Aqui há uns tempos, um blogue conservador, imaginativamente chamado "On Being Conservative", dedicou ao Barnabé um poema de Álvaro de Campos
Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,
Não estou pensando em nada, e que bom!
[etc.]
A coisa ficou uns tempos no technorati; depois esvaiu-se.
A mim deu-me que pensar. E a conclusão a que cheguei, depois de umas equações que a guilhotina da meia-noite e o fim do Barnabé mesmo aqui em cima da nuca não permitem que refaça para melhor satisfação da clientela, e rabiscando num caderno de notas que agora procurei e não consegui achar – a conclusão a que cheguei, dizia eu, é de que a direita precisa de amor.
De amor. O sisudo José Manuel Fernandes; a severa Fátima Bonifácio, sempre saudosa de uma época sem pieguice; esse conquistador do oeste que é Paulo Portas mais os seus cowboys dos sobreiros; Pacheco Pereira, que não admite a ninguém que seja mais modesto do que ele; lord João Carlos Espada; Helena Matos e a newsletter do saudoso Banco Português do Atlântico; o axiomático João Miranda; esse grande pensador da contra-reforma que é João César das Neves; Filomena Mónica na busca incessante da empregada perfeita; os desleais orgânicos Pedro Lomba e Pedro Mexia; Cavaco Silva, também chamado de o rei do bolo; e João Pereira Coutinho que já está um homenzinho – todos eles precisam de carinho, de uma ternura cósmica, transbordante, ou de uns desvelos pequeninos – miminhos, afinal – de atenção, de qualquer coisa que os acalme, que lhes dê confiança, que os deixe regressar ao colo da mãe, esse mundo certinho, seguro, cheio de cavalheirismo, rapazes com a tabuada na ponta da língua, livros com intriga e personagens, torradas.
Eu estou de saída e não sei se volto. Vocês, que aqui ficam, dêem-lhes amor.
Estive até ao ultimo momento a pensar escrever um post de despedida. Mas não. Parece-me que o melhor tributo que se pode fazer ao Barnabé é, neste seu ultimo dia, continuar como se nada fosse, procurando sempre aquilo que o fez “diferente dos outros”. Um blogue que nunca se importou de ir contra a corrente do politicamente correcto, um blogue que nunca fugiu de uma polémica por medo da polémica.
Assim, e parafraseando o João Mac Donald, também eu estou grato à Diana Andringa pelo seu vídeo ”Era uma vez um arrastão".
Porque, como diz a sinopse do documentário, ”Era uma vez um arrastão" passa em revista um crime que nunca existiu, a atitude dos media perante uma história explosiva e as consequências políticas e sociais de uma notícia falsa”.
A man walks into a bar with a slab of asphalt under his arm and says: "A beer please, and one for the road".
Obrigado pela atenção. Abraços e até já.
A urgência, muitas vezes falsa, da imprensa tende para resumir em duas páginas e pouco mais a vida dos grandes homens. Foi assim com Emídio Guerreiro, desaparecido neste mês de Junho de 2005.
Por certo nem as páginas todas de um jornal servem para evocar a vida de um homem, muitíssimo menos a de Emídio Guerreiro. O futuro e os conscienciosos de que nada se faz bem com pressa tratarão de organizar dignamente a memória deste lutador pela Liberdade.
Entretanto, na tentativa de contrariar um pouco essa urgência mediática, e principalmente porque sei que alguns desses conscienciosos estão sempre activos, aproveito para deixar no Barnabé um pedaço de memória e de ciência referente ao também matemático que Emídio Guerreiro foi.
O que se pode ler mais abaixo é o prefácio que o matemático Paulo Almeida, professor do Instituto Superior Técnico, escreveu para Dois apontamentos matemáticos – dois textos de Emídio Guerreiro publicados pela Sociedade Portuguesa de Matemática (mas ainda sem edição comercial). Esta transcrição é apenas mais uma forma de homenagear Guerreiro, na certeza de que será útil aos apaixonados pela Matemática portuguesa.
(Este texto, como todos os outros, manter-se-á no arquivo do Barnabé.)
Emídio Guerreiro (o segundo sentado a contar da esquerda) numa fotografia de 1928 junto com os seus companheiros de ideais.
Prefácio de Paulo Almeida, professor do IST, a
Emídio Guerreiro Dois apontamentos matemáticos:
1. Notas sobre Equações às Derivadas Parciais de Primeira Ordem e Aplicações à Geometria (1929)
2. A propósito da demonstração do ùltimo teorema de Fermat: uma homenagem a Andrew Wiles (1999)
“O matemático Emídio Guerreiro nasceu em Guimarães em 1899 estando à beira de cumprir os seus 105 anos. Se é verdade que as circunstâncias da sua vida o impeliram a uma constante e dispersante luta pela liberdade, não é menos verdade que em nenhuma circunstância lhe deixou de servir a matemática como lenitivo para suprir a carência dessa mesma liberdade; seja na prisão do Aljube – consequência do seu envolvimento na primeira intentona, em 3 de Fevereiro de 1927, para derrubar a ditadura saída do 28 de Maio de 1926 – seja no longo exílio de 1932 a 1974 que o afastou de Portugal e o fez conhecer as agruras do campo de concentração de Argelés-sur-Mer – consequência da sua luta contra as tropas invasoras de Hitler – donde se viria a evadir, tal como o tinha feito anteriormente do Aljube, retomando o seu lugar na Resistência Francesa e tendo a glória de chefiar o batalhão de ‘maquisards’ que libertou a cidade de Montauban.(1) Ou não fosse certeiro o dito do matemático Georg Cantor: a essência da matemática é a liberdade.(2)
Emídio Guerreiro licenciou-se em Ciências Matemáticas na Universidade do Porto em 1927 e sendo aluno distinto de Francisco Gomes Teixeira, de exigência proverbial, atribui-lhe esse notável matemático a classificação de 18 valores na cadeira de Cálculo Infinitesimal, feito sem dúvida mais singular que um doutoramento hoje. É nomeado Emídio Guerreiro, em 1931, para assistente extraordinário, mas em poucas semanas uma nota desfavorável da polícia política foi o suficiente para pôr termo ao que noutras circunstâncias poderia ter sido uma brilhante carreira científica. As suas qualidades de matemático, de professor e de herói da Resistência, foram reconhecidas pelas Academia de Paris, onde ensinou até ao 25 de Abril no Liceu Jeanson-de-Sailly. Foi um mentor pioneiro das então impropriamente chamadas ‘matemáticas modernas’, como o era em Portugal o eminente matemático Sebastião e Silva, sendo o seu papel assinalado e reconhecido em França: naturalmente, um e outro, na sua experiência docente, nada tinham a ver com as devastações provocadas pela interpretação abusiva das novas correntes matemáticas, obra em geral de convertidos de última hora, singularizados pela sua ignorância. Emídio Guerreiro e Sebastião e Silva, pelo contrário, conheciam profundamente essas correntes, um e outro preocupados pela modernidade assente nos clássicos, exigindo sempre aturado estudo.
Essa característica de modernidade está patente nas duas Notas que hoje se tornam públicas, separadas no tempo por setenta anos, embora a patine do tempo nos leve a considerar as Notas sobre Equações Derivadas de primeira Ordem e Aplicações à Geometria (1929) certamente de aparência obsoleta; tanto mais que resistimos à tentação de alterar a expressão escrita além de mera actualização ortográfica.(3) Deve porém dizer-se que poucos ou provavelmente ninguém em Portugal, em 1929, entrevia a relação de integrabilidade de um sistema de equações às derivadas parciais com a geometria riemanniana, tema central deste trabalho, escrito provavelmente tendo em vista algum concurso académico na Universidade do Porto. Isto explicaria sem dúvida a preocupação de incluir no texto um ou outro ‘Resumo para trabalhos práticos’, bem como a clareza levada à exaustão, fazendo do texto um documento útil aos estudantes que queiram iniciar-se no estudo geométrico das equações às derivadas de primeira ordem.
É bom recordar que o único trabalho de Riemann sobre geometria e que apesar da sua dúzia de páginas, praticamente sem símbolos matemáticos, fez dele um dos maiores geómetras de sempre, é de 1854, mas só a partir de 1870 teve divulgação graças a Clifford e só com as famosas Lições de Cálculo Diferencial Absoluto, de Levi-Civita, publicadas em 1923, tomam a forma que ainda hoje têm os conceitos básicos da geometria riemanniana local, como seja o conceito de curvatura, peça chave nas Notas de Emídio Guerreiro para caracterizar a integrabilidade dos sistemas lineares de equações às derivadas parciais.
O uso de índices mudos, a utilíssima convenção de soma, hoje coisa banal, tinha sido introduzida por Grossman, co-autor dos primeiros trabalhos de Einstein em 1913 e 1914 sobre a relatividade geral; não admira por isso que, pela sua novidade, seja objecto de uma explicação rebarbativa nos escritos de então, no intuito de facilitar as operações do cálculo tensorial; como sucede na longa secção 2.1 das primeiras Notas agora apresentadas. A ideia de Emídio Guerreiro, exposta nas secções 2.2. e 2.3 era porém uma verdadeira novidade, provavelmente inspirada nos trabalhos do físico espanhol José Maria Plans y Freire que proferiu, num congresso científico que teve lugar no Porto em 1928, uma palestra intitulada Processo histórico e importancia actual del cálculo diferencial absoluto.
Em Portugal, à época, a geometria diferencial apenas balbuciava; segundo Vicente Gonçalves – de quem Emídio Guerreiro seguiu as lições, em Coimbra de 1923 – a monografia de Mira Fernandes, de 1927, Fundamentos de geometria diferencial dos espaços lineares, foi no quadro português ‘um dos primeiros textos de seu assunto’(4), e o mesmo se dirá no que se refere ao Cálculo Tensorial, acerca do capítulo final das Lições de Cálculo e Geometria, do próprio Vicente Gonçalves, publicadas em 1930.
A nota intitulada A propósito da demonstração do Último Teorema de Fermat: uma homenagem a Andrew Wiles (1999) foi escrita como preparação para uma conferência que deveria ter sido proferida na Fundação Calouste Gulbenkian a 10 de Setembro de 1999, com o título completo A propósito da demonstração do Último Teorema de Fermat e da componente lúdica da Matemática – Uma homenagem a Andrew Wiles; por razões de saúde a palestra teve de ser cancelada.
Pude testemunhar o entusiasmo de Emídio Guerreiro aquando da conclusão da demonstração do célebre teorema e era contagiante a sua curiosidade em entender o contributo final de Wiles. Como se sabe, contrariando as grandes expectativas, os passos decisivos recorrem a argumentos de tipo geométrico, embora o pormenor das técnicas seja extremamente sofisticado e de alcance difícil. É porém possível ter uma ideia geral e menos técnica do processo; foi isso que Emídio Guerreiro fez querendo partilhar com outros o seu entusiasmo.
A Teoria dos Números sempre fascinou Emídio Guerreiro, como sucede a muitos jovens e razão tem o matemático quando compara os apreciadores do tema aos míticos comedores de lotus, que tendo-lhe tomado o gosto uma vez, nunca mais se podem passar dele. Foi certamente a pensar nos jovens que Emídio Guerreiro se propôs fazer a sua palestra e é a pensar neles que julgamos ser útil a publicação do apontamento acerca do Último Teorema de Fermat.
Paulo Almeida
Lisboa, 2 de Abril de 2004
NOTAS
(1) Veja-se Emídio Guerreiro, Uma vida pela Liberdade, de A. Encarnação Viegas, Editorial Notícias, 1998.
(2) Mathematischen Annalen, Bd. 21 (p.564).
(3) Também suprimimos, por razões de espaço, as numerosas Notas Finais, figurando no manuscrito, depositado na Biblioteca Municipal de Guimarães.
(4) Prefácio às Obras Completas de Aureliano de Mira Fernandes, vol. I (único existente), Lisboa, 1971.”

Quando um tipo chega à marisqueira do bairro onde vive e o empregado com um ar meio trocista meio cúmplice lhe pergunta:
o prego é com imperial, sr. Barnabé? - percebe que esta coisa de ter um blog com uns amigos excedeu todas as suas expectativas. A cena passou-se, e repetiu-se várias vezes, depois de eu e o Daniel termos ido ao Cabaret da Coxa promover o livro e é para mim o melhor emblema do sucesso deste blog. O Barnabé conseguiu ser provocador, falar de coisas complicadas numa linguagem simples e agitar algumas cabecinhas acomodadas, ao mesmo tempo que lhes oferecia um espaço para poderem espumar à vontade. Este é, aliás, um dos benefícios do aparecimento da blogosfera que o Barnabé tão bem capitalizou: renovar a linguagem no espaço público, fornecer-lhe uma ousadia no discurso que a maioria da imprensa, demasiado cristalizada geracionalmente, não evidencia.
Tudo isto foi divertido e deu muito trabalho, sobretudo ao Daniel e ao Rui Tavares que com voluntarismo e inteligência foram quem mais contribuiu cá para a chafarica. A eles, ao André, ao Pedro e aos que a nós se juntaram depois, quero agradecer o facto de me terem deixado fazer parte do clube.
Uma palavra sobre a crise dos últimos tempos. Não usemos de paninhos quentes: o Barnabé acaba minado pelo sectarismo, mas não é essa a prova última e definitiva de que este é um blog verdadeiramente de esquerda e genuinamente português?
Estou certo de que pioneiros como o Rui e o Daniel não andarão muito tempo afastados da bloga e o mesmo pode valer para os outros. Quanto a mim, pode ser que haja novidades em Setembro, depois de umas férias retemperantes.
Até lá, queria agradecer àqueles que tiveram paciência para nos aturar e desejar a todos, como faria o Pacheco,
Saúde e bichas.
Quem levas tu, ó blogueiro?
nesse caixão tão furado
é aí que vai deitado
o barnabé tão ligeiro?
meu amigo tão atento
não é nada do que you think
barnabé já virou link
tal qual pôs no testamento
meu amigo mais que tudo
tira daí o bedelho
neste caixão tão vermelho
quem vai dentro é o entrudo
inda antes que alguém saia
bebamos a derradeira
que esta cena tá porreira
pra dar parabéns à praia
Se fora eu a enterrá-lo
Esse, entre os blogues diferente
Acabara-o de repente
Sem dar azo a mais badalo
Desta morte só não calo
Contra maldizentes tantos
Que não causar deve espantos,
Nem é sucesso admirado
Quem não morre endiabrado
Fica a postar pelos cantos
Aqui vai com muito abalo
Um blogue dos mais diferente
(Pois o lia tanta gente)
Vem a morte terminá-lo
Eu de pasmo já não falo
Entre os fúnebres espantos
Mas digo o que dizem tantos,
Fica o mundo admirado,
Que um blogue já finado
Queiram tantos enterrá-lo
[Saiu em contraposição desta décima outra pelos mesmos consoantes — aliás mais correcta — que se publicará no post que vem]
O Pedro Vieira do magnífico Vida Agridoce e o João Pedro da Costa d'As Ruinas Circulares (que gosta de bandas de que eu também gosto – e gostaria de assinalar isto publicamente) reenviaram-me aqui há tempos aquele inquérito agora passado de moda sobre livros (foi aqui e aqui). Não me esqueci deles; mas não tive ocasião de responder. Agora, antes que as portas giratórias (da vida!) fechem e eu fique com o casaco preso, cá vai disto:
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Já alguém notou que esta pergunta é confusa. Pelo que entendo, a ideia é escolher um livro que apareça no Fahrenheit 451, mas não fica claro se se trata do livro (original) do Ray Bradbury ou da versão em filme do François Truffaut, duas coisas soberbas. O livro fala de livros mas tem poucos ou nenhuns títulos de onde escolher. O filme cita vários títulos, principalmente naqueles minutos finais miraculosos. Escolho o Guerra e Paz, que tenho quase a certeza que aparece. E dentro do Guerra e Paz, a cena em que a família Rostov demora dias a arrumar os móveis em carroças para se pirar de Moscovo e, num dos seus momentos de piroseira, Tolstoi põe o Andrei Bolkonski, ferido, numa das carruagens de trás, sem a Natasha saber, e o Pierre Bezukhov a vaguear louco pela cidade, congeminando planos para assassinar Napoleão. Foi uma telenovela do caraças.
Já alguma vez ficaste apanhadinh@ por um@ personagem de ficção?
Quando era miúdo, pelo Olrik, vilão de Blake & Mortimer. Quando era mais crescido, pelo Cosimo Rondó, o barão trepador de O Barão Trepador de Italo Calvino. Pelos vistos, era mais estiloso quando miúdo.
Qual foi o último livro que compraste?
Perdi a cabeça na Feira do Livro da Gulbenkian. É preciso dizer que os gajos não sabem o que fazer aos livros e praticamente pagavam para se verem livres deles. Entre as compras, Consolação às Tribulações de Israel, de Samuel Usque. Dois volumes, capa dura, 400-500 páginas cada; dois euros pelos dois. Pimba!
Qual o último livro que leste?
Um amigo disse-me que o Camilo dava 3-2 ao Eça, no prolongamento. Achei uma posição fanática disfarçada com uma pele de equilíbrio, mas estou ganho para a modalidade. O último livro que li, salvo erro, foi o Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco. Ali o Eça não chegava nem que se esticasse todo. Mas o jogo ainda não acabou.
Que livros estás a ler?
O Que Fazem Mulheres – Camilo outra vez, essa colecção que anda aí nas bancas.
Daniel Dennett, Freedom Evolves. Mais fraquinho do que o Darwin's Dangerous Idea.
Mary Shelley, Frankestein.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Numa ilha deserta assim à la Crusoe, estaria demasiado deprimido para ler. Numa ilha deserta à la Onassis, teria uma biblioteca inteira. Mas vou entrar no jogo: Fernão Mendes Pinto, Pascal, Karel Capek, Mark Twain... não, espera lá – acho que banda desenhada, livros técnicos (botânica, sobrevivência) e fotografias de mulheres nuas.
A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?
Tenhnho o casaco preso na porta.
"...estava pensando que para Portugal ter uma situação de desemprego parecida com o Brasil vai precisar de pelo menos dez anos de investimento na irresponsabilidade."
Tom Zé, em reportagem de João Bonifácio, ao suplemento Y do Público.
BBC NEWS: Florida atingida por terceiro ataque de tubarões.
O físico Freeman Dyson publica no último número da New York Review of Books um bom artigo sobre o matemático Norbert Wiener, "ex-criança prodígio" (estudante universitário aos onze anos, licenciado aos quatorze, doutorado aos dezassete), "pai da cibernética" durante a maior parte da sua vida, e "consciência moral da ciência" na terceira idade, quando decidiu anunciar a sua recusa em colaborar com o governo dos EUA após o lançamento das bombas de Hiroxima e Nagasaki. Vale a pena ler todo o artigo, mas fica aqui uma frase para mastigar com calma.
...qualquer tipo trabalho que aceite as condições de uma competição com trabalho escravo aceita as próprias condições do trabalho escravo e é, na essência, trabalho escravo...
[any labor that accepts the conditions of competition with slave labor accepts the conditions of slave labor, and is essentially slave labor]
Concorrência com a China, trabalho infantil, falsos recibos verdes? Não. Wiener reflectia sobre a competição entre humanos e máquinas. Mas não está mal achado.
A Beatriz é a miúda mais querida do sanquiéme árrondissemã. O sanquiéme é ali na rive gôche.
Mais querida que a Beatriz só mesmo a mãe da Beatriz, que era o sorriso mais querido da Casa de Portugal (ganda nome, ganda claustrofobia) no final dos anos 90. Ela está muito bem, vê-se pelas fotos.
O pai da Beatriz também é querido, mas isso não se pode dizer (que isto aqui ainda é um blogue de homens, moribundos mas homens). Ele está muito bem, vê-se pela voz.
A Beatriz tinha esta madrugada 3 quilos 170 gramas (hoje terá um bocadinho menos, como é normal) e foi, aí pelas 4h25, a mais jovem moça do mundo.
Foi ali à Salpétrriérre. Que já fica no trréziéme arrondissemã.
(um dia acho que vou fundar um blogue chamado gárdelest)
E amanhã ou depois vou lá vê-la, porque ela já é da família. Viva a Beatriz.
Público: «Relatório Constâncio tem "gralha" que lança dúvida sobre défice | Um dos quadros do Relatório da Comissão Constâncio contém um erro – ou uma gralha, de acordo com técnicos do Banco de Portugal – que tomado literalmente faria diminuir o défice esperado para o Orçamento de 2005 de 6,83 para 6,72 por cento... Em causa está uma diferença de 151,4 milhões de euros.»
Mais de cento e cinquenta milhões de euros? Aí está uma gralha com que eu seria capaz de partilhar a vida.
O Daniel tem sido comparado, por alguns comentadores mais nostálgicos da Coluna Infame, à Yoko Ono. Tal como a Yoko Ono teria sido responsável pelo fim dos Beatles, o Daniel teria posto fim à mais mítica banda pop da blogosfera. De passagem, numa rivalidade implícita, vai-se afirmando a irrelevância do Barnabé, reduzido a uma "Plastic Ono Band". Tudo bem. Mas vejo aqui vários problemas. Primeiro: não haverá versão mais interessante sobre o fim dos Beatles que a do cliché da mulher mázona que veio dar cabo da amizade sem mácula dos homens? Segundo: eu não tenho problemas em comparar o Pedro Mexia a Lennon e o Pedro Lomba a McCartney (embora neste momento seja mais o Lennon a fazer tudo). Mas o Pereira Coutinho como George Harrison? Não brinquem ca gente.
(Além de que, se é para ser mauzinho com a Yoko, então é muito mais divertido este post, que é Daniel vintage)
Agora que chegou a minha vez de me despedir, gostaria que a minha colaboração no Barnabé não terminasse de forma azeda e ressentida. Escrever neste blogue foi uma experiência magnífica a vários títulos. Os laços de camaradagem que fomos mantendo entre nós, e a cumplicidade estabelecida com uma muito razoável comunidade de leitores, compensam largamente os pequenos dissabores que as polémicas da blogosfera trazem consigo, ou o tempo precioso roubado à família e a outros afazeres mais sérios.
Quando o Barnabé celebrou o seu primeiro ano de vida, aproveitei o ensejo para expor as razões que me levaram a aceitar o convite do Daniel e apontar alguns dos motivos que me pareciam ter sido determinantes para o impacto alcançado pelo blogue. Entre esses motivos, seria impossível não destacar os contributos do Daniel e do Rui. A imagem, o estilo e a respiração do Barnabé foram eles que a criaram. O Daniel com os seus posts curtos, violentos mas imensamente divertidos. O Rui por ter encontrado aqui o veículo perfeito para o exercício de uma crítica informada, inteligente e iconoclasta. Mas o Celso, com o seu humor gentil, e o André, num registo mais literário, trouxeram para o Barnabé um conjunto de leitores menos interessados na guerrilha política diária.
Com a publicação do livro, a mudança de ciclo político e a conjugação de vários factores pessoais, o cenário do alargamento do Barnabé, que tínhamos na calha há vários meses, tornou-se inevitável.
As coisas não correram bem, reconheço. Basicamente, a dinâmica e o entrosamento que caracterizaram o Barnabé a 5 deixaram de existir a 13 (isto já parece a história da União Europeia, como me dizia o Celso hoje ao almoço). Assumo aqui a minha quota-parte de responsabilidade. Por razões pessoais e profissionais, optei por fazer um corte drástico com os blogues e a internet. Fi-lo quase sem pensar no assunto e, mais tarde, apercebi-me o quão injusto isso deverá ter sido para os novos membros (alguns confessaram-me que se sentiam quase culpados por não alimentarem diariamente o blogue!). À Alice, ao Bruno e ao Luís Mah (as três pessoas que convidei), quero deixar-lhes aqui o meu sincero pedido de desculpas por essa espécie de presente envenenado.
É claro que outros factores mais “estruturais” terão também pesado na minha opção. Desde logo, um certo cansaço em relação ao “modelo Barnabé” – o comentário compulsivo de temas da actualidade política, muitas vezes num registo de sátira violenta.
Não é segredo para ninguém onde é que eu me situo politicamente, e também nunca aqui escondi o meu apoio à actual solução governativa. Portanto, num blogue que nasceu com a vocação de “contra-poder”, e que fez da guerrilha diária a sua imagem de marca, era inevitável que me começasse a sentir um pouco deslocado. É claro que o Barnabé nunca foi só feito de posts de duas linhas a cascar nos governos Barroso/Santana (e agora Sócrates). Conseguimos sempre intercalar esse frenesi com textos mais reflexivos, muitas vezes versando assuntos que não estavam directamente relacionados com a política na sua dimensão mais “événementielle”. O meu problema é que eu agora nem para isso tenho tempo. E assim será até me desembaraçar de outros compromissos mais sérios.
Mas houve também uma causa precipitante que não posso deixar de referir com alguma mágoa. E essa foi, como devem calcular, a conduta feia do Daniel em relação ao Bruno Reis. Não quero estar aqui a mover um processo de intenções contra o Daniel, mas parece-me razoavelmente óbvio que a sua decisão de abandonar o Barnabé já estava tomada há algum tempo.
A chegada do Bruno, e a sua disponibilidade para escrever quase diariamente, mexeu muito com os equilíbrios internos do Barnabé. Enquanto eu e o Celso fomos as vozes mais “centristas” do blogue, o Daniel estava em casa. Duma forma geral, os nossos posts acabavam sempre soterrados pelo caudal opinativo do blogue. Ao fim de pouco tempo, caíam no esquecimento. Isto não significa que alguma vez me tenha sentido como o “idiota útil” deste clube: nunca fui pressionado para amaciar o tom contundente que por vezes usei contra o BE e gozei sempre de total liberdade para expressar os meus pontos de vista. Mas também não deixa de ser sintomático que os momentos de maior tensão entre mim e o Daniel tenham sido aqueles em que decidi dizer duas ou três coisas acerca da cultura política do Bloco.
Com a entrada do Bruno, a relação de forças mudou. De repente, aparece aqui alguém politicamente mais moderado e – escândalo! – com uma formação católica. Confesso que durante alguns meses ainda me diverti com os comentários e réplicas que os posts do Bruno iam suscitando. Depois, a coisa começou a irritar-me. Se por acaso o Bruno se atrevia a destoar do refrão entoado pela “verdadeira esquerda”, havia sempre duas ou três pessoas que o vinham censurar (o que, estou seguro, nunca obedeceu a qualquer estratégia combinada). Como é óbvio, ao fim de algum tempo uma pessoa começa a sentir-se condicionada. A última vez que isso sucedeu foi logo após a vitória do “Não” no referendo francês e o incidente até motivou uma pequena discussão nos nossos bastidores. A coisa compôs-se e ficou combinado que, futuramente, tentaríamos resolver qualquer mal-entendido entre nós através da mailing-list. O Daniel ou não reparou nessa discussão, ou resolveu agir de forma… unilateral. O que se dispensava era o achincalhamento gratuito do post do “mel e da mosca” e, já agora, o derradeiro exercício de auto-vitimização. Muito triste.
E pronto, lá fiz eu o que não queria: chegar ao fim com um desabafo em jeito de recriminação. Peço que não me levem muito a mal, mas a minha amizade pelo Bruno – que é das coisas boas que a vida me trouxe nos últimos anos – assim o exigia.
Um abraço a todos