns rapaziada! E espero que aqui o velho Trap tenha aprendido com Peseiro esta noite: a falta de ambição pode matar. Se no Bessa jogarem para o 0-0 arriscam-se a vir de lá com um grande melão. Caso contrário talvez tragam o caneco. Para já o melão é todo nosso. Façam-me um favor: ponham na conta do Peseiro.

Prosseguindo a natureza tola deste sábado, nomeio o 14 de Maio em Portugal como Dia Oficial dos Ateus Renascidos.
«"Charro" aproxima Portugal e Dubai», título do Expresso.
O enbaixador António Monteiro acha que o episódio do charro acabou por «Proporcionar um inesperado fortalecimento de laços entre Portugal e o Dubai».Já se conheciam as propriedades medicinais da canabis, agora vem provar-se a sua utilidade diplomática, podendo mesmo a sua legalização universal ser a chave para o sonho de um mundo mais pacífico. Afinal, nada de mais natural: quantas guerras não serão evitadas se os líderes desavindos se juntarem a uma mesa para dar umas gargalhadas descontraídas enquanto fazem apostas para ver quem tem os olhos mais esbugalhados? Toda esta concórdia pede, como me dizia hoje o Rui Tavares, um agradecimento: Obrigado Ivo.
Quem a sabe toda é o Papoilas Saltitantes:
E os outros, podem ganhar, ser os maiores, ser tudo o que quiserem. Mas nunca vão ser do Benfica. Nós somos. Que se foda o resto.
Nota: obrigado ao João Marçalo pelo toque. Eu por mim entro em estágio de ansioterapia até amanhã. O estado do país e do mundo vai ter de esperar para que coisas mais importantes se resolvam. Quem não estiver interessado tem aí ao lado uma coluna cheia de imprensa estrangeira.