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No DNA da democracia


"Tivesse sido a nossa revolução uma suave transição e a sociedade portuguesa seria muito diferente. Teríamos ficado economicamente mais saudáveis, até posso conceder. Mas guardaríamos muito mais do provincianismo, atraso e rigidez social que nos dominou durante meio século."

Como a Espanha, não é, Daniel? Como a Espanha. Coitados! Tiveram uma transição suave, e coitados: ficaram muito mais provincianos, atrasados e socialmente rígidos como qualquer um pode constatar, bastando para isso visitar Madrid, Barcelona, ou até Sevilha.

Que queiras defender a revolução, branquear o PREC, glorificar as 'conquistas de Abril', é aceitável. Agora argumentos sem qualquer tipo de base, não. Na tua linha de argumentação, também eu poderia dizer que se a minha avó tivesse rodas era uma bicicleta.

Publicado por Pedro Oliveira em junho 22, 2005 12:32 PM


Pedro,

ainda que tenhas alguma razão, de modo algum é comparável a elite cultural que a Espanha semore teve com a existente em Portugal. Para além disso a Espanha teve uma guerra civil e antes uma experiência "libertária", que deixou sementes e também muitos anti-corpos, mas existiu, algo de semelhante nunca tinha existido em Portugal...

Publicado por João Gundersen em junho 22, 2005 02:40 PM


semore?.. sempre, talvez...

Publicado por João Gundersen em junho 22, 2005 02:41 PM


A ditadura espanhola oi em tudo diferente da ditadura portuguesa.

Publicado por danieloliveira em junho 22, 2005 03:05 PM


E o Daniel deve ser um dos elos perdidos desse DNA, sem dúvida alguma.

Publicado por goameal em junho 22, 2005 03:15 PM


Não sei se o Prec está de facto no DNA da nossa democracia. Sei que os discursos dominantes sobre o Prec o interpretam à margem do papel que nele foi desempenhado por um movimento popular que precisa hoje de ser interpretado sem o costumeiro bordão das forças instituintes, ou já na altura institucionalizadas, do poder político. E isso quer tais forças fossem elas arrumáveis na prateleira da esquerda ou na prateleira da direita.

Faria bem, a este respeito, reler o texto do Luís Trindade - ali no Barnabé XL - e discutir a tese de que a nossa democracia se revê e se define muito mais pela sua oposição ao prec do que pela sua oposição ao Estado Novo. Ou seja, é muito mais o medo às massas em movimento e à procura da sua própria voz que os discursos dominantes da "nossa democracia" fazem uma barreira ideológica, do que à estrutura não completamente desarticulada que subsistiu desse Estado Novo e que continua a determinar muita da acção actual da dita democracia.

Fica-me pois a dúvida sobre a verdadeira natureza do seu DNA.

Publicado por alberto em junho 22, 2005 03:40 PM


A ditadura espanhola foi algo diferente da portuguesa, mas não em tudo diferente, Daniel. Ou só é diferente quando dá jeito? Já li aqui referências ao 'regime fascista de Franco', ao 'regime fascista de Salazar' e até ao 'regime fascista de Hitler' ou ao 'regime fascista de Mussolini'. Se são em tudo diferentes, como é que são todos fascistas?

Quanto a experiências libertárias, João, como é que classificas o peso do movimento anarquista no movimento sindical português no início do século XX, a Carbonária de Machado dos Santos, e a vida política atribulada da 1ª república?

O que nos leva de algum modo às questões levantadas por Alberto: estou de acordo que o actual regime democrático de afirmou como resposta em oposição ao PREC. No entanto, até para um não-marxista não fica mal alguma análise dialéctica, na respeitável tradição de Hegel, já para não falar do próprio São Marx. Mesmo a análise dialéctica mais simplória permite ver - tal como até Vasco Gonçalves percebeu durante o Verão Quente de 75 - que o resultado final do PREC não poderia ser nunca aquilo que 'as massas em movimento' desejavam, mas sim uma síntese entre o regime corporativista de Salazar e o regime proto-comunista do MFA de Vasco Gonçalves. Afinal a essencia do Verão Quente é a dialéctica entre a tentativa de implantação de um regime totalitário e a reacção contra essa tentativa. 'Massas em movimento' existiram dos dois lados: quer no 1º de Maio de 1975, quer umas semanas mais tarde, na manifestação da Fonte Luminosa. Umas 'massas' não têm mais legitimidade que outras, e qualquer uma delas muito menos que resultados eleitorais.

Publicado por Pedro Oliveira em junho 22, 2005 04:54 PM



Quem acha que a avó podia ter tido rodas e ser uma biciclete é quem não vê que as diferenças entre Espanha e Portugal eram ENORMES: em Portugal a Revolução aconteceu PRIMEIRO! Se tivesse sido ao contrário, com todo o passado violento da Guerra Civil e os ódios independentistas, o PREC espenhol teria, esse sim, sido trágico, não tenho qualquer dúvida.

Mas, felizmente para eles, Portugal antecipou-se, correu riscos e desbravou os caminhos. Felizmente para eles, Portugal tinham na altura uma tragédia que eles não sofreram: 13 anos de Guerra Colonial. Eles depois, tal como também a Grécia, a Turquia e, mais tarde, o Brasil, a Argentina e, pouco a pouco, todos os restantes regimes ditatoriais ainda existentes em 74, apoiados abertamente pelos E. U. A. e pela O. T. A. N., foram seguindo o exemplo de Portugal.

Nisso sim, eu tenho orgulho!

E por favor não falem mais no PREC. Pelo menos antes de se enterrar previamente a muito mais importante e grave história triste do Fascismo e de se fazer a justiça que ainda está primeiro por fazer: quanto ao assassinos e torturadores da PIDE e aos criminosos do Ultramar...

Publicado por A. Castanho em junho 22, 2005 07:04 PM


engraçada essa ausência da política, da ideologia, olha que em Weimar também havia boas conquistas sociais, o povo também melhorou de vida

Publicado por Real em junho 22, 2005 07:28 PM


Acerca do post de Daniel Oliveira, onde ele termina dizendo a propósio das conquistas de Abril:

Tivesse sido a nossa revolução uma suave transição e a sociedade portuguesa seria muito diferente. Teríamos ficado economicamente mais saudáveis, até posso conceder. Mas guardaríamos muito mais do provincianismo, atraso e rigidez social que nos dominou durante meio século. Ao contrário do que muitos pensam à direita e à esquerda, a revolução nunca foi derrotada. Foi o que tinha de ser. Antes e depois de Novembro.

Como é óbvio o exemplo de Espanha como falsificador deste caso, o Pedro Oliveira o apresentou logo num comentário. Mas João Gundersen tem toda razão ao referir um aspecto fundamental da questão: 'a Espanha teve uma guerra civil e antes uma experiência "libertária", que deixou sementes e também muitos anti-corpos, mas existiu, algo de semelhante nunca tinha existido em Portugal... '
Um aspecto que não é salientado e é importante é que as conquistas sociais e progressistas espanholas foram feitas pela 'esquerda moderada' e numa fase em que ela é basicamente criticada pela 'esquerda radical' de comungar do liberalismo da direita.
Devemos de qualquer forma passar um vistazo por uma série de outras falsificações bastante óbvias do texto de Daniel Oliveira do Barnabé. A Russia: o que acha o Daniel Oliveira que se mantém das conquistas soviéticas ali? Creio que concordará que apenas o autoritarismo, alguma forma de nacionalismo, enquanto nostalgia do império russo que também foi a URSS. Polônia: que se mantém ali dos anos comunistas de trás da cortina de ferro? Quanto provincianismo, catolicismo, etc, se mantém ali apesar do comunismo, e em boa parte por culpa do comunismo. Quantas conquistas sociais, que mereçam este nome, temos na China? Ou na Albânia? Ou na Romênia? Um pouco por todo lado por onde passou o comunismo, e um dia se incluirá nesta lista, infelizmente, Cuba.
Não se trata de travarmos ajustes de conta com a História mas de a entendermos. Hoje não existe quase nada de bom e real que se tenha alcançado com o Verão Quente que não se houvesse alcançado com uma transição mais suave. E muito de mal se ganhou com o PREC que não se haveria provavelmente ganhado sem ele.
As revoluções comunistas estavam erradas na sua essência tendo em conta o Homem que conhecemos e o seu contexto actual. Provavelmente necessitámos que as revoluções comunistas ocorressem para perceber isso na sua totalidade. Outra coisa é o que subjaz como fundo moral ao comunismo partilhado por toda esquerda. Mas a moral mesmo a melhor, pode levar a coisas terríveis, e realmente leva inúmeras vezes.
Por isso que o post do Daniel sendo inicialmente atractivo a um homem de esquerda de ler-se, com um pouco de reflexão termina sendo absolutamente enganoso.

Publicado por Rui Fernandes em junho 22, 2005 08:05 PM


A experiência espanhola foi em tudo diferente da portuguesa. A verdade é que a Espanha, com a sua evolução (e não revolução), não fez o luto do Franquismo. E o Franquismo manteve a sua influência até aos dias de hoje, como se viu na manif catolico-neo-nazi de sabado passado em Madrid. Em espanha subsistiram leis fascistas até meados dos anos 80. E existe uma importante percentagem dos dirigentes espanhois (Fraga e outros...) que ainda não digeriram o franquismo, pelo contrario, adaptaram-no à democracia. O facto de termos tido uma revolução, fez com que expurgassemos os demonios anteriores. E isso é muitissimo mais saudavel, e faz toda a diferença.

Publicado por JPT em junho 22, 2005 10:18 PM


Se isso fosse exactamante assim seria em Espanha que teríamos uma lei anti-aborto, e uma direita que a apoia. Se isso fosse assim seria em portugal que teriamos o matrimonio entre pessoas do mesmo sexo. Se isto fosse assim seria em Espanha que em um referendo acerca do aborto a maioria votaria em contra... Mas é tudo exactamente o oposto... Portugal é mais provinciano e conservador que Espanha, e vivi tempo suficiente nos dois países para o dizer. Outra coisa é que houve e há uma franja minoritária que está no extremo oposto da maior parte da sociedade espanhola que conseguiu passar mais ou menos incólume pela transição até hoje por não ter havido uma revolução. Mas preferiria para portugal suportar esta minoria e ter uma maioria progressista do que ter esta minoria diluída em uma maioria anti-progressista.

Publicado por Rui Fernandes em junho 22, 2005 10:45 PM


O provincianismo de Portugal em relação à espanha vem de muito antes disso, Rui Fernandes. Vem do facto de eles terem tido um ditador que apostou na industrialização (na altura certa), enquanto que o tacanho salazar apostava na agricultura. Espanha aceitou o plano Marshal, Portugal não, etc. Uma coisa é certa, estariamos muito pior, muito mais atrasados e mais provincianos se tivessemos tido uma evolução e não uma revolução.

Publicado por JPT em junho 22, 2005 11:52 PM


Tenho todas as dúvidas de que o plano marshal em espanha signifique outra coisa que não seja o maior tacanhismo do dirigente salazar, mas de maneira nenhuma creio que houve impacto no maior ou menor tacanhismo dos espanhóis... A industrialização talvez seja a causa da diferença mas tenho dúvidas que explique tudo. Quanto ao apoio de Franco a industrialização, houve, mas não creio que foi isso que levou realmente ao estado actual de espanha em comparação com portugal. A industrialização de espanha (e o fortalecimento do sector mineiro) começa antes de franco e está na base da guerra civil por exemplo, principalmente nos movimentos anarquistas e comunistas de madrid, país basco, catalunha, astúrias, etc. Franco tenta recuperar um dinamismo econômico que em parte já havia começado durante o século XIX e apenas havia estagnado com a guerra civil.

Publicado por Rui Fernandes em junho 23, 2005 01:09 AM


Outra coisa, a pobreza de Portugal está intimamente ligada com a sua tacanhice, a destruição de parte do tecido empresarial e industrial no Verao Quente está intimamente ligada com essa tacanhice. Outra vez volto ao mesmo, não houve nada de saudável no Verao quente depois de abril para além do gozo individual daqueles que nele participaram, houve isso sim muito de doentio que se repercutiu nos anos seguintes e ainda hoje.

Publicado por Rui Fernandes em junho 23, 2005 01:15 AM


Uma ultima coisa o comunismo em portugal lutou apenas de forma parcial por uma superaçao da tacanhice e mais bem o que lhe interessava como é óbvio era tão somente a luta de classes. Ainda me lembro de "ver" Carvalhas a gaguejar a falar dos direitos dos homossexuais... A luta de classes (na forma ingênua e estalinista com que foi travada) é também uma das grandes responsáveis por grande parte das bobeiras econômicas com que portugal se andou entretendo durante os anos 80 e 90 afundando-se economicamente até o ponto em que está. A estigmatização de alternativas liberais durante o verao quente e os anos seguintes esta longe de ter ajudado a qualquer renovaçao de valores em portugal... assim está por contar ate que ponto fora a questao da mulher (aborto e dibvorcio) o pcp significou um avanço em relaçao a mentalidade do portugal salazarista. Em muitas coisas (falo de ideias) eram muito parecidos e os dois 'comeram' dos agricultores e pescadores deste país.

Publicado por Rui Fernandes em junho 23, 2005 01:25 AM


Para Pedro de Oliveira:

Já que citou o meu post, gostaria de lhe fazer notar que não encontro nele quaisquer razões que justifiquem o seu argumento sobre as tais "massas em movimento". Tive o cuidado de precisar que os discursos dominantes sobre o prec enfermam da análise em politiquês, esquecendo que há mais matéria de análise para lá da conveniente novela do duelo entre Soares e Cunhal. O que disse (ou quis dizer) foi que esse foi um momento único para a constituição de um movimento que armasse criticamente as tais massas para que estas viessem de facto a tornar-se no DNA da nossa democracia. E as condições criadas nos pós-25 tiveram ingredientes produtivos que a análise historiográfica ainda não tratou. Digamos que nos faltam ainda alguns Fernão Lopes para tratar com o devido rigor o sujeito colectivo que ali esteve e que não encontrou voz nem vez. Ficou alguma memória que não teve a oportunidade de se transformar em consciência. É claro que oito meses não foram suficientes para compensar os 60 anos de obscurantismo. O resultado é que a base social da nossa democracia continua agora quase tão manejável como antes. Basta lembrar o triste episódio das bandeiras no decurso do Euro. Por isso, continuo a sustentar que muito da estrutura em que se apoiava o estado novo continua inscrita no DNA da nossa democracia. Só isso.

Publicado por alberto em junho 23, 2005 05:15 PM


Alberto, para começar, não sou 'Pedro de Oliveira', mas sim Pedro Oliveira, e até Pedro chega. Sou de direita, mas sou um homem simples.

É de qualquer modo simplista resumir o PREC a uma simples luta entre forças personificadas em Soares e Cunhal. De resto, Cunhal, através do seu testa de ferro 'Companheiro Vasco' - um epíteto digno de um verdadeiro compagnon de route - esteve de algum modo no poder durante um período significativo de 1975, pelo menos entre Março e Setembro e no decurso desses meses, serviu, obviamente como força moderadora. Temos que nos lembrar como, durante o Verão Quente a dinâmica de alianças entre a diversas forças no terreno foi evoluindo: Grupo dos 9 - PPD - PS - MRPP por um lado; Coordenadora do MFA - PCP - UDP - Copcon do outro.

As 'massas' limitaram-se a aproveitar a boleia destes grupos, que partilhavam no essencial uma estrutura semelhante: núcleo militar, núcleo político e núcleo militante.

De qualquer forma, numa democracia representativa - e não existem democracias que não sejam representativas - a base da legitimidade política não são os 'movimentos de massas' por muito vistosos, mediáticos ou espectaculares que sejam. A base para a legitimidade política são as eleições, e é bom não nos esquecermos disso.

Publicado por Pedro Oliveira em junho 24, 2005 01:34 PM


Pedro Oliveira, nome corrigido stop, andar pela esquerda ou pela direita é tudo circulação stop, quando vou ao café e peço uma bica não espero que me tragam um chá de limão (e em posts quando uso um argumento não espero que me respondam com outro)stop, Farinha Amparo dá brindes mas à democracia representativa falta o brinde da participativa stop, o povão (do mais fino ao mais grosso) é que é o sal da democracia stop, cumprimentos stop.

Publicado por alberto em junho 24, 2005 07:09 PM


Nota: DNA é a designação em Inglês. Em Português é ADN.

Publicado por Vlad Tepes IV em junho 25, 2005 03:31 PM

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