(Ou então, se é mesmo para ser um funeral, que seja o grande Brassens a oficiar)
Jadis, les parents des morts vous mettaient dans le bain
De bonne grâce ils en f´saient profiter les copains
" Y a un mort à la maison, si le cœur vous en dit
Venez l´pleurer avec nous sur le coup de midi... "
Mais les vivants aujourd´hui n´sont plus si généreux
Quand ils possèdent un mort ils le gardent pour eux
C´est la raison pour laquell´, depuis quelques années
Des tas d´enterrements vous passent sous le nez
Mais où sont les funéraill´s d´antan ?
Les petits corbillards, corbillards, corbillards, corbillards
De nos grands-pères
Qui suivaient la route en cahotant
Les petits macchabées, macchabées, macchabées, macchabées
Ronds et prospères
Quand les héritiers étaient contents
Au fossoyeur, au croqu´-mort, au curé, aux chevaux même
Ils payaient un verre
Elles sont révolues
Elles ont fait leur temps
Les belles pom, pom, pom, pom, pom, pompes funèbres
On ne les r´verra plus
Et c´est bien attristant
Les belles pompes funèbres de nos vingt ans
Maintenant, les corbillards à tombeau grand ouvert
Emportent les trépassés jusqu´au diable vauvert
Les malheureux n´ont mêm´ plus le plaisir enfantin
D´voir leurs héritiers marron marcher dans le crottin
L´autre semain´ des salauds, à cent quarante à l´heur´
Vers un cimetièr´ minable emportaient un des leurs
Quand, sur un arbre en bois dur, ils se sont aplatis
On s´aperçut qu´le mort avait fait des petits
Mais où sont les funéraill´s d´antan ?
Les petits corbillards, corbillards, corbillards, corbillards
De nos grands-pères
Qui suivaient la route en cahotant
Les petits macchabées, macchabées, macchabées, macchabées
Ronds et prospères
Quand les héritiers étaient contents
Au fossoyeur, au croqu´-mort, au curé, aux chevaux même
Ils payaient un verre
Elles sont révolues
Elles ont fait leur temps
Les belles pom, pom, pom, pom, pom, pompes funèbres
On ne les r´verra plus
Et c´est bien attristant
Les belles pompes funèbres de nos vingt ans
Plutôt qu´d´avoir des obsèqu´s manquant de fioritur´s
J´aim´rais mieux, tout compte fait, m´passer de sépultur´
J´aim´rais mieux mourir dans l´eau, dans le feu, n´importe où
Et même, à la grand´ rigueur, ne pas mourir du tout
O, que renaisse le temps des morts bouffis d´orgueil
L´époque des m´as-tu-vu-dans-mon-joli-cercueil
Où, quitte à tout dépenser jusqu´au dernier écu
Les gens avaient à cœur d´mourir plus haut qu´leur cul
Les gens avaient à cœur de mourir plus haut que leur cul
Em três dias, vou tentar fazer tudo aquilo que nunca consegui fazer em meses e meses de blogue: por exemplo, escrever sem pensar (demasiado) na reacção, como sugere ali o Casmurro.
O funeral também não tem muito sentido porque nos blogues não há começo nem fim, como é sabido. Os blogues não acabam propriamente, são umas almas-penadas que por aí pairam.
Apesar de tudo, queria dizer-vos que fiquei, como a maioria de vocês, com pena de que o barnabé acabe assim. E tenho pena, com toda a amizade que lhe tenho, que o Daniel tenha saído e que tenha saído como saiu, de forma amarga. Isso não apaga o facto de o barnabé como blogue ter sido uma coisa que me fica como aquelas coisas que só se vivem entre amigos e que não têm mais explicação do que essa. É pá, e aqueles tempos do liceu? E aqueles tempos da faculdade? E aquele post que tu meteste em que o gajo até ficou com o template verde?
(ali no Amarcord passou há pouco um funeral. Mas então que seja à antiga, com piadas sobre o morto e banda de jazz por trás, à antiga New Orleans)
O fim anunciado do Barnabé tem sido acompanhado duma metáfora fúnebre. Mas, não havendo cadáver, parece-me que não há razão para enterro. Proponho que se mude a metáfora para carnaval de verão. Temos três dias, disfarçamo-nos uma última vez de barnabés, para tudo se acabar na segunda-feira, sob um sol escandaloso.
(Eu começo já porque andava há dias à rasquinha para postar aqui qualquer coisa)
(Na minha televisão está a dar o "Amarcord", de Fellini: "recordo-me")

A partir de Domingo próximo, o Barnabé fecha as portas. Tomou-se esta decisão numa almoçarada, como sabem as pessoas que estavam sentadas num raio de cinquenta metros à nossa volta, e demo-nos estes três ou quatro dias para escrever os últimos posts. Depois disto, férias grandes. E depois disso, está tudo na imagem acima.
PUBLICO.PT:«O presidente da Câmara de Lisboa, Pedro Santana Lopes, mandou hoje suspender a demolição, iniciada na semana passada, da casa onde viveu o escritor Almeida Garrett, em Campo de Ourique, anunciou hoje o gabinete da presidência da autarquia.
O prédio, que ocupa os números 66 e 68 da rua Saraiva de Carvalho, pertence ao actual ministro da Economia, Manuel Pinho, que obteve da Câmara de Lisboa licença para demolir o edifício e construir um projecto do arquitecto Manuel Tainha, com um apartamento T3, dois T4 e um duplex.»

Imagem d'A Fonte.
Oh gentes. Como já dizia o Januário, não há morto que não goste de ler o seu obituário. Eu tenho andado por aí a ler os obituários ao Barnabé e estou preparado para atribuir os dois prémios de originalidade:
Ao Afixe, por este post.
E à Fonte, pela excelente sugestão de cabeçalho acima.
E por falar em Memórias Póstumas, escapou-me completamente o nascimento do Casmurro, blogue mantido a meias por Machado de Assis e Groucho Marx, e psicografado por Manuel Portela, Pedro Serra, Osvaldo M. Silvestre, Abel Barros Baptista, Fernando Matos Oliveira, Luís Quintais e Gustavo Rubim. Esses ganham o supremo prémio de originalidade de se estarem a marimbar para o obituário.
Um dos aspectos mais chocantes do governo de Durão Barroso: ser forte contra os fracos e fraco contra os fortes.
Mais rapidamente do que desejaria vou perdendo a esperança de que Sócrates inverta esta tendência. O novo primeiro-ministro prometeu ser forte contra todos, fracos ou fortes. O resultado do discurso, até agora, tem sido colocar todos contra todos. Especialmente trágico, para a esquerda, é ver fracos contra fracos: desempregados contra imigrantes, sub-empregados contra mal pagos, privados contra públicos, jovens contra velhos, recibos verdes contra contratos a prazo.
Dizem-me que nada neste país se resolve enquanto não se resolver a questão orçamental. À cautela, lá vou acreditando que sim.
Mas o problema está noutro lado. Um país não suporta viver ano após ano após ano a ser governado como se estivesse nas mãos de uma comissão liquidatária. Enquanto isso, vai-se instalando a ideia – essa sim verdadeiramente mortal – de que a solução para isto não está nas mãos de quem aqui vive. Temos andado a dizer às pessoas que elas são o problema. Antes que elas se convençam que o seu dever patriótico é suicidarem-se aos sessenta anos para não sobrecarregar o orçamento e fazerem quatro ou cinco filhos à antiga para os deixar passar fome, temos de saber dizer-lhes como é que só elas podem ser a solução.
Sem isso não vamos lá, e já tarda.
Sonsínico não consta do meu dicionário. Em todo o caso quando falava num poste escrito em dez minutos em ficar a aguardar instruções era para saber se as regras - que o Rui me tinha dito não incluirem temas tabu - se mantinham ou não. Quanto ao que o Rui prefere não comentar não posso comentar. Gostava realmente que alguém tivesse comentado antes o poste da mosca e do mel. Suponho que era pedir de demais.
Queria apenas acrescentar ao poste que escrevi em reacção ao do Daniel.
Não era, evidentemente, intenção minha empurrar ninguém para fora do Barnabé, e menos ainda um dos seus membros fundadores. Não penso que o Daniel seja o Lenine, teve em relação a mim foi aquilo que eu senti como tiques leninistas.
Quando falei de Cuba ou da Coreia do Norte não foi para dizer que o Daniel era adepto desses regimes. Foi simplesmente para comparar regimes de «Estado Social perfeito» em que as reformas são impossíveis, com outros como o Canadá e a Suécia em que o Estado Social foi construído gradualmente e tem sido mantido com sucessivos reformas.
As medidas agora tomadas pelo PS estão - excepto o aumento dos impostos que eu penso que deveria ser temporário - de acordo com o seu programa eleitoral. Mesmo o aumento do IVA deixou de fora os produtos básicos, e foi de par com a criação de um novo escalão no IRS para as pessoas com mais rendimentos e medidas contra a fraude fiscal.
Para terminar, sempre considerei e considero o Rui como o membro mais activo, empenhado e provavelmente talentoso do Barnabé, mesmo quando não concordava com ele. Sem ele e a sua «casa das máquinas» o blogue não existia. Com ele aparentemente de saída e desgostado com a minha participação não sinto poder tomar parte nas discussões sobre o futuro do Barnabé. O único contributo que creio poder dar nesta altura é portanto deixar, com muita pena minha, de ser barnabita...
PS - Apesar dos insultos e dos malucos ocasionais - mas a vida teria menos piada sem eles - os comentários do Barnabé foram das coisas que me deu mais gosto, e de que mais vou sentir falta.
PPS - Para quem anda para aí a dizer que contrariei a linha editorial do Barnabé, de forma que parece que entrei clandestinamente neste blogue escondendo as minhas ideias, acho que o meu «retrato oficial» ajuda a esclarecer as coisas: Bruno Cardoso Reis é liberal de esquerda, católico pecador confesso e social-fascista nas horas vagas.
Fraga Iribarne perde, contados os votos dos emigrantes, a maioria na Galiza. A região será, muito provavelmente, governada por uma coligação entre socialistas e bloquistas, também de esquerda, mas daqueles que pontificam do lado de lá da fronteira – os do Bloco Nacionalista Galego.
Haverá, nos proximos dias, ocasiões para escrever acerca do Barnabé.
Para já, tenho menos de dez minutos para escrever um post. Quero aproveitar para dizer o seguinte.
Nenhum blogue, e muito menos o Barnabé, se pode dar ao luxo de perder um blogger como o Daniel, um dos poucos de que se pode dizer que coinventou a blogosfera portuguesa. Certos estilos, formatos e ideias que todos utilizamos nasceram com o Daniel – e na revolução que o Barnabé representou na blogosfera portuguesa (vocês não estão à espera de falsas modéstias comigo) o Daniel teve um papel duplamente fundador. Há quinze dias consegui, num telefonema às quatro da manhã, evitar que ele se demitisse. Talvez tenha assim tido culpas, indirectamente, nos últimos episódios. Mas parece que já gastei o meu cartucho para o convencer a ficar.
Deixar que o Daniel saia do Barnabé significa perder um pulmão para ganhar uma apendicite.
Além dessa dor de cabeça. Há um ou dois meses que eu já tinha anunciado aos restantes barnabitas a minha intenção de meter umas férias prolongadas. Faltavam-me as condições anímicas, de gestão de tempo e sobretudo financeiras para continuar a dedicar-me ao Barnabé. Um blogue como o Barnabé dá muitíssimo trabalho – e o que é mais, só quando dá trabalho é que dá gozo.
O natural talvez fosse que, com a saída do Daniel, eu tentasse ocupar o espaço vazio o melhor que pudesse e fazer por aqui (ainda mais) as despesas da casa. Mas as minhas condições externas não mudaram e eu continuo a não poder mesmo mesmo manter-me por muito mais tempo a escrever no Barnabé – isto é, depois de escrever dois ou três posts que eu quero absolutamente escrever.
Sem desprimor para ninguém, não sei se um Barnabé sem nós os dois – o Daniel e eu – e em que dos nove restantes membros quase ninguém escreve, tem condições para se aguentar. Tudo está em aberto, e passará por uma conversa entre nós.
Acabaram os dez minutos.
Nota: o Bruno diz ali abaixo, entre outras coisas que não me apetece comentar, que "espera instruções". Ora Bruno, se te assumes e consideras um membro de pleno direito do Barnabé, a sugestão de que estás dependente de instruções de terceiros é sonsínica (é isso mesmo, sonsínica) e eu não estou disposto a dar-lhe cobertura. Vamos ser homenzinhos.
O Daniel Oliveira não me conhece, nem nunca mostrou interesse nisso. A minha entrada no Barnabé claramente irritou-o. No entanto, aprovou-a. Ele diz que não pensou devidamente no assunto. É pena porque assim se evitavam cenas tristes como esta.
Não sei nem me interessa se ele é marxista ou não. O que me interessa é a forma sistemática como ele resolveu atacar os postes que eu colocava aqui. Diz não ser juíz de quem é de esquerda, mas é essa mesma atitude que mais uma vez adopta neste seu poste. Ele não será o Lenine. Como e eu não serei nem o padre Melícias, nem a Fátima Bonifácio, nem o Bagão Félix. Se o Daniel não percebe as diferenças, o problema é dele. Quando se comenta seriamente como uma crítica à nova pedagogia - o que quer que isso seja - uma piada, suponho que falar de má-vontade não seja demasiado. E confesso que depois de me ver transformado em mosca temi pela minha sorte... Pelo visto tinha razão.
O pressuposto da minha adesão ao Barnabé foi o de que se tratava de um blogue de diferentes esquerdas e evidentemente de opinião inteiramente livre. Tal como o Daniel afirma, nunca acreditei, por conhecer bem um dos barnabés originais, que fosse um blogue ao serviço do Bloco. O Daniel tece grandes elogios ao Pedro Oliveira. Óptimo! É uma admiração que eu partilho, a par de muitas das mesmas ideias e simpatias partidárias. Era, a par do Rui Tavares e do Celso e do André Belo, a razão pela qual eu li, desde o início, o Barnabé. Claro que não estava à espera de concordar ou achar piada a tudo o que os outros escrevessem, mas pensei que me seria estendida a mesma cortesia. Nunca fui pessoa de seguir cartilhas. Se o objectivo de combater a nova ortodoxia neo-liberal me convém, não aceito ser alistado por qualquer outra.
Se é evidente que aceito que possa haver quem critique o governo socialista, não vejo porque é que eu não o posso defender. Ou agora o PS passou a ser de direita, fim de discussão? A defesa do mérito em relação à antiguidade é, aliás, uma velhíssima ideia de esquerda. E se concordar por acaso e eventualmente com a posição de alguém de direita, qual é que é o problema? Temos de deixar de pensar pela própria cabeça para provar que somos de esquerda? O Bloco ou o PCP preocupam-se, por acaso, por terem o CDS ou o PSD ao seu lado no ataque ao governo?
Folgo em saber que o Daniel é capaz de aparecer por outro lado na blogosfera, embora preferisse que reconsiderasse a sua posição em relação ao Barnabé e em relação a mim, já agora. Mas em todo o caso ele tem, como ele mesmo diz, o Expresso para continuar a atacar as minhas opiniões.
Várias vezes perguntei aos membros do Barnabé se havia temas tabu. O Daniel nunca se manifestou. Outros deixaram claro que não. Deixei também claro que estava disposto a sair a qualquer momento pela mesma porta por onde entrei. Ainda ontem o escrevi aos demais barnabés, e mantenho-o. Mas com certeza não o farei apenas para dar satisfação a uma pessoa que saiu livremente de um projecto em que as minhas opiniões o incomodavam. Fico, portanto, a aguardar instruções...
O Bruno não me conhece, nem sequer de vista, e é por isso normal que sobre mim imagine mais do que sabe. Não saberá que não sou leninista, que não sou comunista, que nem sou sequer marxista. Provavelmente, deixei de o ser ainda o Bruno era uma criança.
Por isso, a 80 por cento do seu último texto não tenho rigorosamente nada a dizer. Apenas uma coisa: não é a primeira vez que o Bruno desconversa e responde a alhos com bugalhos. Não tenho nada contra. Cada um usa o quer e eu até gosto de provocações. Mas, aqui no Barnabé, tínhamos como hábito alguma cordialidade entre os que cá escreviam. E nunca fizemos da picardia interna a forma de nos evidenciarmos. Para isso, contribuía sermos todos amigos de longa data, apesar de termos opiniões muito diferentes. Aceito que, um pouco farto, usei a mesma técnica, sobretudo depois de um post seu sobre o que seria um governo perfeito da esquerda verdadeira.
Já me peguei aqui várias vezes com outros barnabitas, sobretudo com o Pedro e com o Celso. Nunca os tratei como compagnons de route e desde o princípio me orgulhei de fazer um blogue com eles. Com o Pedro, com quem tive e tenho mais divergências, por vezes a discussão foi acalorada. Mas há, para além da já velha e profunda amizade que nos acompanha, uma diferença em relação ao Bruno: sempre tive a perfeita consciência da mais-valia que o Pedro trazia ao Barnabé. Informado, sobretudo sobre questões internacionais, o Pedro quase sempre fez subir a qualidade do debate. Para além do mais, escreve muitíssimo bem. Por isso, quando a coisa aquecia demais, calava-me. O Barnabé não o podia perder. Mais: o Pedro assumiu as discordâncias internas sempre que assim o entendeu, mas nunca fez delas a razão de ser da sua presença aqui. Por vezes zangamo-nos. Geralmente resolvemos o que tínhamos a resolver fora do Barnabé. Vantagens da amizade. Mas, sobretudo, sempre soube que ao Pedro não movia nenhuma má-vontade em relação a seja quem fosse que aqui escrevesse nem nenhuma necessidade um pouco infantil de se demarcar a cada segundo de alguém. E que, por exemplo, sabendo que não sou comunista, nunca lhe passaria pela cabeça fingir que não o sabia e debater comigo como se o fosse.
A provocação que fiz com o paralelismo entre o Bruno e Bagão Félix, Padre Milícias e Fátima Bonifácio tinha um conteúdo: eu achar que sobre os supostos privilégios da Função Pública, sobre o papel da Igreja na sociedade e sobre a culpabilização da “nova pedagogia” por todos os males do estado da nossa Educação o discurso do Bruno era muito semelhante ao destas três figuras. Duas delas, aliás, tal como Bruno, dizem-se de esquerda. Já o Bruno limitou-se a colar-me a regimes que detesto e que já aqui várias vezes desanquei, tendo aliás recebido muitas criticas à esquerda por isso. O Bruno explica-me que a Suécia é melhor que Cuba e que a Dinamarca melhor que a Coreia do Norte. Se o Bruno alguma vez tivesse lido o Barnabé antes de cá escrever saberia que eu já tinha dado por isso. Que sou profundamente anti-castrista – fui provavelmente quem aqui mais vezes escreveu sobre o assunto –, já para nem me dar ao trabalho de discutir o modelo coreano, que apenas serve para um insulto sem sentido. Chama-se a isso má-fé.
Esclarecido isto, devo dizer ao Bruno que nunca me considerei júri de ninguém para decidir quem é de esquerda ou não, se ela é a pura, a verdadeira, a da Bayer. Limito-me a assinalar as similitudes entre os lugares comuns que o Bruno reproduz e o discurso que a direita alimentou durante três e anos e que foi, aliás, uma das razões de ser do nascimento do Barnabé. Não me interessa especialmente se o Bruno ainda acredita (não me conhecendo não faço ideia quando terá começado a acreditar) se eu sou liberal. Não sei, e durmo bem sem o saber, se ele é social-democrata ou não. Limito-me a ver com alguma perplexidade um social-democrata a fazer da sua bandeira o aumento da idade da reforma, o aumento do imposto socialmente mais cego (o IVA) e a não dizer uma palavra sobre a escandalosa fuga ao fisco que se assiste nas empresas, sobre os benefícios fiscais à banca ou, para elogiar o PS, sobre a importância de um renascimento do Rendimento Mínimo Garantido.
Mas para mim, na verdade, a questão é outra. Concordei com o alargamento do Barnabé. Parecia-me uma boa ideia. Uma maneira de aliviar um pouco os que já cá escreviam e dar sangue novo ao blogue. Não esperava, na verdade, um abandono quase geral por parte dos seus fundadores. Quem foi aguentando este barco foi o Rui. E as posições do Bruno, mais do que legitimas, ganharam um tal peso que começaram a marcar o blogue. As suas posições e o seu estilo de argumentação e de escrita. É o dele. Eu limito-me a não apreciar. Devia ter pensado nisso quando concordei com este alargamento. Não pensei e a culpa é apenas minha.
A verdade é que, lendo o Barnabé, não o reconheço. Quando pensei neste blogue, quando o fiz com quatro grandes amigos, tinha alguns objectivos. Eram os meus, não eram obrigatoriamente os dos restantes fundadores. Ao contrário do que pensaram e disseram muitos, não se tratava de fazer a propaganda do Bloco de Esquerda. Claro que, sendo eu do Bloco, há uma agenda comum. Não sou esquizofrénico. Mas isso seria pouco e pobre. Seria mesmo uma desconsideração por amigos meus. Era um pouco mais ambicioso do que isso. Era propaganda, sim. Não tenho nada contra ela. Era contra-propaganda. Contra a propaganda que, na imprensa e nos blogues, ganhava espaço. Contra o elogio da violência como resolução de todos os conflitos, que chegou mesmo a exercícios de estetização da guerra. Contra a inevitabilidade de um Império benevolente e protector. Contra a retracção do Estado Social para, supostamente, salvar o Estado Social. Contra a ideia instalada de que a perda de direitos sociais é uma inevitabilidade histórica e não uma opção política. Nenhuma hecatombe natural se abateu sobre o Ocidente que nos obrigue a deitar fora um século de conquistas. A desregulação da economia global é uma estratégia, não é um movimento natural. Se há uma esquerda que desistiu destes combates tenho todo o direito a dizer que ela está a trair a esquerda e a social-democracia com a qual, fica o Bruno a saber, me identifico.
Se quando ajudei a criar o Barnabé eram estes os meus objectivos, é normal que, quando o Barnabé passa a servir para repetir a cartilha da inevitabilidade histórica do recuo do modelo social que defendo, me sinta mal aqui. Não é falta de tolerância. Sou é pragmático. Sempre fui. Quando não escrevo para mim ou para aqueles de que gosto, e desde que deixei de ser jornalista, escrevo para fazer um combate político, que não é, grande parte das vezes, partidário (comecei a fazer política muitos anos antes do Bloco nascer). O Barnabé era para mim um espaço de opinião alternativo, que debatia com outros e se batia pela hegemonia da linguagem política e cultural. Um espaço plural, mas um espaço. Dirão: plural, mas com limites? Exactamente! Plural o suficiente para contrariar as tendência monolíticas de toda esquerda, com os limites suficientes para ser mais do que uma tertúlia. Podia ser apenas um espaço de debate. Mas não é nesse filme que me apetece estar. Se é só para repetir aqui o que se lê até à náusea em todos os jornais, de José Manuel Fernandes a Miguel Coutinho, de Pacheco Pereira a Fernando Madrinha, não imagino que interesse possa eu ter em alimenta-lo. Isso é o que faço no “Expresso”, com gosto, mas num registo diferente do que tenho aqui e até resultado do que aqui faço. Se é para mais do mesmo, que alimente o Barnabé quem acha útil faze-lo. Acho mesmo que quem discorda do Barnabé não gosta especialmente de ver este espaço transformado numa outra coisa. Chamem-me conservador.
Nunca calei ninguém. Não debato com fascistas, nem lhes dou espaço, mas nunca calei ninguém, muito menos gente politicamente civilizada e democrata, como é, obviamente, o Bruno. Mas costuma-se dizer: quem está mal muda-se. E sou eu que estou mal. Não estou incomodado, zangado ou irritado por alguém ter uma opinião oposta à minha. Estou bastante habituado a viver, nas minhas relações de amizade e até políticas, com essa realidade. Até gosto. E hão de convir que tenho, em geral, uma carapaça bastante resistente. Apenas não me apetece esforçar-me para dar tempo de antena aos que já têm tempo de antena de sobra em toda a comunicação social. Outros que o façam que o meu esforço ainda vale alguma coisa.
Assim, despeço-me do Barnabé. Adorei fazer isto. Foi mesmo das coisas mais surpreendentemente úteis que fiz nos últimos anos, se me toleram a imodéstia. Com o Rui, um dos melhores bloggers portugueses, com o Pedro, um dos “reaccionários” mais espirituosos que conheço, com o Celso, sempre leal, e com o meu enorme amigo André, de quem tenho saudades no blogue e na vida e que foi igual ao que sempre foi. Ultrapassou, ultrapassaram, ultrapassamos todas as minhas melhores expectativas. Mas ver o Barnabé definhar custa-me. Por isso, vou andando. É provável que volte à blogosfera. Se me der para aí, claro.
O Expresso deste Sábado conseguiu uma cacha estupenda e, até ver, completamente inédita na imprensa do planeta. Para começar, faz uma peça sobre o lançamento do segundo livro de ficção do seu director numa das páginas de maior destaque do primeiro caderno. Nesse artigo, a única opinião sobre o romance que se cita é, – demasiado genial para se dizer assim de chofre – da própria mãe do autor. A Sra. Dona Maria Isabel Saraiva sempre foi dizendo "não ser a leitora benévola" que se poderia imaginar, mas assinalou a "mestria" da escrita do seu filho, que segundo o Expresso, "lhe recorda a de Alexandre Herculano".
Estou seguro de que, fosse a mãe do autor um pouco mais benévola, outros vizinhos de Alexandre Herculano nos Jerónimos estariam ameaçados. Luís, Fernando, olhem que o terceiro romance vem aí.

O Daniel Oliveira teve a amabilidade de mostrar que o meu retrato como social-fascista afinal era para levar a sério. Podia responder descendo ao mesmo nível, mas prefiro tentar elevar a discussão. Há duas maneiras olhar para o poste dele em que ainda argumenta qualquer coisa. A primeira é como exemplo de uma certa esquerda com um secular complexo de superioridade moral. A outra é como uma defesa da ideia de que as políticas de austeridade são necessariamente de direita. Começando pela primeira...
Os partidos socialistas ou sociais-democráticos foram durante mais de cem anos alvo de ataques violentos, verbais e não só, de correntes vanguardistas, maximalistas – o PCP antes de ser tornar partido era a Federação Maximalista Portuguesa – com o suposto monopólio da verdadeira esquerda. A lógica de que o bom é inimigo do óptimo, do tudo para já, de recusar a realidade e sobretudo a realidade económica como sendo um «argumento» de direita, de que quem não está com a revolução está com a reacção para citar o saudoso companheiro Vasco, que resultados é que deu quando no poder? Ditaduras sangrentas e desastres económicos e sociais.
Comparar a Suécia e Cuba, a Dinamarca e a Coreia do Norte, o Canadá e a Jugoslávia quase dispensa argumentos. Mas eu explico. No primeiro caso houve partidos de esquerda moderada com um peso eleitoral dominante e que aplicaram gradualmente uma agenda de construção de um Estado com preocupações de progresso social economicamente sustentável; no segundo houve esforços utópicos para criar um homem novo e revolucionar a economia em nome da uma esquerda autêntica. Os sociais-fascistas não acharam que o orçamento ou a inflação – ou seja a realidade económica – fossem coisas de burgueses e de direita. Por isso, os seus países mantiveram uma economia saudável que permitiu a melhoria sustentada das condições de vida de todos, sem as crises terríveis e inglórias, e sem a repressão sangrento porque passaram os países que foram sujeitos às experiências de ditaduras marxista mais ou menos ortodoxas.
Conheço os argumentos do costume. A esquerda verdadeira nunca chegou ao poder em sítio nenhum! Estes regimes de ditadura marxista eram uma aberração! Os comunistas e outros marxistas no Ocidente ajudaram a reformar o capitalismo! Mas porque é que essa tal esquerda pura nunca chegou ao poder em sítio nenhum? É um mero acaso que uma lógica extremista tenha levado a regimes extremistas? O comunismo e outros vanguardismos ajudaram a reformar o capitalismo? Com certeza, eu não tenho uma visão linear da história e reconheço que o medo do comunismo com certeza ajudou a fazer aceitar políticas sociais. O comunismo e outros vanguardismos tiveram um papel importante na criação de organizações dos trabalhadores. Mas convém não esquecer que o seu objectivo nunca foi reformar o capitalismo, era destruí-lo. Não poucas vezes essa esquerda de vanguarda atacou tudo o que fossem opções de esquerda que recusassem essa lógica maximalista, denunciou como vendidos ao capitalismo os partidos e sindicatos que procuravam a melhoria possível da situação dos trabalhadores pela negociação e não a luta de classes, culpados de adiarem o fim do capitalismo nos amanhãs que cantam.
Já tive mais razões para acreditar que o Daniel seria hoje um liberal de esquerda, devotado defensor dos direitos e liberdades fundamentais que ainda em 1975 muito boa gente da dita esquerda a sério achava dispensáveis em nome de uma revolução à séria. Mas admito que em princípio até ache bem haver pluralismo nas esquerdas e para além das esquerdas, já duvido mais que retire daí todas as consequências. Para isso seria preciso que o Daniel me criticasse quando entendesse, mas deixasse cair as poses de vanguarda, de quem decide quem é de esquerda ou direita, onde está o mel e quem é a mosca. Embora entre a medalha Lenine e a medalha Melícias, Bonifácio ou Félix não tenha dúvidas em escolher qualquer das últimas. E se não gosto de ser a mosca no mel de ninguém - e daí... - ainda gostaria menos de fazer a figura triste de compagnon de route acéfalo de qualquer moda do momento...
Mas há ainda outra interpretação possível do seu poste...
Uma conclusão que me parece inevitável do poste do Daniel é a de que a esquerda não pode governar durante períodos de crise económica! Tudo o que seja fazer reformas dolorosas ou cortar nas despesas do Estado é uma política à Bagão Félix, ou seja, de direita! O resultado desta lógica – que a direita certamente agradece – é a de que os cortes serão sobretudo nas áreas que a direita tradicionalmente considera dispensáveis, como as políticas sociais. Um bom exemplo são os EUA actuais. Outro, é a Grã-Bretanha que elegeu e reelegeu a baronesa Thatcher depois do PREC inglês de 1978, em que no meio da mais grave crise económica da sua história recente o país estava parado por greves com alguns sindicatos a exigirem aumentos de salários de 30% e 40%! Resultado: a esquerda britânica esteve afastada do poder durante quase vinte anos porque «não sabia gerir a economia». Afinal se só a direita é que sabe governar em tempos de crise, então o melhor é deixá-la lá sempre, pelo sim, pelo não...
Cabe ao Daniel, e sobretudo ao PCP, ao Bloco e aos sindicatos que se opõem às actuais reformas, explicar que política económica é que propõem em alternativa e qual é a base das suas propostas. Este social-fascista veria com gosto uma economia que permitisse manter e até aumentar substancialmente salários e regalias sociais, não vejo é onde é que esse milagre económico se esconde. Mais, e independentemente disso, importa lembrar que o essencial desta reforma do funcionalismo público pelo governo do PS está de acordo com as melhores tradições da esquerda: promover não de acordo com a antiguidade mas sim de acordo com o mérito. Foi assim que tudo começou há duzentos anos atrás. E nessa altura também houve quem reclamasse com direitos adquiridos.
PS - Daniel, se puder escolher, desta vez podia ser o Kerensky?
Estou grato ao Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME) e ao seu máximo representante, o padre Vaz Pinto - que decidiu abandonar o cargo no próximo mês por "razões pessoais" - pelo trabalho que fazem em prol de valores fundamentais.
Estou grato ao ACIME - um órgão governamental, sublinhe-se - por desconstruir um "arrastão" imaginário e por confrontar a Presidência do Conselho de Ministros com uma análise implacável.
Estou grato ao Correio da Manhã - não propriamente um "jornal de referência" - por ter sido o único órgão de comunicação social que deu o devido espaço e tratamento às manifestações do ACIME.
Estou grato a Ana Drago.
Afinal o homem que não era capaz de ganhar uma junta de freguesia lidera as sondagens. Carmona Rodrigues tem decididamente uma imagem de tipo sério e em vez de ser prejudicado pela imagem de Santana Lopes que nem à direita agrada, só sai beneficiado com a comparação. A esquerda tem muito que meditar.

o tal modelo "anglo-saxónico"...
...Francisco Louçã a ministro das Finanças e da Economia & Jerónimo de Sousa a ministro da Reforma Administrativa e do Trabalho. Nem digo quem para primeiro-ministro deste governo de salvação nacional da esquerda verdadeira.
Depois de Bagão Félix e do Padre Melícias, Fátima Bonifácio também entra no Barnabé.
- Que história é essa, com 20 anos ainda estás no 9 ano!?
- Ainda não tive tempo para fazer o exame, mas não são os profs que dizem que na educação nada é urgente!?
Qual é a diferença entre um racista e um burro? É que pelo menos um burro reconhece a sua espécie.
Qual é a diferença entre um racista branco e um racista negro? É só uma questão de cor.
Texto publicado no "Expresso", no último fim-de-semana.
Álvaro Cunhal não era coerente e não tinha uma fé. O elogio recorrente esconde, de facto, uma enorme desconsideração. Cunhal era absolutamente político. Não queria apenas ser respeitado. Queria vencer. Com inteligência, mudou sempre que sentiu que tinha de mudar. Maldisse a China, abraçou a China. Combateu Soares, deu a vitória a Soares. Fez a revolução, travou a revolução. Escondeu a sua vida privada, exibiu fotografias da neta quando o partido precisou de aparecer doce e de rosto humano. Contrariou o culto da personalidade, alimentou o mito do segredo. Cunhal, como qualquer génio político, era um táctico. Tão brilhante que nem se dava por isso.
Cunhal não esteve no lado errado da história. Bateu-se contra o fascismo – que alguns, como Maria José Nogueira Pinto e Ribeiro e Castro, toleraram – e o fascismo foi derrotado. Bateu-se pela conquista de direitos sociais e eles foram absorvidos pelo sistema. Bateu-se pela existência de um movimento organizado de trabalhadores – por vezes sufocando-o – e os sindicatos são hoje a força social organizada mais relevante no nosso país. Os comunistas não estiveram do lado errado da história. Marcaram o século XX e, depois dele, qualquer assalariado vive infinitamente melhor do que vivia. Na política e na história, a derrota é só o epílogo de muitas vitórias.
Quem esperava que Álvaro Cunhal mudasse de posição, aos 80 ou 90 anos, não percebe nada da natureza humana. No fim da vida somos fiéis à nossa vida. É isso que temos de ser. Cabe a outras gerações destruir o que se construiu. E aí está a grande fraqueza de Álvaro Cunhal. Apesar da sua absoluta superioridade intelectual, cercou-se de mediocridade. Para desgraça do PCP, o seu génio foi maior do que a sua generosidade. Deixa um enorme passado aos comunistas. Não lhes deixa grande futuro.
Texto publicado no "Expresso", no último fim-de-semana.
As mortes de Álvaro Cunhal e de Vasco Gonçalves serviram, nestes
dias, para um ajuste de contas com a história. E ele foi especialmente excitado nos que vivem com a má consciência do seu papel antes do 25 de Abril. Dizem que a liberdade teria nascido a 25 de Novembro. Mas a verdade é que o PREC está no DNA da nossa democracia.
Já nem relembro que as primeiras eleições livres foram antes de Novembro. Já nem relembro que a censura acabou ali mesmo, com a revolução. Vou mais longe do que isso. A democracia social, sem a qual a democracia política não sobrevive, foi conquistada nesses meses quentes. O divórcio, uma mais justa redistribuição da riqueza, os direitos no trabalho, a greve, a adaptação (violenta) de um tecido empresarial intimamente ligado ao antigo regime a uma sociedade democrática, o acesso generalizado ao ensino, uma segurança social digna desse nome, o serviço nacional de saúde, tudo precisou desse período para se impor. Foi o salto histórico português. E por ter acontecido na rua teve muitos actores. Contraditórios e muitas vezes irresponsáveis. Mas foram tantos que demasiados sentiram como seu aquele momento. Por isso é tão difícil voltar atrás.
Tivesse sido a nossa revolução uma suave transição e a sociedade portuguesa seria muito diferente. Teríamos ficado economicamente mais saudáveis, até posso conceder. Mas guardaríamos muito mais do provincianismo, atraso e rigidez social que nos dominou durante meio século. Ao contrário do que muitos pensam à direita e à esquerda, a revolução nunca foi derrotada. Foi o que tinha de ser. Antes e depois de Novembro.

Mesmo quando não saem do banco, para a generalidade da imprensa portuguesa o Real Madrid é tratado como a equipa do Figo, o Milão é o Rui Costa e até o Manchester era a equipa do treinador-adjunto Carlos Queiroz até lá ter chegado o Cristiano Ronaldo. Agora, quando finalmente temos uma instituição internacional a funcionar à exacta medida do talento e das capacidades de um “português de sucesso”, não deixa de ser estranho que ninguém lhe atribua os verdadeiros créditos.
As coisas começaram logo a correr mal com a ameaça de veto do Parlamento Europeu à equipa de comissários apresentada por Durão, obrigando-a a uma inédita apresentação de novas caras ainda não estava sequer empossado. Seguiu-se a ratificação da Constituição Europeia, com o “nosso” José Barroso a garantir depois do “não” francês que o processo iria continuar. E continuou, pelo menos até à véspera do Conselho onde os governantes europeus não chegaram a acordo sobre o financiamento e as Perspectivas Financeiras da União.
Durão Barroso não terá, certamente, toda a culpa na “profunda crise” em que a Europa mergulhou. Mesmo assim, quando alguém se lembrar de a relacionar com a falta de estatura e peso politico do Presidente da Comissão Europeia, tenho a impressão que não faltará muito para que Durão apareça em público a dizer que não pode recusar a imensa honra que é aceitar um qualquer prestigiante cargo internacional que lhe foi oferecido. Como Alto Comissário da ONU para os Refugiados, quem sabe.
Em causa estava o facto de ter sido o Governo a determinar e impor os serviços mínimos, ao invés dos trabalhadores e associações sindicais. Esta medida resultou, na prática, na neutralização desta greve, pelo facto de os serviços mínimos terem posto em causa os objectivos da paralisação." Jornal de Negócios, 6 de Junho de 2005.
O sindicato exige agora, cinco anos passados, que a CP regularize a situação dos profissionais que sofreram faltas injustificadas, processos disciplinares e viram suspensa a progressão na carreira...
A manifestação fascista de sábado foi marcada pela Frente Nacional, uma organização ligada ao PNR. No site da FN, ao qual não faço ligação por questões de higiene, lê-se: «Quem já é militante do PNR pode fazer parte da FN, bastando para isso que entre em contacto connosco. Aconselhamos quem não é filiado a fazer a sua inscrição, como forma de ajudar no crescimento da alternativa nacionalista. Em breve disponibilizaremos online uma ficha para quem quiser efectuar a sua inscrição como militante do PNR». Não restam, assim, grandes dúvidas sobre a ligação orgânica entre os dois movimentos.
Na manifestação de sábado, um dos dirigentes da FN que deu declarações à comunicação social foi Mário Machado, condenado, em 1997, a uma pena de prisão de quatro anos e três meses por envolvimento na morte de Alcindo Monteiro («a Marcha Contra a Criminalidade decorreu de forma pacífica, tendo Mário Machado, da Frente Nacional - e que cumpriu pena de quatro anos de prisão pelo assassinato de Alcino Monteiro, em 1995 - apontado ao PÚBLICO que participaram no desfile "cerca de 400 pessoas". "Ainda não chegámos à maré negra de Cascais", ironizou» - Público de ontem).
Numa entrevista ao “Correio a Manhã”, no dia 27 de Maio, quando questionado sobre o ligação do movimento ‘skinhead’ ao Partido Nacional Renovador, o mesmo Mário Machado confirmou-a e explicou: «O movimento está ligado a todos os partidos políticos europeus que defendam os interesses nacionais e étnicos da população nativa. Mas também existem ‘skins’ que odeiam o PNR devido a problemas internos. O movimento está mais ligado à Frente Nacional, e esta ao PNR.»
Apesar do que está escrito na Constituição, não defendo, por princípio, a ilegalização de partidos tendo como argumento as ideias que defendam. Mas acho intolerável que, num país democrático e estável, seja dada a organizações directa ou indirectamente ligadas a actividades criminosas a possibilidade de concorrer a actos eleitorais. O mínimo que se espera, perante a evidência das ligações entre a FN e o PNR e das duas ao movimento “skinhead” e a autores de crimes raciais, é que as autoridades investiguem e, caso encontrem as provas necessárias – para começar basta uma rápida busca na Internet -, ilegalizem, através do Tribunal Constitucional, este partido político.
Seguindo o apelo dos manifestantes de sábado, está na altura de combater a criminalidade. Sabemos agora que um dos organizadores desta marcha em defesa da lei e da ordem é um cadastrado, condenado por homicídio e, ao que parece, político nas horas vagas.

Mário Machado

A RTP-N está neste momento a transmitir uma farsa qualquer a que alguns insistem em chamar de Fórmula 1. Tempos houve em que esta foi a maior competição automóvel, agora começa corridas com seis carros em pista. Quer dizer, com dois Ferraris e as quatro embarcações com motor que são os Jordan e os Minardi.
Invocando falta de condições de segurança, depois de 2 despistes no mesmo local, as equipas com pneus Michelin pediram para que se instalasse uma chicane para reduzir a velocidade e proteger a segurança dos pilotos. As mesmas autoridades que proíbem os pilotos de usar piercings invocando a sua segurança, não parecem preocupadas com a eventualidade de um despiste a 300 quilómetros por hora e começam uma corrida que, daqui a pouco, se arrisca a ter mais pilotos que espectadores.
A cada volta, o público que pagou mais de 100 euros supondo que iam ver uma corrida, assobia cada vez mais alto. O mais engraçado é que, com isto tudo, ainda nos arriscamos a ver o Tiago Monteiro no pódio. A 1 ou 2 voltas dos dois primeiros, mas no pódio...
No Reino Unido, a polícia tem de defender a comunidade portuguesa de ataques racistas porque um psicopata português matou a sua namorada britânica. Parece que os atacantes têm imenso orgulho de ser ingleses e têm imensas razões de queixa dos portugueses. Lá e cá, sempre a mesma história.
O mais grave de toda esta história, que acabou com a reimpressão de todos os jornais, não é a visão muito peculiar que Ascenso Simões tem da liberdade de imprensa. Ainda mais grave é que fica no ar a dúvida (a certeza?) de que um jornal não retira uma edição inteira das bancas por receio de um processo judicial, que teria muito poucas pernas para andar, mas antes porque sabe que é quase impossível a um pequeno título regional resistir contra a pressão do governo e dos pequenos poderes locais, como é o caso de Ascenso Simões - o todo poderoso presidente da federação socialista de Vila Real.
No Irão, as eleições presidenciais deram um resultado parecido com as francesas de 2002: passaram à segunda volta um conservador e um ultra-conservador. Suponho que seja o efeito-dominó.
Um dos imbecis que está agora no Martim Moniz a manifestar-se contra os imigrantes diz que tem "orgulho em ser branco".
Claro que sim: quando não se pode ter orgulho em ser inteligente, em ter talento, em ter aumentado a sua cultura e educação, em ser boa pessoa, em ter-se aperfeiçoado, em ter ajudado pessoas, em ter feito o mundo melhor ou em ter sido um exemplo para os outros. Quando não se pode ter orgulho em ser apreciado por pessoas de proveniências e culturas diferentes, em ter estado num país estrangeiro, ter feito amigos e ter deixado saudades. Quando não se pode ter orgulho em saber cozinhar, falar, dançar, tocar um instrumento, pintar, amar e ser amado por uma pessoa que admiramos, trabalhar no duro, ter boa caligrafia, aprender um idioma, ser autor de um invento, conhecer a história do seu país, ter criado filhos e netos, ser um bom marceneiro, ou um bom professor, ou um bom servente de pedreiro. Quando não se pode ter orgulho em saber alinhar duas ideias, saber compreender uma única, ou em ter tido nenhuma.
Quando não se pode ter orgulho de nada, tem-se orgulho em "ser branco". É o que sobra ao destituído total. Também a nódoa no pano, coitada, deve ter orgulho em "ser nódoa", o buraco em "ser buraco", a bosta em "ser bosta".
No entanto, o que esse imbecil ainda não entendeu é que ele nem sequer teve responsabilidade em ser branco. É só branco por acaso.
Tem, de facto, muito pouco de que se orgulhar.
... que eu gostava de ter escrito no Barnabé.
... que eu gostava de ter escrito no Barnabé.
Queria reconhecer aqui as minhas tendências revisionistas e fazer uma auto-crítica. Realmente a realidade não interessa nada, o que interessa é a política de esquerda e os slogans amigos dos trabalhadores.
A crise económica não existe, só existem os direitos dos trabalhadores.
A Argentina não existe; a Alemanha não existe. Portugal tem mesmo é que defender os direitos adquiridos dos trabalhadores (e dos empresários das farmácias também?). Fazer reformas é um luxo de países ricos ou na falência mais completa.
Sócrates, se fosse um primeiro-ministro de esquerda, aumentava os salários em 7 por cento. Reclamar aumentos de salários deste qualibre nesta altura - como aconteceu na campanha eleitoral - não é mentir aos portugueses; é fazer uma política de esquerda.
E na verdade os funcionários públicos é que pagam impostos, e até quase mais do que aquilo que o Estado lhes paga a eles (ou seja pagam quase 100% de taxa). Realmente venha a política de esquerda e os ricos que paguem a crise...
Em minha defesa parece que pelo menos numa coisa estava certa: a necessidade de reformar os serviços públicos, para eles funcionarem numa lógica de eficiência no serviço ao público e não de serviço de antiguidades. Mas pensei que as manifs de ontem eram precisamente também contra isso: contra o fim da promoção automática esse intocável direito adquirido sem o qual nenhuma reforma de fundo da administração pública é possível. Aqueles que trabalham a sério ao serviço do Estado, e conheço muitos, vão ter de continuar a contentar-se com um serviço bem feito.
Eu percebo bem a insatisfação das pessoas. E os políticos têm de dar o exemplo, acabando com uma série de privilégios injustificados. Mas Portugal está numa encruzilhada muito complicada, e pensar que cabe ao Estado ou aos empresários resolver o problema é uma ilusão perigosa. Só uma economia saudável e um estado eficiente podem sustentar políticas sociais. Mais, com que argumentos é que podemos andar a pedir dinheiro à Holanda, à Suécia ou à Alemanha, que fizeram reformas dolorosas, quando nós as recusamos? Autocrítica sim, mas já agora que tal começar pelo estado do país no mundo?
«A Europa está numa crise profunda», Jean-Claude Juncker, Presidente em exercício da UE
Não há acordo sobre os fundos comunitários e a Constituição está em banho Maria.

Hoje, débeis mentais vão manifestar-se numa praça onde costumam estar imigrantes. Como são débeis mentais, tratam-nos como débeis mentais. Por isso, criaram este blogue, a que chamaram Portugal Africano (www.irmandadenegra.blogspot.com), onde fingem ser africanos, politizando o arrastão de Carcavelos e tentando criar problemas para hoje.
Algumas frases:
«Ontem em Carcavelos, Hoje na Quarteira! Portugal Africano Já!»
«Enquanto uns ainda festejam a Guerra de África, nós preparamos a Guerra em Portugal.»
«Agradecemos toda a ajuda que o Bloco de Esquerda e o SOS Racismo têm prestado à comunidade africana em Portugal.»
«As únicas entrevistas que damos para os jornais, são os actos cometidos. As nossas acções são as vossas notícias. Avisamos já que não concedemos entrevistas, se querem falar de nós falem dos nossos actos. O terror ainda agora começou.»
Se estas crianças não fossem perigosas, eram apenas patéticas.
Espero que amanhã ninguém os vá ver. Com crianças, quando estão com a birra, espera-se que passe.
De repente, aqui em baixo, li um post do "Acidental" ou do “Blasfémia”, em defesa das medidas corajosas de Bagão Félix. Tem mais ou menos um ano e veio parar aqui, não sei como. O mesmo elogio à coragem de quem só tem coragem para exigir tudo sempre aos mesmos, a mesma demagogia fácil contra os privilégios dos que apenas são remediados. Num país absolutamente injusto, com o maior fosso social de rendimentos e qualidade de vida em toda a Europa Ocidental, este é o tipo de argumentação que pega. Dividir para reinar.
O discurso da esquerda sobre a Administração Pública é, infelizmente, quase exclusivamente sindical e pouco afirmativo. Defender um novo papel para os funcionários públicos, a sua avaliação (mas antes de mais a dos seus dirigentes), a racionalidade e o rigor na organização do Estado, a centralidade do utente e não do funcionário, o comprometimento do trabalhador do Estado com a ideia de serviço público deveria ser uma causa de esquerda. Mas a esquerda têm-a deixado à direita. É essa a reflexão que tem de se fazer. Sem medo de chocar e de contrariar ideias feitas.
Mas não é sobre isso que o Bruno aqui escreve. O estilo está nesta frase: «Ninguém gosta de perder direitos adquiridos; mas e os direitos adquiridos dos desempregados aonde é que estão?» É o discurso mesquinho do costume: todos temos de estar dispostos a perder direitos porque há sempre quem tenha menos direitos do que nós. Mais à direita, é usado contra o Rendimento Mínimo Garantido, para explicar ao miserável que o indigente lhe rouba os trocos. É diferente, é mais indigno, mas a lógica é a mesma.
A culpa do desemprego não é de quem tem emprego seguro. A culpa dos baixos salários não é de quem tem um salário quase decente. A culpa da desgraça dos nossos serviços públicos não é, antes de mais, de quem neles trabalha. Quase nenhum trabalhador português vive acima das possibilidades do país. O trabalhador português (que não pode ser comparado com o trabalhador alemão) vive abaixo das possibilidades deste país. Mais: este país não tem futuro com salários baixos porque salários baixos são trabalho sem qualidade. E o trabalhador português, funcionário público incluído, ganha mal e paga, quase sozinho, a totalidade das despesas de um Estado que lhe dá pouco, cada vez menos.
Ontem aplaudi uma manifestação de trabalhadores (os verdadeiros privilegiados, geralmente, não precisam de se manifestar quando lhes tocam nos direitos adquiridos) contra um primeiro-ministro que mentiu numa campanha eleitoral. O primeiro-ministro já não é Durão Barroso. Mas, infelizmente, podia ser, porque estamos a assistir à repetição quase exacta do que aconteceu há três anos.
Ontem um dirigente dos médicos dizia na TVI cheio de orgulho que eles eram os únicos que no campo da saúde não tinham qualquer interesse económico! Hoje um dirigente dos professores vinha dizer que a educação pela sua natureza não permitia serviços mínimos porque nunca era urgente, podia ser sempre adiada para um outro dia!
Este é realmente o país das maravilhas! Um país em que a educação pode ser sempre adiada, dizem-nos os próprios líderes sindicais dos professores que ao mesmo tempo reclamam que esta tem de ser uma área prioritária. Sempre muito preocupados com a pedagogia e os traumas dos alunos, por exemplo quando se fala da avaliação das escolas, mas que não mostram nenhum respeito pela natural ansiedade dos seus alunos em relação a um exame. É hoje, não, é amanhã, não, é outro dia qualquer, adia-se para quando for preciso! Uma maravilha pedagógica!
Este é realmente o país das maravilhas! Um país em que aparentemente os médicos trabalham de graça, e até nem vão a congressos subsidiados pelos laboratórios farmacêuticos desde que receitem um determinado volume dos seus medicamentos. Um país em que a saúde não tem custos, e cada médico, em nome da sua missão sagrada, pode gastar o que lhe apetecer porque alguém, evidentemente com interesses económicos, nalgum lado irá inventar o dinheiro!
Ninguém gosta de perder direitos adquiridos; mas e os direitos adquiridos dos desempregados aonde é que estão? Quantos não trocariam o sector privado pela segurança do sector público se pudessem? Direitos adquiridos? E os direitos adquiridos dos trabalhadores argentinos – públicos e privados – onde estavam quando a economia entrou em colapso? Portugal está a viver acima dos seus meios, e cabe a todos decidir se vamos enfrentar a realidade e ajudar a resolver o problema, ou se enfiamos a cabeça na areia e esperamos que o desastre só atinja os outros. Na Alemanha, que tem o peso económico que sabemos e está a crescer mais do que Portugal, grandes empresas e grandes sindicatos chegaram a acordo para congelar salários ou revogar direitos adquiridos; em Portugal a prioridade é manter os privilégios do sector público e subir os salários como se não houvesse amanhã!
O governo teve a coragem de tomar algumas das medidas que se impunham; claro que há sempre pontos discutíveis, mas alguma coisa tinha de ser feita. Teremos nós a coragem de acordar e do apoiar? Feito isto cabe depois o mais difícil, pensar o futuro da economia portuguesa. E aqui o governo precisava de empresários e sindicatos, fundações e universidades empenhadas em pensar o futuro, será que as vai encontrar? Duvido... Melhor é sonhar com o País das Maravilhas.
Neste caso não por mim mas por um Critic deste meu poste. Pergunta ele em que me baseio para dizer que a ATTAC francesa, ao contrário da portuguesa, bloqueou qualquer debate real sobre a constituição europeia.
Aqui vai em resposta, o texto de Harlem Désir, euro-deputado da ala esquerda do PS, e um dos fundadores da SOS Racismo e da ATTAC franceses, defensor do tratado, e que diz adeus à ATTAC francesa comentando que ela est devenue un parti d’extrême-gauche de plus, jusqu’au-boutiste et anti-européen de fait. [...] Les dirigeants d’Attac promettaient un autre monde possible? Ils s’y opposent en diabolisant la construction européenne, le seul espoir concret de réforme de la mondialisation. [...] Un autre altermondialisme existe déjà. On le trouve dans les ONG du développement, chez les militants des forums sociaux, chez les milliers de syndicalistes du monde entier qui se retrouvent chaque année à Porto Alegre, chez tous ceux qui combattent la démagogie nationaliste, qui refusent d’utiliser les travailleurs des pays pauvres comme boucs émissaires ou comme repoussoirs. Je souhaite qu’Attac se reprenne et se retrouve dans les combats de demain.
Por isso, caro Zé Neves, embora concorde que nem sempre os processos históricos são lineares, a verdade é que as curvas têm custos, o romantismo tem custos. Afinal, o Tratado da União Europeia pode ter sido adiado por um ano, mas o Tratado da União Mundial parece-me bem mais longínquo, e sobretudo adivinho um referendo difícil para estabelecer democraticamente um governo à escala global...
Quanto aos custos do não, no curto prazo eles já estão à vista: uma Europa completamente voltada para si, políticos obcecados em marcar pontos numa agenda nacionalista de vistas estreitas, em que as prioridades reais, da economia ou da sociedade ficam de lado em nome de um egoísmo de salve-se quem puder.
PS, PSD e PP aprovaram, na mais rápida Comissão Eventual para a Revisão da Constituição de que há memória, uma norma transitória para que se pudesse referendar o Tratado Constitucional Europeu no nosso país. Contrariando todas as regras do bom senso, optaram por uma decisão que nega as mais elementares regras do Direito Constitucional, de acordo com as quais as normas constitucionais devem ser abstractas e gerais, fazendo uma revisão à pressa para responder a um ponto específico em vez de responder à questão de fundo: a impossibilidade de se referendarem tratados.
Uma revisão feita à pressa e com um horizonte curto de 4 meses. Isto até ontem, dia em que o referendo europeu foi para o caixote de lixo da história e que matou, por atacado, um processo de revisão constitucional marcado pela mais profunda irrelevância política.
Agora, fica por saber o que é que vão dizer estes partidos no dia 22, quando a ratificação da Revisão Constitucional for discutida no Parlamento. Uma coisa é certa. Esta gente não parec acertar em nenhuma Constituição.
P.S; Depois deste post ter sido escrito vi que o líder parlamentar do PS, Alberto Martins, reconhece que não se pode manter uma norma transitória que faz referência a um Tratado que já morreu - propondo que a referência encontrada tenha um carácter mais geral. É um bom sinal. Continua, no entanto, por saber porque andou o Parlamento a brincar às constituições há menos de duas semanas.
Mudanças quinzenais na Constituição não é, propriamente, o melhor dos sinais que se pode dar sobre o rigor com que se procede à sua alteração.
Entretanto, não falta teoria sobre a Cova da Moura. Eu nunca escrevi aqui sobre a Cova da Moura, e a razão é simples – conheço a Cova da Moura melhor do que 98% das pessoas que vêm à televisão falar sobre o assunto – dei lá aulas durante dois anos – e portanto ninguém acreditaria em mim.
Fica então aqui o desafio: amanhã comemora-se o São João na Cova da Moura, com a festa do Kola San Jon, importada da ilha de São Vicente. E toda a gente está convidada pela Associação Moinho da Juventude. O programa está aqui abaixo com todos os detalhes, e inclui debates sobre o bairro, uma exposição da responsabilidade da Agência Magnum, comida, dança e o desfile do Kola San Jon propriamente dito. O Presidente da República vai. É a resposta mais consciente e digna à provocação racista que vai ter lugar no Martim Moniz.
A Associação Cultural Moinho da Juventude vem convidá-lo a participar na Festa do Bairro da Cova da Moura, no Sábado, 18 de Junho de 2005, que terá o seguinte programa:
1. Workshop sobre a requalificação do Bairro da Cova da Moura a partir das 9h30 na Escola Secundária D. João V na Damaia
2. Festa do Kola San Jon que decorrerá as ruas do bairro a partir das 15 h.
Durante o cortejo terá a possibilidade de descobrir a exposição “Nós Kasa”, fotografias de Susan Meiselas da Agência Magnum. As imagens em tela plástica, são ampliações de Polaroids oferecidas aos habitantes e serão afixados nos estendais de roupa dos moradores
Informamos que Sua Ex.ª o Senhor Presidente da Republica, Dr. Jorge Sampaio e a Dra. Maria José Ritta nos honrarão com uma visita das 10h00 às 12h30.
WORKSHOP
“A requalificação da Cova da Moura é possível se a gente quiser”
A requalificação de bairros: O caso da Serrinha no Brasil, Arqº e urbanista Manoel Ribeiro
O realojamento e as suas contradições. Profª Dra Isabel Guerra, ISCTE
“Cova da Moura, um pouco da sua história” um testemunho dos Moradores
Maquetas e propostas para a requalificação da Cova da Moura, dos estudantes do 5º ano de Planeamento Urbano da UTL Profª Dra Isabel Raposo, Faculdade de Arquitectura/UTL.
Comentários do Arquitecto Manoel Ribeiro.
Debate.
Os moradores convidam os autarcas de Amadora e as associações locais.
11h30 Inauguração da Exposição de Rua NÓS KASA – fotografias de Susan Meiselas (da Agência MAGNUM Photos de Nova Iorque) promovida pelo Centro Cultural de Bélem e patrocinada pelo BES.
Na Escola Secundária D. João V de Damaia decorrerá em simultâneo o Torneio-convívio com a PSP entre as 10h e as 13h.
Existe a possibilidade de reservar, com antecedência, um Almoço Africano num restaurante da Cova da Moura. Tel. 214971070 (Heidir)
O Coqueiro, Rua dos Reis
A Princesa, Rua dos Anjos
O Chile, Rua 8 de Dezembro
Festa do Kola San Jon (15h às 20h)
15h00 Apresentação do filme “Com uma Ilha às Costas”, de Ricardo Silva, Tiago Matos e Raquel Matias no Polivalente da Associação Cultural Moinho da Juventude
Kola S. Jon - Desfile pelas ruas do bairro. Uma festa que celebra a primavera e em que o barco evoca as caravelas portuguesas e os flibusteiros como o Drake, que assolaram as ilhas de Cabo Verde.
Acção de sensibilização de prevenção do HIV/SIDA durante o desfile do Kola San Jon pelos jovens do curso “educação de pares” em parceria com AJPAS.
17h00 Espectáculo na Escola Primária
RAP e Hip-Hop
Grupo de ginástica
Dança contemporânea
Grupos de Danças Africanas
Grupo de Batuque, Finka Pé
Entrega do Prémio à rua melhor decorada
Graffiti com Eith e Tazy
Tranças africanas pelo grupo “Cegonha”
Leilão dos ramos do Kola San Jon
Feira africana
Missangas e colares de Angola
Venda de cavaquinhos
Pasteis de peixe, roscas, cuscus
Grogue e poncho
19h Partilhamos 2 panelas gigantes de Cachupa
Mas para falar a verdade, estou com saudades do tempo em que o CDS/PP estava no governo. Nesse tempo, oh gentes, alguém se lembra? Morriam polícias em cenas de tiroteio urbano e o mundo não estava para acabar. Agora na oposição, aqui d'el rei! A autoridade está em causa! Temos de ser firmes! Chegaram as hordas dos bárbaros! Roma está a saque!
As culpas são evidentemente da esquerda – e de quem poderiam ser senão da esquerda? Deveriam acaso ser de quem estava no governo até há três meses atrás?
O CDS/PP, acabado de sair de três anos de governo durante os quais a sua hipocrisia pseudo-humanista/cristã fracassou miseravelmente com as minorias deste país, descobre que não pode caminhar para a irrelevância sem começar a fazer concorrência com Manuel Monteiro e Manuel Monteiro com os racistas encartados. O doutor Manuel Monteiro veio propor que os imigrantes tenham direito a penas mais pesadas pelos mesmo crimes (e eu digo ao Manel: não está na lei, mas todos os estudos demonstram que isso já acontece). O doutor Nuno Melo vem insinuar que há jovens que não querem ser portugueses (e eu digo ao Nuno Melo: há jovens que vocês não querem que sejam portugueses! O CDS/PP bloqueou quaisquer alterações à lei da nacionalidade: os filhos de ilegais já nascem ilegais, as crianças nascidas em solo português continuam a não ser portuguesas e demoram mais de uma década a naturalizar-se – a não ser que sejam jogadores de futebol –, etc.). E enquanto o CDS/PP compete com Manuel Monteiro e Manuel Monteiro com os racistas pelos votos do medo e da ignorância, ainda pelo caminho o MRPP lhes há-de dar um bigode a todos.
Defendem-se: que não é racismo. Claro que não. Nem a isso podem almejar! Não passa de oportunismo do mais medíocre.
Da próxima vez que bandos organizados com centenas ou milhares de membros descerem em autocarros a Auto-Estrada do Norte destruindo estações de serviço, não me deixarei tolher pelo politicamente correcto nem terei medo de ser chamado de racista. Seguirei a táctica Nuno Melo, também conhecida por "dizer merda e ainda sugerir que estou a ser muito corajoso":
– São os gajos do Norte.
***
No blogue "Letras com Garfos" foi feito um "trackback" ping a este post, chamando-lhe "Um lamentável ataque Ad Hominem". Se se tratasse apenas de um caso de ignorância acerca do que um ataque ad hominem quer dizer, eu deixaria passar; é bem evidente para qualquer leitor, concordando ou não com o conteúdo do meu post, que este não inclui nada de ad hominem. Esta é uma refutação irónica, ab absurdo das falácias de Nuno Melo e não um ataque à pessoa. Limito-me a comentar declarações e não faço nenhum tipo de referência pessoal a Nuno Melo (número de filhos, profissão, tipo de penteado, património, etc.), que é aquilo precisamente que caracteriza o ataque ad hominem.
Mas há pior. Para dar a ideia de que este seria efectivamente um ataque ad hominem, o autor do Letras com Garfos dá-se ao luxo de simplesmente criar uma frase que eu não escrevi:
«Rui Tavares [Barnabé]: “É um dos gajos do norte. Dizem merda e ainda sugerem ser muito corajosos”.»
Assim sim, seria um ataque ad hominem (mais até ad gentium, às gentes do Norte), mas não fui eu que o escrevi. Foi um indivíduo desonesto, que é o autor do Letras com Garfos. E isto também não é ad hominem; é uma simples constatação a partir do exemplo em apreço. Quem inventa frases para sujar terceiros é desonesto, ponto final.
Deixei o aviso seguinte no blogue em causa. Aqui fica também.
AVISO
Quem ler este post ficará com uma ideia completamente distorcida do que está em causa. Em primeiro lugar, não fiz um ataque ad hominem, mas isso poderão os leitores avaliar lendo o meu post.
Em segundo lugar, a frase que você coloca entre aspas é completamente inventada. Eu não escrevi aquilo, nem como paráfrase do que eu efectivamente escrevi se pode justificar. É uma colagem de excertos diferentes e ainda uma invenção. Lendo o original se pode verificar que 1) eu NÃO disse que Nuno Melo fosse um dos gajos do Norte; 2) eu NÃO disse que os gajos do Norte dissessem merda; 3) aquela frase, escrita daquela forma, não existe; 4) o que está no post é um exposição irónico do tipo de falácias presentes no discurso de Nuno Melo, o que implica naturalmente que eu NÃO partilho, antes rejeito, aquele tipo de raciocínio.
Os leitores por favor tirem as coisas a limpo, e as suas próprias conclusões, lendo o post original em
http://barnabe.weblog.com.pt/arquivo/114884.html
Não faço mais comentários porque estas são razões suficientes para ver que o autor deste post não está de boa fé.
A indústria portuguesa do açúcar pode estar em risco. Bruxelas admite que “a perda de emprego” poderá ter um “impacto significativo na pobreza”.
Mas agora o outro lado da história que não aparece neste artigo:
A União Europeia subsidia as exportações de açúcar dos seus membros com duas consequências importantes: a redução dos preços do produto no mercado mundial e das oportunidades de exportação de outros produtores.
E quem é que sofre com esta política?
Grande parte dos países em desenvolvimento. E porquê? O seu açucar (que muitas vezes representa uma das indústrias mais importantes desses países em termos de emprego e geração de rendimento), simplesmente, não consegue competir no mercado mundial com os preços altamente subsidiados do produto europeu. Leiam o que diz uma das mais prestigiadas organizações não-governamentais internacionais: Oxfam.
E agora? Até que ponto estamos dispostos a aceitar mais “pobreza” na Europa a favor de mais “riqueza” nos países em desenvolvimento? Será que estamos prontos a ser mais “justos” na distribuição da riqueza a nível mundial?
Uma das lições que o funeral de Álvaro Cunhal – que ainda agora ouvi ser descrito como o maior funeral público no nosso país desde a morte de Sá Carneiro – poderia ensinar à nossa direita é a não desvalorizar a esquerda portuguesa como uma espécie de capricho estranho ao povo, como tantas vezes faz. A imprensa, a maioria dos colunistas e admito que até uma grande parte da opinião pública costuma tratar como unicamente populares o catolicismo, o futebol e o amor pelas estrelas de variedades. Esquecem-se – mas há quem não possa esquecer, porque nasceu no meio desse povo – que as tradições da esquerda fazem parte da nossa história, muito antes de existir PCP e continuam a existir muito para lá do PCP, mas também através desse canal importantíssimo que foi o PCP. Existe uma cultura, um povo e uma história de esquerda em Portugal. Essa terá sempre futuro.
Estudo revela que Portugal tem mais 400 milionários.
A direcção do PP de Lisboa vai reunir-se amanhã para fazer um balanço sobre o fracasso da coligação autárquica em Lisboa com o PSD.

Folheio uma cronologia da história portuguesa. Rio-me numa das entradas do ano de 1985:
"30 de Junho. Krus Abecassis, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, encabeça uma manifestação que procura impedir a exibição do filme Je Vous Salue Marie, do realizador Godard, num cinema de Lisboa."
Valha-me Nª Srª...
"O primeiro-ministro não está a governar a pensar nas eleições e esse é o mérito dele" disse Almeida Santos, louvando a "coragem espantosa" do primeiro-ministro.
[recebido num email do Zé Neves, amigo do Barnabé]
Aproveito a boleia do Barnabé para deixar pedaços de uma pequena preciosidade:
um texto de Jorge Amado sobre Álvaro Cunhal que foi publicado no jornal brasileiro «Imprensa Popular» em Outubro de 1953. O texto seria colectado para uma brochura que o PCP editou em 1954, sob o título “Contribuição à luta pela libertação de Álvaro Cunhal”. Nessa brochura encontrava-se ainda o poema de Neruda que Amado refere em baixo. Se entretanto encontrar a cópia da brochura – que está disponível na Fundação Mário Soares – envio-a igualmente.
Essa Vida Preciosa, Salvemo-la
por Jorge Amado
«Tão magro, de magreza impressionante, chupado a face fina e severa, as mãos nervosas, dessas mãos que falam, mal penteado o cabelo, um homem jovem mas fisicamente sofrido, homem de noites mal dormidas, de pouso incerto, de responsabilidades imensas e de trabalho infatigável, eu o vejo, sentado ao outro lado da mesa, diante de mim, falando com a sua voz um pouco rouca, os olhos ardentes no fundo de um longo e sempre vencido cansaço, e o vejo agora como há cinco anos passados, sua impressionante e inesquecível imagem: Álvaro Cunhal, conhecido por Duarte, o revolucionário português. Falava sobre Portugal, sobre que poderia falar?
Sua paixão e sua tarefa: libertar o povo português da humilhação salazarista, libertar Portugal dessa já tão larga noite de desgraça, de silêncios medrosos, de vozes comprimidas, de alastrada e permanente fome do povo, de corvos clericais comendo o estômago do país, de tristes inquisidores saídos dos cantos mal iluminados das sacristias e da História para oprimir o povo e vendê-lo à velha cliente inglesa ou ao novo senhor norte-americano. Sua paixão e sua tarefa: fazer de Portugal outra vez um país independente e do povo português um povo novamente livre e farto e dono da sua natural alegria.
Ah! Aqueles cansados olhos fundos sorriam e a voz estrangulada de cólera se abria em doçura de palavras de amor para falar de Portugal e do povo português. Eu compreendia que aquele homem de magreza impressionante, de físico combalido pela dura ilegalidade perseguida, era o seu próprio país, seu próprio povo e que, com seu cansaço, sua fadiga de anos, sua rouca voz de velho sono, suas mãos ossudas, eles estava construindo a vida, o dia de amanhã, o mundo novo a nascer das ruínas fatais do salazarismo.
Como era terno seu sorriso ao falar das festas populares nas aldeias do Minho ou dos homens rudes de Trás-os-Montes! Conhecia tudo do seu país e do seu povo, tudo o que era autentico de Portugal, desde o mar-oceano com a sua história portuguesa e gloriosa até as vinhas ao sol e as cantigas e os poemas dos poetas reduzidos na sua grandeza pela censura fascista; desde as histórias heróicas dos militantes presos, torturados até à loucura e à morte, as tenebrosas histórias do Tarrafal, o campo de concentração mais antigo e mais cruel da Europa, até às doces histórias de amor da província portuguesa, com um sabor romântico das velhas legendas.
Contou-me coisas de espantar com sua voz ora doce, grávida de ternura, ora violenta de cólera desatada quando falava da fome dos trabalhadores, da opressão salazarista sobre o povo, da opressão imperialista sobre a sua pátria de primavera e mar.
(...)
os comunistas portugueses, heróis anónimos do povo, os invencíveis, os que estão rasgando a noite fascista com a lâmina de sua audácia e de sua certeza para que novamente o sol da liberdade ilumine o país dos pescadores e das uvas. De um me disse: «Esse esteve no Brasil e aprendeu com vocês»
(...)
Falou do campo, dos homens que habitam as montanhas, daqueles que Ferreira de Castro, o grande romancista, descreveu em «Terra Fria» e «A Lã e a Neve». (...) Falou dos operários das cidades daqueles que Alves Redol descreveu em seus magníficos romances e contou da sua irredutível resistência ao regime salazarista. (...)
Naquela tarde como que me apossei por inteiro de Portugal, do melhor Portugal, do Portugal eterno, como se Álvaro Cunhal o trouxesse nas suas mãos ossudas, tão descarnadas e nervosas, como se trouxesse – e o trazia em verdade – no seu coração de revolucionário e patriota.
Voltei a vê-lo ainda uma vez, dias depois, e a longa conversa sobre Portugal continuou. Falou-me dos escritores, dos plásticos, dos pescadores, fadistas, e sobretudo da luta subterrânea, dura e difícil e jamais vencida. (...)
Veio o processo, dentro dos métodos infames dos tribunais fascistas. Ali se ergueu Álvaro Cunhal (Militão morrera de torturas) e não era o réu, era o acusador, a voz de fogo a queimar o vergonhoso rosto dos carrascos do seu povo, dos vendilhões da sua pátria.
(...)
Pretendem matá-lo e nós sabemos que são frios assassinos os que querem matá-lo. É uma vida preciosa, preciosa para Portugal e para o mundo, ajudemos o povo português a salvá-la!
(...)
Há alguns meses eu estava em frente ao mar Pacífico, na costa sul do Chile, em Isla Negra, em casa de Pablo Neruda, meu companheiro de lutas de esperança. Uma figura de proa de barco se elevava em frente ao mar de ondas altas e violentas. Por isso falámos de Portugal e do seu destino marítimo. Contei ao poeta sobre Cunhal e Pablo levantou-se, deixou-me com o pescador que parara para escutar-nos e quando voltou havia escrito esse maravilhoso poema que é «A Lâmpada Marinha» sobre Portugal, seu povo, Álvaro Cunhal e o dia luminoso de amanhã»
(...)
Hoje o mais bravo dos filhos desse povo heróico, aquele que tudo sacrificou para ser fiel à esperança do povo está com sua vida ameaçada.»
"Somos cidadãos do mesmo país, queremos viver em paz democrática e temos de ter presente que isso foi possível porque as ideias, a estratégia e o rumo político proposto por Álvaro Cunhal e que marcou o chamado Gonçalvismo não triunfou"
Ribeiro e Castro, comentando a morte de Álvaro Cunhal, no dia ddo funeral de Vasco Gonçalves
Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum

Álvaro Cunhal (1913-2005)
José António Saraiva: "Comecei a minha carreira no Expresso com uma crítica ao Dr. Balsemão", em entrevista ao Expresso de dia 10 de Junho de 2005.
José António Saraiva: "Digo por graça que o Presidente já condecorou toda a gente e nunca se lembrou do director do maior jornal do país...", em entrevista ao Expresso de dia 10 de Junho de 2005.
José António Saraiva: "A história tem-me dado razão... sobre o tema do oceanos, que eu introduzi no debate à volta do país e do seu destino", em entrevista ao Expresso de dia 10 de Junho de 2005.
... no dia em que faz 20 anos que Portugal entrou nas então chamadas Comunidades Europeias.
O blogue da ATTAC portuguesa não fechou as portas a um debate plural sobre a Europa; o oposto do que sucedeu com a ATTAC francesa. Mas não resisto a pergunta ao Zé Neves se ele não mostra um certo nacionalismo terrestre neste seu poste. Afinal porque não pedir um governo para o Universo inteiro!?! Que o mesmo é dizer que há que começar por algum lado, ou como diz o povo "quem tudo quer tudo perde"... Por isso a carta da ONU estabelece a possibilidade de existirem organismos regionais em articulação com ela. E quem duvida que tem sido assim com a UE?
Além de dar um apoio crucial ao sistema da ONU - como se viu no caso da campanha vergonhosa nos EUA contra Kofi Annan, que apenas se conseguiu manter no lugar por causa do apoio total da Europa - a UE e o seu sucesso são o grande argumento a favor de um sistema internacional mais regulado.
E o Mundo não espera. O poder tem horror ao vazio. Portanto na falta de alternativas vai manter-se o sistema internacional tradicional de hegemonia de um ou vários Estados mais poderosos. Bush rules!!! Ainda bem porque o caos seria pior, embora a diferença, por exemplo no caso do Iraque, pareça pequena. Esta ordem parece-se muito com o caos. Mas é o que temos...
Ou seja não me parece que as causas defendidas pelo Zé Neves tenham avançado muito nestes tempos que correm. Mas pode ser que o Tony Blair venha a provar que estou errado.
O G8 perdoou a dívida aos países mais pobres do mundo. Moçambique está entre os contemplados, Angola ficou de fora. Inteiramente justo.

Foto: Eduardo Gageiro.

Foto: Albérico Alves/Expresso.
PUBLICO.PT: Presidente da República homenageia primeiro rei de Portugal.
Já que estão por aqui, dêem ali uma saltada ao Grão de Areia, blogue da ATTAC Portugal, para ir seguindo a discussão que por lá se vai fazendo sobre a constituição europeia. Especial atenção a estas perguntas.
Em 448 artigos e 852 páginas de Constituição Europeia, a palavra “concorrência” aparece 33 vezes, a palavra “fraternidade” nenhuma, “Banco” 186, “mercado” 88, “capitais” 23, “serviço público” duas vezes. Curiosidades, a ver neste teste engraçado.
Celso,
A situação do ministro Campos e Cunha é totalmente incomparável com o regime dos funcionários públicos. É que o primeiro, ao contrário dos últimos, tem o poder para tomar as medidas que influenciam as idades de reforma e os regimes que afectam direitos e expectativas criadas. A partir do momento em que assumiu o cargo não é o cidadão Campos e Cunha que recebe um privilégio sem justificação: é o ministro Campos e Cunha que pede sacrifícios a todos os portugueses.
Não é ser bom bonzinho. É dar o exemplo, como o PS, através de Vitalino Canas, curiosamente defende para o Alberto João Jardim. ("Nesta altura, os políticos deveriam ter um tratamento igual ao dos restantes cidadãos e até dar o exemplo". Vitalino Canas, ao Público de 3 de Junho, comentando a acumulação da reforma de Alberto João Jardim com o seu vencimento).
Daniel e Pedro,
É preciso ler tudo o que eu disse e não só o que convém. Eu disse que o governo tem de ser coerente e criar mecanismos legais que impeçam acumulações que são imorais. Disse também que não é exigível a ninguém que abdique de direitos que são consagrados por lei para parecer bonzinho aos olhos de quem faz sacrifícios. Seja ministro, deputado ou apanha-bolas do Benfica. Uma coisa é ser imoral o estado atribuir um privilégio, outra é um cidadão recebê-lo. Eu, por exemplo, considero imoral que os trabalhadores da função pública trabalhem menos cinco anos do que os do sector privado o que não faz com que pense que os funcionários públicos pratiquem uma conduta imoral. Isto aplica-se a Campos e Cunha mas também a Alberto João Jardim. Credibilizar é criar regras claras, sejam para pobres ou para remediados. O resto são pessoalizações de circunstância.
Celso,
Um ministro pede sacrifícios a um país que está já numa situação aflitiva, retirando tudo o que o seu primeiro-ministro disse em campanha eleitoral. Um ministro exige, usando um discurso moralista, que os funcionários públicos não sejam beneficiados nas reformas em relação aos restantes cidadãos. Os benefícios a que se refere são nada ao pé do beneficio de que ele, como técnico de um órgão do Estado, é detentor, exactamente na sua reforma. Não deve este ministro, antes de mais, dar o exemplo? Não deve abdicar de um direito que, com o seu discurso, só pode considerar imoral? A política é apenas um acto de gestão e o exemplo na liderança deixou de contar? O que era mau no governo anterior passou agora a ser naturalíssimo?
Quando as palavras de um detentor de um alto cargo da república têm de ser dobradas com um Piii, passámos há muito todos os limites da civilidade e do respeito republicano. De que está à espera o Sindicato dos Jornalistas para agir nos tribunais?
A abordagem da comunicação social e o aproveitamento dos partidos – da esquerda e da direita – em relação ao caso Campos e Cunha mostra como vai ser tão importante um governo determinado e coerente como uma oposição com um espírito crítico que exceda um pouco o território do puro oportunismo. A situação de Campos e Cunha não é ilegal nem imoral e não foi ocultada. Inscreve-se num quadro de privilégios bastante questionáveis que ele não criou e de que é um beneficiário entre muitos das mais diversas colorações políticas. Não é justo exigir a alguém que abdique de um direito adquirido, mas é urgente exigir a quem decide que acabe com o privilégio. Pessoalizar esta questão é fazer apenas a política do desgaste, o tiro ao boneco para enfraquecer o governo. O que se deve exigir ao PS é que seja politicamente coerente e que mude a lei das acumulações e não perseguir os seus anteriores beneficiários. Tirar falsos esqueletos do armário de quem quer moralizar é fazer o jogo situacionista e uma boa ajuda para que nada mude.
Campos e Cunha acumula ordenado de ministro com reforma de 114 784 euros anuais.
p.s: Já estava à espera que a caixa de comentários do Barnabé se indignasse com a "demagogia" do post. Era de esperar, mas nem por isso me parece que tenham razão. Tudo porque foi precisamente este governo quem começou uma campanha política baseada na "moralização" das contribuições, deduções e reformas, pondo o pobre contra o miserável para justificar um pacote de medidas ao arrepio das promessas eleitorais. Que o governo socialista tenha agora sido apanhado na mesma armadilha que usou para justificar estas propostas, isso, é o mais curioso desta história.
... primeiro pensamento de Martunis após curta conversa com Gilberto Madaíl.
O país está em crise...já todos o sabem.
Mas o mesmo não parece acontecer com as grandes empresas nacionais.
Os lucros das empresas do PSI-20 cresceram 33 por cento no primeiro trimeste deste ano.
No contexto actual, será que as empresas devem apenas preocuparem-se com a maximização dos lucros? Ou procurarem partilhá-los com o resto da sociedade através de actividades na área da responsabilidade social empresarial como a luta contra a pobreza?
Food for thought...
Uma das mais antigas publicações conservadoras dos EUA, a Human Events, publicou uma lista com o que consideram ser os 10 livros mais prejudiciais publicados nos séculos XIX e XX. Absolutamente a não perder, para todos quantos queiram compreender as motivações de grupos que colocam o “Relatório Kinsey” num destacado quarto lugar. O crime? “Ter fornecido um brilho científico à aceitação da promiscuidade e do desvio [sexual]”.
O resto da lista é, toda ela, interessante, com nomes como Comte, Freud, Foucault ou Darwin. Este último, juntamente com Marx, é o único autor que se pode orgulhar de ter direito a 2 entradas.
Uma das melhores entradas, contudo, é a que se refere a Ralph Nader, com Unsafe at any Speed , um livro em que o autor pretende obrigar a General Motors e a Chevrolet a instalar medidas de segurança nos seus carros. Que esta gente não goste de sexo é lá com eles, só não percebo mesmo é o que é que os move contra os cintos de segurança.
Descoberto via Bicho Carpinteiro
«Luis Filipe Menezes avança em Gaia sem informar Marques Mendes», Título DN.
«A holanda, por todas as razões é tradicionalmente um país do «contra». Se ninguém quisesse a nova constituição eles votariam a favor, e vice-versa», Luis Delgado, DN de Hoje.
O CDS-PP apresentou hoje, em conferência de imprensa, uma proposta para a criação de um "dia nacional da criança por nascer".